1 - Conhecendo ele
O vento açoitava meus longos cabelos ruivos, fazendo-os dançar na frente do meu rosto enquanto eu remexia nas sacolas de compras, tentando achar as chaves na bolsa. Ouvi um trovão ao longe, sinal de chuva. Ótimo... parecia que eu ia ter que voltar para casa a pé hoje, já que não encontrava as chaves do meu Mustang dos anos 80. Eram quase 22h30, e eu sabia que a loja já tinha fechado. Torci para que meu carro não fosse rebocado e para que alguém encontrasse minhas chaves, assim eu poderia pegá-las amanhã. Mesmo que as perdesse, não era grande coisa — eu nem gostava tanto do carro. Era tudo o que eu podia pagar quando fugi, meses atrás, e agora que estava em Nova York, não precisava tanto dele.
Puxei o capuz sobre a cabeça e fechei o zíper da jaqueta, tentando me esquentar do vento gelado. Meu apartamento ficava a mais de um quilômetro e meio da loja onde eu costumava fazer compras. No escuro, tudo estava quieto e tranquilo, e, por algum motivo, eu me sentia mais segura do que à luz do dia. Estava tão frio que eu sabia que o inverno estava chegando — já estávamos quase em dezembro.
Enquanto caminhava, olhando ao redor, comecei a me perder nos meus pensamentos. Quando finalmente tive coragem de aceitar ajuda e escapar, agarrei a oportunidade e saí daquela situação em casa. Corri, corri o mais rápido e o mais longe que pude. Escolhi me mudar para a cidade onde estou agora: a grande maçã. Nova York. E escolhi este lugar por dois motivos. Primeiro, porque é enorme e cheia de gente, o que dificulta que me encontrem. Segundo, porque fica a mais de 5 mil quilômetros deles. Aqueles pessoas queriam perdoar e esquecer algo terrível e me forçar a viver com um homem abusivo. Não era certo... Eu precisava ir embora, precisava me afastar dele. Ainda bem que ele não me encontrou até agora — já faz onze meses desde que fugi. Torço para que nunca me ache.
Quando cheguei aqui, não tinha muito dinheiro nem gasolina no carro, mas me hospedei em um dos motéis mais baratos nos arredores da cidade. Fiquei trancada naquele quartinho por vários dias, com medo demais de sair. Depois de pagar uma semana de estadia naquele lugar infestado de insetos, consegui um emprego como garçonete no The Warehouse, um restaurante novo e elegante que tinha acabado de abrir. O dono comprou um antigo galpão abandonado e o transformou em um negócio de sucesso. Eu era tão grata ao meu chefe que quase conseguia ignorar todas as vezes em que ele deu em cima de mim.
Mesmo trabalhando seis dias por semana, de nove a dez horas — às vezes até doze —, mal conseguia pagar meu pequeno estúdio, que só consegui por pura sorte. O lugar tinha sido alugado por um senhor que frequentava o restaurante, e, depois que ele faleceu, o síndico do prédio entrou em contato com o restaurante perguntando se eles conheciam alguém que precisasse de um lugar para morar. Eu era a única que ainda vivia em um motel, então, naturalmente, me ofereceram o apartamento. Mudei-me duas semanas depois.
Respirei fundo e percebi que começava a chover... Droga, eu sabia. Ao inspirar o ar gelado, fui ficando entorpecida com o ambiente. Quando ouvi risadas de bêbados se aproximando, fiquei em alerta máximo. Eu conhecia bem os perigos que espreitavam na escuridão da noite. Olhei para a rua e vi um grupo de caras vindo na minha direção. Eram cinco, todos fortes e de aparência bruta, e suas risadas chegavam aos meus ouvidos enquanto se aproximavam. Meu estômago embrulhou de medo.
Dava para ver que estavam bêbados — agiam como ele. Enfiei as mãos geladas no moletom para protegê-las do vento, que parecia estar ficando mais forte. Um calafrio percorreu minha espinha quando olhei ao redor e percebi que todos me observavam. Ao passar por eles, senti uma ansiedade tomar conta de mim, como se meu corpo já estivesse se preparando para o pior. Afinal, eu não via os homens da mesma forma que antes. Um deles estendeu a mão e agarrou meu ombro, puxando-me para trás e me virando para encará-los.
— Ei, gatinha. — Ele disse, arrastando as palavras, bêbado. Ignorei-o e tentei continuar andando, mas logo percebi que não me deixariam em paz. Olhei para a rua e entrei em pânico — estava completamente vazia. Éramos os únicos na rua a essa hora da noite.
— Ei, estou falando com você. — Ouvi outro dizer enquanto acelerava o passo. Precisava me afastar deles rápido. — Ah, não seja assim! Só queremos brincar com uma coisinha tão bonita como você! — disse outro, e meu coração disparou quando senti um deles agarrar minha blusa, rasgando-a no processo. Tentei me soltar com todas as forças, mas ele era forte demais, me puxando contra seu peito de parede de tijolos. Deixei as sacolas caírem e comecei a chutar e me debater, gritando por ajuda enquanto ele me arrastava para um beco escuro.
Ele me virou e me empurrou com força contra a parede, me prendendo com o corpo e um sorriso maldoso no rosto. — Olha só, rapazes, a sorte está do nosso lado! — Meu coração afundou quando suas risadas ecoaram; não via saída. Encarei-o nos olhos, tentando convencê-lo a me soltar. Isso não ia acontecer de novo.
— Qual é o seu nome? — perguntou um deles, parado atrás do homem que me segurava contra a parede. Não queria dar essa informação, então mordi o lábio e forcei-me a ficar quieta. Sabia que era inútil gritar, já que ninguém me ouviria mesmo, então apenas calei a boca.
O cara que me segurava puxou minha saia lápis para cima, rasgando-a. Olhei para ele com os olhos arregalados de medo enquanto sua mão subia pela minha perna. Não queria encará-lo, então fechei os olhos com força. Foi quando ouvi uma voz grave e profunda cortar o tumulto. — Com licença, mas que porra vocês estão fazendo com essa moça? — Abri os olhos e vi todos olhando para o desconhecido que apareceu do nada para me salvar. O homem era alto, com uma voz imponente, e notei que ele olhou para mim e depois para as mãos do cara que me prendiam contra a parede. — Você está bem? — perguntou, cheio de preocupação.
Antes que eu pudesse responder, o cara que me segurava virou-se para ele e disse: — Ela está bem, não está, boneca? — Fiquei paralisada, sem querer me mexer. — Só íamos nos divertir um pouco. — Tentou amenizar a situação, mas dava para ver que ele queria parecer tão imponente quanto o recém-chegado. — Dá meia-volta e esquece o que viu — ordenou.
Senti nojo e medo naquele momento. Não sabia o que ia acontecer comigo. E, para ser sincera, não importava se esse cara tentasse fazer alguma coisa — eram cinco contra um. Ele estava em desvantagem. Então algo aconteceu que eu não esperava: o desconhecido deu uma risada alta. — Sério? Você quer que eu vá embora e finja que não vi vocês tentando estuprar essa moça? — perguntou, com uma voz fria e profunda. Dava para perceber que ele estava acostumado a dar ordens, não a recebê-las. Sua voz gelada me fez querer recuar. — Vou te dar duas opções: ou eu mato vocês, ou vocês a soltam e vão embora. — Ele soava incrivelmente confiante. Não consegui evitar tremer com suas ameaças.
Os homens ao meu redor explodiram em risadas. Dava para ver que não acreditavam na ameaça. Pela postura dele, percebi que não gostou de ser ridicularizado. Vi em seu rosto quando ele cerrou os dentes e fechou os punhos ao lado do corpo. Prendi a respiração quando ele puxou uma arma do casaco e apontou para um deles. Cobri os olhos com as mãos quando o cara que me segurava me soltou e partiu para cima dele. Encolhi-me e gritei quando ouvi o tiro ecoar nos meus ouvidos. Enquanto deslizava pela parede até o chão, escondi a cabeça entre os joelhos e comecei a cantarolar para abafar os sons dos tiros que soavam ao meu redor. Cada disparo me deixava tonta e enjoada.
Quando tudo parou e só restou o silêncio, estremeci quando ele pousou a mão sobre a minha. — Olha para mim! — ordenou. Com cuidado, abri os olhos e encarei o herói que apareceu do nada para me ajudar. Senti minhas pernas tremerem e ficarem bambas ao me levantar. Temi que fosse desmaiar quando ele me encarou tão de perto, me estudando. — Boa menina. Agora vou te tirar daqui! — disse. Senti tontura e achei que fosse cair. Ele me segurou tão rápido que tropecei em seus braços, e meus olhos se fecharam de choque com o que acabara de acontecer. Ele me amparou nos braços, e meus olhos pesaram tanto que não consegui mantê-los abertos, deixando-me levar pela escuridão.