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A Máscara

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Resumo

Um homem desperta em meio a lembranças fragmentadas, marcadas pelo desemprego, drogas, medo e paranoia. Enquanto sua memória desaparece, novas imagens surgem: uma floresta, um corpo que se move sobre quatro patas e uma estranha ausência de reflexo na água. Após enfrentar um crocodilo de forma instintiva, ele presencia uma cena perturbadora antes de despertar acorrentado em um porão em chamas. No local, encontra outro homem, vestido com um blazer, também preso. Estranhamente calmo, ele consegue romper as correntes e tenta conter o incêndio. O protagonista também consegue se libertar, ao custo de deslocar o próprio braço, e os dois trabalham juntos para escapar. Enquanto isso, Félix e Roberto chegam à residência enviados por um misterioso “mestre”. Félix percebe duas presenças dentro da casa. Ao investigá-la, encontram seis corpos brutalmente mutilados e concluem que uma grande criatura pode ter sido responsável pelo massacre. Seguindo o cheiro de fumaça, chegam ao porão e encontram os dois homens. Após libertá-los, os quatro deixam o local, ainda sem respostas sobre quem provocou o incêndio, o que aconteceu naquela casa ou a verdadeira natureza das duas presenças.

Gênero
Horror/Thriller
Autor
Lucas
Status
Em Andamento
Capítulos
1
Classificação
n/a
Classificação Etária
16+

Capítulo 1

Capítulo 1 - A Máscara: Correntes

Apenas algumas lembranças ainda ecoavam em sua mente: o recente desemprego, as drogas, o medo e as paranoias que haviam despertado nele um receio que há muito não sentia.

Eram fragmentos desconexos, que surgiam por alguns instantes antes de desaparecerem novamente.

Então, sem que percebesse, as lembranças começaram a se apagar.

Primeiro, os rostos perderam seus nomes. Depois, os lugares deixaram de possuir significado. Por fim, até mesmo as sensações começaram a desaparecer.

A escuridão avançava lentamente sobre sua memória. Porém, aos poucos, a escuridão começou a desaparecer.

Em seu lugar, novas lembranças surgiram. Uma floresta. Mata fechada, úmida e silenciosa.

Ele caminhava. Quando percebeu a própria postura, algo estava errado.

Suas mãos tocavam o chão. Seus braços sustentavam o peso do corpo. As pernas estavam curvadas, e seus movimentos eram baixos e rápidos.

Quatro patas. Por um instante, tentou se levantar, mas não conseguiu.

Aquilo parecia real demais. Então sentiu o cheiro.

Um odor forte, desconhecido, que atravessou seus pensamentos e despertou uma fome que não parecia pertencer a ele.

Seu corpo começou a se mover antes que pudesse decidir fazê-lo.

Seguiu o cheiro entre as árvores, atravessando a mata cada vez mais depressa, guiado apenas pelo instinto.

Até que a floresta terminou. Diante dele havia um enorme rio.

A água escura corria lentamente sob o céu carregado.

Ele se aproximou da margem. Inclinou a cabeça sobre a água e procurou seu reflexo.

Nada. A superfície do rio refletia as árvores, o céu e as nuvens distantes. Mas não refletia ele.

Recuou. Então ouviu um movimento na água.

Seus olhos voltaram para o rio. Do outro lado, dois olhos profundos observavam-no.

Um crocodilo. O animal avançou lentamente pela água, aproximando-se da margem.

Ele sentiu o coração acelerar. Quis recuar. Seu corpo, porém, decidiu outra coisa.

Num impulso, avançou. A água se agitou.

O crocodilo tentou reagir, mas ele já estava sobre o animal. Seus dentes encontraram o crânio, e uma força que não reconhecia como sua encerrou a luta quase imediatamente.

O corpo do crocodilo permaneceu imóvel sobre a superfície.

Ele ficou parado, respirando com dificuldade. Então um relâmpago rasgou o céu.

Por um breve instante, toda a floresta foi iluminada. A tempestade estava chegando.

Ele desviou os olhos. E foi então que percebeu. Havia algo na água.

Centenas de olhos. Olhos de crocodilos.

Espalhados pela superfície escura do rio, observando-o em absoluto silêncio.

Nenhum deles se movia. Todos estavam olhando para ele.

Então um novo relâmpago iluminou a margem.

E, entre as mandíbulas de um dos crocodilos, havia um pequeno lobo.

Então ele abriu os olhos. Um porão.

As paredes eram feitas de concreto antigo, manchado pela umidade. Alguns móveis velhos estavam espalhados pelo ambiente, cobertos por uma camada de poeira.

O cheiro de mofo úmido impregnava o ar.

Seus olhos ainda estavam turvos. Tentou se mover, mas uma dor súbita percorreu seus braços.

Correntes. Ele estava completamente preso.

As mãos estavam amarradas atrás do corpo, os pés igualmente presos por correntes grossas. Por alguns segundos, permaneceu imóvel, tentando compreender onde estava.

Então sentiu calor. Virou a cabeça.

Uma pilha de roupas havia começado a queimar.

As chamas cresciam rapidamente, alimentadas pelo líquido espalhado no chão. Próximo às roupas, alguns galões de gasolina estavam jogados de qualquer maneira.

O desespero tomou conta dele. Tentou puxar as correntes. Nada.

Tentou novamente. Nada.

— Tem alguém aí?

Sua voz ecoou pelo porão. Nenhuma resposta.

Ele olhou ao redor outra vez. Foi quando percebeu que não estava sozinho.

No outro lado do cômodo havia outro homem. Também estava acorrentado.

Vestia um blazer escuro, destoando completamente daquele ambiente, e tinha os cabelos cuidadosamente penteados para trás.

Por alguns segundos, parecia inconsciente. Então seu corpo começou a tremer. Convulsões.

O homem se contorcia violentamente contra as correntes, incapaz de controlar os próprios movimentos.

— Ei!

Nenhuma resposta. O fogo crescia atrás deles.

Sem outra alternativa, ele esticou as pernas o máximo que conseguiu e atingiu o homem com um chute.

O impacto fez o corpo dele pender para o lado.

Os olhos se abriram. Ele acordou.

Ao despertar, o homem olhou para as correntes que prendiam seus braços.

Tentou puxá-las. O metal rangeu.

Então, para a surpresa do jovem, as correntes simplesmente se romperam.

Ele permaneceu alguns segundos olhando para os próprios pulsos.

— Ei! Me ajuda aqui!

O pedido desesperado ecoou pelo porão. O homem não respondeu.

Apenas se levantou e caminhou em direção às chamas.

Com uma calma quase perturbadora, retirou o blazer e o lançou sobre o fogo, tentando sufocar as labaredas antes que alcançassem o restante do cômodo.

Não funcionou. As chamas continuaram crescendo por baixo do tecido.

— O que você está fazendo?! Me tira daqui!

O homem permaneceu em silêncio. O jovem voltou a olhar para as próprias correntes.

Puxou. Nada.

Tentou novamente, dessa vez usando os pés contra a parede para conseguir mais força.

O metal pressionou seus pulsos. Ele gritou. Tentou outra vez. A corrente resistiu.

Até que, em meio ao esforço, um de seus braços se deslocou violentamente.

Um grito de dor atravessou o porão. Mas estava livre.

Ele caiu para o lado, respirando com dificuldade, enquanto segurava o braço junto ao corpo.

Por alguns segundos, ficou imóvel. A dor era intensa demais para pensar.

Então levantou os olhos. Atrás das chamas havia uma escada. Uma possível saída.

Ainda tonto, retirou a própria jaqueta e avançou em direção ao fogo.

O homem de blazer continuava tentando sufocar aquelas chamas.

Sem dizer uma palavra, o jovem se juntou a ele.

Os dois trabalharam juntos, abafando as chamas pouco a pouco.

O calor diminuía. A fumaça começava a se dissipar.

Depois de algum tempo, o fogo finalmente perdeu força.

Restaram apenas brasas e uma espessa camada de fumaça pairando sobre o porão.

O jovem apoiou-se na parede, respirando pesadamente.

Olhou para o homem ao seu lado. Ele estava completamente calmo.

A noite parecia mais escura e densa do que de costume.

Um carro avançava lentamente por uma estrada deserta. Seus faróis cortavam a escuridão, revelando por alguns instantes árvores, cercas e placas abandonadas antes que tudo voltasse a desaparecer na noite.

Dentro do veículo, dois homens.

O motorista tinha cabelos longos, que caíam sobre os ombros. Ao lado dele, um homem de cabelos crespos limpava cuidadosamente uma pistola enquanto mordia um sanduíche.

No rádio, uma música country preenchia o silêncio da viagem.

Até que a residência surgiu no fim da estrada.

Grande. Completamente apagada.

O motorista reduziu a velocidade e estacionou diante do portão.

Assim que desligou o motor, a música desapareceu.

Restaram apenas os grilos. E, ao longe, o som dos corvos.

O homem de cabelos longos abriu a porta e colocou um pé para fora. Antes de sair, retirou os óculos e observou a residência.

— Então é aqui, não é?

O homem ao lado terminou de mastigar.

— Obedecer ao chamado, né? Espero que seja mesmo.

Ele saiu do carro logo depois e fechou a porta. Por alguns segundos, os dois permaneceram diante da casa.

— Você sabe quem nos chamou para cá?

O homem de cabelos crespos colocou a pistola no coldre preso à cintura.

— Nosso mestre me mandou.

Fez uma pausa.

— Mas ele não queria que eu viesse sozinho. Então chamei você.

O outro homem continuou olhando para a casa.

— Estranho.

— O quê?

Ele franziu a testa.

— Agora que chegamos...

Inspirou lentamente.

— Comecei a sentir duas presenças lá dentro.

O companheiro abriu um sorriso de canto.

— Duas?

— Duas.

O silêncio voltou a dominar o lugar. Então o homem de cabelos crespos ergueu levemente o rosto.

— E tem outra coisa.

— O quê?

Ele olhou para a residência.

— Um leve cheiro de fumaça.

O homem de cabelos longos levou discretamente a mão até o revólver.

— Roberto, eu vou averiguar o local.

Caminhou em direção à casa com a arma em mãos.

— Tem certeza de que quer entrar sozinho?

Roberto permaneceu próximo à porta.

— Eu sou curioso, você sabe.

Olhou para a residência.

— Mas você pode procurar outro caminho.


Roberto também sacou sua arma, uma pistola Colt 9mm.

— Certo. Eu vou logo em seguida.

O homem de cabelos longos aproximou-se da porta velha.

Um chute e a madeira cedeu com facilidade, abrindo passagem para um interior completamente escuro.

Ele entrou. Arma apontada para a frente.

Olhou para a esquerda. Depois para a direita.

Nada. Apenas o silêncio daquela casa abandonada.

Seguiu o cheiro de fumaça até encontrar uma porta entreaberta no fim do corredor. Aproximou-se e, usando o cano da arma, empurrou-a lentamente.

Silêncio. Então — CRASH!

O som de uma janela se quebrando ecoou pela casa.

Ele se virou imediatamente.

— Droga! Quem está aí?!

Ele correu intensamente em direção ao barulho.

— Merda...

Roberto estava caído no chão da cozinha, tendo entrado pela janela quebrada.

Levantou-se lentamente e limpou a roupa.

— Porra! O que pensa que está fazendo?

— Desculpa, cara. Essa porcaria de casa está caindo aos pedaços.

Os dois se entreolharam. Depois olharam para a cozinha.

O sorriso desapareceu do rosto de ambos. Havia corpos espalhados pelo cômodo.

Seis ao todo.

A cena parecia ter sido interrompida no meio de algum acontecimento terrível. Um garoto permanecia caído sob a mesa com o pescoço rasgado.. Uma mulher estava sentada contra a geladeira, completamente imóvel com a cabeça escalpelada. Três homens estavam amontoados sobre uma bancada quebrada.

E, parcialmente escondida sob a mesa, havia uma criança.

Roberto ficou em silêncio.

O homem de cabelos longos avançou alguns passos, tomando cuidado para não tocar em nada.

Seus olhos percorreram lentamente a cozinha.

— Nossa...

Ele respirou fundo.

— Que bagunça.

Abaixou a arma ligeiramente.

— Não toque em nada, Roberto.

— Roberto, analise esses corpos. Talvez eles possam nos dizer o que aconteceu aqui.

Roberto apenas assentiu.

Retirou um par de luvas de borracha do bolso e começou a examinar os corpos, um por um.

O silêncio voltou a pairar sob a cozinha. Alguns minutos se passaram.

Roberto permanecia ajoelhado diante de um dos cadáveres quando finalmente ergueu os olhos para aquele que observava tudo encostado na entrada.

— Félix.

— Encontrou alguma coisa útil?

Roberto ajustou os óculos.

— Nenhum deles possui dentes pontiagudos. E as marcas nos corpos são brutais demais. Os cortes são irregulares, sem qualquer padrão que indique uma arma branca.

Félix permaneceu atento.

— E o que você acredita que aconteceu aqui?

Roberto voltou a observar os ferimentos.

— Pelas marcas profundas de mordidas e pelos arranhões, eu diria que algum tipo de animal atacou essas pessoas.

Ele fez uma pausa.

— Uma besta grande.

Roberto apontou para a janela quebrada.

— Mas não parece ter permanecido aqui por muito tempo. Talvez não estivesse com fome suficiente para continuar.

Félix estreitou os olhos.

— Você acha que fugiu por ali?

— É a minha hipótese.

Roberto apontou para a parede próxima à janela. Havia marcas de sangue escorrendo pela superfície até o chão.

— Seja o que for, deixou isso quando saiu.

Félix observou as marcas por alguns segundos. Depois voltou o olhar para o corredor.

O cheiro de fumaça ainda permanecia no ar.

— E o porão?

Roberto retirou uma das luvas.

— O cheiro está vindo de lá. Acho melhor averiguarmos com cautela.

Félix sorriu discretamente.

— Certo. Eu vou primeiro.

Sacou o revólver.

— Se acontecer alguma coisa, você aparece como surpresa.

Roberto soltou um suspiro.

— Idiota.

Félix caminhou lentamente até a porta entreaberta.

Parou diante dela. A casa permanecia silenciosa.

Então empurrou a porta com o cano do revólver e começou a descer em direção ao porão.

Félix desceu cuidadosamente a escada. Ela parecia mais longa do que deveria.

A cada degrau, o cheiro de fumaça se tornava mais forte. Então avistou dois homens.

Estavam próximos ao centro do porão, tentando apagar os restos do incêndio com os pés.

Félix ergueu imediatamente o revólver.

— Que porra é essa? O que vocês estão fazendo aqui?

O homem mais franzino levantou as mãos. Ainda segurava a dor do braço deslocado junto ao corpo.

— Calma. Eu também não sei.

— Vocês colocaram fogo aqui?

— Não!

— Então quem colocou?

O outro homem permaneceu em silêncio.

Era mais robusto que o companheiro, embora não de maneira exagerada. Seus cabelos estavam penteados para trás e o blazer, agora chamuscado, permanecia parcialmente sobre os ombros.

Ele levantou as mãos. Não em sinal de rendição.

Apenas para mostrar as correntes que ainda estavam presas aos seus pulsos.

Mesmo quebradas, continuavam penduradas em seus braços.

— Eu que pergunto...

Foi a primeira coisa que disse. Félix estreitou os olhos.

Nesse momento, Roberto apareceu no topo da escada.

— Que barulho é esse, Félix?

Félix não abaixou a arma. Apenas tocou Roberto com o ombro.

— Vai lá. Com cuidado.

Apontou para as correntes.

— Tira isso deles.

Roberto desceu os últimos degraus e se aproximou dos dois homens.

Usando a coronha da arma, golpeou as correntes restantes até que finalmente se partissem.

Os dois estavam livres. Roberto se levantou.

— Só existem vocês dois aqui?

O homem de cabelos penteados olhou para ele.

— Até onde sabemos, sim.

— E o que aconteceu?

O homem mais franzino abriu a boca, mas foi interrompido.

— Estávamos pres... — respondeu o outro. — Acho que isso já explica bastante coisa.

Félix soltou uma risada curta.

— Você, engomadinho.

Apontou discretamente para o blazer.

— É o dono dessa casa?

O homem olhou para a própria roupa chamuscada. Depois voltou os olhos para Félix.

— Eu estava preso.

Fez uma pausa.

— Se não percebeu, eu estava preso aqui.

Roberto entrou entre os dois.

— Certo. Já c

hega.

Olhou para a escada.

— Por enquanto, o mais importante é sairmos daqui.

Félix franziu a testa.

— E deixamos tudo assim?

— Se a polícia aparecer enquanto estamos aqui, teremos muito mais perguntas para responder.

Roberto lembrou dos corpos que estavam no andar superior.

— E, sinceramente, acho que ainda não temos respostas suficientes.

O silêncio tomou conta do porão. Por alguns segundos, ninguém se moveu.

Então Roberto apontou para a escada.

— Vamos.

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