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Resumo

De um lado, Clara. Uma fotógrafa que chegou ao Rio em busca de um recomeço. Do outro, Helena. Uma mulher enigmática, impossível de ignorar e difícil de decifrar. Depois da meia-noite, coisas estranhas começam a acontecer. Entre desejo, medo e segredos que deveriam continuar enterrados, duas mulheres se conectam e descobrem que nem todo encontro acontece por acaso. Porque algumas histórias de amor não começam com um encontro. Começam com um segredo.

Status
Em Andamento
Capítulos
1
Classificação
n/a
Classificação Etária
18+

A Partida

03:07.

Clara fechou a última mala.

Olhou ao redor.

Duas malas. Uma mochila. Sua câmera.

Era tudo o que levaria.

Pegou a câmera e conferiu a bateria.

Cheia.

O cartão de memória, vazio.

Perfeito.

Quando não sabia o que fazer com alguma coisa, Clara fotografava.

Naquela noite, porém, não conseguiu fotografar nada.

Havia coisas que ela preferia deixar apenas na memória.

Pegou as malas.

Antes de sair, olhou uma última vez para o quarto.

— Até qualquer dia.

Fechou a porta.

Um relincho veio do lado de fora.

Clara parou.

— Eu sabia.

Caminhou até o cercado.

Apolo levantou a cabeça assim que a viu.

— Oi, amigão.

Ele se aproximou.

Clara passou a mão pelo focinho dele.

— Você sabe que eu vou embora, né?

Apolo soltou um sopro.

— Também acho injusto.

Ela sorriu.

Apolo estava com ela desde pequena.

Tinha sido companhia nos dias bons, nos ruins e até naqueles em que Clara não queria conversar com ninguém.

Ela encostou a testa na dele.

— Cuida deles por mim.

Os olhos dela se encheram de lágrimas.

— E não deixa ninguém ocupar meu lugar.

Apolo bufou.

Clara riu pelo nariz.

— Convencido.

Deu um beijo no focinho dele.

Ficou ali mais alguns segundos.

Depois se afastou.

Se demorasse mais, talvez não conseguisse ir.

Quando entrou em casa, encontrou os avós na cozinha.

A avó colocou uma xícara de café na frente dela.

— Come.

— Bom dia para você também.

— Bom dia. Agora come.

Clara sorriu e se sentou.

Por alguns minutos, falaram de coisas pequenas.

A viagem.

O tempo.

Apolo.

Até que o avô perguntou:

— Você tem certeza?

Clara ficou em silêncio.

— Tenho.

— Rio é longe.

— Eu sei.

— E você não conhece ninguém lá.

Clara ergueu os olhos.

— Ainda.

O avô deixou escapar um pequeno sorriso, triste.

— Essa resposta parece sua.

Ela abaixou o olhar.

Não tinha todas as respostas.

Na verdade, tinha muito poucas.

Só sabia que precisava ir.

Precisava de distância.

Precisava respirar.

Precisava tentar construir uma vida que fosse sua.

A avó segurou sua mão.

— Quando quiser voltar, você volta.

Clara assentiu.

— Eu sei.

A avó hesitou antes de continuar.

— E quando quiser contar...

Clara levantou os olhos.

Não respondeu.

Apenas assentiu com a cabeça.

O avô se levantou e a puxou para um abraço.

Clara fechou os olhos.

Poucos segundos depois, a avó se juntou aos dois.

E foi ali, entre os braços deles, que Clara finalmente sentiu o peso da partida.

Não era o Rio.

Não era a viagem.

Era deixar para trás as pessoas que sempre tinham sido seu lugar seguro.

Quando se afastou, limpou rapidamente o rosto.

— Eu vou ficar bem.

A avó sorriu.

— Eu sei que vai, Clarinha.

Aquele apelido doeu mais do que ela esperava.

Clara sorriu.

— Eu amo vocês.

— Nós também.

Ela pegou as malas.

Dessa vez, não olhou para trás.

Às 06:18, Clara entrou no ônibus.

Escolheu a janela.

Colocou a mochila no colo e segurou a câmera contra o corpo.

Quando o ônibus começou a andar, olhou para trás.

Os avós ainda estavam lá.

Acenando.

Clara levantou a mão.

Ficou olhando até eles desaparecerem de vista.

Só então abriu a carteira.

A fotografia dos dois estava ali.

Passou o polegar sobre a imagem.

Por alguns segundos, apenas ficou olhando.

Depois guardou a fotografia junto ao peito e encostou a cabeça no vidro.

O ônibus continuou seguindo pela estrada.

Clara não fazia ideia de para onde aquela decisão a levaria.

Só sabia de uma coisa:

não podia mais voltar para onde estava.