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O PESO DO SILÊNCIO.

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Resumo

Caroline Brigitte Müller carrega um silêncio que pesa mais do que as palavras que nunca ousou dizer. Filha de uma família de origem alemã estabelecida no sul do Brasil, ela cresceu cercada por expectativas rígidas — e por segredos que foram enterrados sob o medo de quebrar a harmonia que todos fingiam existir. Calada, observadora, ela aprendeu a guardar dores e desejos no fundo da alma, até que um encontro inesperado abala tudo o que ela acreditava ser seu destino. Pedro Synx é a voz que ela passou a vida inteira esperando — e a que mais teme ouvir. Intenso, destemido e acostumado a enfrentar a verdade de frente, ele vê em Caroline algo que ninguém mais percebeu: uma mulher aprisionada ao próprio silêncio. Quando seus caminhos se cruzam, surge uma conexão imediata, feita de olhares e de tudo o que ainda não foi dito. Mas cada passo em direção ao outro também os aproxima de verdades que podem destruir os dois. Ao redor deles, vidas entrelaçadas tecem uma rede de sentimentos, escolhas e consequências

Status
Em Andamento
Capítulos
4
Classificação
n/a
Classificação Etária
16+

Chapter 1 O Silêncio que Habito

O vento soprava frio pelas ruas de Itaquirai, trazendo consigo o cheiro de chuva prestes a cair e o murmúrio distante do rio que corta a cidade. Mas dentro daquela casa de paredes claras e janelas sempre fechadas, o silêncio era mais denso, mais pesado — quase uma terceira presença.


Eu, Caroline Brigitte Müller, estava sentada à janela, os dedos traçando sem querer a mesma linha na madeira do parapeito. A família Müller não falava muito. Nós aprendíamos a calar antes mesmo de aprender a falar. “Guarde para si, Caroline. O que se diz, se quebra.” Era a frase que ouvira desde criança, gravada em cada olhar severo, em cada jantar sem palavras. Eu carregava segredos nos ossos, e eles pesavam mais do que qualquer palavra poderia pesar.


Um som de motor quebrando o silêncio. Um carro parou em frente ao portão. Não era um carro que eu conhecia.


Meu coração deu um salto, e eu me afastei um pouco da janela, mas não o suficiente para deixar de ver. O motorista saiu: alto, ombros largos, cabelo escuro bagunçado pelo vento. Ele olhou para a casa, e por um instante tive a impressão de que seus olhos castanhos encontraram os meus, mesmo através do vidro. Havia nele uma intensidade que doía de olhar. Como se ele conseguisse ver tudo o que eu escondia.


Pedro Synx. O nome veio à minha mente sem que eu soubesse de onde, como se sempre tivesse estado ali, esperando para ser pronunciado. Ele não parecia alguém que pertencia àquele lugar calmo e contido. Parecia tempestade em pessoa.


— Você não deveria ficar espiando, Caroline. — A voz veio de trás, baixa e familiar. Era Amanda Gouveia, minha melhor amiga desde os sete anos, a única que sabia ouvir o meu silêncio. Ela entrou no quarto, fechando a porta com cuidado. — É ele, não é? O homem de que você falou… sem falar.


Eu apenas acenei, engolindo em seco. Minha garganta sempre ficava apertada quando o assunto era ele.


— Ele veio falar com o seu pai. — Amanda aproximou-se, os olhos cheios de preocupação. — E eu vi o jeito que ele olhou para você quando entrou. Caroline… cuidado. Pessoas assim não ficam quietas. Elas fazem perguntas. E perguntas aqui… são perigosas.


Eu sabia disso melhor do que ninguém. Mas quando a porta da frente abriu e ouvi a voz dele — grave, firme, sem qualquer hesitação — senti que algo dentro de mim se partia ao meio. Metade queria correr, a outra metade queria finalmente ser ouvida.


Desci as escadas devagar, cada passo uma luta contra o próprio instinto. Na sala de estar, Carlos Vitor já estava ali, de pé, as mãos entrelaçadas nas costas. Ele olhou para mim com aquele olhar doce e triste que sempre tinha, como se carregasse um peso que não era seu, mas que aceitou levar. Ele amava-me, eu sabia. E nunca me disse. Outro silêncio.


— Caroline. — Chamou-me meu pai, rígido como sempre. — Este é Pedro Synx. Veio tratar de assuntos da propriedade.


Pedro virou-se para mim. E quando seus olhos pousaram em mim, o mundo pareceu diminuir de velocidade.


— Prazer, Caroline. — Ele disse meu nome devagar, como se estivesse provando cada sílaba. — Eu ouvi muito sobre você.


Minhas bochechas queimaram. Eu não conseguia falar. Nunca conseguia. Mas ele não desviou o olhar. Não olhou para mim como se eu fosse quebrar, como se eu fosse frágil. Olhou como se estivesse esperando que eu falasse. Como se eu tivesse algo importante a dizer.


— Ela é… reservada. — Interrompeu Gabriel Hertevt, que surgiu na porta com um sorriso meio torto, sempre observando tudo de canto de olho. — Não é de muitas palavras, nossa Caroline.


— Talvez ninguém nunca tenha dado motivos para falar. — Rebateu Pedro, baixo, mas firme.


E então veio a risada seca, direta, sem rodeios, de Matheus Kelor, que estava encostado na parede, calado até então.


— E lá vamos nós. — Disse ele, cruzando os braços. — Mais um que acha que pode quebrar o gelo. Cuidado, Synx. O gelo aqui é grosso. E quando racha… afunda todo mundo.


Ninguém respondeu. Mas eu senti. Todos ali carregavam alguma coisa não dita. Todos estávamos presos na mesma teia de silêncios, segredos e escolhas que já não podíamos desfazer. E naquele instante, eu soube: a minha vida de calada tinha acabado. Não havia mais volta. O silêncio pesava — mas talvez a verdade doesse mais, e fosse a única coisa que poderia me libertar.


O vento bateu forte na janela, e a primeira gota de chuva escorreu pelo vidro. Pedro ainda me olhava. E pela primeira vez em toda a minha vida, eu quis falar. Quis gritar. Quis quebrar tudo.


Mas eu apenas baixei os olhos. E continuei em silêncio. Por enquanto.

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