A Ilha Do Labirinto [Completo] por Mayara Cordeiro em Inkitt
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A Ilha do Labirinto [COMPLETO]

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Resumo

✅ OBRA REGISTRADA - LEI Nº 9.610/98. PLÁGIO É CRIME. SINOPSE: Enfrentando uma grave situação financeira, Lucy Simmons recebe o convite de sua rica tia-avó para lhe servir de dama de companhia em uma remota ilha. A jovem aceita, enfrentando o isolamento e o medo. Ao perceber que há algo errado, ela tenta encontrar respostas, mas talvez seja tarde demais.

Status
Completo
Capítulos
1
Classificação
n/a
Classificação Etária
13+

Capítulo Único

Lucy ainda tinha a carta em uma das mãos trêmulas enquanto segurava a alça da mala com a outra. Deveria tê-la guardado dentro do livro que trouxera em um dos bolsos laterais, mas não pôde. De alguma forma, estar com ela ali, ao alcance de sua visão, lhe garantia que não se tratava de um mero sonho.

Há dois dias recebera essa carta de sua tia-avó... pelo correio! Em plena era digital! Manuscrita, carimbada e selada... e viera em um tempo de grande necessidade em sua vida. Era tudo tão estranho e, quiçá, um bocado irreal.

Não a via desde que era criança. Fora com a mãe diversas vezes visitá-la em uma das muitas propriedades que tinha. Era uma senhora muito rica. Pouco ouviu sobre ela nos anos seguintes, apenas que agora vivia isolada em uma ilha após a morte do marido e do filho. Não sabia o motivo de ter se lembrado da sobrinha-neta ou como soube de todos os seus problemas financeiros.

Andando o mais depressa que podia com a pesada mala, Lucy fechou rapidamente os olhos ao sentir o vento frio que tocava sua pele à medida em que se aproximava do pequeno e modesto cais. Olhando para os lados, sentiu um nó no estômago ao se encontrar sozinha ali, tão vulnerável. Depositou a mala no chão enquanto aguardava pelo senhor Hartley, o único proprietário de barcos que concordara em levá-la a tal ilha. Na noite anterior, conversara com ele pelo telefone do motel em que se hospedara ao chegar à cidade. Passara a maior parte da tarde tentando localizar alguém que concordasse em ajudá-la e, após muitas súplicas por parte da moça, ele fora o único. Acertaram o preço e combinaram de se encontrar ali. Esperava que valesse a pena, pois ele não cobrara barato e ela não podia se dar ao luxo de gastar o pouco que tinha.

A princípio, imaginou que veria mais pessoas esperando por um barco no cais, mas não... não havia ninguém além dela. Em uma tentativa de não pensar no risco que corria, olhou mais uma vez para o papel que segurava.

“Como bem sabe, vivo sozinha desde a morte de meu marido e meu filho Thomas. Estou velha e muito doente... sinto que meu fim se aproxima.

Tenho ótimas lembranças das visitas que me fez com sua mãe, de você correndo pelo jardim da minha casa na cidade, brincando com Thomas... gosto muito de você, Lucy. Estou ciente de sua delicada situação financeira e gostaria de poder fazer algo para ajudá-la em troca de um pouco de companhia. Ofereço uma alta quantia para que passe cerca de duas semanas comigo na ilha em que vivo. Naquele tempo de luto eu quis me isolar, viver só... porém, não desejo mais isso. Quero ver ao menos um rosto conhecido antes de fazer a passagem.”

Fazer a passagem... aquilo lhe provocara arrepios enquanto olhava a folha de papel, já um tanto amassada após ter sido lida e manuseada inúmeras vezes. Admirou a caligrafia rebuscada e delicada da velha tia. Não podia julgá-la por querer estar perto de alguém da família em um momento como esse, por não querer morrer só. Ela mesma tinha muito medo de ficar sozinha, isolada. E duas semanas passariam rápido.

Mais alguns minutos se passaram até ela ver um homem franzino, bastante idoso e curvado, se aproximando bem devagar. Ao longe ele lhe lembrara alguém muito familiar... tentou se lembrar quem poderia ser mas não conseguiu.

— Bom dia! Senhor Hartley? Sou Lucy Simmons.

Ignorando a mão que ela estendia, ele apenas acenou a cabeça enquanto se dirigia a um dos barcos atracados. Era pequeno, com parte da madeira já carcomida pelo tempo, um par de remos e o motor.

— Vamos logo com isso, moça. Não tenho o dia todo — disse, pegando a mala de Lucy e a ajudando-a a subir no barco. Deu a partida no motor e os dois se foram.

O mar estava calmo naquele dia e com isso ela ficou um pouco mais tranquila. Embora pudesse avistar seu destino no horizonte, sentia que a distância entre eles era longa. Ao perceber que o barqueiro não tinha vontade de conversar, limitou-se a confirmar seu retorno com ele para dali a duas semanas.

Podia sentir o olhar curioso daquele homem perscrutando-a em meio ao silêncio, o que a incomodou, mas procurou ignorar. Era uma jovem bonita, alta, tinha longos cabelos negros e apenas vinte e três anos. Incomodava-a profundamente que as pessoas a olhassem, especialmente os homens... havia algo em seu passado que a atormentava profundamente desde a infância. Mas isso era algo do qual ela procurava não se lembrar. Não achava que aquele senhor queria fazer-lhe algum mal. Simplesmente a olhava, talvez tentando descobrir o que ela pretendia com aquela viagem sem pé nem cabeça. Constatou que suas suspeitas acerca daquilo estavam corretas ao ouvi-lo por fim dizer:

— Não entendo o que uma moça como você pode querer em um fim de mundo como esse.

— O senhor não tem que entender nada. Apenas me levar e se comprometer a vir me buscar dentro de duas semanas.

— Esse lugar é assombrado, sabe. Ninguém gosta de vir ou se aproximar desta maldita ilha. Meus amigos do cais me disseram que uma jovem os procurou solicitando um transporte para lá, mas é claro, nenhum deles concordou. — Fixando o olhar no horizonte, parou de falar por um momento, como se procurasse escolher as palavras certas. — Eu não tenho medo, por isso concordei em te trazer até aqui.

— Minha tia-avó mora lá. E ela me escreveu pedindo que eu cuidasse dela por duas semanas... por isso eu vim. — Ele permaneceu em silêncio e ela continuou: — Se ninguém gosta de vir até aqui, pode me dizer como ela consegue as provisões?

— Sou eu quem traz as provisões, uma vez por mês. Como eu te disse, não tenho medo.

— E como ela é?

Engolindo em seco, Sr. Hartley pareceu novamente procurar as palavras certas.

— Não faço ideia. Nem mesmo sabia que se tratava de uma mulher. Eu... eu não entro lá. Subo pela escada esculpida nas rochas até a caixa de suprimentos fincada na beira do abismo. Pego o dinheiro, deixo as provisões junto com a correspondência e vou embora. A gorjeta é generosa, por isso eu venho.

Após mais alguns minutos em silêncio e ele lhe aconselhou.

— Ainda tem tempo de desistir, senhorita Simmons. Mesmo que faça companhia a uma velha, ficar isolada em um lugar como esse leva qualquer pessoa à loucura.

— Obrigada pela preocupação, senhor Hartley. Agora é tarde para eu voltar. Talvez seja até bom ficar aqui durante algum tempo porque o que me espera na minha vida na cidade não me alcançará aqui.

O restante do trajeto foi seguido novamente em silêncio, algo que Lucy não gostava, mas que já começara a se acostumar.

À medida em que se aproximaram, ela pôde finalmente ver seu refúgio provisório com mais clareza. A ilha era na realidade um enorme bloco de rocha em meio ao oceano, com um lindo farol bem ao longe. Viu a precária escada esculpida na rocha que o Sr. Hartley mencionara, com espelhos irregulares, sem nenhum tipo de guarda-corpo ou proteção. Da base até o topo a altura era enorme, aproximadamente 500 metros. Não sabia como um barqueiro tão velho conseguia subir aquela distância uma vez ao mês com uma caixa de provisões sem ser acometido por uma vertigem e menos ainda como uma senhora em idade avançada pudera subir ali.

Em um ancoradouro improvisado em meio às rochas, ele amarrou o barco, que sacudia com o balanço das curtas ondas. Tirou a mala e a ajudou a descer, subindo na frente. Lucy foi logo atrás, escorando o corpo de encontro às rochas, evitando ao máximo olhar para baixo e ignorando o calafrio na base da espinha.

Foi com um suspiro de alívio que por fim eles chegaram. O homem estendeu a mão para ajudá-la com os últimos degraus e a pobre tremia da cabeça aos pés. Embora ventasse muito, ele sabia que não era apenas pelo vento frio que cortava o ar.

A primeira coisa que Lucy avistou foi a caixa de provisões mencionada pelo barqueiro. Ao redor não havia nenhuma edificação além de uma pequena estrada que conduzia a um velho, mas imponente casarão visto ao longe. Mais adiante, a uma distância considerável, ela pôde ver o farol.

— Bem, Srta. Simmons, meu limite é aqui. Espero que passe bem esse tempo em companhia de sua tia. Até daqui a duas semanas.

— Muito obrigada, Sr. Hartley.

Ele ficou parado durante um minuto, como se esperasse que ela mudasse de ideia e desejasse retornar com ele. Como ela não se mexeu, ele lhe deu as costas e se encaminhou em direção às escadas.

— Por favor... — Ela pediu, em um tom de súplica que o fez voltar o olhar. — Não se esqueça de vir me buscar.

O homem assentiu e finalmente partiu. Lucy ainda esperou que ele descesse os primeiros degraus, vendo sua cabeça sumir na beira do abismo. Sentia algo estranho, como se ele fosse a sua última comunicação com o mundo exterior. Se não soubesse da presença da tia ali, ela não ficaria de jeito nenhum. Mas ela estava lá, ela estava... lhe escrevera uma carta pedindo por sua companhia e lhe prometendo uma solução para todos os seus problemas. Tateou o papel no bolso da jaqueta de frio, como uma garantia de sua presença ali. Não havia sido um sonho, não estava delirando... sua tia lhe escrevera e no dia seguinte respondera ao seu contato. Se era o Sr. Hartley quem trazia as provisões e a correspondência uma vez ao mês, era possível que ela ainda não tivesse recebido a resposta, mas isso não importava. Faria uma surpresa à velha senhora dali a pouco, confirmando a aceitação de sua proposta.

Pegando a mala, ela começou a trilhar o caminho em direção ao casarão. Tinha um aspecto vitoriano e parecia não ver uma pintura ou reparo há anos. Havia muitas janelas cobertas por delicadas cortinas brancas que tornavam o aspecto da casa bastante convidativo, assim como a bela escadaria com duas laterais que levava até a porta.

Lucy subiu, tocando a sineta. Esperou algum tempo, mas não houve resposta, nem mesmo quando tocou de novo e de novo. Resolveu girar a maçaneta redonda de marfim, ouviu um ruído. A porta se abriu e ela entrou.

Como aquele lugar era frio, tanto por dentro quanto por fora! A sala era bem ampla, com móveis finos e muito antigos, no entanto, não via uma boa limpeza há tempos, estava tudo coberto de uma poeira grossa e cascuda devido à umidade. No canto direito viu uma lareira com o suporte de atiçadores logo ao lado e resquícios de cinzas. Lucy percorreu todo o andar de baixo, que contava com um pequeno lavabo, uma biblioteca grande e a cozinha aos fundos, igualmente imunda, mas cheia de provisões. Uma porta de comunicação dava para o jardim aos fundos, repleto de ervas daninhas e nenhuma flor, apenas uma longa extensão de grama e uma parede enorme de folhas verdes se estendia longe. Estas sim estavam cortadas e bem cuidadas. Ao lado da porta, viu uma pilha com bastante lenha estocada. Sentiu pena da pobre tia... como uma senhora avançada em anos poderia viver nessas condições tão insalubres? Certamente, ela não tinha energia o suficiente para dar a faxina que aquela casa precisava.

Voltando à sala, dirigiu-se para a escada esperando encontrá-la descansando no quarto. Enquanto subia as escadas sentiu um pouco de medo, não podia ouvir nada além da madeira rangendo e sua própria respiração.

— Tia Ruth? Aqui é a Lucy, filha da Louise!

Não houve resposta alguma e seu medo se intensificou. Havia apenas o vazio, a escuridão do andar de cima... se ao menos o Sr. Hartley tivesse esperado que ela procurasse pela tia na casa.

No topo da escada, ela tateou a parede e encontrou um interruptor. Logo o corredor foi iluminado pela lâmpada protegida por um belo lustre e nas paredes, um papel mais bonito ainda. Tudo ali era tão lindo e delicado. Aquela casa devia ter sido ainda mais bonita anos atrás e com o dinheiro que a tia possuía, poderia reformá-la e conservá-la.

Os quartos eram igualmente belíssimos, mas, assim como o andar de baixo, estavam completamente sujos. As camas estavam feitas e ela procurou pela tia em todos eles e nos dois banheiros, no entanto, não havia ninguém ali. Ninguém! Como isso era possível? Não podia estar ficando louca, a tia realmente lhe enviara uma carta... mais uma vez ela tocou o bolso da jaqueta como que para se certificar que não sonhara. Respirou aliviada ao constatar que o pedaço de papel amassado estava ali com ela, mas não podia ficar tranquila. Algo em seu inconsciente lhe dizia que havia algo errado. Se não fosse pelas cinzas na lareira, as provisões na cozinha e a parede de folhas bem cortadas, imaginaria que aquela casa estava desabitada.

Descendo as escadas ela tentou racionar, supôs que talvez ela tivesse saído para tomar um pouco de ar e logo voltaria. Ficar encerrada o dia todo dentro de casa era muito ruim, mesmo para uma senhora idosa. Faria parte da limpeza hoje e o restante no dia seguinte, prepararia o jantar para as duas e depois conversaria para saber sobre sua rotina médica e... o dinheiro que a tia pretendia pagar por sua companhia.

Sentia-se mal pensando naquilo, como se tudo o que a trouxera ali fora puro interesse. Não era mentira, ela realmente precisava do dinheiro. Estava abarrotada de dívidas e se não pagasse a hipoteca, perderiam a casa. Achara estranho que a tia lhe procurasse após tantos anos sem dizer nada, sem mandar notícias. Não era segredo para ninguém que Lucy e sua mãe passavam por dificuldades e a tia, sabendo disso, nunca manifestou interesse em ajudá-la. Quando recebeu a carta, Louise fora contra a viagem da filha, no entanto, conseguiu convencer a mãe de que aquela era sua única alternativa.

Lucy limpou a cozinha, o lavabo, a sala e um dos quartos, onde deixou sua mala e dormiria. Quando terminou de lavar os dois banheiros, foi para o quarto maior, que supôs ser o da tia. Abriu as cortinas, limpou o chão e enquanto procurava por alguma roupa de cama limpa nas cômodas, notou que algo a impedia de abrir a gaveta. Ela tateou com cuidado e encontrou um porta-retrato muito velho atravancando o espaço. Retirou-o com cuidado e foi com surpresa que viu uma foto de sua tia-avó Ruth ao lado do esposo Albert, a mãe com ela ainda bem pequena sentada em seu colo e ao lado, com uma expressão de raiva, seu primo Thomas.

A mão dela tremeu ao ver aquilo e ela deixou o porta-retrato antigo e pesado cair no chão. O som do vidro se espatifando pareceu trazê-la de volta à realidade e praguejando baixinho, ela pegou a vassoura e começou a recolher os cacos. Guardou-o de volta na gaveta e saiu do quarto sentindo que lhe faltava o ar. A visão daquele retrato lhe trazia de volta recordações que ela lutara muito para esquecer... mas não importava o que fizesse, não podia. Lembrou-se que, ao chegar à casa e procurar pela tia, viu um quarto diferente. Com a preocupação em não encontrar a velha senhora ali, não reparou nele. Olhando para trás, se deteve na sombra da porta entreaberta ao fim do corredor.

A porta rangeu quando ela a tocou. Uma cama e guarda-roupa, alguns livros, pôsteres de bandas de rock colados na parede. Aquele devia ser o quarto de Thomas... nem sequer imaginava que a tia o trouxera para viver ali. Talvez fosse um quarto usado para visitas esporádicas à ilha. Não teve coragem de entrar, puxou a porta e desceu as escadas em direção ao jardim. Precisava tomar ar.

Caminhando lentamente próxima à casa, Lucy não pôde evitar pensar no primo. Quando eram crianças, ele sempre a observava em silêncio e de uma forma que ela não compreendia, mas da qual nunca gostava. Chegou a contar para a mãe, que não lhe fizera caso dizendo que ele era um menino muito tímido e solitário. A última vez que o vira fora anos atrás, ela tinha doze anos e ele quinze. E fora justamente esse dia que marcara sua vida para sempre.

Em uma visita à casa da tia-avó na cidade, fora com Thomas até o quarto dele para ouvir alguns CDs novos que ele tinha comprado. Foi quando ele fechou a porta e tentou abusar dela. Chorando, ela conseguiu morder a mão que ele usou para tapar sua boca e gritar pela mãe, que rapidamente veio ao seu auxílio. Ela brigou com a tia, que naturalmente defendeu o filho. Depois disso as duas cortaram relações e não se viram mais. Anos mais tarde, soube que Thomas havia se envolvido com drogas e tido disfunções mentais, vindo a morrer de uma overdose; seguido pela morte do pai por um ataque cardíaco. Foi quando tia Ruth decidiu se isolar.

Desde então Lucy teve dificuldades para se relacionar com os homens e para confiar nas pessoas. A mãe fez o possível para ajudá-la, pagando um bom tratamento psicológico para ela.

Posteriormente as duas tiveram sérios problemas financeiros; Lucy e a mãe lutavam para saldar as dívidas, embora vivessem muito felizes juntas. Ironicamente, a tia que lhes dera as costas era quem agora lhes estendia a mão nesse momento tão difícil. Talvez no fundo fosse por remorso.

Olhando para o horizonte, percebeu que o sol já se punha e tia Ruth ainda não havia voltado. O que teria acontecido? Estava muito preocupada. Caso ela não voltasse até o pôr do sol, deixaria a porta da frente aberta e iria procurar por ela logo pela manhã.

O senhor Hartley dissera que não havia mais ninguém ali, porém, ele nunca passava da caixa de suprimentos. Como podia ter tanta certeza? E se vivesse alguém naquele farol? Tinha medo de deixar a porta destrancada... pensando melhor, iria passar a tranca e dormiria no sofá da sala. Tinha o sono muito leve, certamente ela tocaria a sineta ao chegar e iria ouvir para poder abrir-lhe.

A noite se passou, logo amanheceu... e nada de a tia Ruth aparecer. Isso não era normal. Havia algo de muito errado acontecendo ali. Lucy se levantou e destrancou a porta da frente. Olhou ao redor e não havia ninguém. Tentando ignorar o desespero iminente, ela fechou a porta e foi para a cozinha preparar o café e se deparou com algo que não esperava: a mesa estava posta para duas pessoas. Havia torradas, manteiga, café fresco, ovos e bacon. Tudo ainda quente e muito fresco. Um bilhete com a mesma caligrafia da carta que recebera se encontrava no centro da mesa, onde se lia: “Bem-vinda, Lucy”.

— Tia Ruth? A senhora já voltou? — Ela gritou, percorrendo a casa toda. Subiu as escadas rapidamente, vasculhou todos os quartos e não havia ninguém! Como isso era possível? Desceu novamente as escadas, dessa vez a passos lentos, tentando se acalmar e raciocinar. Sentando-se à mesa, teve até medo de provar daquela comida. Quem teria preparado? E como ela não ouvira nenhum barulho vindo da cozinha? Tinha o sono mais leve do mundo, acordava com cães latindo, carros passando... no entanto, tudo ali era o mais perfeito silêncio. Um silêncio que lhe provocava ânsia, medo... um silêncio que certamente a enlouqueceria.

Estava mexendo no prato dos ovos com bacon, levantou o olhar e se lembrou de algo: trancara a porta da frente, mas se esquecera de trancar a da cozinha. Certamente a pessoa entrara na casa por ali. Levantando-se com rapidez, jogou toda aquela comida fora, trancou as portas e preparou ela mesma seu desjejum. Não comeria algo que não soubesse quem havia preparado. Certamente não havia sido sua tia Ruth, assim como certamente não estava sozinha naquela maldita ilha.

Lucy comeu, se trocou e saiu pela porta da cozinha, que dava para o jardim. Ainda não havia explorado aquela parte da casa. O jardim parece ter sido muito bonito no passado, pena que estava abandonado, seco. A única coisa que se mantinha bem cuidada era aquela estranha e alta parede de folhas. Percorrendo seu redor, Lucy notou que era um quadrado gigante. Ao encontrar uma abertura que parecia ser uma porta, sentiu um calafrio e algo lhe ocorreu. Ela voltou correndo para a casa, subiu as escadas e, por algum motivo, foi direto para o quarto da tia. Da janela ela pôde ver a extensão daquele imenso quadrado... era um labirinto verde.

Mas que diabos? Estava muito bem aparado e com um tom de verde tão forte que parecia ser a única forma de vida daquele estranho lugar. A entrada era bem pequena e não a notara quando estivera lá no dia anterior. As extremidades eram quadradas, porém, seu centro era circular, muito semelhante ao labirinto do castelo Hever na Inglaterra. Era lindo.

Ainda o fitava com admiração quando um brilho no horizonte atraiu seu olhar. Era o farol. Alguém parecia segurar um espelho contra o sol pela janela no topo. Um calafrio percorreu a espinha de Lucy, mas ela resolveu enfrentar o medo. Precisava saber quem estava brincando com ela daquela maneira e o que havia acontecido com tia Ruth.

Por precaução, trancou a casa e se dirigiu em direção ao farol. A caminhada era longa e o vento frio parecia cortar sua pele. Lucy olhava para o topo do farol e a luz ainda brilhava... quem quer que estivesse lá parecia estar chamando por ela.

Ao chegar, ela encontrou a porta aberta. Durante alguns minutos relutou em entrar, sentindo muito medo. Se algo acontecesse, não teria como fugir. Estaria presa, à mercê de todo o tipo de maldade. Fitando o mar, ansiava por ver algum barco que passasse; no entanto, o mar estava calmo, como um imenso manto azul, assim como o céu. Com a mão ainda segurando a porta, ela respirou fundo e entrou.

Uma velha e descascada tinta branca cobria as paredes e a escada de ferro em espiral parecia ser forte, apesar da ação do tempo. Lucy começou a subir e a cada degrau vencido, sua ansiedade aumentava.

No topo, ela viu o que seria um quarto circular e imaculadamente limpo. Uma cama feita, três mesinhas de cabeceira com luminárias semelhantes às da casa da tia, um relógio antigo que ainda funcionava e, ao lado dele, um retrato pendurado na parede: o mesmo que ela encontrara na gaveta da cômoda. Ela se aproximou e contemplou as feições de sua jovem mãe, o rosto já enrugado de tia Ruth, ela e Thomas crianças... e tio Albert. Ao vê-lo mais de perto, Lucy se sobressaltou e cobriu a boca para abafar um grito de terror. Aquele era o Sr. Hartley, o barqueiro que a trouxera até ali! Ele e tio Albert eram a mesma pessoa? Sim, era ele, mas bem mais jovem. Mas ele havia morrido, assim como...

Um barulho atrás dela a fez se voltar. A porta que levava à luz do farol, acima deles, se abriu. De lá ela viu Albert saindo em companhia de um rapaz que parecia ter um severo problema mental... seu primo Thomas.

Lucy sentiu as pernas fraquejarem e teria caído no chão se não tivesse se apoiado na parede. O olhar dele agora era outro, um olhar de puro ódio. As mesmas feições de raiva que Thomas expressava na foto e nas lembranças mais dolorosas da infância dela. No entanto, ele agora nem de longe parecia o mesmo. Mostrava um olhar confuso e uma postura curvada como a do pai, as mãos retorcidas e a boca babando. Lucy nunca tinha sentido tanto medo na vida.

— Seja bem-vinda, Lucy.

— Albert? O que significa isso? Onde está minha tia Ruth?

— Ela está morta. Morreu há três anos, de tristeza pelo o que aconteceu com o nosso filho Thomas. Ele ficou assim — disse, segurando a mão do rapaz e se aproximando dela – por sua culpa. Sua vagabunda!

— Não... isso não é verdade! Não sou culpada de nada!

O corpo inteiro dela tremia e sua voz era um fio. A dele era raivosa, agressiva... Ela olhou para a escada tentando encontrar uma brecha para poder sair correndo.

— Foi você quem o acusou de tentar atacá-la. Por sua culpa ele adoeceu e precisou passar por dezenas de tratamentos psicológicos, se entupir de remédios... e para quê? Para terminar assim! Durante anos o escondemos naquela casa, longe da vista de todos, como se ele fosse um animal!

O desprezo dele era tanto que parecia cuspir as palavras.

— Fui eu quem enviou a carta, quem te trouxe aqui... você vai me pagar por ter destruído minha família!

Lucy viu uma chance e o empurrou, correndo em direção à escada. Apesar da idade avançada, Albert conseguiu ir atrás dela e puxou a jovem pelos cabelos, que gritou e perdeu o equilíbrio, rolando degraus abaixo. Ela bateu a cabeça e perdeu a consciência.


Lucy acordou tossindo e sentindo a cabeça doer muito. Estava com um corte na têmpora direita, que havia sangrado, mas já estava seco. Não sabia quanto tempo havia se passado. O sol queimava sua pele, parecia estar a pino. Se levantando devagar, foi com desespero que ela percebeu que estava cercada por um imenso círculo verde. O desgraçado a jogara no labirinto do jardim dos fundos.

Uma espessa fumaça preta subia ao céu e logo ela pensou na casa. Ele incendiara a casa! Reunindo todas as forças que tinha, ela começou a correr tentando encontrar a saída. Ela corria, corria e parecia não chegar a nenhum lado! Além do silêncio, a ideia de ficar perdida ali era desesperadora. Parando para recobrar o fôlego, ela tentou raciocinar com clareza. Precisava correr em direção à fumaça para encontrar a saída.

A cada curva, a cada corredor ela pensava que não conseguiria sair daquele lugar, mas continuou correndo. O cheiro da fumaça preta e o som da madeira crepitando aumentava, por isso ela não desistiu. Após um tempo que pareceu uma eternidade, ela conseguiu achar a saída, mas estava respirando com muita dificuldade. A bela casa vitoriana estava se reduzindo a cinzas. Do outro lado, estava o velho Albert com Thomas observando o ruir de um passado doloroso. Felizmente, ele não a vira.

Precisava sair dali o mais rápido que podia. Tinha o pressentimento de que sabia o que ele pretendia fazer: abandoná-la sozinha para morrer naquela ilha e ir embora no barco. Esperava encontrá-lo atracado próximo às rochas e chegar até lá antes dele.

Ao longe, avistou o brilho do sol refletindo na caixa de mantimentos. Quando começou a correr, ele finalmente a viu e também correu atrás dela. Lucy sentiu o estômago revirar ao se lembrar da descida que a esperava na beira do abismo.

Respirando fundo, ela começou a descer. Com um vigor impressionante, rapidamente o velho também alcançou a escada, mas ainda havia uma distância considerável entre eles. As ondas se quebraram com violência lá embaixo e, agarrada à parede rochosa, Lucy rezou para não ter uma vertigem. O medo foi mais forte e por um momento a moça não conseguiu avançar. Com um terror nunca sentido antes, achou que iria desfalecer ao ver que o velho se aproximava cada vez mais.

— Você não pode fugir! Você vai apodrecer aqui, sua maldita!

— Não! Me deixe em paz! — conseguiu gritar, sentindo a mão enrugada segurando seu braço com toda a força.

Ele a sacudia com tanta violência que Lucy pensou que iria cair. Ela ainda tentou descer mais alguns degraus, mas ele não a soltava. Eles estavam escorregadios devido à umidade, um leve limo se acumulara entre eles. Tudo o que Lucy conseguia pensar era na mãe, no sofrimento que ela teria ao constatar que a filha nunca mais voltaria para casa.

Aquilo pareceu restaurar suas energias e trazer de volta a força que o medo tentara lhe tirar minutos antes. Lucy o puxou de volta e conseguiu se desvencilhar, descendo mais alguns degraus com rapidez. Quando ele tentou segurá-la novamente, ela conseguiu empurrá-lo.

Albert perdeu o equilíbrio e caiu em direção ao mar, se chocando contra as pedras. O grito do velho tio seria mais uma lembrança que Lucy jamais esqueceria. Tremendo, ela conseguiu terminar de descer a escada, entrou no barco e o desamarrou, dando a partida no motor.

Chorando, Lucy esperou um minuto antes de voltar o olhar para a ilha. Tudo o que via era a fumaça negra subindo ao céu e o vulto do primo ao longe, mirando-a com um olhar confuso, mas igualmente frio ao da velha fotografia.

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