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O Sangue de Noctemora

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Summary

Sera aprendeu cedo que o sangue nunca mente. Num mundo governado por antigas Casas vampíricas, segredos proibidos e alianças frágeis, ela sempre soube que confiar na pessoa errada podia custar-lhe a vida. O que não esperava era que essa pessoa fosse Lucien, vampiro frio, arrogante e perigosamente impossível de ignorar. Ele parece saber mais sobre o passado de Sera do que ela própria. Sobre o sangue que corre nas suas veias. Sobre os acontecimentos que todos fingem nunca ter existido. Enquanto os dois se enfrentam numa batalha constante de provocações, desconfiança e desejo, uma ameaça esquecida começa a despertar. E, à medida que verdades enterradas vêm à superfície, Sera percebe que talvez não seja apenas uma peça no jogo das Casas, talvez seja a razão pela qual tudo começou. Entre inimigos que podem tornar-se amantes, promessas feitas em sangue e uma escuridão capaz de destruir tudo, Sera terá de decidir em quem confiar. Porque algumas verdades não foram feitas para serem descobertas, e alguns amores nascem condenados.

Genre
Fantasy
Author
Beatriz
Status
Ongoing
Chapters
3
Rating
n/a
Age Rating
18+

Capítulo 1: Bem-vinda a Noctemora - Parte 1

Eu sempre achei que as grandes mudanças na vida deviam vir acompanhadas de música dramática, chuva no vidro e talvez uma frase profunda sobre destino.No meu caso, vieram acompanhadas do meu pai a dizer:

- Senta-te direita, Seraphina.

Portanto, muito menos poético.

Endireitei-me no banco de couro negro da carruagem, ou carro, ou seja lá o que aquilo era. Tecnicamente tinha rodas, deslizava sobre a estrada sem fazer barulho e acho que nenhum veículo deveria cheirar a madeira antiga, metal frio e sangue de rosas.

Mas em Noctemora, aparentemente, tudo fazia questão de ser dramático.

- Estou direita - respondi.

O meu pai nem sequer olhou para mim.

- Estás inclinada para a janela como se nunca tivesses visto uma cidade.

- Tecnicamente, nunca vi esta.

A minha mãe, sentada ao lado dele, levantou os olhos do pequeno livro encadernado em pele escura que trazia no colo. Isolde Aurelia Vale conseguia olhar para uma pessoa com a delicadeza de uma pintura antiga e, ao mesmo tempo, fazer essa pessoa sentir que tinha acabado de partir uma lei ancestral. Era um talento.

- Noctemora não é uma cidade comum, Sera.

Sorri-lhe pelo reflexo da janela.

- Já tinha reparado. Há uma estátua de um corvo com dentes ali atrás.

- Era uma gárgula — disse o meu pai.

- Tinha dentes. Eu mantenho a minha versão.

Valerius Orpheon Vale soltou um suspiro quase impercetível, o que, vindo dele, equivalia a uma crise emocional completa.

Do lado de fora, Noctemora estendia-se como uma coisa viva sob o céu escuro. As ruas eram de pedra lisa e húmida, iluminadas por candeeiros altos de ferro negro. Havia cafés com varandas estreitas, livrarias com vitrines cheias de volumes antigos, lojas de luvas, capas, joias de sangue selado e penas encantadas. Estudantes atravessavam as ruas em pequenos grupos, vestidos com casacos elegantes, botas altas, vestidos escuros, uniformes parciais e expressões de quem pertencia àquele lugar desde sempre. Eu, por outro lado, sentia-me como se tivesse invadido uma pintura muito cara.

Ao fundo, erguia-se a Academia Aurelian de Noctis. Mesmo à distância, era impossível ignorá-la. Torres góticas cortavam o céu, janelas altas brilhavam como olhos dourados, pontes de pedra ligavam edifícios que pareciam ter sido construídos por alguém com uma obsessão por altura, segredos e ameaças arquitetónicas. No ponto mais alto, uma torre central erguia-se acima de todas as outras, coroada por uma lua prateada gravada em pedra.

A melhor universidade do mundo vampiro, a mais antiga, a mais prestigiada, a mais seletiva e a mais cheia de regras ridículas, pelo que eu tinha ouvido.

E, a partir daquele dia, a minha nova casa.

Uma sensação estranha apertou-me o peito. Não era medo. Quer dizer, talvez fosse. Mas medo parecia uma palavra demasiado simples para aquela mistura de entusiasmo, nervosismo, irritação e vontade súbita de saltar da carruagem e voltar para a minha cama.

- Lembra-te do que conversámos — disse o meu pai.

Fechei os olhos por um segundo.

- Conversámos sobre muitas coisas. Principalmente sobre como o meu comportamento pode manchar séculos de reputação familiar. Foi uma conversa muito divertida. Devíamos repeti-la no meu aniversário.

- Seraphina.

A voz dele cortou o ar como lâmina e abri os olhos.

- Desculpe.

A palavra saiu automática, educada e completamente sem vontade e então a minha mãe pousou o livro no colo.

- O teu pai só quer que compreendas a importância disto.

- Eu compreendo.

Não compreendia totalmente. Ser uma Vale nunca tinha sido apenas ter um apelido. Era carregar uma bandeira invisível nas costas, era entrar numa sala e ver pessoas endireitarem-se, era ouvir criados sussurrarem “Casa Alta” como se fosse uma oração, era ter aulas privadas sobre leis, linhagens, alianças, política, história e como não envergonhar antepassados mortos há mais de mil anos.

Sobretudo a última parte.

- A Academia não é uma extensão da nossa casa - continuou o meu pai. - Lá, as tuas ações serão observadas por estudantes, professores, membros do Parlamento e famílias que esperam que uma filha da Casa Vale saiba comportar-se.

- Então nada de dançar em cima das mesas no primeiro dia?

A minha mãe olhou pela janela para esconder uma expressão que podia ter sido um sorriso, no entanto, o meu pai não achou piada.

Que surpresa absolutamente chocante.

- Há regras, Seraphina.

- Há sempre regras.

- E há consequências para quem as quebra.

A forma como ele disse aquilo fez o ar dentro da carruagem ficar mais frio. Olhei para ele. Valerius Vale era o tipo de homem que parecia ter sido esculpido para salas de julgamento e retratos oficiais. Alto, elegante, cabelo escuro com fios prateados nas têmporas, olhos âmbar escuros que raramente mostravam alguma coisa além de cálculo.

O meu pai não levantava a voz, não precisava.

- Não atravesses zonas restritas - disse ele. - Não entres em alas fechadas. Não aceites convites de sociedades estudantis sem autorização. Não discutas leis antigas com professores. Não perguntes sobre assuntos que não fazem parte do currículo.

Pisquei os olhos.

- Isso foi muito específico.

A minha mãe ficou imóvel, apenas um segundo, mas eu vi.

Isolde Vale era perfeita demais para se mexer sem querer. Se os dedos dela apertaram o livro, foi porque alguma coisa naquela lista também a incomodou.

- É uma universidade antiga - disse ela suavemente. - Lugares antigos têm… sensibilidades.

- As paredes ficam ofendidas se eu fizer perguntas?

- Algumas paredes ouviram mais do que deviam — respondeu o meu pai.

E pronto, normalíssimo.

Olhei de novo para a Academia. Quanto mais nos aproximávamos, mais sentia uma pressão estranha atrás das costelas, como se alguma coisa dentro de mim tivesse acordado e estivesse a esticar-se lentamente. Não era dor, era quase uma chamada.

Engoli em seco.

- E sobre humanos? - perguntei antes de pensar.

O silêncio caiu tão depressa que até as rodas invisíveis da carruagem pareceram hesitar. A minha mãe e o meu pai olharam para mim chocados. Fantástico, primeiro dia e eu já tinha conseguido dizer a palavra proibida em voz alta, uma vitória pessoal.

- O quê? - perguntei, tentando parecer inocente. - Não disse que queria convidar um para jantar, só perguntei.

- Humanos não são tema de conversa casual - disse o meu pai.

- Eu reparei pela forma como toda a gente age como se a palavra mordesse.

- Existem regras de separação por uma razão.

- Que ninguém explica.

- Porque não precisas de saber mais do que aquilo que já sabes.

Aí estava. A frase favorita dos adultos quando queriam esconder alguma coisa. “Não precisas de saber.” Sorri, mesmo sem vontade.

- Claro. Humanos existem, são mortais, perigosos, não devemos falar com eles, tocar neles, aproximar-nos deles, transformá-los, pensar muito neles ou provavelmente desenhá-los num caderno. Está anotado.

- Seraphina - avisou a minha mãe, desta vez com menos suavidade.

Levantei as mãos.

- Já parei.

Mas não tinha parado por dentro, nunca parava por dentro.

A carruagem atravessou uma ponte estreita sobre um rio escuro. A água refletia as luzes da cidade em fios dourados e vermelhos. Do outro lado, os portões da Academia tornaram-se visíveis, eram enormes. Dois pilares de pedra negra sustentavam grades de ferro trabalhado, decoradas com luas, ramos espinhosos e gotas de sangue estilizadas. Em cima dos pilares, duas gárgulas observavam a entrada com asas abertas e bocas cheias de presas.

Não corvos com dentes, portanto, mas próximo.

Quando a carruagem parou, a pressão no meu peito aumentou. A minha mãe saiu primeiro. Depois o meu pai. Um criado abriu a porta do meu lado e eu desci, tentando não tropeçar na bainha do vestido escuro que a minha mãe insistira que era “apropriado para a chegada”. Apropriado, aparentemente, significava apertado o suficiente para impedir respiração profunda. Assim que os meus pés tocaram a pedra húmida, senti um arrepio subir-me pelas pernas.

Parei.

Por um instante, o mundo pareceu inclinar-se. O som dos estudantes ficou distante, as luzes dos candeeiros alongaram-se. Alguma coisa, algures atrás dos portões, pulsou uma vez, depois duas, como um coração enterrado debaixo da pedra.

Levei a mão ao peito.

- Sera? - A voz da minha mãe chegou baixa. - Estás bem?

Pisquei e tudo voltou ao normal.

Estudantes passavam por nós, alguém ria perto de uma fonte, um grupo de rapazes discutia sobre horários, uma rapariga de cabelo prateado arrastava duas malas que pareciam querer fugir dela. Normal, perfeitamente normal. Exceto pelo facto de eu ter acabado de sentir a universidade a respirar.

- Estou ótima - disse.

Mentira.

A minha mãe olhou-me durante tempo demais. Os olhos dela, dourados e pálidos, tinham uma sombra que eu não soube interpretar. Depois aproximou-se e ajeitou uma madeixa do meu cabelo atrás da orelha. Foi um gesto pequeno, quase maternal até diria que triste.

- Lembra-te de quem és - murmurou.

- Uma pessoa que devia ter escolhido uma universidade mais pequena?

Ela não sorriu.

- Uma Vale.

Ah, isso.

O meu pai aproximou-se também, impecável como sempre.

- O teu irmão está à tua espera no átrio principal. Ele vai acompanhar-te até à cerimónia de receção.

- Porque eu obviamente não consigo atravessar um edifício sem supervisão.

O olhar dele desceu até mim.

- O histórico não favorece o teu argumento.

Abri a boca para responder, mas a minha mãe apertou-me levemente o braço.

- Seraphina.

Respirei fundo.

- Está bem. Sem discussões. Sem crimes. Sem escândalos. Pelo menos antes do almoço.

Desta vez, tive quase a certeza de que ela quis sorrir.

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