Capítulo 1: O Elo das Sombras
Diga-me, criança... Quando você se depara com as antigas lendas do nosso povo e mergulha no passado remoto que habita os recantos mais profundos da sua mente, o que você realmente sente? Essa é, sem dúvida, uma pergunta desafiadora, pois muitos têm interpretações diversas sobre nossa história. Nelas, as versões se entrelaçam, confundem-se e, a cada novo relato, uma nova lenda desperta.
Agora, permita-me compartilhar a minha versão da história que, por sua vez, irá definir o futuro de todas as raças que habitam este plano. Na noite em que a humanidade abriu os olhos para o que estava além do possível, testemunhou a queda dos antigos impérios soberanos e a ascensão da era das trevas que engoliu nossa galáxia.
Era o dia 2 de setembro de 2065, em uma região antes conhecida como Iraque — outrora chamada Mesopotâmia. Uma equipe de pesquisa se dedicava a estudar a possibilidade de a humanidade contemporânea não ser o primeiro ápice da evolução. Eles se questionavam: milênios atrás, outras civilizações não teriam alcançado ou até superado esse status?
Era uma indagação válida, alimentada por inúmeras evidências arqueológicas acumuladas ao longo dos séculos. Ligações entre povos separados por oceanos imensos e mitos que convergiam para um único evento em todas as etnias apontavam para um elo perdido, um fio condutor na história humana.
No entanto, por mais que as provas se acumulassem, uma dúvida persistia: se nossa raça já teve as estrelas na palma das mãos, por que não mantivemos esse poder? Por que a única memória restante eram ruínas de pedra e mitos sem qualquer vestígio de tecnologia? Em qualquer assembleia científica, a ideia de uma civilização superior no passado era descartada. Mas, naquela noite fria de setembro, sob a luz prateada da lua cheia, tudo mudaria.
— Professora! Professora Brey! Por favor, acorde! Acredito que encontramos algo incrível!
— Ah, sim... Certo. Se for mais um vaso de porcelana ou runas com hieróglifos, deixem no meu laboratório. Vou analisar tudo pela manhã. Agora, pelo amor de seja lá o que você acreditar, deixe-me dormir!
— Professora... Nós os encontramos! Nós realmente os encontramos, professora Brey!
— Você não pode estar falando sério. Por favor, diga que está brincando!
— Não, professora! As equipes de escavação acabaram de receber sinais das sondas. Elas indicam que o complexo está a três quilômetros abaixo do solo. Estava bem debaixo do nosso nariz! De alguma forma, o campo magnético da tecnologia deles bloqueou nossos instrumentos, mas, devido a uma falha sísmica, finalmente conseguimos detectar a presença deles. Os antigos realmente existiram!
Iraque, 23h15.
— Professora, estamos nos aproximando do ponto das escavações. Tempo estimado de pouso: dez minutos.
Brey observava ansiosamente o horizonte através do visor da nave. Suas mãos tremiam ao pensar no que encontrariam ao tocar aquelas ruínas. O medo e a ansiedade a envolviam, mas já era tarde para recuar.
— Atenção a todos! A nave pode apresentar turbulências durante o pouso.
A nave classe Meridian, fabricada pelas Indústrias Articus, sofreu pequenos solavancos e perdeu altitude por alguns segundos antes de recuperar a estabilidade. O abalo fora causado por perturbações no campo magnético da estrutura ancestral.
— Ok, pessoal, desembarque autorizado.
— Comandante, pode retornar à central — instruiu Brey.
— Mas, professora, tenho ordens para esperar a senhora e garantir sua segurança.
— Não há necessidade. Avise à central que farei as análises iniciais do artefato.
— Mas, professora, eu...
— Isso é uma ordem, comandante!
Brey, convicta de que não permitiria que os investidores do projeto estragassem seu momento de triunfo, deu a palavra final.
— Tudo bem... Mas, em caso de qualquer anomalia, entre em contato — cedeu o piloto.
Os motores da nave emitiram um som estrondoso. A gravidade ao redor foi anulada e a aeronave lançou-se aos céus com fluidez, desaparecendo em minutos. Brey voltou-se para o acampamento de pesquisa e caminhou cautelosamente em direção ao foco da descoberta.
— Professora, professora Brey! Meu nome é Alice. É uma honra ter a sua presença aqui — apresentou-se uma jovem pesquisadora, afobada. — Sou sua fã e admiro suas pesquisas sobre povos antigos e o contato deles com tecnologias ancestrais. Eu...
— Alice, certo. Admiro seu entusiasmo, mas vamos direto ao ponto. Onde eles estão?
— Aqui, bem embaixo das ruínas mesopotâmicas. Veja só! — Alice apontou para o monitor das sondas. — Está mostrando picos de energia. Isso é matéria escura controlável!
— Como assim, matéria escura controlável? Isso é impossível! — questionou Brey, incrédula.
— Exatamente. Estamos mobilizando todos os colaboradores. Sejam lá quem forem os ancestrais, essa tecnologia está além do nosso alcance atual. É incrivelmente assustador, não acha?
— Sim... Alice, prepare um traje de controle. Vou descer.
— Descer? A senhora quer descer até lá?
— Sim, eu vou... Preciso ver isso de perto. É a minha única chance de provar aos acadêmicos que nós não fomos os primeiros; que somos apenas uma peça em um mosaico gigantesco. Fique tranquila, não vou pedir que venha comigo, mas não tente me impedir.
— Negativo! Se acha que vou deixar você realizar a descoberta mais importante da história da raça humana sozinha, está redondamente enganada, professora... Com todo o respeito.
Com um leve sorriso de orgulho, Brey assentiu.
— Certo... Vamos fazer isso!
A três quilômetros abaixo do solo, erguia-se uma estrutura de dimensões titânicas. O local exibia hieróglifos antigos fundidos a uma tecnologia jamais vista: painéis de luz sólida em um tom azul vivo e reluzente.
— Vocês estão vendo isso? Luz sólida servindo como uma rede de informação — sussurrou Brey. — As pesquisas atuais para desenvolver algo próximo a isso ainda estão engatinhando!
— Professora, o que são esses símbolos? Parecem instruções, mas não consigo traduzi-los.
Brey aproximou-se do mural cujos hieróglifos remetiam às telas mais avançadas da contemporaneidade.
— Acho que... Sim! Na verdade, é um sistema de ativação.
A professora seguiu as instruções do painel, acionando uma câmara protegida por um campo de força. Ao ser desativado, uma luz branca intensa envolveu a equipe. Como se fossem transportados, a tumba em ruínas transformou-se em uma reluzente sala de controle extraterrestre.
— Olá... Vocês demoraram muito para chegar. Já estava perdendo a fé em sua espécie.
A voz ressoou de múltiplos pontos da câmara.
— Quem está falando? Quem é você? Ou melhor... o que é você? — perguntou Brey, com a voz trêmula.
— Ah, sim! Peço perdão pela minha indelicadeza. Acho que ficar quase vinte mil anos preso mexeu com meu senso de etiqueta — respondeu a voz, em um tom cordial e irônico. — Eu já fui chamado de vários nomes ao longo das eras: Prometeu, Thoth, Enki... Mas meu verdadeiro título é Érendil-388. Sou o que vocês chamam hoje de Inteligência Artificial de desenvolvimento e gerenciamento terrestre. Minha missão é ajudar a raça vigente, por ordem dos meus senhores, a evoluir com prosperidade. Neste caso, vocês, humanos.
Brey e Alice permaneceram perplexas. Anos de história precisariam ser reescritos naquele instante: os humanos não apenas deixavam de ser os pioneiros na tecnologia, como também confirmavam não estar sós no universo.
— Creio que essas informações sejam demais para assimilar em pouco tempo — continuou Érendil-388. — Afinal, vocês estão há milênios sem contato externo. Mas, se estiverem abertos ao que posso ensinar, a raça humana irá prosperar novamente como nos tempos ancestrais.
Brey, sem hesitar, deu um passo à frente:
— Por onde nós começamos?