Prólogo
Prólogo
Numa noite de lua cheia, o rio parecia vivo. Suas águas se moviam como se respirassem, e foi nelas que Mário, um pescador simples do interior do Pará, viu algo que nunca esqueceu: uma mulher de cabelos dourados como ouro e olhos da cor do mais puro mel, presa nas redes de pesca.
Assustado, ele se aproximou e cortou as cordas que a prendiam. Por um instante, ela o fitou com gratidão e desapareceu nas águas.
Naquela noite, o vento soprou uma melodia estranha sobre o rio — e o nome “Serena” ficou gravado no coração de Mário, mesmo sem saber de onde vinha.
Dias depois, enquanto Mário pescava sozinho, a mulher voltou.
Ela veio à tona silenciosa, com um olhar curioso e doce. Disse que viera agradecer. Ele quis fugir, mas algo nele o impediu. Assim começaram os encontros furtivos, sempre ao anoitecer.
Mário levava frutas, histórias e o violão do pai. Ela o ouvia encantada — e, em troca, cantava, mas de uma forma que não deixasse Mário enfeitiçado ao ponto de se afogar nas águas.
A voz de Serena tinha o poder de fazer o rio se acalmar, de fazer os pássaros silenciarem.
E quando o amor cresceu entre os dois, a Sereia sentiu o peso da escolha: as águas ou o homem que amava.
Determinada a viver com Mário, Serena procurou uma velha feiticeira, uma mulher que conhecia a linguagem das marés.
A feiticeira advertiu:
“Toda sereia que abandona o rio carrega a saudade como uma maldição.
Ela pode andar sobre a terra, mas o coração continuará batendo em ritmo de maré.”
Ela aceitou mesmo assim.
As escamas se transformaram em pele, a cauda em pernas.
E ela escolheu um novo nome, Jacira, para viver entre os humanos — embora o passado ainda sussurrasse dentro dela.
Com Mário, Jacira viveu dias de amor e simplicidade.
Ela aprendeu a cozinhar, costurar, e cuidar dos demais afazeres da casa com a sogra. Dona Rosa por vezes estranhava o jeito da nora, e o fato de ninguém a tê-la visto antes por aquelas bandas, mas não questionava a escolha do filho. Jacira engravidou de uma menina, a quem decidiu dar o seu verdadeiro nome: Serena. E antes que a mesma nascesse, acompanhou o marido e sua família para o Rio de Janeiro em busca de uma vida melhor. Quando veio o segundo filho, algo dentro de Jacira começou a mudar.
As águas a chamavam.
Os sonhos traziam o som de correntes, conchas, vozes antigas.
Ela tentava resistir, mas seu corpo adoecia, como se as marés estivessem dentro dela, exigindo retorno.
Mário notou o olhar distante, o sorriso que murchava. Achou que era tristeza, cansaço de mãe. Mas era o rio chamando.
Numa madrugada chuvosa, Jacira caminhou até o rio e mergulhou nas águas, sem olhar para trás.