Naitra Deka

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Resumo

## **Parques de Sangue: O Último Turno** No abandonado Parque Maravilha, Felizardo, um coelho de pelúcia condenado a manter o parque aberto, encontra em Tito, um urso que abriga quatorze crianças mortas, seu único aliado. Quando Mascotes Horrors expulsos de seus próprios territórios procuram refúgio entre os brinquedos enferrujados, o parque se transforma no último abrigo de criaturas perseguidas pelas Creepypastas. Mas a trégua não dura. Duas entidades surgem na névoa exigindo a entrega da Estação Estrela, dos refugiados e de uma criatura misteriosa escondida em uma cápsula. Felizardo se recusa - e declara guerra. Agora, três Creepypastas estão a caminho. O parque terá apenas três noites para se preparar. Porém, enquanto os monstros erguem suas defesas, uma pergunta começa a ecoar pelos corredores: **se o inimigo já entrou, quem abriu o portão?**

Gênero
Horror
Autor
Jixizar
Status
há um dia
Capítulos
4
Classificação
n/a
Classificação Etária
18+

CONFISSÃO DE UM COELHO**

# **PARQUES DE SANGUE: O ÚLTIMO TURNO**

### Gênero

**Monstrocentrismo - Terror simbiótico, ação sobrenatural e drama bestial**

### Premissa

Durante trinta e sete anos, Felizardo acreditou que o Parque Maravilha ainda estava aberto. Toda noite de lua cheia, ele acende as luzes, movimenta o carrossel e recebe visitantes que não existem.

Mas, certa madrugada, alguém bate à porta do parque.

Não são humanos.

É **Marlowe Vess, o Homem da Creche**, uma entidade que substitui crianças por cópias perfeitas e transforma memórias infantis em armas. Ao descobrir que o parque abriga as almas das quatro crianças mortas no acidente de 1988, Marlowe decide tomar o local para si.

Para impedir a invasão, Felizardo precisará abandonar a fantasia de que ainda é um animador inocente. O parque não é mais uma atração. É uma criatura ferida. E ele é seu vigilante.

Enquanto os Mascotes Horrors tentam formar uma aliança contra as Creepypastas, uma criatura-aracnídea começa a gestar algo dentro de uma antiga casa de madeira. Um vendedor ambulante enlouquecido carrega, sem saber, a chave de um crime capaz de enriquecer monstros e humanos. E, além da neblina, um castelo abandonado observa tudo como se tivesse fome.


## **ARCO DO PRIMEIRO VOLUME**

1. **O último turno** - Marlowe chega ao Parque Maravilha.

2. **A música dentro do armário** - Crianças desaparecem nas cidades próximas.

3. **O mascote e o vigilante** - Felizardo descobre que não está sozinho.

4. **A casa de madeira** - Surge a superorganismo aracnídea conhecida como **Mãe-Fio**.

5. **O crime acidental** - O mascote rouba algo que pertence às Anomalias.

6. **O iate no lago morto** - A primeira batalha contra uma criatura sem rosto.

7. **A gravidez impossível** - Mãe-Fio começa a gerar uma entidade que pode consumir o parque.

8. **O castelo de Cinderbrook** - Marlowe revela sua verdadeira origem.

9. **A hora de ir embora** - Felizardo precisa escolher entre manter o parque vivo ou libertar as crianças.

10. **Conselho aos que escutam a música** - O fim do primeiro volume.


# **CAPÍTULO 1 - CONFISSÃO DE UM COELHO**

Eu roubei uma cidade inteira.

Não foi de propósito.

Se tivesse sido, talvez eu lembrasse de alguma coisa. Um plano. Uma intenção. Uma vontade de fazer mal. Mas minha cabeça é cheia de músicas antigas, nomes apagados e vozes que chegam sempre meio segundo atrasadas.

Então, quando a cidade desapareceu, eu pensei que fosse apenas mais uma apresentação.

O nome da cidade era Cinderbrook.

Eu sabia disso porque os ingressos diziam:

**PARQUE MARAVILHA - VISITA ESPECIAL - CINDERBROOK - 3H13 DA MANHÃ.**

Os ingressos estavam molhados, embora não chovesse dentro do meu estômago.

Eu os guardei junto dos outros objetos.

Uma presilha azul.

Um relógio de pulso sem ponteiros.

Um sapato infantil.

Uma fotografia queimada nas bordas.

Quatro dentes de leite.

E uma pequena caixa de música que eu nunca tinha visto antes.

Ela tocava sozinha.

Sempre a mesma melodia.

Três notas.

Uma pausa.

Mais três notas.

Depois, um som parecido com alguém tentando respirar através de água.

Eu não gostava daquela caixa.

Mas o parque gostava.

O carrossel começou a girar assim que a caixa apareceu.

Os cavalos de madeira levantaram as cabeças. Seus olhos pintados se abriram em rachaduras finas. As lâmpadas do teto piscaram em sequência, formando uma palavra na neblina:

**BEM-VINDO.**

- Boa noite, visitantes! - anunciei.

Minha voz saiu pela boca costurada, atravessou a praça e voltou de trás das árvores.

- Boa noite, visitantes! - repetiu a minha própria voz.

Depois, uma voz de criança respondeu:

- A gente nunca foi embora.

Fiquei imóvel.

O meu sininho não tocou. Fazia trinta e sete anos que ele não tocava. Apenas chiava quando eu respirava.

- Isso não está no roteiro - falei.

Do outro lado do portão, alguém bateu três vezes.

Toc.

Toc.

Toc.

Não na madeira.

No interior do portão.

Inclinei a cabeça. Minhas orelhas giraram para trás, devagar, procurando o som. Atrás de mim, a roda-gigante parou no alto. Os carrinhos vazios balançaram como dentes.

Bateram de novo.

Toc.

Toc.

Toc.

- Senhor visitante, o parque está fechado - avisei.

- Não está - respondeu uma voz infantil.

Era a voz de uma menina.

Uma voz que eu conhecia.

Lila.

A menina não tinha visitado o Parque Maravilha. Pelo menos não enquanto estava viva.

Eu sabia disso porque a voz dela vinha de todos os alto-falantes do parque ao mesmo tempo.

- O parque está esperando - disse ela.

As lâmpadas se acenderam.

Uma por uma.

Primeiro a bilheteria.

Depois o túnel do terror.

Depois a barraca de algodão doce.

Por último, a placa enferrujada na entrada:

**PARQUE MARAVILHA - ONDE A DIVERSÃO NUNCA TERMINA.**

Atrás do portão havia um homem.

Ele era alto, embora parecesse pequeno. Tinha a pele branca como papel molhado, cabelos pretos cortados em forma de tigela e olhos completamente negros. Vestia um cardigan cinza manchado e carregava uma caixa de música de madeira.

Nenhuma sombra acompanhava seus pés.

- O senhor tem ingresso? - perguntei.

Ele sorriu.

Todos os seus dentes eram pequenos demais.

Dentes de bebê.

- Eu não preciso de ingresso, Felizardo.

Meu nome dentro da boca dele fez minhas articulações rangerem.

- Os funcionários também pagam.

- Você não é funcionário.

- Sou o animador principal.

- Você é o último.

A palavra entrou no meu corpo como uma agulha.

O último.

Fiquei muito quieto.

Atrás de mim, o carrossel acelerou. Os cavalos começaram a correr em círculos, embora não houvesse música saindo deles. A madeira das criaturas estalava. Um dos cavalos abriu a boca e revelou fileiras de pregos.

Marlowe olhou para o brinquedo.

- Quatro crianças morreram aqui.

- Quatro visitantes tiveram uma experiência ruim - corrigi.

- Você ainda mente para eles?

- Menti durante o primeiro show. Posso mentir durante o último.

Ele abriu o portão sem tocá-lo.

O ferro enferrujado se afastou como se estivesse assustado.

Marlowe entrou no parque.

Na mesma hora, todas as luzes se apagaram.

Eu congelei o tempo.

Por três segundos, nada se moveu.

A neblina parou no ar. Uma gota de água ficou suspensa diante do meu olho de botão. O corpo de Marlowe permaneceu inclinado, mas seus olhos continuaram acompanhando-me.

Ele conseguia se mexer.

Isso era contra as regras.

Quando o tempo voltou, eu já estava no topo da roda-gigante.

Marlowe estava sentado no banco abaixo de mim.

- Você não deveria poder fazer isso - falei.

- Nem você.

A caixa de música em suas mãos começou a tocar.

Três notas.

Uma pausa.

Três notas.

Meu estômago se contraiu. Os objetos guardados dentro da espuma bateram uns nos outros.

A presilha.

O relógio.

O sapato.

Os dentes.

Tudo queria sair.

Eu saltei da roda-gigante e caí sobre o teto da barraca de tiro ao alvo. A estrutura desabou. Bonecos de palha se levantaram, ainda segurando seus rifles de brinquedo.

- Protejam os visitantes! - ordenei.

Eles dispararam.

As balas eram rolhas, mas tinham dentes.

Marlowe não desviou.

As rolhas atravessaram seu corpo.

Por um instante, vi apenas o interior da barraca atrás dele. Depois, seu corpo reapareceu junto à entrada do labirinto de espelhos.

Ele levantou um dedo.

Todos os bonecos de palha viraram o rosto para mim.

- Você não entende - disse ele. - Eu não vim matar seus visitantes.

- Então veio fazer o quê?

- Substituí-los.

O parque inteiro gemeu.

Não era um som de metal. Nem de madeira. Era o ruído de uma garganta enorme acordando debaixo da terra.

O chão rachou entre os brinquedos. Das fendas surgiram mãos pequenas, feitas de cera, segurando pedaços de brinquedos antigos.

Carrinhos.

Bonecas.

Balões desinflados.

As quatro crianças.

Eu não conseguia ver seus rostos. A luz do meu olho humano tremia, e meu sorriso costurado repuxava meu focinho.

- Não - murmurei.

Marlowe abriu a caixa de música.

Dentro dela não havia mecanismo.

Havia um quarto.

Um quarto pequeno, com papel de parede azul e uma cama vazia.

- Elas estão cansadas de esperar - afirmou ele. - Posso dar a elas novos corpos.

- Elas já têm corpos.

- Não têm.

- Têm o parque.

- O parque é uma prisão.

Atrás de mim, o carrossel parou.

Essa foi a primeira vez em trinta e sete anos.

Senti os olhos das quatro crianças sobre minhas costas.

Elas não disseram nada.

Mas eu escutei.

**Felizardo, você prometeu que o passeio nunca acabaria.**

Eu havia prometido.

Promessas são coisas perigosas. Especialmente quando feitas por adultos usando fantasias grandes demais.

Marlowe atravessou o labirinto de espelhos.

Eu o segui.

Cada reflexo mostrava uma versão diferente de mim.

Em um, eu era Elias, o animador de vinte e seis anos, com o uniforme limpo e o rosto cansado.

Em outro, eu era apenas uma fantasia vazia caída sobre o chão do carrossel.

Em outro, eu era uma criança usando uma cabeça de coelho grande demais.

No último espelho, aparecia uma criatura enorme, cheia de patas, pendurada sobre uma casa de madeira.

Ela tinha uma barriga redonda, coberta por fios brancos. Dentro da barriga, algo se mexia.

A criatura olhou para mim através do espelho.

Eu olhei de volta.

Então ela sussurrou:

- Não deixe nascer.

O espelho explodiu.

Marlowe estava atrás de mim.

Suas mãos compridas seguraram meus ombros. Os dedos terminavam em pontas lisas, sem unhas.

- Você viu o castelo? - perguntou.

- Vi uma casa.

- É a mesma coisa, quando se está desesperado.

Ele puxou meu corpo para trás. Minha cabeça bateu no chão. O plástico do meu rosto rachou. O olho humano piscou fora de ritmo.

Marlowe se inclinou.

- Você sabe por que as crianças ficam aqui?

- Porque gostam do parque.

- Porque você as mantém aqui.

Puxei seus braços.

Eram finos, mas pesavam como vigas.

- Elas não podem ir embora.

- Por quê?

- Porque, quando as pessoas vão embora, o parque fecha.

- O parque já fechou.

- Não.

Minha voz saiu como uma gravação antiga.

- Não fechou.

Marlowe levantou a tesoura enferrujada.

Foi quando o carrossel voltou a tocar.

A melodia de encerramento.

A música que me paralisava.

Meu corpo inteiro endureceu. As pernas travaram. As orelhas caíram. A mandíbula permaneceu aberta num sorriso que já não parecia educado.

Marlowe virou-se para o carrossel.

- Você está usando sua própria fraqueza contra si mesmo?

Não fui eu.

O parque havia aprendido.

A música cresceu.

As tábuas do carrossel se abriram, revelando engrenagens cobertas de pelos, olhos e dedos. Os cavalos de madeira saltaram dos trilhos. Cada um carregava no lombo uma criança feita de sombra.

Marlowe recuou.

Pela primeira vez, pareceu irritado.

- Isso não é permitido.

O cavalo mais próximo abaixou a cabeça e o atingiu no peito.

Marlowe atravessou três barracas, uma parede e a antiga loja de lembranças. Quando se levantou, seu corpo estava torto. Os joelhos dobravam para dentro. A cabeça pendia para o lado.

Ele sorriu.

- Muito bem.

A caixa de música fechou-se sozinha.

Os sons pararam.

As crianças de sombra desapareceram.

O parque ficou silencioso.

Marlowe olhou para mim.

- Voltarei amanhã.

- O parque não abre amanhã.

- Não para você.

Ele caminhou até o portão.

Antes de sair, bateu três vezes no lado de dentro da cabine de controle.

Toc.

Toc.

Toc.

Depois desapareceu.

Eu permaneci imóvel até a música terminar.

Quando finalmente pude me mexer, encontrei algo no chão.

Um ingresso.

Não era do Parque Maravilha.

Era branco, sem desenho, com uma única frase escrita à mão:

**A PRIMEIRA CRIANÇA JÁ ESTÁ DENTRO.**

Então ouvi um choro vindo da barraca de algodão doce.

Fiquei com medo de olhar.

O cheiro doce chegou antes.

Algodão doce novo.

Minha cabeça girou. As luzes se transformaram em riscos. A praça ficou inclinada. O chão parecia subir pelas paredes.

Ainda assim, caminhei até a barraca.

Atrás do balcão havia uma menina.

Ela vestia um pijama azul.

Seu rosto estava virado para a máquina parada.

- Você está perdida? - perguntei.

Ela não respondeu.

- O parque está fechado.

- Meu pai disse que não.

- Seu pai tem ingresso?

A menina virou-se.

Os olhos eram completamente negros.

Ela segurava a caixa de música de Marlowe.

- Felizardo - disse, usando a voz de Lila. - Você vai me deixar entrar?

Meu sininho chiou.

Dentro da minha barriga, o pequeno sapato infantil começou a bater contra a espuma.

Uma vez.

Duas.

Três.

A menina sorriu.

- Você prometeu que a diversão nunca acabaria.

Foi então que entendi meu crime.

Eu havia roubado uma cidade inteira, sim.

Mas não com minhas mãos.

Durante trinta e sete anos, todas as pessoas que ouviram a música, viram as luzes ou receberam um ingresso deixaram alguma coisa no parque. Uma memória. Um nome. Um medo. Um filho.

E eu guardei tudo.

Sem saber.

Eu era um mascate irracional, vendendo diversão para mortos e desespero para vivos. Cada ingresso que entregava fazia o parque crescer. Cada visitante que eu convencia a ficar alimentava as coisas enterradas sob o carrossel.

Marlowe não queria apenas as crianças.

Ele queria o que o parque havia acumulado.

A cidade inteira.

As lembranças.

Os desaparecidos.

A fome.

E, talvez, a criatura da casa de madeira que ainda não havia nascido.

A menina estendeu a caixa de música.

- Dê corda para mim.

Eu olhei para o carrossel.

Quatro sombras estavam sentadas nos cavalos.

Dessa vez, consegui ver seus rostos.

Elas não estavam zangadas.

Estavam cansadas.

- Não - falei.

Minha voz não ecoou.

Pela primeira vez, o parque não repetiu minhas palavras.

A menina inclinou a cabeça.

- O que você disse?

Apertei os punhos. A ferrugem rangeu dentro dos meus braços.

- O show acabou.

As lâmpadas se apagaram.

O carrossel parou.

A menina começou a chorar usando dezenas de vozes diferentes.

Eu permaneci diante dela, tremendo, enquanto o parque inteiro prendia a respiração.

Naquela noite, pela primeira vez desde 1988, Felizardo não tentou entreter ninguém.

Ele fechou os portões.

E deixou as crianças dormirem.

Mas, do lado de fora, na estrada abandonada, Marlowe Vess já caminhava em direção à cidade.

A cada passo, uma casa antiga acendia suas luzes.

A cada casa, uma criança acordava.

E, em algum lugar além da neblina, uma criatura grávida de aranhas abriu os olhos dentro de um castelo que não deveria existir.

Meu conselho é simples:

Se você ouvir três batidas dentro do armário às 3h13 da manhã, não responda.

Se uma caixa de música aparecer em seu quarto, não dê corda.

E, acima de tudo, se um coelho de pelúcia oferecer um ingresso para o Parque Maravilha, agradeça com educação.

Depois corra.

Não porque ele queira machucar você.

Mas porque ele ainda acredita que o passeio precisa continuar.