Capítulo 1
“SE VOCÊ DER mais um passo, eu te mato”, rugiu a mulher, escondendo o filho atrás de si. Sua mão apertava a faca cega enquanto ela tentava controlar o tremor do próprio corpo.
“Você sabe com quem está falando?” O cavaleiro deu mais um passo à frente. “Você está presa por roubo. É melhor se render, ou só vai piorar a sua situação.”
“Não chegue mais perto”, ela gritou novamente, balançando a faca. Ela olhou para o segundo cavaleiro, que levou a mão à espada. Ele parecia impaciente.
Ela esperava que ela e o filho chegassem ao rio antes que os cavaleiros os alcançassem, mas seu ferimento a deixava lenta demais. Ela empurrou o pequeno Geoffrey para trás e rezou para que ele não visse sangue, mas não teve tempo de pensar nisso.
O cavaleiro investiu contra ela e desferiu um golpe com a espada. Ela desviou e cravou a faca na lateral da coxa esquerda dele, torcendo-a em seguida. Ele soltou um grito de agonia e caiu de joelhos. A mulher pegou a espada dele e se virou para o primeiro cavaleiro. Ele parecia chocado demais para se mover.
“Sua vadia.” Ele finalmente recobrou os sentidos e desembainhou a própria espada.
Ela podia vencê-lo, especialmente estando armada. Não precisava matá-lo, apenas feri-lo o suficiente para que não pudesse segui-los. Ela levou a mão ao ferimento na lateral do corpo e estremeceu de dor.
‘Eu preciso conseguir.’
A mulher deu um passo em direção ao homem, pronta para atacar. Mas sua mão parou no ar ao ouvir cavalos se aproximando. Mais cavaleiros apareceram, liderados por um nobre. Sete ao todo.
‘Droga.’
Ela não venceria todos eles. Comparados àqueles cavaleiros, os outros dois pareciam meros cachorrinhos.
“Vossa Graça.” O primeiro cavaleiro se ajoelhou.
“O que está acontecendo aqui?” O duque olhou para o homem no chão e depois para a mulher que segurava a espada.
“Vossa Graça, esta mulher é acusada de roubo, mas não quer se render. Ela estava tentando fugir.”
“Foi ela quem fez isso?” Ele apontou para o homem que ainda estava de joelhos no chão.
“Sim, Vossa Graça.”
O duque observou a mulher. Ela o encarou de volta, com os olhos cinzentos selvagens e ardentes. Ela tinha cerca de um metro e sessenta e era muito magra. ‘Como uma mulher tão pequena pôde ferir um dos meus homens?’
“Acho que você está em desvantagem, minha dama. Não seria melhor desistir logo?” O duque desmontou de seu cavalo negro e deu alguns passos em direção a ela. A mulher o encarou por um momento; mal conseguia mais ficar de pé.
“Eu não roubei nada, meu senhor.” Ela baixou a espada.
“Então por que estava correndo?”
“Porque eu estava sendo caçada.” Ela sentiu a consciência falhar. “Eu me rendo, mas por favor, me prometa—” Ela engoli em seco e a espada escorregou entre seus dedos. Ela fechou os olhos com força, tentando manter o controle. Porém, ao abri-los, o mundo inteiro girava ao seu redor. Ela perdeu o equilíbrio e caiu, mas o duque a segurou antes que atingisse o chão.
“Mamãe”, Geoffrey chamou, assustado.
“Por favor, não faça mal ao meu filho”, a mulher sussurrou antes de desmaiar.
O duque notou o vestido manchado de sangue e encontrou um ferimento profundo de faca. Ele ficou impressionado. Metade dos seus recrutas novos não teria conseguido nem andar com um ferimento daqueles, muito menos lutar. Em um movimento rápido, ele pegou a mulher no colo. “Victor”, ele chamou.
“Sim, Vossa Graça.”
“Cuide do menino, leve-o para o castelo. Eu vou na frente.”
“Sim, Vossa Graça.” Victor fez uma reverência.
O duque montou em seu cavalo veloz com a mulher nos braços. Ele não sabia explicar o motivo, mas ela despertara sua curiosidade. Chegaram ao castelo em pouco tempo.
“Jasper, chame o médico.” O duque deu passos largos, carregando a estranha ferida em seus braços.
“Imediatamente, Vossa Graça.”
Quando o médico chegou, examinou o ferimento e curou-o prontamente. Depois, ele foi escoltado até o escritório do duque.
“Vossa Graça, o senhor salvou a vida daquela mulher. Ela não teria durado muito mais tempo”, ele relatou.
“Ela está bem agora?”
“Sim, Vossa Graça. Curei o ferimento dela; ela só precisa descansar. Como sabe, a magia cobra um preço de quem não consegue usá-la, então ela provavelmente precisará de alguns dias para recuperar a consciência.”
“Obrigado, doutor.”
“Vou me retirar, então, Vossa Graça.” O médico fez uma reverência e deixou o escritório.
O duque recostou-se na cadeira, pensativo. ‘Tenho a sensação de que algo virá deste encontro inesperado.’ Ele não se demorou no pensamento porque foi interrompido por uma batida na porta. Victor abriu-a e entrou, trazendo o menino de mais cedo.
“Perdoe-me, Vossa Graça. Eu trouxe o menino.”
“Ah, sim, entre, garoto.” Geoffrey caminhou com timidez até a mesa do duque. “Como está o recruta ferido?”, ele perguntou ao comandante.
“Ele está sendo tratado pelo médico neste exato momento, meu senhor.”
“Acho que os novos recrutas precisam de mais treinamento, vendo que dois deles falharam em prender uma mulher ferida.” O cavaleiro ajoelhou-se, envergonhado.
“Minhas desculpas, meu senhor. Treinarei pessoalmente os novos recrutas e garantirei que tal incidente não aconteça novamente.”
“Bom. Pode sair agora.” Sua voz estava fria.
“Sim, Vossa Graça.”
Os olhos do duque voltaram para o pequeno garoto. Ele tinha os olhos cinzentos da mãe, mas, ao contrário do cabelo castanho dela, o dele era louro-dourado. “Pode sentar, garoto.” O pequeno Geoffrey olhou para a cadeira, hesitou por um momento, então subiu e sentou-se.
“O senhor vai me matar?”, o menino perguntou inocentemente. A pergunta surpreendeu o duque.
“Eu pareço tão assustador assim?” Ele ergueu uma sobrancelha.
“Sim”, respondeu Geoffrey num sussurro.
O duque o encarou por um momento antes de cair na risada. “Você é bem sincero”, ele disse entre risadas. “Mas um menino da sua idade nem deveria falar sobre matar”, ele acrescentou.
“É que eu me lembrei do que aqueles homens disseram para a mamãe mais cedo.”
“Os cavaleiros?” O duque franziu a testa.
“Não, os homens do mercado.”
Ele ficou um pouco confuso. ‘Os homens do mercado? Aqueles que acusaram a mãe dele de roubar deles?’
“Pode me contar o que aconteceu?”
Geoffrey hesitou por um segundo. “Eu quero ver a mamãe. Ela está bem?”
O duque notou as lágrimas se formando nos olhos do menino. Ele devia estar assustado por ter visto a mãe desmaiar e depois ser levado por estranhos. “Sua mãe está bem. Ela só precisa dormir um pouco. Vou levar você até ela depois que terminarmos de conversar. Tudo bem?”
“Tudo bem.”
“Então, me diria o que aconteceu com os homens no mercado?”
“Eles eram muito assustadores, mandaram a mamãe dar o dinheiro dela, mas ela disse não. Então, eles a machucaram—” ele fez uma pausa, “disseram que nos matariam, mas a mamãe bateu em dois deles e então corremos para a floresta. Os cavaleiros nos seguiram e tentaram machucar a mamãe também. Ela fez o que pôde para me defender—” ele pausou novamente, “e então o senhor apareceu.”
O duque observou o menino por um momento. “Qual é o seu nome?”
“Geoffrey Croix. Qual é o seu nome?”
Ele sorriu. “Daniel Van Konigl.”
“Muito prazer, senhor Van Konigl.” Geoffrey pulou da cadeira e fez uma reverência para o duque.
O sorriso de Daniel aumentou. “Muito prazer também, senhor Croix.” Ele inclinou a cabeça levemente para o menino. “Agora, o que acha de eu levá-lo para ver sua mãe?”
“Sim.” Ele abriu um sorriso radiante.
O menino deu passos rápidos atrás do duque, mas lutava para acompanhar o ritmo. “Senhor Van Konigl”, ele chamou após tropeçar algumas vezes. Daniel parou e olhou para trás. “O senhor poderia andar um pouco mais devagar? Eu tentei acompanhar o seu passo, mas as suas pernas são muito mais longas que as minhas”, ele disse franzindo a testa. “A mamãe sempre anda devagar e segura a minha mão para que eu não me perca.”
Daniel riu. “Tenho uma ideia melhor.” Ele o pegou no colo.
“Eba! Eu estou da altura do senhor Van Konigl”, comemorou Geoffrey.
Enquanto o duque caminhava pelos corredores, notou a surpresa de todos os servos por quem passava. ‘Imagino que um duque de coração frio carregando uma criança no colo não seja uma imagem muito comum.’
Eles finalmente chegaram ao quarto e Daniel colocou Geoffrey no chão para que corresse até a mãe. Ele ficou ao lado da cama e segurou a mão dela.
“Mamãe, me desculpe por não ter conseguido te proteger”, ele disse enquanto se abaixava e encostava a testa na mão da mãe. “Eu quero crescer logo para ser forte.” Ele beijou a mão dela.
As palavras do menino atingiram algo dentro de Daniel. Ele se lembrou de dizer coisas parecidas enquanto chorava sobre os corpos sem vida de seus pais. Ele deu alguns passos para longe do menino para respirar fundo. “Então, qual é o nome da sua mãe?”, ele perguntou, tentando enterrar a dor que vinha com as lembranças.
“O nome dela é mamãe, obviamente”, respondeu Geoffrey, olhando para Daniel de forma curiosa.
Ele sorriu. “Sim, é assim que você a chama, mas como as outras pessoas a chamam?”
Geoffrey o encarou por um momento, como se estivesse decidindo se contava ou não. “Magnolia”, ele finalmente soltou.
“Magnolia”, Daniel repetiu.