A Marca Do Herdeiro

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Summary

Zael sempre foi um ninguém. Órfão criado nas sombras de Aethelgard, ele nunca soube de onde veio nem por que carrega um pingente que parece sussurrar segredos antigos. Mas quando os Espectros começam a atacar as Arks com uma fúria nunca antes vista, Zael percebe que o pingente não é apenas uma lembrança — é um alvo. E ele é o único que pode entender o que os monstros realmente querem. Entre alianças perigosas e verdades que poderiam destruir a humanidade, Zael precisa escolher: salvar as cidades que o rejeitaram ou deixar que tudo desabe de vez.

Status
Ongoing
Chapters
23
Rating
n/a
Age Rating
16+

CAPÍTULO 1 – O ECO DAS SOMBRAS

Terralem já foi um mundo unificado. Cidades tocavam os céus, e a humanidade vivia sob um único governo. Mas isso foi antes da Queda.

Há duzentos anos, o céu se rasgou. A terra se partiu. Dos abismos surgiram os Espectros - criaturas feitas de sombras e fragmentos de memórias humanas, condenadas a repetir os últimos instantes de suas vidas como um eco eterno. A humanidade sobreviveu em sete cidades fortaleza suspensas no ar, chamadas de Arks. A maior delas é Aethelgard, onde o Conselho governa com mão de ferro e esconde os segredos do passado.

Zael nasceu em Aethelgard, mas nunca se encaixou. Órfão de pai e mãe, ele cresceu sozinho, sobrevivendo nas ruas, confiando em ninguém. Sua única herança é um pingente de prata com um símbolo de três círculos entrelaçados - o mesmo que ele vê em suas visões, o mesmo que sua mãe usava antes de desaparecer.

Há três noites, Zael vem sendo arrancado do sono por memórias que não são suas. Ele vê uma cidade em chamas. Sente o calor do fogo em seu rosto. Ouve gritos. E vê uma figura de capa vermelha com olhos que brilham como brasas vivas. Um nome ecoa em sua mente: Malachar.

Ele não sabe o que essas visões significam. Mas sente que elas estão ligadas a ele. E que a única maneira de descobrir a verdade é descer ao mundo lá embaixo, onde as ruínas da Queda ainda guardam os segredos que as Arks tentam esconder.

Na manhã do quarto dia, Zael tomou sua decisão. Ele desceu da cidade flutuante por um elevador de corda - uma das poucas conexões entre o céu e a terra. O ar ficou mais pesado a cada metro. Mais frio. Mais silencioso. O cheiro de poeira e metal preenchia seus pulmões enquanto ele pisava no solo pela primeira vez em anos.

Ele caminhou por horas entre as ruínas de Vidara. A cidade já foi próspera - ele podia ver isso pelos restos das construções, pelas estradas largas que agora estavam cobertas de cascalho. Mas agora era apenas um cemitério de pedra e silêncio. Prédios inclinados como dentes quebrados. Vidros estilhaçados brilhando como lágrimas congeladas no chão. O vento uivava entre os destroços, e Zael sentiu o peso do isolamento como uma pressão no peito.

Ele não deveria estar ali - o Conselho havia decretado a zona como proibida. Mas Zael não se importava mais com regras. Ele precisava de respostas. E aquelas ruínas guardavam algo que ele precisava encontrar, mesmo que ainda não soubesse o quê.

Foi ali que ele encontrou seu primeiro Espectro. A criatura emergiu das sombras como fumaça viva, sua forma humana, mas distorcida, seus olhos vazios e brilhantes. Ela tremia como se estivesse sendo desenhada por uma mão insegura. Zael sentiu seu coração acelerar, mas não recuou. Ele sabia que fugir não adiantaria. Ele já tinha visto o que os Espectros faziam com quem tentava escapar.

Ele lutou com ela. A adaga cortou o ar. A lâmina rasgou a substância escura da criatura. Quando ela caiu, uma onda de luz azul invadiu sua mente - e ele viu. Não apenas imagens. Ele sentiu o medo de um soldado que morreu duzentos anos antes. Sentiu o calor de uma cidade em chamas. Sentiu a presença de alguém que observava tudo com um sorriso calmo. Malachar.

Zael caiu de joelhos, ofegante. A energia azul ainda pulsava em sua mão. Ele olhou para o pingente. O símbolo brilhava fracamente, como se estivesse respondendo ao poder dentro dele.

- O que você quer de mim? - ele sussurrou para o vento.

O vento não respondeu. Mas algo se mexeu entre os destroços.

Zael se levantou rápido, a adaga em punho. Mas não era uma criatura. Era uma garota. Magra, de cabelos curtos e olhos verdes, com uma jaqueta de couro surrada e um arco nas costas. Ela o encarava com desconfiança, a mão apoiada no arco, pronta para disparar.

- Você é um daqueles caçadores do Conselho? - perguntou ela, a voz firme.

- Não. - Zael baixou a adaga, mas não a guardou. - Eu sou ninguém.

- Ninguém que brilha? - Ela apontou para a mão dele, que ainda emitia um fraco brilho azul. - Vi de longe.

Zael cerrou o punho, sufocando a luz.

- Não sei o que é isso.

- Você está mentindo. - Ela deu um passo à frente. - Eu sei que está mentindo. Mas eu também não confio em você. Meu nome é Lyra. Eu caço Espectros para sobreviver. E você, mesmo que não saiba, está chamando a atenção de coisas que não deveriam te notar.

Zael não respondeu. Mas não negou.

Lyra conduziu Zael pela Floresta de Vidro - um lugar onde árvores de cristal cresciam em meio às ruínas, refletindo a luz cinza do céu como espelhos quebrados. O som de seus passos ecoava entre os troncos transparentes, e Zael sentiu uma estranha paz naquele lugar, como se as árvores estivessem guardando segredos que o vento não podia levar.

- Como você sabe o caminho? - perguntou Zael.

- Já vim aqui antes. - Lyra não olhou para trás. - Tenho um amigo que mora do outro lado. Ele é velho. Sábio. E ele conhece pessoas que sabem coisas sobre a Queda.

- O que você quer com isso?

- O mesmo que você. - Lyra parou e virou o rosto. - Respostas.

Zael não respondeu. Mas pela primeira vez, sentiu que talvez não estivesse tão sozinho.

A vila de Pedra era pequena. Algumas casas de pedra, uma fogueira no centro, e algumas pessoas que olhavam Zael com desconfiança. O velho se chamava Orin. Sua barba era longa e grisalha, seus olhos claros e vivos, como se tivessem visto mais do que deveriam.

- Você tem o símbolo - disse Orin, apontando para o pingente de Zael.

- Você conhece? - perguntou Zael, surpreso.

- Conheço. - Orin se sentou em uma cadeira de madeira rangente. - Foi usado pelos Arquiteto antes da Queda. Eles eram estudiosos da memória e do poder. O símbolo representa a ligação entre passado, presente e futuro. Mas quem o usa pode acessar memórias que não são suas - e também pode perder a própria identidade no processo.

- Como eu controlo isso?

- Você não controla. - Orin balançou a cabeça. - Você aprende a conviver com isso. E isso vai doer. Você vai errar. Vai machucar pessoas. Mas se você desistir, nunca vai descobrir o que realmente aconteceu.

Zael passou os dias seguintes treinando com Orin. Ele tentava acessar o poder sem lutar, sem medo, apenas sentindo. Mas a energia era instável. Ela pulsava, fugia, queimava. Em alguns momentos, ela vinha suave e azul. Em outros, explodia com violência.

No quinto dia, durante o treino, ele perdeu o controle. A luz azul se espalhou como uma onda, e Lyra, que estava perto, foi jogada contra a parede de pedra. Ela caiu. Sangue escorrendo de sua testa.

- Lyra! - Zael correu até ela.

- Você precisa... - Ela tentou se levantar. - Você precisa parar de se culpar.

- Eu te machuquei.

- E você vai me machucar de novo. - Ela tocou o corte na testa, os dedos manchados de sangue. - Porque você está aprendendo. Mas se você desistir agora, eu vou te achar e te matar com minhas próprias mãos.

Zael riu. Foi a primeira vez em dias.

Naquela noite, Zael teve outra visão. Mas dessa vez, ele não estava apenas vendo. Ele estava lá. Na cidade em chamas. Sentindo o calor. E a figura de capa vermelha estava olhando diretamente para ele.

- Você é interessante - disse a figura, com uma voz calma e fria. - Eu senti você antes de você sentir a mim. Você está despertando.

- Quem é você? - perguntou Zael.

- Você já sabe. - A figura deu um passo à frente. - Malachar.

Zael acordou gritando. O pingente no pescoço estava queimando. Ele olhou para a janela, ofegante. No escuro, ele viu uma forma se mover. Algo o observava da entrada da vila.

No dia seguinte, Zael encontrou Orin e Lyra no centro da vila.

- Eu vi ele - disse Zael. - Malachar.

- Você falou com ele? - perguntou Orin, sério.

- Ele falou comigo.

Orin suspirou.

- Isso significa que ele sabe que você existe. E se ele sabe... você não pode mais ficar parado.

- O que eu faço?

- Você precisa encontrar o Templo do Símbolo. Lá, você vai aprender a controlar o que você tem. Ou vai morrer tentando.

Zael olhou para suas mãos. Elas tremiam levemente.

- E se eu não conseguir?

- Então não será você que vai morrer. - Orin olhou para Lyra. - Serão todos ao seu redor.

Zael sentiu o peso das palavras. Ele não sabia o que o esperava no Templo. Mas sabia que não podia fugir.

Na manhã seguinte, Zael, Lyra e Orin partiram. A vila de Pedra ficou para trás, junto com a fogueira que ainda ardia no centro. O vento soprava frio, e o céu continuava cinza. Mas pela primeira vez, Zael sentiu que não estava mais sozinho. Ele ainda não controlava o poder. Ainda não confiava totalmente em Lyra. Ainda não entendia quem era Malachar. Mas tinha um caminho. E isso era o suficiente.