O Veterinário

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Resumo

Clara Hollings mantém sua fazenda em Devon, e a si mesma, de pé na base da teimosia. Ela não tem tempo para distrações, muito menos para um veterinário australiano direto e de ombros largos, com charme de sobra e um passado sobre o qual ele claramente não fala. Zac Lomax costumava viver sob os holofotes dos estádios. Agora, ele foge de algo que perdeu, e talvez de algo que tenha quebrado, e Clara nunca deveria ter se tornado tão importante. O que começa como irritação transforma-se em riso. O que vira riso transforma-se em necessidade. E, de repente, a única coisa que Clara não pode se dar ao luxo de ter é exatamente aquilo que ela mais deseja. O Veterinário é um romance slow-burn e sexualmente carregado sobre luto, segundas chances e o risco aterrorizante de deixar alguém ver quem você é quando mal consegue sobreviver.

Status
Completo
Capítulos
41
Classificação
4.9 23 avaliações
Classificação Etária
18+

Chapter 1

“Sem preocupações, querida”, Jan grita do outro lado da linha. “Tem alguém a caminho. Fique com ela e não a deixe deitar. Você sabe como é.”

Clara encerrou a ligação e enfiou o celular no bolso da jaqueta. Ela estava congelando, mesmo dentro do celeiro, mesmo com três camadas de roupa. Era um mês de março maldito, mas o vento lá fora ainda cortava como se fosse janeiro. E, claro, como a maioria dos animais e aparentemente dos humanos, as vacas preferiam dar à luz no meio da noite infernal.

Ela acariciou o flanco ofegante de sua vaca, Starling, uma de suas favoritas. A coitada gemia baixinho, com os olhos arregalados e a barriga tensa pelo esforço. Clara tinha tentado de tudo, menos intervir pessoalmente, mas estava claro: o bezerro não estava saindo. Não sem ajuda.

Clara continuava olhando para a entrada da fazenda, rezando para ver faróis, rezando por Turlough. O substituto da última temporada de partos era um gênio com bezerros entalados — um veterinário irlandês, baixinho e falante, com mãos delicadas e que não perdia tempo com bobagens.

Um par de faróis finalmente cortou a escuridão e iluminou as portas do celeiro. O coração de Clara deu um salto.

“Porra, ainda bem”, ela murmurou, entrando nas sombras. “Turlough? Estou no celeiro!”, ela chamou em voz alta.

Botas estalaram no cascalho e depois na palha. Uma figura grande surgiu, alta e de ombros largos, com uma bolsa de lona em um dos ombros.

“Você não é o Turlough”, ela disparou, assustada com a figura à sua frente. “Cadê o Turlough?”

Uma pausa. “Er... desculpe. Não conheço nenhum Turlough. Sou o veterinário enviado pela agência.” O estranho parecia completamente confuso com a pergunta. Ele se perguntou se estava na fazenda certa. “Seus veterinários nos ligaram, não foi?”

“Você é o substituto?”, ela o questionou, severa.

“Pelo que eu saiba, sim”, disse ele, dando tapinhas no próprio casaco como se para reforçar que era real e estava carregado com o equipamento. “Eu venho com luvas, cordas e uma conversa fiada medíocre.”

Clara engoliu sua decepção. Ela confiava em Turlough. Ela conhecia Turlough. Este cara... era uma incógnita. Starling era sua vaca. E se esse sujeito fizesse besteira?

Ela deu um aceno curto, percebendo que não ganharia nada sendo teimosa e esperando que Turlough aparecesse. A vaca precisava de ajuda agora. “Certo. O bezerro está entalado. Ela tem três anos, já teve um filhote antes. Acho que este é grande demais. Ela está assim há mais de uma hora.” Clara deu a atualização para o substituto inesperado.

Ele se agachou ao lado de Starling. “Ela está fazendo força? Algum sinal de patas? Alguma secreção?”

“Nada de patas. Ela tentou mais cedo, mas agora... não muito.”

“Ok.” Ele tirou a jaqueta, puxou uma luva veterinária longa e pegou o pote de lubrificante. “Vamos ver o que temos aqui”, ele murmurou.

Starling relaxou um pouco enquanto ele trabalhava. Clara ficou perto da cabeça dela, sussurrando palavras de conforto.

“A pata dianteira está dobrada para baixo”, ele gritou, enfiado atrás da bunda da vaca, com um rabo frustrado batendo em seu rosto. “A cabeça está lá, mas ela não consegue empurrar para frente desse jeito. Não é à toa que ela está exausta.”

“Você consegue ajudar ela?”, Clara perguntou desesperada.

Ele não disse nada por um momento. Então, ajustou sua postura e, com um esforço lento e controlado, desenrolou a perna do bezerro.

“Pronto... quase... consegui”, ele disse com voz rouca, com o esforço visível em seu rosto.

Ele pegou as cordas e as passou ao redor do filhote.

“Muito bem. No três. Ela vai fazer a maior parte do trabalho; nós só precisamos dar uma mãozinha.”

Clara se preparou. Eles puxaram. Starling empurrou. Com um último gemido, o bezerro deslizou para a palha, uma massa úmida e brilhante.

Ele tirou a luva e deu um sorriso. “Um bezerrinho. Ele é um espetáculo.”

Clara já estava ajoelhada ao lado dele, limpando o focinho do animal, com o coração transbordando de alívio.

“Você é um puta mágico”, ela disse, aliviada além das palavras.

Ele riu, limpando a testa. “Que nada. Só sorte. E teimosia.” Ele se levantou e se espreguiçou. “Zac Lomax, a propósito.”

“Clara Hollings.” Ela apertou a mão dele, ambos exaustos, cheirando a esterco de vaca, com a adrenalina ainda correndo nas veias.

“Esta é a Starling”, ela disse de forma distraída.

A atenção de ambos voltou para o bezerro, que já tentava se levantar em pernas bambas.

Zac guardou sua bolsa metodicamente. Celeiros no meio da noite eram sua rotina, mas o frio sempre parecia entrar nos ossos. Clara cuidava de Starling, colocando cama fresca, com uma lâmpada de calor brilhando em vermelho sobre a palha. Ela observava o homem pelo canto do olho. Australiano, claramente. Com o porte de uma parede de tijolos. O nariz quebrado. Uma cicatriz escondida sob a sobrancelha. Mãos calejadas que trabalhavam com uma delicadeza surpreendente. Ridiculamente bonito. O oposto de Turlough em todos os sentidos possíveis. Ela se surpreendeu com o quanto dele ela tinha reparado, o quanto tinha visto. Ela desviou o olhar, limpando a garganta, certa de que estava corando.

Ela deu uma última checada em Starling e se virou. “Quer uma xícara de chá?”

“Com certeza”, disse ele, no mais puro clichê australiano, sem o menor sinal de vergonha.

Ela sorriu. Foi bom. Uma distração. Algo humano depois do caos.

Eles deixaram as botas perto da porta, lavaram-se rapidamente e entraram na cozinha aquecida. O fogão Aga irradiava calor. A casa parecia um museu habitado de seus pais. Clara encheu a chaleira e alcançou o bolo de frutas. Chá para visitas significava bolo. Sempre.

Zac aceitou a caneca e o prato, sorrindo com gratidão. “Obrigado.”

“Então”, disse Clara, equilibrando-se em um banco. “O que te traz para as minhas bandas?”

Ele riu. “Tão óbvio assim?”

Ela assentiu, com um gesto apontando para o sotaque dele. “Só um pouco.”

“Fazendo trabalho de substituição por aqui. Conhecendo o país. Ganhando o pão. Tentando descobrir onde criar raízes.”

“E você foi parar justamente em Devon?”

“Sorte a minha”, disse ele, com a voz baixa e reverberando na cozinha.

Antes que ela pudesse perguntar mais, ele gesticulou ao redor. “E você?”

“Este era o lugar dos meus pais. Agora é meu.” Clara não entrou em detalhes. Ela não conseguia encontrar as palavras.

Houve um silêncio. Zac percebeu, mas não se intrometeu. Seu olhar passou pelas latas de biscoito, pelos recados desbotados no quadro de cortiça e por um pano de prato coberto de ovelhas de desenho animado. Parecia um lar aconchegante e real.

Ele preencheu a ficha de visita. “Os detalhes de contato estão aqui. Se ela tiver alguma recaída ou qualquer outra coisa acontecer.” Clara assinou. Os olhos dele ficaram nela um momento a mais do que o necessário, e ele lhe entregou uma cópia da fatura.

Eventualmente, ela recolheu as canecas e ele jogou sua bolsa no ombro.

Na porta, ele parou. “Starling, certo?”

Clara piscou. “O quê?”

“A vaca. O nome dela é Starling?”

“É. Isso mesmo.” Ela sorriu. Ela não tinha esquecido. Nem por um segundo.

“Me avise como ela passa.” Ele abaixou a cabeça e voltou para o frio. Foi embora. Um vento de chegada, um turbilhão de salvar sua melhor vaca, uma descarga de hormônios, cheiro e masculinidade. Depois, sumiu.

Ela se sentiu desamparada com a ausência dele por alguns segundos, depois deu de ombros. A rotina e a normalidade chamavam.

Clara voltou ao celeiro. Starling dormia. Ela mereceu, pensou Clara consigo mesma. O bezerro fungou. Eles estavam bem. A salvo.

Mesmo assim, ela se sentia... inquieta.

Feitas as verificações da noite, ela tomou um banho e desabou na cama. Normalmente, o sono viria instantaneamente. Não esta noite.

Algo novo zumbia sob sua pele.

Ela se mexeu, o calor subindo lá embaixo, entre as pernas. Fazia meses. Mais do que meses. Desde antes do acidente. O luto tinha desligado seu corpo como uma luz.

Mas agora...

Seus dedos vagaram. Cautelosos. Depois mais ousados. Um lampejo de uma imagem. A imagem dele como aconteceu. Suas mãos. A corda. O controle. A voz dele. Seus olhos. Aquela cicatriz.

Ai, meu Deus.

Ela beliscou o mamilo, a respiração presa na garganta, os quadris se elevando involuntariamente da cama. Seus dedos deslizaram para dentro, e a dor aguda aumentou. Seu pulso disparou. Que porra ela estava fazendo? A tensão subiu rápido. A risada suave dele. Sua risada prolongada. Um flash de seus olhos, seu nariz quebrado. Do jeito que ele tinha olhado para ela na cozinha — aquele momento na porta, emoldurado pela luz.

Ela gemeu, perdida na visão dele.

Sua respiração estalou, e ela gozou, silenciosa, longa e trêmula.

Ela ficou ali no escuro. Culpada. Safada. Aliviada. Totalmente desperta.

Algo tinha mudado dentro dela. Algo que ela quase tinha esquecido que tinha.

Clara assobiava enquanto alimentava as vacas na manhã seguinte. Não era uma música que ela reconhecia, apenas algo que escapou, sem ser convidado, mas não indesejado. O sol tentava romper o céu cinzento de março e, embora não tivesse conseguido totalmente, o ar parecia ter se decidido. A primavera estava chegando.

Ela corria pela fazenda em sua moto de quatro rodas surrada, verificando cercas, níveis de água e o gado, com um olho em sua confiável xícara de café presa no suporte improvisado da moto. Envolta em lã e roupas impermeáveis, ela repôs suas energias com cafeína, tentando não pensar em quão pouco sono ela tinha tido. Ainda assim, ela zumbia. Ainda assim, ela se movia.