Capítulo 1
A cidade estava estranhamente silenciosa para uma manhã de sábado.
Sem buzinas. Sem barulho de obras. Apenas o som rítmico dos tênis de Elara contra o asfalto e o sussurro do vento do início da primavera roçando em seu rosto.
Ela gostava assim, antes que o caos dos táxis, dos turistas movidos a café e dos telefones vibrando tomasse conta. Nessas horas breves, a cidade pertencia a ela.
Um podcast murmurava em seus ouvidos, mas ela mal conseguia ouvir. Seus pensamentos vagavam enquanto ela seguia o trajeto de sempre: pelo caminho arborizado ao longo do Hudson, passando pelas bancas de flores ainda fechadas com suas grades de metal abaixadas, e em direção ao píer antigo, onde as gaivotas brigavam por pedaços de pão.
Este era o seu ritual. Sua sanidade.
Elara inspirou profundamente, sentindo o frio penetrar em seus pulmões. O ar cheirava levemente a sal, escapamento e algo doce — ao longe, uma padaria começando o dia. Sua respiração formava uma névoa à sua frente, mas seu corpo já estava aquecido e vivo com o movimento. O suor escorria por sua espinha, e seu rabo de cavalo balançava ritmicamente a cada passada.
Vinte e seis anos, solteira, não exatamente onde ela imaginou que estaria, pensou com amargura. Mas também não estava se afogando.
O trabalho na agência de design andava sufocante ultimamente: clientes mudando de ideia na última hora, seu chefe jogando toda a responsabilidade nela porque “você é a única em quem confio, Elara”. Ela gostava do seu emprego, de verdade, mas às vezes se perguntava se ele gostava dela.
Ela diminuiu o ritmo até parar perto da margem, tirando um dos fones de ouvido enquanto se apoiava em um muro baixo de pedra. Seu coração batia de forma agradável, seu peito subindo e descendo em respirações controladas.
O rio estava calmo hoje, a água cinzenta espelhando o céu nublado. Alguns corredores passaram por ela, casais com cachorros ou fanáticos por fitness solitários que faziam um aceno educado ao passar.
Elara sorriu para eles, limpando o suor da testa com a manga de seu moletom.
Este momento — exatamente este tipo de momento — era pelo que ela vivia. Imobilidade envolta em movimento. Solidão sem estar sozinha.
Ela pegou sua garrafa de água e bebeu um gole, suspirando enquanto o líquido gelado acalmava sua garganta seca. Seu celular vibrou com uma mensagem.
[Maya]: Tá acordada? Brunch às 11. Veste algo bonito. Vamos naquele lugar com terraço no SoHo.
Elara deu uma risadinha e respondeu:
[Eu]: Acabei de correr. Será que eu tenho alguma coisa bonita?
Maya respondeu na hora:
[Maya]: Você tem um rosto. Isso já basta. Esteja pronta.
Ela riu baixinho e balançou a cabeça. Maya fora sua colega de quarto durante toda a faculdade — caótica, impulsiva, sempre saindo com o pior tipo de homem. Mas leal. Fiel ao extremo. O tipo de amiga que esconderia um corpo para você sem fazer perguntas.
O celular de Elara vibrou de novo, desta vez com uma notificação de notícias:
URGENTE: Mais um corpo encontrado perto do Píer da 43rd East. A polícia suspeita de envolvimento de gangues.
Ela franziu a testa. Aquilo era perto demais de casa.
O terceiro este mês, se ela bem se lembrava. Sem nomes. Sem prisões. A mídia evitava a palavra “máfia”, mas todo mundo sabia — sussurros em becos, avisos de porteiros para manter os olhos baixos, o ocasional SUV preto estacionado por tempo demais no meio-fio.
Ainda assim, a cidade seguia em frente.
Elara guardou o celular no suporte do braço. O momento tinha acabado. A calma se desfazendo em inquietação.
Ela se virou para voltar correndo, tentando espantar aquele frio que não tinha nada a ver com o vento da manhã.
Ao passar pelo píer novamente, ela viu algo que a fez diminuir a velocidade.
Um homem.
Alto. Sozinho. Vestido bem demais para uma manhã à beira do rio — casaco de lã preto, luvas de couro, sapatos polidos que não tocavam em sujeira há dias. Ele estava de costas para ela, observando a água, imóvel.
Ele não parecia um corredor. Nem um turista.
Ele parecia alguém que não precisava se mover a menos que quisesse.
Algo nele fez sua pele arrepiar. Não era medo. Não era atração.
Era atenção.
Como se o mundo se curvasse levemente à sua presença.
Ela se recompôs e correu, dizendo a si mesma que não era nada. Apenas mais um homem rico contemplando a vida, talvez esperando um motorista.
Ela não sabia — não poderia saber — que tinha acabado de passar por Nikolai Volkov.
Que, em poucos dias, aquele homem entraria em sua vida, a chamaria de solnishko e arruinaria tudo o que ela pensava saber sobre o amor.
Mas, por enquanto, Elara corria.
E ele observava.
Elara fechou a porta com o quadril e tirou os tênis com um suspiro de satisfação; as solas de borracha bateram suavemente contra o piso de madeira. O apartamento estava silencioso, banhado pela luz amanteigada da manhã que entrava pelas janelas. A corrida a deixara animada e cheia de energia, mas a ideia de um banho quente e um café forte a atraía como um ímã.
Ela tirou o moletom e a legging no caminho para o banheiro, deixando um rastro como se fossem migalhas de pão. Quando a água começou a sair do chuveiro, ela entrou e deixou que caísse sobre seu corpo, sentindo os músculos relaxarem sob o calor. Ela ficou lá mais tempo do que deveria — pensando em nada e em tudo ao mesmo tempo.
Depois de se secar e se enrolar em uma toalha, ela fez um café rápido e foi descalça para o quarto. O celular vibrou de novo.
[Maya]: Juro por Deus, Elara, se você aparecer de jeans e rabo de cavalo de novo, eu vou te deserdar. Isso é um brunch, não uma oficina mecânica.
Elara bufou e digitou rapidamente.
[Eu]: Licença. Eu estava optando pelo estilo "chique despojado".
[Maya]: Parecia que você estava indo pedir para trocar o óleo do carro de alguém.
Elara revirou os olhos, rindo enquanto colocava o telefone no viva-voz e discava o número de Maya. A ligação foi atendida antes mesmo do primeiro toque terminar.
“Finalmente!” Maya cumprimentou, a voz cheia de uma frustração fingida. “Eu já ia ligar para a polícia.”
Elara abriu o armário e puxou alguns cabides. “Você é muito dramática. Eu só tinha acabado de voltar da corrida.”
“E você já escolheu o look para o brunch?”
“É para isso que você serve.” Ela se jogou na cama com três opções de roupas e segurou o telefone. “Ok. Opção um: o vestido branco transpassado com estampa floral.”
Maya fez um som de aprovação sonora. “Esse deixa seus seios incríveis.”
Elara riu. “Devidamente anotado.”
“Qual a opção dois?”
“O macacão azul-marinho com zíperes dourados. Aquele que você me obrigou a comprar no mês passado e depois disse que eu não tinha estilo suficiente para usar.”
“Mantenho minha palavra. Mas eu evoluí. Deixa eu ver.”
Elara segurou a peça na frente do espelho e virou de lado. O macacão modelava sua cintura perfeitamente, o decote em V profundo na medida certa para ser sugestivo sem ser vulgar. Ainda assim, ela franziu a testa. “Sinto que estou me esforçando demais.”
“Tentar demais é o objetivo. Estamos indo para o SoHo. Se você não parecer uma modelo de folga ou um quadro do Pinterest, eles nem vão nos dar mesa.”
Elara revirou os olhos. “Tão dramática.”
“E a opção três?” Maya instigou.
Elara hesitou. “Não me julgue.”
“Nunca.”
Ela levantou o cabide lentamente, revelando um vestido preto midi simples, com alças finas e uma fenda lateral.
Houve um silêncio na linha.
“Elara. Sim.”
“Você nem deixou eu terminar!”
“Não preciso. Você vai parecer uma Bond girl que decidiu parar de receber ordens e abrir o próprio império.”
Elara olhou para o vestido novamente. Ela o tinha comprado há meses, mas nunca teve coragem de usar. Ele se ajustava nos lugares certos, mostrava perna suficiente para ser perigoso e, com um salto alto, era letal.
“Não sei,” ela murmurou. “É um pouco demais para panquecas.”
“Então peça um waffle,” Maya disse sem hesitar. “Vestido preto. Argolas douradas. Cabelo solto. Depois você me agradece.”
Elara sorriu apesar de si mesma. “Você é ridícula.”
“E fabulosa. Não esqueça do fabulosa.”
Ela se virou para o espelho novamente e segurou o vestido na frente do corpo. Talvez estivesse na hora de parar de se esconder atrás de tecidos macios e cores seguras. Talvez ela merecesse se sentir ousada por uma vez. Vista. Confiante.
“Tudo bem,” ela disse lentamente. “Eu vou com ele.”
“Essa é a minha garota,” Maya comemorou. “Agora veste isso e me manda uma foto antes que você mude de ideia.”
Quando Elara encerrou a chamada, ela colocou o vestido preto sobre a cama, alisando o tecido como se fosse algo sagrado.
O dia parecia diferente de alguma forma.
Ela não sabia explicar.
Mas algo no ar — talvez no modo como a luz do sol atingia sua janela, ou na quietude do apartamento — vibrava sob sua pele.
Ela afastou o sentimento. Era apenas um brunch com sua melhor amiga. Terraços e cafés caros demais.
Nenhum mal nisso.
Certo?









