Passer domesticus

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Resumo

Passer domesticus. Espécie exótica trazida para o Brasil por volta de 1903, no Rio, a decreto assinado pelo sanitarista Oswaldo Cruz. Mesmo que originária da Europa, ajuda a dar vida às cidades e aos interiores.

Gênero
Other
Autor
anyone173
Status
há 20 horas
Capítulos
1
Classificação
n/a
Classificação Etária
16+

Passer domesticus

A vida pulsa num ovo. Com veia e artéria. Coração ditando o ritmo do relógio da vida. A areia que começa a cair da ampulheta. O preço de poder desfrutar do dom da vida e tudo o que ela tem a oferecer. Mesmo sem ter que para isso ter sequer pedido. Poder.


De fora, 4 ovos. Brancos e naturalmente manchados cinza. Mantidos aquecidos pelo casal de pardais. Manhã cinza e chuvosa. O frio penetra pelas frestas, rompendo a barreira de calor da plumagem marrom fina e rala. Que frestas?


O ninho mal cabia os seis. O pai hora ou outra tinha de se empoleirar para fora para não tombar o trabalho árduo de não sabia quantos dias. Que só foi feito. Procurar gravetos, ou o que assim pareciam. Trazer. Trançá-los.


A chuva dá um descanso. O canto de um ou dois da mesma espécie por ali, jovens, é um chamado para os adultos; Cada um em uma bifurcação do que julgam ser uma árvore. Se era ou não, tanto fazia. Era abrigo. Uma goiabeira, mangueira, cajueiro, que seja. Talvez um pedaço mal visto da casa que ninguém nota. Frestas de telha, embaixo de telhados, disputando morada com pombos e toda sorte de pássaros. O canto se intensifica ainda mais e torna-se um chamado para todos. O macho sai do ninho. A fêmea com o bico entreaberto.


Sobrevoam em um grafo transiente que nem físicos ou ornitólogos se interessariam em entender. Ordinário. Desordenado e ordenado ao mesmo tempo. Como todo padrão de crescimento de cada planta que se interesse alguém curioso por notá-lo. Algumas poucas árvores nos pequenos quintais da quadra que ali alguns decidiram fazer morada. O pouco verde que toda cidade permite viver. Para então sempre poder renascer. Poder.


A maioria segue para os mesmos lugares. Disputar o quintal do farelo de milho e pão agora molhado que se dá às galinhas caipiras. Disputar a terra viva rica de minhocas, insetos miúdos... o que quer que se mova e pareça ter vida. Sente vontade de banhar em terra e areia seca, retirar os piolhos que não se alcança por mais que se tente. Que não saem com o espreguiçar. Terra seca e areia seca alguma se via. Despreguiçou-se pelo para tirar pelo menos os pingos de chuva que ainda restavam.


Reuniram-se todos uma vez mais. Os mesmos piados ritmados que só a natureza ensina. Linguagem. Era hora de procurar uma fonte d'água. Bifurcaram-se em voo, uns muitos para uma pequena poça d'água debaixo de uma grande mangueira. Antes fora um lago, ou coisa parecida. Tatuzinhos de jardim escondidos abaixo das pedras em torno. Água barrenta, mas que se deve aproveitar. Se é que pensam ser barrenta. Outros foram aos mesmos lugares de sempre. Já conhecidos. Os pequenos reservatórios de água dos animais domésticos que os desatentos deixam insetos darem cria. O tamanho era suficiente para chamar a atenção, diferente dos pequenos reservatórios de quem a dengue é uma praga eterna para os moradores. E com sorte, insistência ou por desatenção, puderam beber por algumas vezes.


Com um barulho qualquer que os espante. Mais forte que a chuva, é evidente. Não se sabe se humano ou natural. Um carro, uma pessoa a andar, um trovão... Outra vontade em seguida.


Voltar.


Cada um para onde veio.


Quando mais tarde retorna ao que era o seu lar, para dar à fêmea a chance de beber e se alimentar com o que quer que encontre, que ele agora cuidaria dos futuros filhotes...


De longe, um ovo espatifado no chão.


Dois sumiram.


A fêmea havia espantado um sariguê. Sempre um sariguê.


Engastanhou nos fios compunham o ninho. Vermelhos. Infortúnio. Dependurada na árvore sem nome.


Um a salvo no ninho.


Respirando na bolsa de ar.