Prólogo
Tentaram me contatar na noite anterior, mas foi em vão. Na noite escura e chuvosa ouvi três batidas rápidas na janela do quarto C-347. O quarto não era grande, cabiam nele duas beliches, uma cômoda de roupas, uma dúzia de objetos pessoais e duas jovens assustadas. De relance vejo Jorge pelo reflexo da janela. Ele faz o sinal. Eu vejo, mas não quero acreditar. Ele faz novamente, e não me resta nada além de lentamente me esgueirar da cama, descendo devagar até pousar nas pontas dos pés. Não posso ser ouvida.
Minha colega de quarto dorme profundamente no beliche ao lado. Hoje ela teve exames e deve estar exausta. No exame, o resultado deste mês alegou infértil. Essa palavra nos assombra, significa: desqualificada, indigna, infrutífera. Ann tem 28 anos e muito a se preocupar, mas não tanto quanto eu esta noite. Abro a janela do mesmo tamanho da minha coragem e espero.
— Você tem que vir comigo agora — disse Jorge. — Você foi selecionada.
— Não posso confiar em vocês. Vocês são piores. Eu ouvi os supervisores comentando entre eles — respondi.
— Essa é uma escolha sua. Já estou me arriscando demais: ou você vem ou fica.
Mas, neste momento, ouviu passos vindos do corredor, e tive só o tempo suficiente de fechar a janela quando, de repente, irrompessem pela porta duas figuras militarizadas.
— Venha conosco, Teresa.
E, enquanto Jorge sumia na escuridão da noite e Ann acordava num sobressalto, eu assenti e segui aqueles homens de passos pesados e armas empunhadas. Estavam me levando até o escritório principal. A última vez que estive lá foi quando eu e Ann roubamos biscoitos da cozinha. “O açúcar diminuirá suas chances de engravidar”, praguejou a diretora. “Isso não voltará a acontecer sob minha gestão.” E foi assim que ficamos mais de um ano sem sequer ver um grão de açúcar. Isso foi há tanto tempo. Chegamos e encontro a diretora Adelaide com a mesma rigidez de sempre, mas havia algo diferente em seu olhar.
— Obrigada, rapazes, podem ir. Eu sigo de agora em diante — ela anunciou.
Eles se retiraram e só ficamos eu e ela. O escritório era belamente decorado, com grandes estantes de madeira e uma escrivaninha feitas da mesma madeira escura e maciça. Um tapete de linho cru trespassava todo o ambiente. Fotos de antigas residentes felizes com bebês a tiracolo enfeitavam as paredes.
— Minha querida, você foi selecionada — disse a diretora. Creio que já saiba o que acontece agora.
— Quando vai começar? — Eu finalmente consegui perguntar.
— Depois de amanhã acredito que já vai estar totalmente acomodada no seu novo lar. Você tem direito a falar uma última vez com a Silene, se despedir das suas colegas, arrumar suas malas e partir. Um Defensor irá te acompanhar no trem até o seu destino.
— Quantos são? — Eu perguntei, ganhando então um pouco de confiança.
— Uma vez que você engravidar poderá voltar para cá e... — Ia falando a diretora Adelaide.
— Quantos? — Insisti.
— Teresa, você foi selecionada à província de Thrillbone, onde residirá até conseguir ter uma concepção bem-sucedida. Seus exames atestaram a sua maior taxa de fertilidade já registrada e, além disso a sua compatibilidade genética com os indivíduos selecionados atestam uma grande capacidade de sucesso. Eu chequei pessoalmente as credenciais dos envolvidos, você estará segura. Além do mais, é uma residência belíssima, próxima ao...
— Qual é a porcentagem? — perguntei.
— 34% — respondeu Adelaide.
— Quantos?
— São 3 homens. — Adelaide suspirou. — Todos estáveis e com bons históricos. Já começaram o processo deles. Já está amanhecendo, Teresa. É melhor você arrumar suas coisas e se despedir das suas colegas. O trem sai às 7:40.
E então eu não tinha mais nada a dizer. Era isso, havia sido selecionada para procriar com 3 homens aleatórios por causa de alguns gráficos matemáticos e um chefe de estado que decidiu estatizar meu sistema reprodutor. Nos últimos 25 anos a taxa de natalidade caiu abruptamente. O cálculo da previdência, possíveis imigrações em massa, e o eventual fim da humanidade levaram um governo alegadamente moderado a um golpe de estado e, quando após as políticas de incentivo a natalidade pouco mudaram a situação que nos encontrávamos, decretou-se o “projeto de fertilização em massa“ modelo que forçava os cidadãos a uma série de exames regulares e incontáveis testes de compatibilidade genética. Os homens que passavam nos testes precisavam manter-se saudáveis e empregados, coabitando lares de até 10 deles, esperando somente uma mulher ser designada àquele lugar. Quando designada uma mulher, os homens deveriam começar um tratamento intensivo com testosterona, a fim de aumentar suas chances de engravidá-la. As mulheres também precisavam manter uma rotina rígida de dieta, exercícios e exames, alocadas em alojamentos gigantescos, cada mulher tinha uma companheira desde muito jovem, onde dividiam um quarto simples e poucos vestidos. Quando selecionada, precisava momentaneamente se mudar para uma residência com homens, sendo orientado (fortemente) copulassem pelo menos 14 dias por mês, principalmente no período fértil da mulher. Ambos homens e mulheres começam a ser testados entre 18-20 anos, onde as chances de uma gravidez saudável eram maiores.
Empacotar minhas coisas foi a tarefa mais fácil do dia. Oito vestidos, algumas peças íntimas, o anel que Ann me deu e o broche de um antigo amigo eram praticamente todos os meus pertences. Ann insistiu que levasse um ou dois vestidos a mais dela, mas sei que ela vai precisar deles mais do que eu. Dava para perceber que ela estava desolada, mas, mesmo assim ela tentou me animar. No café da manhã ela conseguiu uma salada de frutas a mais para mim, e, quando voltamos para o quarto, de alguma maneira, ela conseguiu esconder dois sanduíches de queijo dentro do vestido dela, e os colocou dentro da minha bolsa. Nos corredores, no entanto, os olhares e sussurros eram de pena e comiseração, e somente 8 outras garotas vieram se despedir verdadeiramente, com olhos úmidos e abraços calorosos.
No entanto, precisava ir. Saí do alojamento sob os olhares abatidos das amigas e os olhares pessimistas de todos os outros. Cheguei ao alojamento aos 20 anos, 10 anos atrás e nesses 10 anos não tinha saído da cidade uma única vez. A manhã estava úmida, mas a conversa era árida. O Defensor designado me levar em segurança não se dignificava a dar uma resposta mais do que monossilábica, então rapidamente eu desisti de tentar saber quanto tempo levaria até chegarmos ou em quantas cidades íamos passar até o destino. Chegaramos na estação, subiramos no trem e esperaramos. Deveria ser cerca de 10 horas quando eu me lembrei do sanduíche na minha bolsa. Eu estava no fim do meu lanche quando o trem repentinamente freou: o Capitão e seus rebeldes nos aguardavam sobre os trilhos.