Capítulo 1 ~ Prólogo
Abigail estava parada ao pé da escada, olhando para Gloria. Emily estava no patamar, gritando pelo pai. Andrew veio correndo do escritório e viu Gloria... inconsciente no chão, com Abigail parada sobre ela.
Andrew gritou: "O que você fez? O que você fez com sua mãe, sua besta odiosa!?", enquanto esbofeteava o rosto dela repetidamente. O abuso era comum... Abigail já estava acostumada.
A ambulância levou Gloria para o pronto-socorro, e toda a família foi atrás. Eles esperaram por notícias sobre o estado dela.
O médico saiu duas horas depois e disse que Gloria estava em coma. Ela tinha uma hemorragia no cérebro que precisava ser monitorada, caso piorasse. Se isso acontecesse, ela precisaria de cirurgia.
Andrew olhou para Emily, que estava com os olhos cheios de lágrimas, e perguntou o que tinha feito sua mãe cair da escada. Ela se encolheu e olhou rapidamente para a irmã antes de sussurrar: "A Abby empurrou ela".
Abigail permaneceu no canto do corredor, onde fora obrigada a ficar desde que chegaram ao hospital. Ela deu um riso de escárnio ao ouvir as palavras de Emily.
Sua avó a agarrou pelos cabelos e a arrastou até o pai. Embora seu rosto estivesse machucado e inchado, não havia sinal de lágrimas.
Andrew rosnou: "Explique-se!". Abigail olhou ao redor para sua "família"... as pessoas que deveriam amá-la... cuidar dela... protegê-la.
Então ela disse: "Posso explicar que eu tinha acabado de chegar da rua quando vi a Gloria se jogar escada abaixo. Ou posso explicar que, na verdade, vi a Emily empurrar a própria mãe. Posso até explicar que não importa o que eu diga, a culpa vai ser minha, de qualquer jeito".
Andrew deu outro tapa nela. Desta vez, o lado de dentro de sua bochecha rasgou e sua boca encheu de sangue. O golpe a derrubou, mas ela não emitiu som algum. Não derramou uma lágrima.
Seu pai olhou para a mãe e rosnou: "Ela vai num voo para a casa do seu meio-irmão hoje à noite! Que ela viva em Baltic e aprenda o que é sofrimento". O avô de Abigail protestou. Ele olhou para Andrew e perguntou: "Onde você aprendeu a tratar seu próprio sangue desta maneira? Como pode fazer isso?".
Andrew zombou: "Uma criança de um casamento forçado? Ela é a cara da mãe. Eu não posso... não vou... tolerar ela na minha vida por mais tempo. Você sabe de tudo o que ela fez. Esta é a gota d'água! Uma semente ruim de uma semente pior ainda!".
O avô bufou: "Você vive cego há muito tempo. Um dia... vai chegar um dia em que você conhecerá o arrependimento". Abigail deu um meio sorriso e sussurrou: "Não faça isso, vovô. Eu vou ficar bem. O quanto pior pode ser? Eu vou voltar. Eu prometo. E vou tirar você desta casa dos horrores".
Abigail estava na casa do tio há exatamente três semanas quando ele decidiu, em uma noite de bebedeira, que ela deveria pagar pelos seus cuidados amorosos com o corpo. Abigail discordou. Ela o nocauteou com um abajur de cabeceira e fugiu para salvar a própria vida.
Ela viveu nas ruas de uma cidade pequena, revirando o lixo atrás de comida vencida nos fundos da loja de conveniência. Ela implorava por algumas moedas sempre que podia.
Abigail aprendeu a lutar na rua para sobreviver. Depois de alguns meses, sua comida parou de ser roubada. Ela fechou seu coração e protegeu suas emoções.
Perto de completar catorze anos, uma senhora foi atropelada por um carro ao tentar atravessar a rua... e Abigail a salvou. Aquela senhora tornou-se a salvação de Abigail.
Nos quatro anos seguintes, Abigail estudou. Ela leu tudo o que podia. A mulher ficou feliz em ajudá-la. Abigail aprendeu gestão empresarial, programação, relações públicas e finanças. Ela aprendeu sete modalidades de artes marciais. Aprendeu sozinha a tocar piano, a dançar, teve aulas de oratória e aprendeu etiqueta.
Logo após completar dezoito anos, ela foi convocada de volta a Nardian pelo advogado de sua mãe. Ele tinha sido seu único contato com seu país de origem nos últimos cinco anos. Agora era hora de descobrir o que dizia o testamento de sua mãe.
Assim que seu avião pousou, ela alugou um táxi para levá-la ao escritório do advogado. Ela esperou apenas alguns minutos antes de ser chamada para a leitura do testamento.
O advogado levantou-se quando ela entrou e se apresentou: "Srta. Butler, sou Harold Levine. Advogado de sua mãe". Enquanto ele sorria, Abigail pediu: "Por favor, não me chame de Butler. Eu mudei meu sobrenome para Arden... o nome de solteira da minha mãe, no meu aniversário de dezoito anos".
Ele sorriu: "Arden, então. Na verdade, isso vai facilitar muitas das transferências que precisamos resolver. Bem... sua mãe era uma mulher extremamente inteligente. Ela começou a Golden Glory Entertainment muito jovem. Ela era reservada sobre sua fortuna porque a própria família dela não era muito melhor que a sua. Quando a forçaram a se casar com seu pai, ela cortou todos os laços com eles".
Abigail sorriu: "Entendo o motivo dela. Mas não pretendo cortar laços com os Butler. Assim que eu tirar meu avô de lá, vou recuperar sistematicamente a dignidade da qual eles me privaram".
Ele balançou a cabeça, sorrindo: "Igualzinha a Elizabeth. Sua mãe teria orgulho. Você, minha cara, é uma jovem muito rica. Pegue uma caneta e prepare-se para assinar sua vida. Há um total de quatro residências... a Golden Glory... assim como várias empresas menores que lidam com a indústria do entretenimento. Existem cinco contas bancárias... totalizando trinta e sete milhões de dólares".
Abigail ficou sem palavras. Ela ficou sentada ali, olhando para Harold por vários minutos antes de conseguir falar: "Sr. Levine? Poderia se manter como meu consultor jurídico? Tenho a sensação de que posso precisar de você no futuro".
Ele riu e disse que seria uma honra. "Na Golden Glory, você encontrará Helen Morton. Ela era a melhor amiga da sua mãe e é a CEO interina. A empresa tem operado com o cargo de presidente vago desde que perdemos sua mãe. Se quiser, levarei você até lá depois que terminarmos aqui."
Assim que ela concordou, ele continuou: "A família do seu pai não sabe da sua herança. Sua mãe deliberadamente escondeu isso deles... acreditando que o dote que os pais dela forneceram já era o suficiente. Devo lhe dizer uma coisa: acredito que a morte de sua mãe seja suspeita. Por isso, aconselho que você tenha muito cuidado com qualquer pessoa da família Butler".
Ela sorriu: "Ah, pretendo ter cuidado. Muito cuidado. Não é como se eu pudesse matar todos eles e deixar que Deus resolva o resto". Harold olhou para cima e perguntou: "O quê?". Ela sorriu novamente e balançou a cabeça.
Eles foram para a Golden Glory e Helen chorou rios de lágrimas... abraçando Abigail como uma amiga há muito perdida. Abigail ficou sem jeito... não estava acostumada a um contato humano gentil. Ela podia contar nos dedos os abraços que recebeu antes disso... e apenas do seu avô.
Eles visitaram a empresa, enquanto Abigail mantinha seu anonimato por enquanto. Ela aceitou ser acompanhante de Helen em um baile de máscaras dentro de uma semana. A ironia é que a festa era em comemoração ao aniversário de dezoito anos de Emily Butler.
Abigail aproveitou a semana para se instalar em uma mansão que pertencia à sua mãe. Ela comprou carros e contratou um motorista. Os empregados já estavam contratados... embora ela precisasse de um chef e estivesse procurando um cuidador de saúde para seu avô.
Ela fez compras, renovou seu guarda-roupa... e encontrou o vestido perfeito para o baile. Era um lavanda justo ao corpo, com uma cauda longa... sobreposição de renda cheia de cristais Swarovski pendentes. Ela comprou uma máscara de renda e cristal combinando para cobrir o rosto.
Ela aprendeu pequenos truques ao longo dos anos. Ela sempre carregava uma câmera minúscula... assim como canetas gravadoras. Nunca bebia nada que não tivesse visto ser preparado. Nunca se permitia ser encurralada, deixando sempre uma rota de fuga.
Havia muitas coisas sem explicação em sua juventude. Ela sabia que havia perigo à frente. Ameaças desconhecidas e inimigos sem rosto. Muita coisa não fazia sentido, e ela queria chegar ao fundo disso.
E ela queria ser a ruína da existência dos Butler.