Chapter 1
— O que houve?
Sério? Sério? De todas as pessoas, tinha que ser o Draco. Ela secou as lágrimas rapidamente, pensando que, assim que ele percebesse com quem estava falando, iria embora. Ela se virou, com os olhos provavelmente ainda inchados, e disse educadamente: — Eu só estava tomando um pouco de ar. Para sua surpresa, ele não recuou com nojo. Em vez disso, limpou a garganta de forma meio sem jeito. — Não parecia ser o caso. Embora ele não olhasse para ela ao dizer isso. E sua voz estava tão baixa que ela mal conseguia distinguir as palavras. Ela deu alguns passos em direção a ele. — Sinto muito — ela hesitou, sem saber o que fazer —, me desculpe, só… você está falando comigo? Desta vez, foi ela quem limpou a garganta. Draco semicerrou os olhos. — Não há mais ninguém aqui fora, Granger. — Ele pareceu cuspir as palavras enquanto murmurava. Hermione piscou algumas vezes, ainda um pouco confusa com aquela mudança repentina de comportamento.
Ela cruzou os braços. — Por que está falando comigo? — ela de repente ficou desconfiada. Draco se debruçou sobre a sacada, girando os polegares sobre a borda. — Não sei a resposta para isso, Granger. Você é a inteligente, não eu. — Com um súbito impulso de coragem, ela se apoiou na sacada ao lado dele, notando como aquela era a maior proximidade física que já tinham tido. Tirando a vez em que ela deu um tapa nele, anos atrás. — Eu não sou tão inteligente assim — sussurrou ela, embora não soubesse por quê. Draco soltou o ar. Ela olhou para o céu.
— Você está — ele limpou a garganta — bonita. Assim. Com esse vestido. Você deveria usar vestidos mais vezes. — Com isso, ela ficou completamente surpresa. Deve ter ficado evidente em seu rosto, porque Draco deu uma risadinha. — Você deve me achar um idiota — disse ele, novamente sem olhar para ela —, me diga o que está pensando. Eu gostaria bastante de saber.
Ela fez uma pausa, organizando seus pensamentos. — Meu primeiro pensamento é Poção Polissuco. Talvez você seja apenas o Harry tentando se divertir. — Draco acenou com a cabeça. — Plausível — disse ele —, mas o Harry está lá dentro dançando com a Gina. — Ele indicou uma das janelas do chão ao teto, bem à direita. Hermione assentiu, concordando.
— Outro pensamento é que você está aqui porque perdeu algum tipo de aposta. Isso tudo é um truque. Embora não pareça provável — disse ela.
— Posso perguntar por que não? — Ele se inclinou, genuinamente curioso.
— Porque você não parece o tipo que perde — explicou ela simplesmente. Ele soltou uma risada leve. — Muito bem. Pode continuar.
— Suponho que só reste uma opção. Que você estava genuinamente preocupado com o meu bem-estar. Embora isso pareça tão improvável quanto a anterior.
Draco não disse nada, e eles ficaram em silêncio por um tempo, olhando para os jardins. — Posso perguntar novamente, por que isso parece improvável? — Quando ele disse isso, não olhou para ela, manteve os olhos fixos nos jardins, com as mãos entrelaçadas, apoiadas na sacada. Hermione olhou para ele, um pouco chocada, e engoliu em seco antes de responder: — Porque eu sou uma sangue-ruim. — A careta em seu rosto era inegável, e sua resposta foi fria, mas suave.
Ela disse tão baixo, e eles ficaram em silêncio por tanto tempo, que ela não tinha certeza se ele a tinha ouvido. De qualquer forma, não estava com vontade de repetir.
Draco estremeceu com as palavras dela, e ele não tinha certeza se havia se encolhido, mas seria impossível ela não ter sentido. A essa altura, estavam a poucos centímetros de distância.
— Não tenho muita certeza do que você está tentando fazer, Draco — a voz dela tremeu, apesar de suas intenções —, mas espero… — as lágrimas brotaram em seus olhos e ela entrou em pânico. Aquele não era o momento para chorar. Ela limpou a garganta. — Eu espero…
— Não espero que você entenda. — Ele soltou um suspiro ofegante. — Nem eu mesmo entendo direito. — Ele começou, acompanhando com os olhos os degraus que levavam ao jardim. — Mas quando ouvi as risadas e vi você correndo para fora, algo pareceu estranho. — Ele olhou para seus sapatos. — Eu sei… — limpou a garganta. — Eu sei que você provavelmente acha que eu não entendo como é isso. Para ser sincero, eu não entendo. Ninguém nunca teve coragem de zombar de mim. Além de você, é claro, e do seu grupinho de amigos de ouro. Isso mal incomoda. O que eu quero dizer é — ele respirou fundo e soltou o ar trêmulo —, eu sei como é ser inseguro.
— Todo mundo é inseguro, Draco. — A resposta dela saiu mais rápido do que ela esperava. E, de repente, teve vontade de rir, já que ele deveria estar consolando-a. Draco balançou a cabeça, como se ela nunca fosse entender. — É diferente. Sendo quem sou. Não é… fácil. Você não imagina as expectativas. Um Malfoy. — Ele deu uma risada irônica. — Um Malfoy. Do que um Malfoy precisaria ser inseguro? — ele zombou, virando-se, encarando as próprias mãos como se sua vida dependesse disso.
Com muita hesitação e algumas tentativas, Hermione colocou a mão no ombro dele. — Draco — disse ela. Ele não olhou para ela. — Acho que talvez… — ela pausou —, parte disso, talvez… talvez você esteja percebendo que não somos tão diferentes. E talvez isso não seja uma coisa ruim. — Ele lhe deu um olhar rápido, que ela não conseguiu decifrar. — Não estou dizendo que seremos amigos — ela acrescentou rapidamente —, nem que eu não gostaria de ser. — Ela limpou a garganta, sem saber para onde sua fala estava indo. — Mas talvez isso seja bom. Às vezes, você pode confidenciar a um estranho o que não consegue confessar a um amigo. — Draco a olhou de cima a baixo, em silêncio absoluto. — Venha caminhar comigo, Granger.
Os degraus imponentes que levavam da sacada aos jardins de repente pareceram o maior obstáculo do mundo. Hermione teve que segurar o vestido para não tropeçar, e seus saltos ecoavam na pedra, anunciando ao mundo onde ela estava a cada passo. E algo nisso a deixava terrivelmente nervosa.
— Eu era uma criança tímida, se é que você pode acreditar — disse Draco de repente, antes mesmo de chegarem ao caminho. O olhar dela o incentivou a continuar enquanto seu pé tocava o último degrau.
— Eu me agarrava à minha mãe onde quer que fosse. Meu pai sempre pareceu me assustar um pouco. Sempre havia aquele medo de decepcionar.
Hermione assentiu seriamente.
— Eu o admirava. Pela maior parte da minha vida, pelo menos. Ele era o epítome de um homem Malfoy. Era nisso que eu deveria me tornar.
Novamente, ela assentiu. Draco olhou para ela. — Bem? — ele disparou. Hermione quase congelou. — B-bem o quê?
— Sua vez, Granger. Vá em frente.
Ela tropeçou um pouco, tentando colocar os pensamentos em ordem. — Eu era o oposto, eu acho. Eu me agarrava ao meu pai. Lembro-me de que ele sempre me carregava nos ombros. — Ela riu com a lembrança. — As coisas mudaram, porém, quando fiquei mais velha. Minha mãe e eu tínhamos mais em comum… no que diz respeito ao que uma garota passa. As mulheres podem ser bem desagradáveis umas com as outras.
Draco a incentivou a continuar.
— Bem. Ninguém tem o cabelo tão cacheado quanto o meu — ela tentou rir, mas saiu meio distorcido —, e, bem, ser diferente e ter quinze anos não combinam muito — explicou ela.
Draco assentiu. Eles continuaram andando. Hermione comentou sobre a brisa.
— Eu costumava fazer uma coisa horrível — disse Draco, enquanto paravam para sentar em um banco próximo. — Quando eu ficava bravo com meus pais, eu saía quebrando as coisas; vasos, esculturas, coisas assim.
Hermione ouvia atentamente.
— E então, quando eles perguntavam sobre isso, eu colocava a culpa no Dobby. — Ele fez uma careta, a lembrança clara em sua mente. — Eles sabiam que tinha sido eu. Que ele não tinha feito nada. Mas o puniam mesmo assim.
Hermione olhou para o chão. A menção ao Dobby apertou seu coração.
— Ainda penso muito nisso. Acho que é porque me arrependo. A propósito, sinto muito pelo que aconteceu com ele. Ele não merecia aquilo. Ele não merecia quase nada do que passou — acrescentou ele, de forma bastante desajeitada.
— Dobby era único — disse Hermione com um sorriso triste.
— Na verdade, sinto muito pelo que aconteceu com todos naquele dia. Particularmente com você. O que minha tia fez… — a voz dele sumiu —, aquilo foi errado — disse ele com firmeza, seu rosto rígido como pedra.
— Agradeço por reconhecer que foi errado — disse Hermione cuidadosamente.
— Eu era um Comensal da Morte, mas tinha consciência — continuou Draco, como se não a tivesse ouvido. — Acho que o Snape era assim também. E não foi fácil. Nada daquilo foi.
— Eu odiava você — disse Hermione tristemente, como se seus pensamentos ainda estivessem em Dobby. — Por muito tempo. — Seus ombros estavam caídos e ela brincava com as mãos no colo. Draco permaneceu quieto, esperando que ela continuasse. — Eu não entendia como alguém podia me odiar só por causa da forma como nasci. Algo que eu não podia controlar de jeito nenhum.
Com isso, Draco estremeceu, mas não disse nada.
— Mas então as coisas mudaram. Foi depois do dia em que te bati. De repente, comecei a ter pena de você. E acho que foi porque percebi que você tinha consciência.
O vento balançou as árvores, preenchendo o silêncio. — Harry não se sentia assim, no entanto — ela deu uma risada curta.
— Como é isso? — Draco perguntou.
— O que quer dizer? — ela olhou para ele.
— Ter amigos tão próximos assim.
— Vamos continuar nossa caminhada? — disse Hermione, levantando-se. Draco ficou preocupado por ter cruzado uma linha, mas levantou-se mesmo assim.
Hermione esfregou os braços. A temperatura estava caindo um pouco. — É… legal — disse ela, tentando encontrar as palavras. — É o tipo de coisa sobre a qual a gente lê, sabe? Ter amigos próximos assim. Mas pode ficar um pouco irritante às vezes. — Ela riu.
— Como assim? — ele perguntou, notando os arrepios se formando na pele dela. Ela deu de ombros. — Eles estão sempre lá. Às vezes, eu só quero um tempo sozinha. Por sorte, nenhum deles é muito fã da biblioteca. — Com isso, Draco sorriu. Ele sabia perfeitamente bem o santuário que a solidão podia ser.
— Como é a Sonserina? — ela olhou para ele. Ele deu de ombros. — É legal. Se você gosta desse tipo de coisa. Nós nos tornamos próximos de um jeito diferente. Todos sabemos que algo é esperado de nós. Mas isso torna o ambiente um tanto hostil. — A voz dele ficou tensa ao dizer isso.
— Como assim? — ela perguntou.
— Ninguém hesita em subir de nível. Você tem que vigiar suas costas constantemente. É por isso que não temos muitos amigos.
Hermione assentiu. — Suponho que faça sentido — disse ela baixinho.
Draco parou de repente. — Do que eles estavam rindo? — disse ele. — Quando você saiu correndo. O que fizeram com você?
Hermione deu um sorriso fraco e olhou para baixo. — Eles não estavam zombando de mim, se é isso que você quer dizer — afirmou ela. Draco estava com as mãos nos bolsos do casaco.
— Foi estranho. Acho que… Harry e Gina. Eles estão tão felizes. — Ela murmurou enquanto um arrepio percorria sua espinha. Draco tirou a jaqueta e colocou sobre os ombros dela. Ela agradeceu.
— E — disse ele —, você não está feliz?
Ela balançou a cabeça. — Não tenho motivo para não estar feliz. Não é como se eu estivesse constantemente triste. E ver Harry e Gina… sem mencionar Rony e Lilá — ela revirou os olhos.
— Nunca entendi isso.
— Entendeu o quê? — toda a atenção dela estava nele agora.
— Rony. Por que ele deixaria você ir. Não quero dizer daquele jeito nem nada. Só estou dizendo. A Lilá tem uma voz irritante.
Hermione deu um pequeno sorriso. — Bem, obrigada, eu suponho. Mas não é isso. Rony e eu não éramos bons um para o outro — explicou ela. Draco assentiu, sentindo que deveria abandonar o assunto por completo.
— Eu nunca entendi por que você estava com a Pansy — tentou Hermione. Draco deu um sorriso de lado. — Nem eu. — Ambos riram, pela primeira vez, ao mesmo tempo.
— Provavelmente deveríamos voltar — notou Hermione, envolvendo-se mais no casaco.
— Ou poderíamos caminhar para sempre — disse Draco, encarando o pequeno caminho de terra à frente deles. — Acho que ficaríamos com muita fome — disse Hermione, também olhando para o caminho. Draco deu uma risadinha. — Talvez, Granger. Talvez. — Hermione girou sobre os calcanhares, gemendo ao perceber o quanto teriam que caminhar para voltar. Seus saltos altos estavam começando a incomodar. — Você poderia simplesmente aparatar, sabe — disse Draco, como se lesse sua mente. Ela sorriu. — Boa ideia — disse ela, então, olhando para ele —, a gente se vê por aí, Draco.
— A gente se vê por aí, Hermione. — Mas ela já tinha ido.
Foi só quando chegou à sala comunal que percebeu que ainda estava com o casaco de Draco. Gina foi quem apontou. — E a quem isso pertence, Sra. Granger? — ela disse de forma um pouco provocativa demais para o gosto de Hermione. — Não é da sua conta, Sra. Weasley — rebateu ela. Gina arrancou o casaco dos ombros de Hermione. — De quem quer que seja, cheira deliciosamente bem.
Hermione não pôde discordar. Era algo que ela também tinha notado. — Gina, devolva.
— Ah, qual é, Hermione, isso é fantástico! Agora podemos marcar um encontro duplo!
Hermione arrancou a jaqueta das mãos de Gina. — Não. Nós não vamos. Não é nada disso.
Gina deu um sorriso malicioso. — É definitivamente algo assim.
Hermione resmungou um pouco e foi para o seu quarto. Jogou a jaqueta sobre a cama e imaginou como faria para devolvê-la.
Ela certamente não poderia fazer isso na aula. Pessoas demais. Ela sempre podia sair mais tarde, à noite, e deixar na comunal da Sonserina. Isso poderia funcionar. Ninguém estaria acordado àquela hora. Especialmente depois de um baile como este.
Então, depois que todos adormeceram, Hermione saiu sorrateiramente de seu dormitório e desceu pelo labirinto de escadas até as masmorras da Sonserina. Mas, antes de dar dois passos em território inimigo, foi parada nos corredores por um grupo grande. E Draco estava com eles. Seus olhos se arregalaram em pânico ao perceber o que Hermione estava segurando.
O coração de Hermione parou na garganta. Ela não deveria ter vindo. — E o que exatamente você acha que está fazendo aqui? — Pansy disparou. Hermione estendeu a jaqueta com as mãos tremendo levemente. — Estava em uma das mesas. Parecia bom demais para ser deixado lá. — Ela limpou a garganta.
— O que te faz pensar que pertence a um de nós? — perguntou Blaise.
— Não pertencia a ninguém da Grifinória — começou ela —, e é de altíssima qualidade. Deve ser de vocês.
Draco deu um passo à frente e admirou a etiqueta. — É meu — declarou ele. Pansy fez uma careta. — Você vai ter que queimá-lo agora — ela gargalhou. Draco acenou para Hermione e jogou a jaqueta sobre o ombro. Hermione observou enquanto o grupo se afastava.