Capítulo um - Fleur
Todas as manhãs, levava mais de dez minutos para passar pela segurança e pelas portas de aço trancadas, finalmente chegando à ala dos funcionários.
“Bom dia, Ruiva!”, gritou Steve, com um milhão de chaves presas ao cinto.
“Bom dia, Steve”, sorri, antes de seguir pelo meu corredor. Steve era um dos muitos gerentes de turno, um dos caras mais amáveis que já conheci. Ruiva não era meu nome de verdade, apenas um apelido que o pessoal da ala me deu, graças à montanha de cachos ruivos no topo da minha cabeça — tingidos, obviamente, já que minha pele morena não produz cabelo ruivo naturalmente.
“Bom dia, Fleur”, disse minha assistente, Lilian, quando entrei na minha sala. Era minúscula, quase um armário, mas eu a tinha arrumado direitinho, sentando-me à mesa de vidro.
“Bom dia, Lilian”, liguei meu computador, com os olhos subindo para ela. Só tinha ganhado o privilégio de ter uma assistente nos últimos meses; o governo de repente começou a se importar com o que eu fazia. Por mais terrível que pareça, não fui eu quem fez as entrevistas, porque, se tivesse feito, Lilian não estaria ali. Embora fosse uma mulher legal, com cabelos loiros caindo sobre os ombros, ela parecia apavorada a cada segundo do dia.
“Eu olhei sua agenda, está bem cheia”, ela suspirou, e eu a abri na tela do computador, examinando os horários. Não estava mais ocupada do que qualquer dia normal, então não fiquei muito preocupada.
“Você tem um cara novo às três”, ela soltou com uma vozinha fina, e eu cliquei no bloco de horário, aparecendo apenas o nome e o número de prisioneiro.
“Obrigada, você está bem, Lilian?”, tive que perguntar, abrindo meus e-mails e imprimindo o relatório que recebi sobre meu novo cliente.
“Sim”, ela assentiu rapidamente, e eu me levantei, puxando minha saia lápis preta para baixo. Eu realmente queria ter um bom relacionamento com Lilian. Meu trabalho na prisão Suffolk, de Sua Majestade, era majoritariamente lidar com os detentos, mas eu também tinha uma montanha de papelada, o que significava que eu ficava até muito tarde todas as noites, então eu realmente precisava de ajuda.
“Como você está se sentindo aqui?”, fiz uma pergunta mais direta, pegando o relatório da impressora, e ela respirou fundo. Não era um bom sinal.
“Ainda estou me acostumando. Quando fui embora ontem, havia uns dez deles caminhando com um guarda”, ela fez uma careta, e eu não sabia bem o que pensar disso. Tenho certeza de que estava escrito na entrevista de emprego que isto era uma prisão, e de categoria A ainda por cima, o tipo mais seguro da Inglaterra. Eu não via os homens com quem trabalhava como nada além de pessoas que precisavam de uma segunda ou terceira chance; pessoas que eram as mais vulneráveis.
“Logo, logo isso vira apenas um escritório”, tentei rir, porque isso não era bem verdade, mas eu precisava que ela relaxasse.
“Pelo menos eu não fico sozinha com eles, como você, imagino”, ela deu de ombros, com um sorrisinho no rosto, e, de novo, não gostei daquilo.
“É meu trabalho, Lilian, ajudá-los”, eu disse, meio que debochando, indo para a copa, com ela logo atrás.
“Você nunca sente medo?”, ela perguntou enquanto eu fazia meu café, tentando não revirar os olhos.
“Não”, respondi honestamente, colocando a colher na pia. “Nunca nem tive um prisioneiro que levantasse a voz para mim”, destaquei. Todos os homens com quem eu trabalhava estavam a três meses da data de soltura, depois de cumprirem longas sentenças. Era um trabalho que eu adorava e, embora alguns voltassem, muitos conseguiam, e isso me deixava toda derretida por dentro quando eles venciam. No mundo lá fora e para os meus entes queridos, eles eram homens perigosos, alguns dos piores da sociedade, mas eu nunca os via assim. “Michael, por exemplo”, parei, tomando um gole. “Ele é um dos homens mais doces que já conheci”, ri, pensando no nosso primeiro encontro.
“Qual foi o crime dele?”, Lilian se perguntou, praticamente ignorando todo o resto que eu disse.
“Assassinato”, eu disse, sem expressão, saindo do caminho dela enquanto ela ligava a chaleira de novo.
“Ah”, a voz dela saiu fininha. E sim, Michael foi condenado a vinte anos por um crime horrível, mas isso foi há quase vinte anos, e talvez eu fosse tola ou ingênua, mas sentia que ele não era mais aquele homem. Provavelmente, se eu não acreditasse nisso, eu não seria boa no meu trabalho, então isso definitivamente me ajudava a dormir à noite.
“Você trabalha em uma prisão, Lilian”, ri então, quando nada mais funcionava.
“Precisa de ajuda para o seu próximo atendimento?”, ela me seguiu de volta para a minha sala e eu me sentei, com o relatório à minha frente.
“Vou dar uma olhada agora e te aviso, obrigada”, sorri, e ela fechou a porta atrás de si. No segundo em que puxei o relatório para perto, o telefone da minha mesa tocou. Provavelmente era a ala de Michael, me avisando que ele estava a caminho.
“Fleur”, respondi rapidamente, cruzando as pernas.
“Fleur, é o Owen”. A voz dele era austera e eu respirei fundo, perguntando-me por que o diretor da prisão estava me ligando numa quinta-feira de manhã.
“Oi, Owen, como você está?”, eu realmente não me importava, mas já sentia minhas costas suarem.
“Estou bem. Acabei de receber uma notificação de que você vai atender Joshua Campbell hoje”. Ele fez parecer uma pergunta, mas claramente não era. Quando olhei para o relatório na minha mão, vi exatamente o mesmo nome, então sim, aparentemente eu ia.
“Sim, ele é o meu das três”, sorri, mesmo que ele não pudesse me ver.
“Estou ligando para te dar um aviso: Joshua é diferente de qualquer outro homem que você atende”, ele suspirou, e eu folheei o relatório; a única coisa óbvia era a data de nascimento. Todos os homens que eu ajudava tinham pelo menos sessenta anos, mas, pelos meus cálculos rápidos, Joshua tinha acabado de fazer trinta e dois, dois anos a mais que eu.
“Certo”, eu disse, desejando que ele fosse logo ao ponto.
“Ele é perigoso, Fleur. Sei que você sabe o que está fazendo, mas lembre-se do seu botão de pânico...”
“Sim, claro”, interrompi Owen, ainda insegura sobre aquela conversa. Meu botão de pânico estava conectado ao meu cordão de identificação, algo que eu não podia tirar desde o segundo em que entrava no prédio. “Tenho certeza de que ele ficará bem, mas terei reforço”, menti, porque aquele não era meu estilo de jeito nenhum.
“Me avise como foi”, ele desligou então, e eu coloquei o telefone no gancho, lendo aquele relatório. Eram coisas simples, na verdade, exceto pela sentença dele, o que na verdade me deixou triste. Aos dezessete anos, Joshua foi condenado a quinze anos, e ele praticamente cumpriu o tempo todo aqui em Suffolk. Seu crime foi assalto à mão armada, o que na minha cabeça parecia uma pena dura, mas aquela era toda a informação que eu tinha.
“Fleur, seu primeiro cliente chegou”, Lilian colocou a cabeça para dentro, e eu guardei o relatório na gaveta da mesa, levantando-me enquanto Michael entrava. Seu rosto estava cheio de rugas, mas também trazia um sorriso enorme.
“Falta pouco agora, Fleur”, ele disse empolgado.
“Uma semana, Michael. Em uma semana você pode tomar aquela cerveja.”









ooo. interesting!
The ending hook about Michael being a murderer is really interesting!!!