Petrus Helops ~ A Alma Acorrentada por PankaFantasy em Inkitt
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Petrus Helops ~ A alma acorrentada

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Resumo

Em um mundo de alta fantasia, onde aventureiros desafiam dragões e exploram ruínas antigas, Petrus vive longe da glória do continente. Cresceu caçando e continua a caçar criaturas marinhas e enfrenta os horrores ocultos nas profundezas do oceano. Enquanto busca respostas sobre seus misteriosos poderes e seu passado, Petrus parte em uma jornada para encontrar a cura de alguém que ama. Mas, à medida que se aproxima da verdade, descobre que alguns segredos jamais deveriam emergir das profundezas.

Status
Em Andamento
Capítulos
1
Classificação
n/a
Classificação Etária
16+

Capítulo 1

A chuva da noite anterior ainda permanecia sobre o convés. Pequenas poças d’água acumulavam-se entre as tábuas escuras do Vidente, refletindo um céu pesado e cinzento que parecia estender-se até o fim do mundo.

Petrus Helops estava sentado sozinho próximo à proa.

Um dos joelhos apoiava uma pilha de pergaminhos envelhecidos. O outro permanecia dobrado contra o peito.

O vento agitava os papéis constantemente, obrigando-o a segurá-los com uma das mãos enquanto lia, a maioria daqueles pergaminhos e vestígios de documentos havia sido encontrada três dias antes.

Uma pequena ilha ao norte das rotas comerciais.

Pouco mais que um amontoado de pedras cercado por neblina e ruínas esquecidas, os mapas antigos indicavam que, séculos atrás, clérigos e estudiosos haviam vivido ali.

Quando Petrus ouvira os rumores, permitiu-se alimentar uma esperança que já aprendera a odiar.

Talvez encontrasse alguma referência.

Alguma pista, alguma menção... qualquer coisa.

Mas, como quase sempre acontecia, voltava de mãos vazias.

Seu olhar percorreu novamente as linhas escritas em uma língua antiga.

Reconhecia algumas palavras.

Poucas.

Fragmentos dispersos.

“Espírito.” “Corrupção.” “Alma.” “Ritual.”

Nada que realmente importasse.

Nada que explicasse oque de fato ele queria.

Nada que explicasse por que sua vida parecia presa a perguntas sem resposta.

Com um suspiro cansado, enrolou um dos pergaminhos e guardou-o dentro da bolsa de couro presa ao cinto, as cicatrizes em seu rosto tornavam sua expressão naturalmente severa.

Uma delas atravessava a sobrancelha esquerda e desaparecia entre os cabelos negros. Outra marcava a linha da mandíbula, lembrança de alguma criatura cujo nome ele já não fazia questão de recordar. Havia outras menores, espalhadas pelo rosto e pelas mãos, pequenas assinaturas deixadas pelos anos no mar.

Mas quem o conhecia sabia que não era raiva.

Era exaustão.

Petrus tinha vinte e oito anos, embora às vezes parecesse mais velho. O sol, o sal e o vento desgastavam um homem mais rápido do que o tempo. Seus cabelos negros caíam de forma desordenada sobre a testa, longos o suficiente para tocar os olhos quando o vento soprava na direção errada. A barba curta e mal aparada cobria parte do rosto, sem jamais esconder completamente as cicatrizes.

Os olhos eram o que mais chamavam atenção.

Cinzentos.

Não um cinza comum, mas o mesmo tom das manhãs cobertas por neblina no oceano. Frios à primeira vista. Distantes. Como se estivessem sempre observando algo além do que se encontrava diante deles.

As olheiras abaixo deles denunciavam noites mal dormidas e anos carregando preocupações que nunca encontraram resposta.

Seu corpo não possuía a imponência exagerada dos cavaleiros das histórias ou dos guerreiros que posavam para esculturas em praças de cidades nobres. Era alto, largo nos ombros e marcado por músculos construídos pelo trabalho, não pelo treinamento.

Próxima ao banco onde estava sentado repousava sua arma.

Uma corrente de aço escurecido, grossa e pesada. Em uma das extremidades havia uma ponta semelhante à de um arpão em forma de tridente. Mesmo imóvel, a arma parecia perigosa.

Petrus observou o oceano por alguns instantes... estendia-se em todas as direções.

Escuro.

Infinito.

As águas pareciam quase negras sob aquele céu carregado.

Ondas longas faziam o Vidente subir e descer lentamente, como se a embarcação respirasse junto com o mar. Ao redor dele, a rotina da tripulação seguia normalmente.

Marinheiros trabalhavam nas velas.

Cordas eram revisadas.

Arpões recebiam manutenção.

Barris eram amarrados novamente para enfrentar a tempestade que se formava no horizonte.

A maioria dos homens a bordo pertencia à Irmandade das Profundezas.

Uma profissão que poucos em terra compreendiam.

Mercadores viam apenas os lucros.

Nobres viam apenas os tributos.

Aventureiros viam apenas histórias.

Mas Petrus conhecia a verdade.

Caçar monstros marinhos era um trabalho.

Perigoso.

Sujo.

Frequentemente mortal.

As criaturas das profundezas forneciam carne, óleo, couro, ossos, venenos e materiais utilizados por alquimistas, magos, curandeiros e artesãos.

Uma única criatura de grande porte podia render riqueza suficiente para sustentar dezenas de famílias.

Também tornava as rotas comerciais mais seguras.

Menos monstros significavam menos navios desaparecendo.

Menos viúvas.

Menos funerais.

Ao menos era o que diziam.

Petrus nunca teve certeza se acreditava nisso.

— Ainda procurando respostas? — perguntou Lonkis.

A voz surgiu atrás dele.

Familiar.

Petrus não precisou se virar. — Sim.

Lonkis aproximou-se devagar.

O capitão carregava uma caneca de metal em uma das mãos.

A barba grisalha balançava ao vento.

Ele observou os pergaminhos espalhados. — Encontrou alguma coisa?

— Não.

— Nada?

— Nada útil. — Petrus reponde com a voz cansada, enquanto guarda as correntes do arpão nas costas.

Lonkis soltou um grunhido, como alguém que já esperava aquela resposta.

Durante cinco anos assistira Petrus repetir aquele mesmo ritual.

Ruínas.

Bibliotecas.

Templos.

Ilhas esquecidas.

Sempre procurando.

Sempre voltando sem respostas.

O capitão apoiou os braços na amurada. — Pelo menos a viagem não foi completamente perdida.

— Encontraram alguma coisa?

— Pouco. — Respondeu o capitão enquanto coçava a barba. — Algumas carcaças menores. Óleo suficiente para cobrir os custos. Mas nada que vá deixar a tripulação rica, talvez se você estivesse conosco caçando ao invés de ter ido naquela pequena ilha, teríamos encontrado algo a mais.

Petrus assentiu. — Você sabe que eu venho não com a intenção de caçar.

— Eu sei...

Isso significava que a expedição rendera menos do que o esperado.

Nada incomum.

Os mares estavam estranhos nos últimos meses.

Até mesmo os monstros pareciam mais difíceis de encontrar.

Por alguns segundos permaneceram em silêncio.

Observando o oceano.

Então Lonkis apontou para o horizonte. — Tempestade.

Petrus já a tinha visto.

Uma muralha cinzenta surgindo ao longe.

Nuvens densas.

Pesadas.

Antigas.

— Vamos atravessar? — Perguntou Petrus.

— Não temos escolha.

O porto ainda está longe demais, o capitão tomou um gole de sua bebida.

Depois voltou os olhos para o mar. — Se tivermos sorte, será apenas chuva.

Os dois sabiam que o mar raramente se importava com sorte.

Acima deles, quase invisível entre as cordas do mastro principal, uma figura permanecia imóvel.

Aeron não se movia.

Lá do alto, sentado na pequena plataforma presa ao mastro principal, parecia mais uma parte da embarcação do que um homem de verdade. O vento agitava seus cabelos grisalhos de elfo, as tiras de tecido amarradas aos braços, mas fora isso permanecia completamente imóvel. Alguns marinheiros evitavam encará-lo por muito tempo. Outros juravam que ele passava horas sem sequer respirar.

Petrus nunca acreditara nesses exageros.

Ainda assim, admitia que havia algo estranho em homens como Aeron.

Toda embarcação da Irmandade das Profundezas levava alguém semelhante. Em portos diferentes recebiam nomes diferentes. Escutadores. Vigias do mar. Entre os caçadores, porém, a maioria preferia chamá-los apenas de Guias.

Poucos sabiam exatamente o que faziam.

Menos ainda faziam perguntas.

Era uma daquelas tradições antigas que sobreviveram ao tempo. Ninguém entendia completamente sua origem, mas todos sabiam que uma embarcação séria jamais navegava sem um Guia observando o oceano.

Petrus desviou o olhar.

O convés havia retornado à rotina depois da conversa com Lonkis. Marinheiros trabalhavam nas velas, outros revisavam cordas e correntes, enquanto os responsáveis pelos arpões verificavam mecanismos, travas e cabos de contenção. Próximo à popa, dois anões discutiam sobre a qualidade de um lote recente de aço trazido das montanhas do norte. Mais adiante, um meio-orc afiava lentamente o fio de um machado enquanto assobiava uma canção antiga em uma língua que poucos ali compreendiam.

A vida seguia.

Sempre seguia.

Mesmo quando o oceano parecia disposto a engolir todos eles.

Petrus guardou o último pergaminho dentro da bolsa de couro presa ao cinto e observou por alguns instantes o horizonte. Mais uma viagem. Mais uma pista inútil. Mais uma esperança que terminava sem respostas.

A frustração já não o irritava.

Era apenas parte dele.

Assim como as cicatrizes.

Assim como as noites mal dormidas.

Assim como o peso constante de pensamentos que jamais o abandonavam.

Um grupo de marinheiros passou próximo carregando barris vazios.

— Ouvi dizer que vão abrir uma nova rota para o sul — comentou um deles.

— Se for a mesma rota que estou pensando, não volto nem que me paguem o triplo.

— Dizem que pagam o dobro.

— Também dizem que metade dos navios não retorna.

Os outros riram.

Petrus observou-os por um breve instante antes de voltar sua atenção ao mar.

Homens comuns.

Alguns tinham família esperando em casa. Outros apenas dívidas. Alguns navegavam pela promessa de riqueza. Outros porque não sabiam fazer mais nada além daquilo.

Às vezes ele invejava a simplicidade desses objetivos.

O vento soprou mais forte.

Desta vez trazendo consigo um cheiro diferente.

Chuva.

Petrus ergueu os olhos.

As nuvens haviam crescido consideravelmente desde a manhã. O que antes parecia apenas uma mancha escura no horizonte agora assumia a forma de uma muralha cinzenta avançando lentamente sobre o oceano. Mesmo a luz do dia parecia mais fraca.

Ao longe, Lonkis conversava com os navegadores próximos ao leme. O capitão apontava direções, analisava mapas e observava o comportamento das correntes. A expressão em seu rosto deixava claro que já calculava a melhor forma de atravessar a tempestade que se aproximava.

Próximo à cozinha, onde o cheiro de peixe salgado misturava-se ao de gordura quente e madeira úmida, três tripulantes aproveitavam alguns minutos de descanso antes de retomarem suas funções.

O primeiro era um meio-elfo de cabelos castanhos presos em uma trança curta. Estava sentado sobre um barril vazio, afiando lentamente uma faca de caça. O segundo era um humano robusto, de barba avermelhada e nariz torto, provavelmente quebrado mais de uma vez ao longo da vida. O terceiro era um halfling que trabalhava na cozinha da embarcação, usando um avental manchado de farinha e gordura.

— Estou dizendo que vi — insistiu o humano. — Duas delas. Juraria pela barba do meu pai.

O halfling soltou uma gargalhada.

— Você também jurou ter visto uma princesa élfica tomando banho numa praia de contrabandistas.

— E vi.

— Claro que viu.

— Não viu nada — respondeu o meio-elfo sem erguer os olhos da faca. — Aquilo era uma prostituta de Porto Escuro.

O halfling quase engasgou de tanto rir. — Está vendo? Nem as histórias mentirosas dele são originais.

O humano lançou um olhar ofendido aos dois. — Vocês são um bando de amargurados.

— Não. Só estamos cansados de ouvir suas mentiras.

O homem abriu a boca para responder, mas desistiu.

Cruzou os braços. — Pois podem rir. Ouvi boatos no último porto. Dizem que três embarcações desapareceram próximo dessas águas.

O meio-elfo continuou afiando a lâmina. — Em todo porto existem três embarcações desaparecidas.

— Estou falando sério.

— E eu também.

O halfling apoiou-se na borda de um barril. — O que disseram?

O humano aproximou-se um pouco. — Sereias.

O cozinheiro imediatamente fez uma careta.

— Ah, ótimo. Agora começou.

— Estou falando sério.

— Todo mundo que fala de sereias está falando sério.

— Desta vez é diferente.

O meio-elfo finalmente ergueu os olhos. — Diferente como?

— Corpos encontrados na costa.

O halfling perdeu parte do sorriso. — Corpos?

— Sim.

— Afogados?

— Não.

O humano coçou a barba. — Rasgados.

Por alguns segundos ninguém falou.

O vento soprou sobre o convés.

Ao longe ouviu-se o ranger das velas.

— Talvez fossem harpias do mar — sugeriu o meio-elfo.

— Ou piratas.

— Ou monstros comuns.

— Ou homens bêbados inventando histórias.

O halfling suspirou. — Espero que sejam homens bêbados inventando histórias.

— Por quê?

— Porque monstros normais pelo menos tentam te matar de frente.

O meio-elfo soltou uma risada curta. — Isso vindo de alguém com uma faca de cozinha.

— A faca é para cozinhar.

— Claro.

— E para esfaquear marinheiros irritantes quando necessário.

Os três riram.

Uma risada breve.

Cansada.

Daquelas que surgem mais por hábito do que por felicidade.

A verdade era que todos estavam exaustos.

Meses no mar tinham esse efeito.

A comida piorava.

O sono diminuía.

O corpo doía constantemente.

E o oceano parecia sempre igual, não importava quantos dias passassem.

O halfling foi o primeiro a levantar. — Se encontrarem uma sereia, chamem outra pessoa. Eu já tenho problemas suficientes alimentando vocês.

— Covarde.

— Vivo.

— Mesma coisa.

O cozinheiro mostrou o dedo do meio antes de voltar para a cozinha.

O meio-elfo balançou a cabeça.

— Sereias. — Petrus apoiou os braços na amurada, tendo péssimas lembranças da ultima vez que viu uma.

As ondas continuavam relativamente calmas.

Mas havia algo estranho.

Primeiro foi apenas uma sensação.

Pequena.

Difícil de explicar.

Seu olhar acompanhou o movimento da água ao redor do casco. As correntes pareciam se comportar de maneira diferente, como se várias direções distintas estivessem se chocando sob a superfície.

Talvez fosse apenas o clima mudando.

Talvez.

Mesmo assim continuou observando.

O vento mudou de direção por alguns segundos antes de voltar ao normal. Pequenas ondulações começaram a surgir onde não deveriam existir.

Petrus franziu uma sobrancelha.

Aquilo o incomodava.

Não porque compreendesse exatamente o que estava acontecendo.

Mas porque já passara anos demais no mar para ignorar certos instintos.

Acima dele, Aeron continuava sentado.

Imóvel.

Mas algo havia mudado.

Os dedos do velho, antes relaxados sobre os joelhos, agora permaneciam levemente tensionados.

Petrus percebeu.

Poucos outros perceberiam.

O Guia abriu os olhos.

Foi um movimento simples.

Discreto, quase insignificante.

Mas chamou imediatamente sua atenção.

Durante toda a viagem Aeron permanecera de olhos fechados. Às vezes por horas. Às vezes por dias inteiros, interrompendo aquele estado apenas para comer ou descansar.

Agora ele observava o horizonte.

Sem piscar.

Sem se mover.

Sem dizer uma única palavra.

O oceano pareceu escurecer.

Uma nova rajada de vento atravessou o convés, mais forte do que as anteriores. Alguns marinheiros interromperam seus trabalhos para olhar ao redor. Outros simplesmente continuaram suas tarefas, acreditando que a mudança vinha apenas da tempestade.

Petrus sabia que não era só isso.

A sensação retornou.

Mais forte.

Muito mais forte.

Era como uma vibração distante percorrendo as correntes sob a embarcação.

Algo grande.

Extremamente grande.

Movendo-se nas profundezas.

Seu corpo enrijeceu.

Instintivamente.

Um dos arpoeiros percebeu.

— Algum problema? — perguntou.

Petrus demorou alguns segundos para responder.

Continuou observando a superfície.

Sentindo.

Escutando.

— Talvez. — Respondeu Petrus enquanto sentia a água falar com ele, não sabia ao certo, mas algo estava vindo.

Lá em cima, Aeron finalmente levantou-se.

O movimento chamou atenção de vários marinheiros próximos. Conversas cessaram. Ferramentas foram abaixadas. Até mesmo Lonkis interrompeu o que fazia para erguer os olhos em direção ao mastro principal.

O druida elfo permaneceu imóvel por alguns segundos.

Observando.

Escutando.

Então sua voz explodiu sobre o navio. — CONTATO! — O grito atravessou o convés inteiro.

Instantaneamente.

Todos congelaram.

Aeron apontou para o oceano. — Movimento abaixo de nós!

O tom de sua voz era diferente.

Urgente.

Tenso.

Alguns homens correram imediatamente para os arpões.

Outros abandonaram o que estavam fazendo para assumir posições de combate. Magos começaram a recolher livros e instrumentos. Clérigos prenderam símbolos sagrados ao peito. As conversas desapareceram.

Lonkis sacou a espada. — Todos aos seus postos! — A ordem do capitão ecoou pelo Vidente.

O navio inteiro entrou em movimento.

Mas Petrus continuava olhando para o mar.

Porque agora sentia perfeitamente, algo enorme avançava sob as profundezas.

Rápido.

Muito rápido.

E vinha diretamente na direção deles.

A superfície da água começou a se deformar. Primeiro de maneira sutil. Depois com violência crescente, formando ondulações que não acompanhavam o ritmo natural das ondas.

O oceano parecia estar respirando.

Preparando-se.

Então o casco inteiro estremeceu.

O Vidente inclinou-se violentamente para bombordo.

A sensação percorreu toda a embarcação como uma onda invisível atravessando suas entranhas. Barris deslizaram alguns centímetros sobre as tábuas molhadas, chocando-se contra caixas e amarras. Próximo à cozinha, um tonel soltou-se parcialmente de suas correntes antes de ser detido por dois marinheiros que se lançaram sobre ele. Cordas oscilaram acima das cabeças da tripulação. As velas estalaram sob uma rajada repentina. Durante um breve instante, o único som foi o rangido profundo da madeira lutando contra uma força que vinha das profundezas.

Então a rotina desapareceu.

— Posições! — rugiu Lonkis, avançando pelo convés enquanto a chuva começava a engrossar. — Quero os arpões preparados! Balistas prontas para disparo! Magos e Atiradores ao centro! Ninguém entra em pânico por causa de uma sombra na água!

A voz do capitão atravessou a embarcação como uma chicotada.

Os homens correram imediatamente para seus postos. Arpoeiros assumiram as plataformas laterais. Marinheiros destravaram os mecanismos das balistas. Dois anões veteranos verificaram as correntes dos grandes arpões utilizados para monstros de grande porte. Próximo à proa, uma equipe já posicionava os pequenos canhões de ferro fundido que o Vidente carregava para situações extremas. Não eram armas capazes de derrubar criaturas daquela magnitude, mas podiam arrancar carne suficiente para enfraquecê-las.

— Carreguem os canhões! — ordenou Lonkis. — Quero munição perfurante! E amarrem qualquer coisa que não esteja presa. Se aquilo decidir nos atingir, não quero metade do navio voando pelo convés.

A tensão espalhava-se entre os homens como um incêndio silencioso.

Petrus permaneceu junto à amurada.

Os olhos fixos nas águas escuras.

Sentindo.

Algo avançava.

Não era apenas uma criatura.

Era presença.

Massa.

Pressão.

As correntes ao redor da embarcação moviam-se de maneira errada. Como se uma montanha inteira estivesse atravessando as profundezas em direção ao navio. A sensação espalhava-se pela água e chegava até ele como uma vibração constante.

Acima deles, Aeron permanecia imóvel sobre a plataforma do mastro principal.

Não falava.

Não gesticulava.

Não dava ordens.

Apenas observava.

Quem navegava havia tempo suficiente aprendia a respeitar aquilo. Ninguém sabia exatamente como funcionavam os Guias. Alguns diziam que conversavam com espíritos do mar. Outros acreditavam que eram druidas capazes de ouvir correntes invisíveis muito abaixo da superfície. Havia até quem jurasse que certas criaturas abissais deixavam marcas permanentes na alma daqueles que sobreviviam a encontros com elas.

Pouco importava.

Quando um Guia ficava daquele jeito, os veteranos aprendiam a escutar o silêncio.

A chuva tornou-se mais forte.

O horizonte desapareceu atrás de uma cortina cinzenta.

Por alguns minutos nada aconteceu.

E aquilo foi quase pior.

Os homens observavam a água.

A água observava os homens.

Até que alguém apontou. — Ali!

Diversos rostos se viraram ao mesmo tempo.

Uma sombra atravessava as profundezas abaixo da embarcação.

Longa, escura e imensa.

Ela permaneceu visível por apenas alguns segundos antes de desaparecer novamente.

Mas bastou.

O suficiente para que vários marinheiros perdessem a cor do rosto.

— Pelos deuses...

— Vocês viram o tamanho daquilo?

— Eu vi.

— Aquilo não era uma criatura comum.

— Cala a boca e mantém os olhos abertos.

O navio voltou a estremecer, desta vez com mais violência.

Uma onda chocou-se contra o casco.

Depois outra.

Depois uma terceira.

Como se algo estivesse circulando a embarcação.

Estudando-a.

Lonkis caminhou até a amurada.

O olhar firme.

A mão apoiada sobre o punho da espada. — GUIA! — Gritou o capitão. — Consegue distinguir qual criatura é?

O druida observava o mar, recitando círculos mágicos incompreensíveis. — Não... só sei que eu nunca senti algo assim antes, estou tentando distinguir o espirito da criatura, é antigo... grande... está curiosa...

— Movimento abaixo da superfície, capitão. — Um arpoeiro pálido de medo disse.

— Distância? — Lonkis bufando perguntou.

— Difícil dizer.

— Tamanho?

O marinheiro hesitou.

Engoliu seco. — Grande demais.

Alguns veteranos trocaram olhares, ninguém gostava daquela resposta.

Porque geralmente significava problemas dos grandes.

Petrus fechou os olhos por um instante.

Sentiu a água as correntes e as vibrações.

E então sentiu aquilo.

Muito próximo, próximo demais.

Os olhos cinzentos abriram-se imediatamente.

— Está vindo. — Disse Petrus pegando seu arpão.

Lonkis virou-se para ele. — Tem certeza?

Petrus assentiu. — Sim.

O capitão não fez mais perguntas.

— Preparar combate! — rugiu. — Todos os postos! Quero os magos prontos para disparo! Clérigos preparados para atendimento imediato! Arpoeiros, aguardem minha ordem!

Aeron sentiu calafrios, não pela tempestade, mas pela presença da criatura.

Lá do alto, seu corpo enrijeceu, e então gritou antes de desmaiar pela pressão da presença da criatura — ABAIXO!

O oceano explodiu e uma muralha de água ergueu-se ao lado do Vidente.

O impacto lançou espuma sobre todo o convés. Diversos homens foram derrubados. Cordas estalaram. Barris soltaram-se. O navio inteiro gemeu.

Então a criatura surgiu.

Uma cabeça colossal rompeu a superfície.

Escamas negras cobertas por cicatrizes antigas refletiam a luz cinzenta da tempestade. Fileiras de dentes longos surgiam por trás de lábios deformados.

Os olhos amarelos observavam a embarcação com uma inteligência cruel que imediatamente fez o estômago de vários homens afundar.

O rugido atravessou o mar.

Profundo.

Antigo.

Monstruoso.

Mas antes que alguém pudesse reagir, uma segunda cabeça surgiu do outro lado do navio.

Outro pescoço gigantesco.

Outro rugido.

Outra boca repleta de presas.

— Serpentes!

— Duas delas!

— Disparar!

Os arpões partiram imediatamente.

Cabos grossos cortaram o ar.

Um atingiu a primeira criatura próximo à mandíbula.

Outro cravou-se no pescoço da segunda.

Os monstros rugiram.

Mas não recuaram.

A primeira cabeça avançou numa velocidade absurda, muito maior do que algo daquele tamanho deveria ser capaz de alcançar. As mandíbulas abriram-se enquanto a criatura cortava a chuva em direção ao convés.

Um marinheiro sequer teve tempo de gritar. As presas fecharam-se ao redor de seu corpo com um estalo seco e brutal, seguido pelo som repugnante de ossos sendo esmagados. Sangue espalhou-se pela tempestade em uma névoa avermelhada que desapareceu quase imediatamente entre a chuva. A criatura ergueu o pescoço colossal, engoliu a vítima de uma só vez e voltou a avançar.

Foi naquele instante que o caos organizado finalmente tomou conta da embarcação. Canhões dispararam em meio a explosões de fumaça e pólvora. Balistas lançaram novos arpões ligados por correntes grossas. Pistolas rugiram por toda parte enquanto magias cruzavam o ar acima do convés; lanças de fogo cortavam a escuridão, setas encantadas deixavam rastros azulados e rajadas de vento chocavam-se contra as escamas do monstro, arrancando fragmentos de carne e espalhando água por todos os lados.

Um clérigo ajoelhou-se ao lado de um homem ferido enquanto uma luz dourada envolvia suas mãos. Outro tentava conter uma hemorragia próxima ao mastro principal.

A segunda serpente chocou-se contra a lateral do navio.

O impacto foi tanto que parte da amurada explodiu em lascas, dois homens foram arremessados diretamente ao mar.

Um desapareceu imediatamente.

O outro tentou nadar.

Não conseguiu.

Uma sombra surgiu abaixo dele.

Depois apenas espuma vermelha.

— Mantenham a formação! — gritou Lonkis. — Não deixem elas alcançarem os magos! Canhão de estibordo, fogo!

O disparo ecoou como um trovão.

A bala de ferro atingiu a lateral do pescoço da criatura, arrancando escamas e carne numa explosão sangrenta.

Ela rugiu.

Mas continuou avançando.

Petrus moveu-se.

A névoa surgiu ao redor de seus braços.

Fina.

Quase invisível.

Misturando-se à chuva.

A primeira cabeça mergulhou novamente e reapareceu próxima ao mastro principal, avançando diretamente contra um grupo de arpoeiros.

Petrus correu, a água acumulada sobre o convés impulsionou seus movimentos, as gotas de chuva obedeciam a vontade do Caçador.

Por um instante sua silhueta tornou-se apenas um borrão entre chuva e névoa.

A corrente disparou.

O arpão girou pelo ar.

As farpas cravaram-se profundamente abaixo da mandíbula da criatura.

O rugido sacudiu a embarcação.

Petrus puxou.

Com força.

Muita força.

A corrente esticou-se completamente.

Os músculos dos braços saltaram sob o casaco encharcado e durante um segundo impossível, homem e monstro permaneceram presos naquela disputa.

Então a cabeça foi violentamente desviada.

A criatura chocou-se contra a lateral do próprio navio.

Madeira explodiu.

Tábuas voaram.

O impacto sacudiu toda a embarcação.

Até alguns marinheiros próximos ficaram imóveis por um instante ao perceberem que Petrus acabara de arrastar uma criatura daquele tamanho para fora de sua trajetória.

— Pelo abismo...

— Ele a puxou...

— Continuem lutando! — rugiu Lonkis.

Próximo ao mastro principal, um dos magos finalmente concluiu seu encantamento.

O ar ao redor dele começou a congelar, cristais espalharam-se pelas cordas.

Pela madeira.

Pelas armas.

A temperatura despencou.

O tiefling ergueu ambas as mãos.

E disparou.

Uma lança colossal de gelo atravessou a tempestade, o projétil atingiu a base do pescoço da criatura.

O impacto foi devastador.

A explosão espalhou fragmentos congelados por todos os lados, então a cabeça separou-se do corpo.

Completamente.

A monstruosa cabeça caiu nas águas revoltas, afundando entre espuma e sangue.

O convés explodiu em comemoração.

Gritos de vitória ergueram-se acima da tempestade. Alguns marinheiros bateram armas contra a madeira. Outros apontaram para a água onde a cabeça colossal afundava lentamente entre espuma e sangue. Depois de minutos lutando contra aquela criatura, a visão do monstro derrotado parecia quase inacreditável.

— Conseguimos!

— Ela caiu!

— Derrubamos uma!

Até mesmo os homens mais experientes permitiram-se respirar. Um dos clérigos sorriu enquanto ajudava um marinheiro ferido a se levantar. Próximo às balistas, alguém soltou uma gargalhada nervosa, daquelas que surgem apenas quando a morte passa perto demais e decide seguir adiante.

Por alguns instantes, a esperança retornou ao Vidente.

Mas Petrus não comemorou.

Seu olhar permaneceu fixo sobre o pescoço decepado da criatura.

Algo estava errado.

Muito errado.

Em meio à chuva e ao sangue que escorria pelas escamas negras, ele viu a carne se mover.

Primeiro foi apenas uma contração.

Depois outra.

Como um músculo reagindo após a morte.

Seu coração afundou.

A massa de carne pulsava diante de seus olhos. Fibras expostas contorciam-se umas sobre as outras. Ossos estalavam sob a pele rasgada. O que deveria ser uma ferida fatal começava a se transformar em algo diferente.

Ao redor dele, os gritos de comemoração diminuíram pouco a pouco.

Alguns homens também haviam percebido.

A carne crescia.

Multiplicava-se.

Reconstruía-se.

O silêncio espalhou-se pelo convés de maneira quase palpável.

Ninguém parecia disposto a acreditar no que estava vendo.

Então a ferida abriu-se.

Um rasgo profundo percorreu o pescoço mutilado. Ossos novos surgiram entre sangue e tendões. A estrutura deformou-se, dividindo-se em duas. Como uma árvore monstruosa criando novos galhos, duas formas começaram a emergir do local onde antes existia apenas uma cabeça.

Primeiro vieram os olhos.

Olhos amarelos.

Famintos.

Depois as presas.

Fileiras inteiras de dentes surgindo entre carne recém-formada.

Por fim vieram os rugidos.

Dois.

Ao mesmo tempo.

O som atravessou a tempestade como um golpe físico.

Alguns marinheiros recuaram instintivamente. Outros simplesmente ficaram imóveis, incapazes de compreender o horror que testemunhavam.

— Não são serpentes... — murmurou Petrus.

As quatro cabeças observavam o navio através da chuva.

Então, atrás da embarcação, as águas explodiram novamente.

Duas novas colunas de espuma ergueram-se das profundezas.

Outras duas cabeças romperam a superfície.

Gigantescas.

Vivas.

Observando.

Seis pares de olhos amarelos encararam o Vidente através da tempestade.

Seis rugidos ecoaram sobre o oceano.

Aeron fechou os olhos por um breve instante, como alguém que acabava de compreender o tamanho do desastre que tinham diante de si.

Quando voltou a falar, sua voz carregava um peso que fez o sangue dos marinheiros gelar.

— É UMA HIDRA! — Gritou Lonkis.

Naquele momento, todos os homens a bordo compreenderam a mesma coisa.

A criatura que haviam enfrentado até agora era apenas o começo, o primeiro a se mover foi Lonkis. Talvez porque capitães não tivessem o luxo do medo.

Talvez porque, se ele hesitasse, todos os outros hesitariam junto.

O veterano arrancou a pistola do cinturão e apontou para uma das cabeças recém-formadas.

— Parem de olhar e lutem, seus malditos! Arpões em posição! Magos, quero fogo contínuo! Clérigos, mantenham os feridos vivos! Se ela afundar este navio, todos nós vamos alimentar os peixes!

A explosão da pistola ecoou sobre a tempestade.

A bala atingiu uma das pálpebras da hidra.

Não causou dano significativo.

Mas foi suficiente.

Os homens despertaram.

O convés voltou à vida.

Ou à luta pela sobrevivência.

Os canhões dispararam quase simultaneamente.

O estampido fez o navio inteiro estremecer.

Uma das balas de ferro atingiu o pescoço de uma das cabeças menores, arrancando escamas e espalhando sangue negro pelas ondas. A criatura rugiu tão alto que alguns marinheiros levaram as mãos aos ouvidos.

Outra cabeça investiu imediatamente.

Seu alvo era o mastro principal.

A mandíbula abriu-se e seu ataque partiu um dos três mastros ao meio, as velas se entrelaçaram entre a luta mortal que acontecia, corpos despedaçados e gritos de desespero começavam a diminuir a coragem de alguns tripulantes.

— Ela vai derrubar outro mastro! — gritou alguém.

— Então matem ela antes! — respondeu Lonkis.

Outra cabeça surgiu pela lateral.

Um arpoeiro tentou recuar.

Tarde demais.

As mandíbulas fecharam-se sobre suas pernas.

O homem gritou.

Por um segundo.

A hidra puxou.

Seu corpo desapareceu por cima da amurada.

O grito terminou abruptamente.

Apenas o sangue permaneceu.

Petrus já estava correndo, a névoa envolvia seu corpo como um manto vivo.

Água acumulava-se sob seus pés e impulsionava seus movimentos. Cada passo parecia desafiar o próprio equilíbrio da embarcação.

Uma das cabeças avançou contra um grupo de magos.

Ele interceptou.

A corrente disparou.

O arpão atravessou uma das narinas da criatura.

As farpas prenderam-se na carne.

Petrus girou o corpo.

Puxou.

Toda a força de anos enfrentando monstros foi despejada naquele único movimento.

A cabeça desviou violentamente.

As mandíbulas fecharam-se contra o próprio casco.

Madeira explodiu.

Mas os magos sobreviveram.

— Agora! — rugiu Petrus.

Uma rajada de fogo atravessou o ar.

Depois outra.

Depois outra.

A cabeça recuou urrando.

Mas não morreu.

Nada naquela criatura parecia disposto a morrer.

Uma sombra passou acima dele.

Petrus ergueu o olhar.

Outra cabeça.

Descendo diretamente em sua direção.

Rápida.

Grande.

Impossível de bloquear.

Um cavaleiro da guilda apareceu entre eles.

Escudo erguido.

Espada em punho. — Saia daí!

A hidra atingiu-o como uma avalanche.

O escudo partiu-se.

O homem desapareceu entre as presas.

Por um instante Petrus viu apenas sangue.

Então algo caiu próximo aos seus pés.

O escudo.

Amassado.

Coberto de marcas profundas, não trazia boas lembranças ao Caçador... mesmo assim, Petrus pegou-o.

A próxima cabeça veio imediatamente.

Ele não teve tempo para pensar.

Apenas reagir.

As mandíbulas fecharam-se.

O impacto atravessou seus braços.

O escudo gemeu.

Rachou.

Mas segurou.

Por um segundo.

O suficiente.

Com a outra mão, Petrus arrancou uma espada caída próxima ao convés e a cravou diretamente no olho da criatura.

A lâmina desapareceu até a guarda.

O rugido sacudiu o navio.

Sangue negro explodiu sobre ele.

A cabeça recuou debatendo-se.

— Continuem pressionando! — gritou Lonkis.

O capitão não permanecia atrás das linhas, ele comandava e lutava.

Uma espada em uma mão.

Uma pistola na outra.

Quando uma das cabeças se aproximou demais da popa, ele disparou à queima-roupa contra o olho do monstro antes de avançar junto de outros marinheiros.

A lâmina atravessou escamas.

Os homens atacaram.

Machados.

Espadas.

Lanças.

A criatura respondeu esmagando três deles contra a madeira.

O combate transformara-se em algo além de uma batalha.

Era sobrevivência.

Pura e simples.

A chuva tornava tudo pior.

O convés estava coberto por sangue.

Água.

Vísceras.

Corpos.

Feridos gritavam.

Clérigos corriam entre eles.

Magos esgotavam mana rapidamente.

As balistas precisavam ser recarregadas.

Os canhões começavam a superaquecer.

E a hidra continuava avançando.

Seis cabeças.

Seis pescoços.

Seis monstros.

Então Petrus percebeu.

O corpo.

Enquanto todos lutavam contra as cabeças, o verdadeiro corpo da criatura permanecia abaixo da superfície, quase intocado.

Era por isso que ela continuava avançando.

Era por isso que parecia impossível pará-la.

Petrus correu entre o caos do Vidente, como nevoa apareceu do outro lado do barco em questão de milésimos e saltou para dentro da água.

Lonkis percebeu o que ele estava pensando. — Não. — Pensou o capitão, mas não havia tempo questionar Petrus. — MANTENHAM AS CABEÇAS DESSE DEMONIO DO MAR LONGE DOS DOIS MASTROS RESTANTES, FLANQUEIE SEUS INCOMPETENTES — Lonkis gritava tentando manter seus homens focados, só lhe restava confiar em Petrus.

O caçador das Profundezas ao pular na água sentiu um silêncio profundo. O oceano o engolia completamente, e a água falava com ele, sussurrava dentro de sua mente. Mas Petrus estava focado.

A hidra parecia ainda maior.

Gigantesca.

Uma montanha viva movendo-se nas profundezas.

Petrus manipulou a água ao redor do próprio corpo e sentiu as correntes responderem imediatamente ao seu comando. O impulso veio como uma explosão silenciosa, lançando-o através das profundezas numa velocidade impossível para qualquer nadador comum. Enquanto as cabeças continuavam atacando o navio acima, ele ignorou completamente o caos da superfície. Seu alvo nunca haviam sido as cabeças.

Era o corpo.

O verdadeiro corpo.

As enormes escamas da hidra surgiram diante dele, espessas como placas de armadura e marcadas por cicatrizes acumuladas ao longo de décadas, talvez séculos. Petrus cravou o arpão com toda a força que possuía. As pontas farpadas penetraram profundamente na carne da criatura e a corrente espalhou-se logo em seguida, enrolando-se ao redor do torso monstruoso.

Foi naquele instante que a hidra percebeu sua presença.

As águas estremeceram ao redor do monstro. O corpo colossal começou a girar lentamente nas profundezas, e Petrus sentiu a mudança antes mesmo de vê-la. Uma cabeça mergulhou em sua direção. Depois outra. Depois uma terceira. Em poucos segundos, todas avançavam ao mesmo tempo através da escuridão submarina, atraídas pelo homem que ousara ferir o coração da criatura.

As cabeças avançavam através da escuridão submarina como lanças vivas. Mesmo debaixo d’água, Petrus conseguia sentir o deslocamento monstruoso que produziam. A pressão mudava ao seu redor. Correntes surgiam onde não deveriam existir. O oceano inteiro parecia dobrar-se à passagem daquelas mandíbulas.

Ele puxou a corrente presa ao corpo da hidra e impulsionou-se para o lado.

A primeira cabeça passou tão perto que suas presas rasparam seu casaco. O impacto da passagem foi suficiente para fazê-lo girar na água. Antes que recuperasse o equilíbrio, a segunda surgiu por baixo, tentando alcançá-lo pelo ventre. Petrus soltou parte da corrente e girou o arpão. A ponta espinhosa encontrou um dos olhos da criatura, afundando-se na carne mole. A cabeça recuou imediatamente, debatendo-se nas profundezas enquanto sangue negro se espalhava pela água ao redor.

Não houve tempo para comemorar.

Outra cabeça veio pela esquerda.

Depois outra.

A hidra aprendera.

As cabeças não atacavam mais separadamente. Caçavam juntas, coordenando seus movimentos com uma inteligência que tornava a criatura ainda mais aterradora. Petrus desviou da primeira, passou por baixo da segunda e utilizou a própria corrente presa ao corpo do monstro para mudar de direção. Pequenas correntes giravam ao redor de seus braços e pernas, impulsionando seus movimentos além dos limites humanos.

Mesmo assim, a diferença de tamanho era absurda.

Uma das cabeças abriu a boca diante dele. A escuridão de sua garganta parecia a entrada de uma caverna. Petrus impulsionou-se para cima no último instante. As mandíbulas fecharam-se onde ele estava um segundo antes. O estrondo percorreu a água como um trovão abafado.

Logo atrás, outra cabeça já vinha em sua direção.

Desta vez não havia espaço.

Não havia tempo.

Não havia como escapar.

Petrus ergueu ambas as mãos.

A água respondeu.

Correntes violentas começaram a girar ao seu redor, comprimindo-se até formarem uma muralha líquida entre ele e a criatura. O impacto veio no instante seguinte.

A cabeça atingiu o escudo de água como uma avalanche.

A barreira segurou.

Por um momento.

Depois explodiu.

A força do choque atravessou a defesa improvisada e atingiu Petrus em cheio. Ele foi arremessado vários metros através das profundezas. A dor percorreu seu braço esquerdo e parte do ombro. Sentiu algo rasgar sob o casaco. Pequenos fragmentos de escamas e destroços carregados pela corrente abriram cortes superficiais em seu rosto.

Nada grave.

Mas suficiente para lembrá-lo de que estava ficando sem tempo.

Acima dele, muito distante, a sombra do Vidente continuava lutando contra as cabeças restantes. Clarões de magia iluminavam ocasionalmente a superfície. Disparos de canhões faziam vibrações percorrerem a água.

A tripulação ainda resistia.

Mas não resistiria para sempre.

Petrus voltou o olhar para o corpo da hidra.

A criatura sangrava.

Porém continuava poderosa demais.

Então sua mão alcançou o bolso interno do casaco.

Um pergaminho que encontrara meses atras.

Mesmo debaixo d’água, a magia que o protegia mantinha os símbolos intactos. As runas negras pareciam mover-se sobre o papel envelhecido como criaturas vivas.

As cabeças voltaram, desta vez todas juntas.

Seis sombras monstruosas atravessavam as profundezas em sua direção.

Famintas.

Furiosas.

Determinadas a despedaçá-lo.

Petrus respirou fundo.

Então rompeu o selo.

As runas despertaram.

A água ao redor escureceu imediatamente.

Símbolos antigos espalharam-se pelas profundezas como rachaduras surgindo sobre vidro. Uma energia antinatural começou a pulsar ao redor do pergaminho, fazendo até mesmo a hidra hesitar por um breve instante.

Foi o bastante.

Petrus pressionou o pergaminho diretamente contra uma das feridas abertas no torso da criatura, e liberou a magia.

O mundo explodiu.

Uma onda trovejante negra expandiu-se em todas as direções. Não era fogo. Não era gelo. Não era relâmpago. Era algo mais antigo. Mais sombrio. Uma força brutal que rasgava matéria e magia ao mesmo tempo.

A água foi empurrada violentamente para longe.

As escamas da hidra partiram-se.

A carne abriu-se.

Um enorme pedaço do flanco da criatura simplesmente desapareceu numa explosão de sangue negro e fragmentos de osso.

As cabeças foram atingidas quase simultaneamente.

Uma perdeu parte da mandíbula.

Outra teve um dos olhos destruídos.

Duas foram lançadas para trás pela força da detonação.

O rugido que se seguiu atravessou todo o oceano.

Pela primeira vez desde o início do combate, a hidra sentiu medo.

Medo verdadeiro.

Seu corpo colossal contorceu-se nas profundezas. As cabeças debateram-se descontroladamente. O sangue espalhou-se pela água como uma nuvem escura.

Então a criatura recuou.

Primeiro lentamente.

Depois mais rápido.

E então fugiu.

As seis cabeças desapareceram na escuridão enquanto o corpo mutilado mergulhava cada vez mais fundo, abandonando a superfície e afastando-se do navio.

Petrus permaneceu imóvel por alguns segundos.

O arpão ainda preso em uma das mãos.

O sangue escorrendo pelos cortes.

Observando o vazio para onde o monstro desaparecera.

A hidra estava viva.

Mas derrotada.

Por enquanto.

Por alguns segundos, Petrus permaneceu imóvel.

A escuridão das profundezas havia voltado a ocupar o lugar onde a hidra desaparecera. Apenas fragmentos de sangue negro ainda flutuavam na água, arrastados lentamente pelas correntes. O rugido da criatura já não existia. Restava apenas o silêncio. Até a água falar com ele mais uma vez — Perspicaz, guerreiro focado, concha... — O eco das águas em sua mente sussurrava palavras soltas mais uma vez.

Seu peito ardia.

Os braços pesavam.

O ombro esquerdo protestava a cada movimento.

Mas ele estava vivo.

E isso, naquela noite, já parecia uma vitória improvável.

Petrus começou a subir.

A água respondeu ao seu comando quase por instinto. Correntes suaves empurraram seu corpo em direção à superfície enquanto a luz cinzenta da madrugada começava a atravessar as profundezas. Quanto mais se aproximava do alto, mais conseguia ouvir os sons do mundo acima.

Madeira rangendo.

Homens gritando.

Ordens sendo dadas.

Martelos.

Cordas.

Gemidos de feridos.

O Vidente ainda flutuava.

Mas mal.

Quando finalmente rompeu a superfície, uma onda de ar frio atingiu seu rosto.

O navio parecia outro.

Parte da amurada havia desaparecido. Um dos dois mastros restantes estava rachado. Cordas pendiam inutilizadas sobre o convés. Tábuas quebradas flutuavam ao redor da embarcação junto de barris, pedaços de equipamento e manchas de sangue espalhadas pelas ondas.

Petrus nadou até a lateral do casco.

Diversas mãos surgiram para ajudá-lo.

Ele aceitou sem protestar.

Quando seus pés finalmente tocaram o convés, sentiu o corpo inteiro reclamar.

A exaustão chegou de uma só vez.

— Pelos deuses... — murmurou alguém.

— Ele voltou.

— Achei que tivesse morrido.

— Eu também.

Lonkis aproximou-se.

O capitão parecia dez anos mais velho do que na noite anterior.

O casaco estava rasgado.

Havia sangue seco em parte da barba.

Um corte atravessava sua testa.

Mesmo assim permanecia de pé.

Como sempre.

Os dois homens trocaram olhares.

Nenhum deles sorriu.

Nenhum deles comemorou.

Lonkis apenas assentiu uma vez.

Petrus fez o mesmo.

Aquilo bastava.

Ao redor deles, os sobreviventes começavam a contabilizar os danos.

Os clérigos passavam de ferido em ferido.

Alguns homens recolhiam corpos.

Outros apenas observavam o mar.

Em silêncio.

Petrus caminhou lentamente pelo convés.

Reconheceu alguns rostos.

Outros não estavam mais ali.

O cavaleiro que lhe dera alguns segundos preciosos para sobreviver.

Morto.

Dois arpoeiros veteranos.

Mortos.

Um dos anões dos canhões.

Morto.

Marinheiros que haviam embarcado com eles semanas antes.

Mortos.

Alguns corpos haviam sido recuperados.

Outros jamais seriam encontrados.

O mar ficaria com eles.

Como sempre fazia.

Mais de uma dezena.

Talvez quinze.

Talvez mais.

Ninguém ainda tinha certeza.

E talvez ninguém quisesse ter.

A adrenalina da batalha havia desaparecido. O orgulho da sobrevivência também.

O que restava era apenas o peso.

O peso dos nomes.

Das vozes.

Dos rostos.

Dos lugares vazios que existiriam dali em diante.

Petrus parou próximo à proa.

Ali o vento era mais forte.

O horizonte começava a clarear.

Lentamente.

A tempestade afastava-se para oeste, tornando-se apenas uma sombra distante sobre o oceano. As nuvens ainda cobriam boa parte do céu, mas pequenas aberturas permitiam que a luz da manhã atravessasse o cinza.

O sol nascia.

Não havia beleza nisso.

Não para ele.

Não naquela manhã.

Era apenas mais um dia chegando.

Mais um dia em que continuava sem respostas.

Sem compreender completamente os próprios poderes.

Sem compreender o pacto de sua mãe.

Sem compreender o que realmente havia condenado Martis.

A hidra estava viva.

Martis continuava amaldiçoada.

E as perguntas que o perseguiam permaneciam tão distantes quanto sempre estiveram.

O vento agitou seus cabelos negros.

Abaixo dele, as ondas batiam contra o casco ferido do Vidente.

Atrás, homens recolhiam os mortos.

À frente, existia apenas o mar.

Infinito.

Cinzento.

Indiferente.

Petrus apoiou os braços na amurada quebrada e observou o horizonte em silêncio, o sol continuou subindo.

E o Vidente seguiu viagem.

Ferido.

Mas ainda navegando.

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