Capítulo 1
“Only love can hurt like this...” A melodia reverberava pelo quarto mal iluminado, envolvendo-a como uma nuvem escura. O relógio bateu meia-noite, seu badalar ecoando no silêncio, um lembrete do tempo que havia passado.
Suspirando, ela pegou a taça de vinho e a tocou suavemente na taça vazia ao lado. “Feliz aniversário, Orion”, ela sussurrou, a voz trêmula enquanto olhava para o relógio e para a foto deles. Seus olhos, pesados com lágrimas contidas, percorriam os contornos do rosto dele na fotografia — o maxilar forte, o olhar penetrante que um dia tivera um brilho que ela ousara esperar que fosse amor. Era a foto do casamento deles. Mesmo nela, ele não sorria. Orion raramente sorria, mas seus impressionantes olhos verdes transmitiam tudo o que as pessoas precisavam saber.
O vinho escuro e decadente tinha um gosto amargo em sua língua, assim como a amarga lembrança do casamento deles. Cada momento do matrimônio era um castigo para ele. Ela sabia disso.
Ela tomou um gole longo, com a mão trêmula, e fechou os olhos, deixando a música envolvê-la, aumentando a dor profunda em seu peito.
As paredes pareciam se fechar ao seu redor, sufocando-a com suas acusações silenciosas.
A moldura da foto parecia fria e implacável em suas mãos. Lyra contornou o rosto de Orion com o dedo, que permaneceu sobre o sorriso que nunca chegava aos olhos dele. “Por que você se casou comigo, Orion?”, ela sussurrou, com a voz embargada. “Foi por dever? Obrigação? Ou foi para agradar nossas famílias?”
Ela riu com amargura. A quem ela queria enganar? Foi ela quem se casou com ele — ela quem saltou de alegria quando seus pais apresentaram aquela proposta.
Seu olhar mudou para a cadeira vazia do outro lado da mesa, um lembrete do espaço vasto e solitário entre eles — o ódio por ela que crescia a cada dia. Ela se lembrava do dia em que se casaram, de como ele a olhara, não com amor, mas com algo que parecia um ressentimento frio e distante.
Uma lágrima escorreu por sua bochecha, misturando-se ao vinho enquanto caía na taça. Ela não se deu ao trabalho de enxugá-la. “Você ao menos pensa em mim, Orion? Você se lembra deste dia, ou sou apenas uma sombra na sua vida?”
A dor era uma companheira constante, um mal que corroía sua alma. Ela sentia como se estivesse se afogando; cada respiração era uma luta, cada batida do coração era um lembrete do amor que ela dera livremente e da indiferença que recebera em troca. Ela ansiava por um toque, uma palavra gentil, qualquer coisa para quebrar a monotonia de sua solidão.
Lyra se levantou; o quarto girava levemente por causa do vinho. Ela se aproximou da janela, pressionando a testa contra o vidro frio. As luzes da cidade cintilavam ao longe, contrastando com a escuridão que envolvia seu coração. Ela observava a vida seguir lá fora, pessoas se movendo, rindo, amando — vivendo a vida com a qual ela sempre sonhara, mas nunca alcançara.
“Por que dói tanto?”, ela murmurou, com o hálito embaçando o vidro. “Por que o amor tem que ser tão cruel?”
A música mudou, mas a dor permaneceu, e uma convidada indesejada se recusava a ir embora. Ela sabia que não podia continuar assim, mas não sabia como se libertar das correntes do próprio coração. Seu amor por Orion era como uma faca de dois gumes, cortando-a profundamente mesmo enquanto a mantinha presa a ele.
Conforme a noite avançava, Lyra permanecia junto à janela, com o coração pesado por palavras não ditas e sonhos não realizados. Ela segurava a taça de vinho com força. Ela precisa manter uma fachada corajosa amanhã. Como a mulher forte que finge ser. Mas, naquela noite, ela se permitiu sofrer, sentir todo o peso de sua tristeza e lamentar o amor que lhe trouxera tanta dor.
“Feliz aniversário, Orion”, ela sussurrou uma última vez, com a voz quase inaudível. “Espero que você encontre o que procura. Espero que um dia você entenda a profundidade do meu amor por você.”
E com isso, ela se afastou da janela, deixando para trás as lembranças e a dor, ainda que por um momento, enquanto caminhava em direção ao seu futuro condenado.