Ch 1 - HappyBirthdaylittle Moon
Capítulo Um
Feliz Aniversário, Pequena Lua
Lura Night completou dezenove anos em uma casa de hóspedes que nunca foi feita para ser o lar de ninguém.
A luz da manhã entrava por cortinas finas e iluminava as poucas coisas que lhe restavam: três prateleiras de livros gastos, um guarda-roupa estreito, a velha mala de couro de seu pai e um lobo de madeira descansando ao lado de sua cama. O lobo fora pintado de preto de um lado e de branco do outro, embora as cores estivessem descascadas perto das orelhas e das patas com o passar dos anos.
Exatamente como o cabelo dela.
Lura estendeu a mão e passou o polegar pela madeira áspera. Seu pai o esculpira para o seu sétimo aniversário, depois de passar três meses fingindo que tinha esquecido o que ela queria.
Ele era péssimo em guardar segredos.
Memória de Rowan: “Feliz aniversário, Pequena Lua.”
Lura fechou os olhos.
Por um momento perigoso, ela quase pôde ouvi-lo parado atrás dela.
Uma voz quente.
Uma risada grave.
Braços seguros.
Então a memória desapareceu, e a casa de hóspedes ficou em silêncio novamente.
Lura: “Feliz aniversário para mim.”
Seu lobo se moveu em algum lugar dentro de sua mente, mas não ofereceu resposta.
Lura colocou o entalhe de volta ao lado da cama e se levantou. O chão estava frio sob seus pés descalços, e o pequeno prédio retinha o frio do início da manhã por muito mais tempo do que a casa principal jamais fizera.
A casa principal ficava do outro lado do gramado, grande e brilhante sob o nascer do sol. Suas paredes de pedra, janelas altas e o brasão de uma lua crescente prateada a marcavam como o lar da antiga família Beta da Alcateia Citrus Moon.
Sua família.
Pelo menos, já tinha sido um dia.
O antigo quarto de Lura ficava no segundo andar, voltado para a floresta leste. Seu pai pintara estrelas no teto e lobos pretos e brancos nas paredes. Ele mesmo construíra as prateleiras, de forma desajeitada, e passara quase uma semana inteira consertando a mesma depois que ela desabou duas vezes.
Agora o quarto pertencia a Tina.
Depois que Rowan morreu, Marissa decidiu que sua filha precisava de mais espaço. Os pertences de Lura foram levados para o outro lado da propriedade enquanto ela ficava parada em silêncio no corredor, assistindo estranhos removerem os últimos pedaços da infância que seu pai criara para ela.
Três anos depois, ela ainda olhava para aquela janela todas as manhãs.
Ela não sabia bem o porquê.
Lura escovou os dentes, lavou o rosto e se vestiu com calças pretas, uma camisa preta larga e botas gastas. Seu cabelo repartido entre preto e branco caía naturalmente pelas costas, teimoso demais para ficar preso por muito tempo.
Antes de sair, ela pegou a mala velha de seu pai e verificou a fivela quebrada.
Amanhã, ela a levaria consigo para o Encontro de Acasalamento.
Hoje, aparentemente, ela tinha que fazer compras.
Lura atravessou o gramado em direção à casa principal. A entrada da cozinha já estava aberta, permitindo que o cheiro de pão fresco e café se espalhasse pelo ar frio.
Lá dentro, os criados se moviam entre os balcões enquanto o café da manhã era levado para a sala de jantar. Vários a cumprimentaram calorosamente. Outros baixaram a voz quando Marissa passou por perto.
Lura notara que as pessoas faziam isso com frequência.
Ela entrou na sala de jantar e encontrou Tina sentada do outro lado de seu lugar habitual, conversando antes mesmo de Lura chegar à mesa.
Tina: “Ouvi dizer que os machos do Norte são enormes.”
Lura se sentou e olhou para a tigela de aveia que a aguardava.
Lura: “Parabéns para eles.”
Tina fez uma pausa, então continuou como se Lura tivesse dado uma resposta útil.
Tina: “E disseram que há mais machos graduados participando este ano do que o normal. Betas, Deltas, Gammas, talvez até Alfas.”
Lura mexeu a colher na aveia.
Lura: “Parece lotado.”
Tina: “É só isso que você tem a dizer?”
Lura: “Ainda não terminei de acordar.”
Tina se inclinou para mais perto.
Seu cabelo castanho-dourado estava enrolado sobre os ombros, e o vestido azul claro que usava parecia novo. Tudo nela sugeria que vinha se preparando para o Encontro desde antes do amanhecer.
Tina: “Você não está nem um pouco animada?”
Lura: “Não.”
Tina: “Nem um pouquinho?”
Lura: “Ainda não.”
Tina: “Por quê?”
Lura levantou uma colherada de aveia e observou-a escorregar de volta para a tigela.
Lura: “Querer que alguém te escolha parece exaustivo.”
Tina a encarou.
Tina: “Esse é o objetivo principal do Encontro.”
Lura: “Estou ciente.”
Tina: “Toda fêmea sem parceiro sonha com isso.”
Lura: “Então tenho certeza de que elas se divertirão muito.”
Tina recostou-se com um suspiro.
Ela e Lura não eram inimigas.
Também não eram amigas.
Elas simplesmente passaram doze anos sob o mesmo teto, compartilhando refeições, cerimônias familiares e o afeto complicado do mesmo homem.
Rowan Night adotara Tina depois de escolher Marissa como sua segunda parceira. Tina tinha seis anos. Lura tinha sete.
Antes disso, Lura passara um ano inteiro sozinha com seu pai.
Um ano do qual ela conseguia se lembrar claramente.
Sua mãe, Sora, só existia através de histórias e de um pequeno retrato que Rowan mantinha trancado em seu escritório. Ela fora sua parceira destinada. A mulher que ele amava completamente. A mulher que morrera trazendo Lura ao mundo.
Rowan nunca parou de amá-la.
Lura sempre soube disso, assim como sabia que nunca se esperou que Marissa a substituísse.
Seu pai simplesmente acreditava que sua filha precisava de uma mãe.
Memória de Rowan: “Toda garotinha merece alguém que entenda de coisas de garota.”
Memória da jovem Lura: “Você entende de coisas de garota.”
Memória de Rowan: “Pequena Lua, eu entendo de espadas, finanças da alcateia e de como queimar o jantar.”
Memória da jovem Lura: “Você queima o jantar muito bem.”
Lura ainda conseguia se lembrar de como ele ria alto.
A memória apertou algo dentro de seu peito.
Ela a afastou.
Tina ainda estava falando.
Tina: “Você acha que os rumores sobre os Alfas são verdadeiros?”
Lura: “Quais rumores?”
Tina: “Que dois Alfas sem parceira estão vindo.”
Lura: “Talvez.”
Tina: “Isso seria incrivelmente raro.”
Lura: “Foi o que me disseram.”
Tina: “Imagine ser escolhida por um deles.”
Lura olhou para ela.
Lura: “Você parece estar imaginando o suficiente por nós duas.”
Tina revirou os olhos, mas um sorriso surgiu em sua boca.
Tina: “Você é impossível.”
Lura: “Papai costumava dizer isso.”
O sorriso desapareceu.
O silêncio se instalou entre elas.
Tina olhou para a mesa.
Tina: “Eu não quis...”
Lura: “Está tudo bem.”
Tina: “Lura...”
Lura: “Eu disse que está tudo bem.”
Não era culpa de Tina que falar sobre Rowan ainda parecesse pressionar uma ferida que se recusava a cicatrizar.
Três anos se passaram desde que ele entrou na floresta de Citrus Moon e nunca mais voltou vivo.
A alcateia chamou de emboscada de rebeldes.
Lugar errado.
Hora errada.
Uma tragédia.
Lura chamou de o dia em que o mundo parou de parecer real.
Passos entraram na sala de jantar antes que Tina pudesse responder.
Marissa Night atravessou a sala vestindo um vestido verde escuro sem um único vinco. Seu cabelo loiro estava preso ordenadamente longe do rosto, e sua expressão parecia tão cuidadosamente arranjada quanto tudo o mais nela.
Ela ocupou a cadeira na cabeceira da mesa.
A cadeira de Rowan.
Lura olhou para baixo imediatamente.
Três anos depois, ela ainda não conseguia ver ninguém sentado ali.
Marissa: “Você comeu?”
Tina: “Estou muito animada.”
Lura: “Estou considerando.”
Marissa olhou para a aveia intocada de Lura.
Marissa: “A carruagem sai em vinte minutos.”
Tina: “Podemos visitar a Bellamy’s primeiro?”
Marissa: “Sim.”
Tina: “E a Marlowe House?”
Marissa: “Se houver tempo.”
Tina: “Que tal aquela boutique nova ao lado da joalheria?”
Marissa: “Tina.”
Tina: “Desculpe.”
Lura moveu a colher pela aveia novamente.
Marissa: “Vocês duas vão precisar de roupas suficientes para trinta dias. Haverá cerimônias, jantares formais, atividades, festas e a Escolha final.”
Lura: “Eu tenho roupas.”
Marissa olhou para o traje preto dela.
Marissa: “Não são roupas adequadas.”
Lura: “Elas cobrem tudo.”
Marissa: “Essa não é a única função das roupas.”
Lura: “Deveria ser.”
Tina escondeu um sorriso atrás da xícara.
Marissa percebeu.
Marissa: “Algo engraçado?”
Tina: “Engasguei com a saliva.”
Lura olhou para sua bebida intacta.
Lura: “Trágico.”
Marissa: “Lura.”
Lura: “Sim?”
Marissa: “Essa sua atitude não vai te ajudar em nada no Encontro.”
Lura: “Eu nem sabia que a estava trazendo.”
Tina tossiu novamente.
A boca de Marissa se contraiu.
Marissa: “Você tem dezenove anos. Um ano mais velha do que as outras fêmeas de primeira viagem que vão participar.”
Lá estava.
Lura pousou a colher.
Lura: “Eu sei quantos anos eu tenho.”
Marissa: “Então você entende como é sortuda pelo Conselho do Encontro ter aceitado sua inscrição depois do ano passado.”
Lura: “Depois que o pagamento não foi enviado?”
Marissa: “Foi um erro infeliz.”
Lura: “E o sumiço da inscrição?”
Marissa: “Outro erro.”
Lura: “E o pagamento de reposição?”
Marissa: “Lura.”
Tina se remexeu, desconfortável.
Tina: “Podemos não fazer isso hoje?”
Lura olhou para a irmã de criação.
Não havia crueldade na expressão de Tina. Apenas vergonha e o desejo desesperado de que a manhã continuasse agradável.
Lura pegou sua colher novamente.
Lura: “Está bem.”
Marissa relaxou um pouco.
Marissa: “Você deveria ser grata por estar participando.”
Lura: “Grata a quem?”
Marissa: “A mim.”
Uma risada baixa escapou de Lura antes que ela pudesse impedir.
Não foi uma risada calorosa.
Mal soou como risada.
Ainda assim, todos ouviram.
A expressão de Marissa endureceu.
Marissa: “Tem algo de engraçado?”
Lura: “Aparentemente.”
Marissa: “Seu pai teria vergonha do jeito que você se comporta.”
A colher parou.
O ambiente ficou tenso.
O lobo de Lura despertou em sua mente, já não estava mais dormindo.
Ela colocou a colher ao lado da tigela com cuidado deliberado.
Lura: “Não.”
Marissa recostou-se.
Marissa: “Como disse?”
Lura: “Não use ele para ganhar uma discussão.”
Marissa: “Eu era a companheira dele.”
Lura: “E eu era a filha dele.”
Sua voz permaneceu baixa, mas algo por trás dela fez Tina baixar os olhos.
Por um instante, o medo cruzou o rosto de Marissa.
Passou rapidamente.
Lura ainda viu.
Marissa: “Vá se trocar e colocar algo apropriado. Nós vamos sair.”
Lura levantou-se.
Lura: “Eu estou usando algo apropriado.”
Marissa: “Você parece estar indo a um funeral.”
As palavras pesaram mais do que qualquer uma delas esperava.
A expressão de Marissa mudou, como se tivesse percebido o que disse.
Tarde demais.
Lura virou-se em direção à porta.
Marissa: “Lura.”
Ela parou, mas não olhou para trás.
Lura: “Vinte minutos. Eu ouvi.”
Ela saiu da sala de jantar antes que a pressão em seu peito se tornasse algo que ela não pudesse mais ignorar.
Fazer compras, Lura decidiu horas depois, era uma forma especial de tortura.
Não do tipo dramático.
Não havia sangue, gritos ou correntes de prata.
Apenas luzes fortes, lojas lotadas, estranhos julgando o tamanho da sua cintura e alguém perguntando repetidamente se ela queria experimentar o mesmo vestido feio em uma cor diferente.
Ela não queria.
Ela queria ir para casa.
Infelizmente, Tina segurava três vestidos enquanto encarava um quarto.
Tina: “O que você acha?”
Lura olhou para os vestidos.
Lura: “Sobre o quê?”
Tina: “Os vestidos.”
Lura: “São quatro.”
Tina: “Eu sei.”
Lura: “Você só tem um corpo.”
Tina: “Me ajude a escolher.”
Um era azul.
Um era rosa.
Um era verde.
O quarto parecia ter sido atacado por cristais.
Lura: “Azul.”
Tina: “Você nem pensou.”
Lura: “Você me pediu para escolher. Eu escolhi.”
Tina: “Por que azul?”
Lura: “Foi o que estava mais perto.”
Tina a encarou.
Tina: “Você é péssima nisso.”
Lura: “Já me disseram isso.”
Ela desapareceu no provador enquanto Lura se encostava na parede e olhava para as sacolas a seus pés.
Tina tinha doze vestidos, seis pares de sapatos, três casacos, joias, roupas de dormir e renda suficiente para assustar Lura e fazê-la fugir de uma seção inteira da loja.
Lura tinha duas sacolas.
Três camisas básicas.
Duas calças.
Um suéter.
Um par de botas.
E vários vestidos simples encontrados em uma arara de promoção.
Ela não se importava com o preço ou a falta de variedade. As roupas serviam, cobriam seu corpo e não exigiam que ela ficasse sob luzes fortes por mais tempo do que o necessário.
A cortina se abriu e Tina saiu vestindo o vestido azul.
Ela girou lentamente.
Tina: “E então?”
Lura: “Você está vestindo ele.”
Tina: “Eu sei.”
Lura: “Então concordamos.”
Tina fechou os olhos.
Tina: “Eu estou bonita?”
Lura analisou o tecido azul suave e a maneira como ele complementava a pele quente de Tina.
Lura: “Sim.”
Tina abriu os olhos.
Tina: “Sério?”
Lura: “Você deveria comprar.”
Um sorriso genuíno cruzou o rosto de Tina.
Tina: “Obrigada.”
Lura acenou com a cabeça.
Tina voltou para se trocar e Marissa se aproximou carregando várias caixas.
Marissa: “Encontrou tudo?”
Lura apontou para suas duas sacolas.
Lura: “Sim.”
Marissa: “Isso não é suficiente para trinta dias.”
Lura: “Eu posso lavar as roupas.”
Marissa encarou-a como se Lura tivesse sugerido ir ao Encontro nua.
Marissa: “Você precisa de vestidos formais.”
Lura: “Tenho um em casa.”
Marissa: “Você usou ele no funeral do seu pai.”
Lura ficou imóvel.
Marissa desviou o olhar.
Marissa: “Encontre outro.”
Lura: “Eu não preciso de um.”
Marissa: “A Escolha final exige traje formal.”
Lura: “Eu não planejo ser escolhida.”
Marissa: “Isso não é totalmente sua decisão.”
Algo na maneira como ela disse isso fez o lobo de Lura se agitar.
Antes que Lura pudesse perguntar o que ela queria dizer, uma voz masculina profunda surgiu atrás delas.
Alpha Aldric: “Beta Night?”
Marissa paralisou.
A loja inteira pareceu mudar ao redor do homem que estava a alguns metros de distância. Os funcionários abaixaram a cabeça. Os Shifters deram um passo para o lado. As conversas diminuíram.
Alpha Aldric do Alcateia Citrus Moon era alto e de ombros largos, com cabelos escuros começando a ficar grisalhos perto das têmporas. Sua presença preenchia o ambiente sem esforço.
A expressão de Marissa se transformou.
Seu sorriso tornou-se caloroso.
Sua postura relaxou.
Marissa: “Alpha Aldric. Que surpresa maravilhosa.”
Ele a cumprimentou educadamente, mas sua atenção já havia passado por ela.
Na direção de Lura.
Por vários segundos, ele simplesmente a encarou.
Alpha Aldric: “Lura?”
Ela se mexeu sob o seu olhar.
Lura: “Olá, Alpha.”
Ele se aproximou, estudando o cabelo repartido e o rosto dela como se buscasse algo familiar.
Sua expressão suavizou-se.
Alpha Aldric: “Olha só para você.”
Lura não sabia o que dizer.
Então ela não disse nada.
Alpha Aldric: “Você fica mais parecida com ele a cada ano.”
O peito dela apertou.
Lura: “Meu pai?”
Um sorriso triste surgiu em seu rosto.
Alpha Aldric: “Quem mais seria?”
Três anos.
Ela o evitara por três anos.
Não porque Alpha Aldric tivesse sido cruel.
Mas porque ele carregara o corpo de Rowan para fora da floresta.
Toda vez que ela o via, lembrava-se da lama, do sangue e da mão sem vida do pai pendurada ao lado do corpo dele.
Alpha Aldric: “Como você tem passado?”
Lura: “Bem.”
Ele a estudou com mais atenção.
Lura odiava quando as pessoas faziam isso.
Alpha Aldric: “Você vai ao Encontro amanhã?”
Lura: “Sim.”
Tina saiu do provador e se endireitou imediatamente.
Tina: “Boa tarde, Alpha.”
Alpha Aldric: “Boa tarde, Tina.”
Seus olhos viajaram para a montanha de caixas empilhadas ao redor de Marissa.
Depois para as duas sacolas de Lura.
Algo mudou em sua expressão.
Alpha Aldric: “Preparando-se para o mês?”
Marissa: “As meninas fizeram compras o dia todo.”
Alpha Aldric: “Parece que Tina teve sucesso.”
Tina sorriu.
Ele olhou para Lura.
Alpha Aldric: “E você?”
Lura: “Encontrei o que precisava.”
Alpha Aldric: “Apenas duas sacolas?”
Lura: “Eu viajo com pouca bagagem.”
Marissa riu rápido demais.
Marissa: “É incrivelmente difícil comprar para a Lura.”
Lura olhou para ela.
Lura: “É mesmo?”
O sorriso de Marissa se contraiu.
A boca de Alpha Aldric se contraiu.
Alpha Aldric: “Rowan dizia a mesma coisa.”
A atenção de Lura voltou para ele.
Lura: “Dizia?”
Alpha Aldric: “Ele passou três meses procurando o presente de aniversário perfeito uma vez.”
Ela franziu a testa.
Lura: “Qual presente?”
Alpha Aldric: “O lobo de madeira.”
Ela prendeu a respiração.
Lura: “Ele te contou?”
Alpha Aldric riu baixinho.
Alpha Aldric: “Ele perguntou a metade da matilha que cores deveria usar para pintá-lo.”
Um pequeno sorriso escapou antes que ela pudesse impedi-lo.
Lura: “Preto e branco.”
Alpha Aldric: “Como seu cabelo.”
Lura: “Exatamente.”
Por um breve momento, Lura viu seu pai na expressão do Alpha.
Não no rosto.
No calor.
Na memória.
Então, Alpha Aldric olhou novamente para as sacolas ao redor deles.
Alpha Aldric: “Certamente a filha de Rowan merece mais do que duas sacolas para seu primeiro Encontro.”
Silêncio.
Lura virou-se lentamente para Marissa.
Sua madrasta sorriu.
Marissa: “Claro que merece.”
Lura quase riu de novo.
Alpha Aldric: “Gostaria de ver o que vocês escolheram.”
Lura: “Isso parece desnecessário.”
Marissa: “Seria maravilhoso.”
Lura olhou para ela.
Lura: “Quem é você?”
Tina tossiu para esconder uma risada.
Alpha Aldric não escondeu a dele.
Os olhos de Marissa se estreitaram.
Marissa: “Por que não encontramos algo especial para você?”
Lura entendeu imediatamente.
Marissa não tinha o menor desejo de comprar algo caro para ela.
Mas Alpha Aldric estava observando.
As aparências importavam mais do que o dinheiro quando o Alpha da matilha estava ao lado delas.
Lura: “Claro, mamãe.”
O rosto de Marissa se contraiu.
A loja seguinte não continha araras de liquidação.
Lura verificou duas vezes.
Cada vestido parecia caro o suficiente para exigir seu próprio guarda-costas.
Ela estava se preparando para encontrar um lugar tranquilo onde esperar quando um deles chamou sua atenção.
Estava pendurado sozinho no fundo da loja.
Preto.
Pelo menos, ela achou que fosse preto.
Quando o tecido se movia sob as luzes, o prata percorria sua superfície. Sob o prata, brilhavam os mais tênues traços de violeta.
Lura parou.
Seu lobo se agitou.
Ela estendeu a mão e tocou o tecido.
Algo puxou dentro do seu peito.
Ela soltou imediatamente.
Alpha Aldric: “Aquele.”
Lura se virou.
Lura: “O quê?”
Alpha Aldric: “Experimente.”
Lura: “Não.”
As sobrancelhas dele se ergueram.
Lura lembrou-se de com quem estava falando.
Lura: “Com todo respeito.”
Ele riu.
Alpha Aldric: “Você definitivamente herdou a teimosia de Rowan.”
Lura: “Vou levar isso como um elogio.”
Alpha Aldric: “Deveria.”
Marissa se aproximou com Tina.
Marissa: “Experimente o vestido, Lura.”
Lura a encarou.
Marissa a encarou de volta.
Alpha Aldric esperava por perto.
Lura entendeu.
Lura: “Está bem.”
Alguns minutos depois, ela estava diante do espelho do provador e mal se reconheceu.
O tecido serviu como se tivesse sido feito para ela. O preto e o prata envolviam seu corpo antes de cair suavemente até o chão. O violeta brilhava a cada pequeno movimento.
Seu cabelo repartido em preto e branco caía sobre seus ombros.
Por um segundo estranho, seus olhos azul-acinzentados pareceram roxos.
Lura piscou.
Normais.
Tina: “Lura?”
Lura: “Já vou.”
Ela abriu a cortina.
A loja ficou em silêncio.
Tina a encarou.
Marissa a encarou.
Alpha Aldric ficou completamente imóvel.
Lura se mexeu, desconfortável.
Lura: “O quê?”
Sua expressão carregava tristeza, surpresa e algo que ela não conseguiu identificar.
Alpha Aldric: “Você está linda.”
Lura olhou para baixo, para o vestido.
Lura: “Obrigada.”
Ele olhou na direção de Marissa.
Alpha Aldric: “Rowan teria esvaziado seus bolsos por ele.”
Marissa: “Sim.”
Alpha Aldric: “Ele sempre a mimou muito.”
Marissa: “Ele a amava muito.”
Lura olhou para Marissa.
Sua madrasta se recusou a encontrar seu olhar.
Alpha Aldric sorriu, mas algo frio entrou em sua expressão.
Alpha Aldric: “Então, suponho que seja uma sorte que Rowan tenha deixado fundos mais do que suficientes para continuar fazendo isso.”
O sorriso de Marissa congelou.
Lura levantou a cabeça.
Alpha Aldric sustentou o olhar da madrasta dela.
Alpha Aldric: “Você não concorda?”
Marissa: “Claro.”
Alpha Aldric: “Maravilhoso.”
Ele se virou para Lura.
Alpha Aldric: “Aproveite o vestido.”
E, assim, Marissa não teve escolha a não ser comprá-lo.
Eles retornaram à propriedade dos Night depois que a escuridão cobriu o território da Citrus Moon.
Tina subiu apressada com suas sacolas, enquanto os criados seguiam com o restante.
Lura carregou suas próprias compras em direção à escadaria.
Marissa: “Lura.”
Ela parou.
Lura: “Sim?”
Marissa: “A cozinha precisa de ajuda para preparar o jantar.”
Lura olhou para a escada.
Depois, para a madrasta.
Lura: “Nós temos empregados.”
Marissa: “Eles estão atrasados.”
Lura: “E daí?”
Marissa: “Você vai ajudá-los.”
O sorriso agradável que Marissa exibia perto do Alpha Aldric havia desaparecido.
Aparentemente, ele tinha ficado na loja.
Lura: “Eu preciso fazer as malas.”
Marissa: “Você tem a noite toda.”
Lura: “A Tina está fazendo as malas.”
Marissa: “A Tina tem mais coisas para organizar.”
Lura olhou para a procissão de caixas subindo as escadas.
Lura: “Isso tende a acontecer quando alguém compra a cidade inteira.”
Os olhos de Marissa ficaram endurecidos.
Marissa: “Cozinha. Agora.”
A loba de Lura se agitou, mas ela estava cansada demais para discutir.
Lura: “Está bem.”
Duas horas depois, suas mãos cheiravam a cebola.
Lura odiava cebolas.
Ela odiava batatas.
Ela odiava, principalmente, a montanha de louça suja ao lado da pia.
Uma das funcionárias mais velhas da cozinha se aproximou e gentilmente tirou o pano de suas mãos.
Funcionária da Cozinha: “Vá descansar, criança.”
Lura: “A Marissa disse—”
Funcionária da Cozinha: “Eu sei o que ela disse.”
Lura ergueu uma sobrancelha.
A mulher baixou a voz.
Funcionária da Cozinha: “E eu me lembro do que seu pai teria dito.”
Lura olhou para baixo.
Isso era diferente.
Funcionária da Cozinha: “Você vai embora amanhã. Nós damos conta do resto.”
Lura secou as mãos.
Lura: “Obrigada.”
Ela saiu pela porta da cozinha e pisou na noite fria.
A casa principal brilhava atrás dela. Luzes quentes preenchiam as janelas e risadas vinham de algum lugar lá dentro.
Lura atravessou o gramado sozinha.
A casa de hóspedes a esperava no extremo da propriedade.
Escura.
Pequena.
Separada.
Ela parou no meio do caminho e olhou para o segundo andar.
A luz em seu antigo quarto ainda estava acesa.
Agora era o quarto da Tina.
Por um momento, Lura voltou a ter sete anos.
Seu pai estava em uma escada sob um teto coberto de estrelas, com tinta branca manchando sua bochecha.
Memória da jovem Lura: “Papai, a lua está torta.”
Memória de Rowan: “Não está não.”
Memória da jovem Lura: “Está sim.”
Memória de Rowan: “A arte não precisa ser perfeita, Pequena Lua.”
Memória da jovem Lura: “Você pintou uma lua.”
Memória de Rowan: “Exatamente. Arte.”
Ela se perguntou se Tina sabia que Rowan tinha passado três noites pintando aquele quarto.
Se ela sabia que ele tinha adormecido no chão depois de terminar a lua.
Se ela sabia que os lobos nas paredes tinham sido pintados de preto e branco por causa do cabelo de Lura.
Provavelmente não.
Lura se virou.
Não importava.
Pelo menos, ela tinha se tornado muito boa em fingir que não importava.
Ela destrancou a casa de hóspedes e levou suas sacolas para dentro.
Um quarto.
Um banheiro.
Uma pequena sala de estar.
Silêncio.
Muito silêncio.
Lura gostava do silêncio.
Ela tinha aprendido a gostar.
Ela colocou as sacolas de compras ao lado da cama e pousou a caixa preta do vestido em cima.
As palavras do Alpha Aldric voltaram à sua mente.
Rowan teria esvaziado os bolsos por aquele vestido.
Lura: “Sim.”
Ela abriu a caixa e tocou o tecido brilhante.
Lura: “Ele teria.”
Seu pai teria reclamado alto do preço.
Depois, teria comprado os sapatos que combinassem.
Provavelmente joias também.
Seu peito começou a doer.
Lura fechou a caixa.
Três anos.
Ela já deveria ser melhor em ignorar o luto a essa altura.
Ela arrumou primeiro os vestidos simples, depois suas camisas, calças, suéter e botas. A caixa preta foi a última.
Por fim, ela colocou o lobo de madeira no topo.
Preto de um lado.
Branco do outro.
Exatamente como ela.
Lura: “Trinta dias.”
Sua loba se agitou.
Lura: “Nós vamos.”
Silêncio.
Lura: “Nós sobrevivemos.”
Nada.
Lura: “Nós voltamos para casa.”
Sua loba ficou inquieta.
Lura franziu a testa.
Lura: “O quê?”
Sem resposta.
Lura: “Útil.”
Ela vestiu um pijama confortável e foi para a cama.
Lá fora, as luzes da casa principal se apagaram uma a uma.
Lura observou pela janela até que restasse apenas uma.
Seu antigo quarto.
O quarto da Tina.
Então, aquela luz também se apagou.
A escuridão cobriu a propriedade.
Amanhã, Lura partiria para o Mating Gathering.
Amanhã, ela passaria trinta dias cercada por metamorfos solteiros à procura das pessoas que o destino reservou para eles.
Amanhã, segundo todos, sua vida de verdade começaria.
Lura puxou o cobertor para cima.
Lura: “Parece exaustivo.”
Por fim, o sono a venceu.
A manhã chegou com o som de um motor.
Lura abriu os olhos.
Sua loba já estava acordada.
Completamente imóvel.
Ouvindo.
Lura: “O quê?”
Sem resposta.
O motor soou novamente.
Lura empurrou os cobertores e atravessou o chão frio. Ela afastou a cortina.
Um carro longo, preto e polido esperava do lado de fora da casa principal.
O brasão da lua crescente de prata da alcateia Citrus Moon brilhava no capô.
Lura encarou.
Ontem, o Alpha Aldric tinha falado com ela de verdade pela primeira vez em três anos.
Hoje, o carro pessoal dele estava em frente à sua casa.
A porta do motorista se abriu e um homem de terno escuro pisou no cascalho.
Então, a porta traseira se abriu.
O Alpha Aldric saiu.
Ele olhou para a casa principal antes de virar a cabeça lentamente.
Seus olhos percorreram o gramado.
Em direção à pequena casa de hóspedes.
Em direção à janela da Lura.
Em direção a ela.
Seus olhares se encontraram.
A expressão dele mudou.
Primeiro, confusão.
Depois, descrença.
E então algo que Lura nunca esperou ver no rosto do Alpha da Citrus Moon.
Fúria.
Ele olhou de Lura para a casa de hóspedes atrás dela, e a fúria desapareceu sob uma expressão calma, tão controlada que se tornou assustadora.
A loba de Lura ficou de prontidão dentro de sua mente.
Completamente alerta.
O Alpha Aldric se virou em direção à casa principal.
Lura o observou caminhar até a porta da frente.
E, de repente, ela teve a sensação desconfortável de que a manhã de Marissa Night estava prestes a se tornar muito desagradável.