1 | borrowed courage
O vestido era vermelho demais. Não era elegante, nem profundo. Era apenas vermelho — chamativo e um pouco imprudente. Era uma aposta só de sentar com ele, uma negociação apenas para andar.
Puxei a bainha, encarei a garota no espelho e mal a reconheci. Botas pretas pesadas. Mangas que cobriam tudo, enquanto o resto do vestido não cobria quase nada. Um batom que parecia pertencer a alguém mais corajosa e ousada.
Alguém que não era eu.
Parecia uma piada. Mas, esta noite, decidi contar essa piada de propósito. Afinal, não era isso que as garotas da minha idade deveriam fazer em uma sexta-feira à noite em Nova York?
Normalmente, eu estaria em casa, editando layouts e bebendo café expresso frio. Hoje, provavelmente, eu estaria fazendo o mesmo, se Ivy não tivesse me arrancado da minha própria cabeça.
E, de alguma forma, era exatamente isso que estava acontecendo.
Dois dias atrás, ela me mandou uma mensagem, dando ordens do jeito que só ela sabe fazer.
Vamos pegar a Becky e sair na sexta. Venha. Não seja chata.
Eu não tinha um motivo para dizer não. Pelo menos não um que não soasse como aquela desculpa educada que eu já tinha dado a ela tantas vezes.
Então eu disse sim.
E agora eu estava aqui, com uma coragem emprestada e uma iluminação ruim, tentando encontrar uma versão de mim mesma que soubesse como querer isso.
Lá fora, a cidade se movia como sempre. Rápida, indiferente, um passo à sua frente, quer você gostasse ou não. Andei como se eu pertencesse àquele lugar.
Eu sabia como eu estava. Loura demais. Polida demais. Previsível.
"Um anjo", um professor me chamou há alguns anos — um elogio, mas que não caiu muito bem na minha cabeça. Os olhares sempre seguiam. Os homens me catalogavam e depois se aproximavam — já escrevendo roteiros que eu não tinha concordado em representar. As salas faziam uma pausa longa o suficiente para decidir: bonita, provavelmente descomplicada, definitivamente disponível.
Na maioria dos dias, eu odiava isso. Na maioria dos dias, eu queria desaparecer sob algo mais silencioso. Menos fácil de desejar.
Mas esta noite —
Eu decidi que não me importava em ser olhada.
Então, deixei o vestido grudar, as botas baterem no chão e o brilho labial reluzir, como se eu realmente quisesse ser vista.
Eu as avistei do lado de fora da boate, perto da corda de veludo. Ivy brilhava como se tivesse nascido sob as luzes da pista de dança. Becky ainda ria como se o ensino médio nunca tivesse acabado para nós. Caminhei entre elas, tentando lembrar como era aquela sensação de liberdade.
Nós três nos aglomeramos como nos velhos tempos, como se ainda tivéssemos dezessete anos.
Não enfrentamos fila, claro. Você não faz isso em Nova York se você é uma Hale. Nunca deixou de ser estranho como esse nome abria portas. Mais estranho ainda era eu não ter certeza se isso me fazia sentir poderosa ou apenas... sem nome.
O segurança fez um sinal positivo. A porta se abriu.
Lá dentro, o ar estava carregado de calor, poeira e um tipo de alegria desesperada que os jovens aparentemente desejavam.
O grave atingiu primeiro — baixo, imediato, tudo envolvente — depois a luz, pulsando forte o suficiente para apagar qualquer pensamento, me forçando a manter os olhos fechados. Corpos por toda parte, pressionados tão perto que era difícil dizer onde um terminava e o outro começava.
Nós avançamos, instintivamente nos segurando uma na outra.
"Garota, isso é insano!", Ivy gritou no meu ouvido. "Você — em Nova York — olha só para você!"
Eu gritei: "Eu costumava morar aqui!"
"Mesmo assim!", ela sorriu, agarrando meu braço, a voz rompendo a música. "Essas botas — depois de toda aquela porcaria euro-minimalista? Isso é do caralho!"
Becky se inclinou, já balançando, perdendo o equilíbrio. "Você voltou mesmo?"
"Essa é a ideia!", gritei. "Depois de toda aquela confusão de relações públicas com o Peter — achei que ficaria um tempo!"
Elas gemeram — um luto fingido, dramático e familiar.
"Não acredito que ele tem uma noiva!", Becky disse.
"Peter Hale, fora do mercado. Trágico!", Ivy gritou com ironia.
Revirei os olhos. "Por favor, não sexualizem meu irmão!"
Elas riram. E eu também.
Porque talvez fosse isso ter vinte e seis anos.
Boates que cheiram a muitos "ontens". Amigas que lembram da época em que você usava aparelho. Confiança que ardia intensamente por dez minutos e depois apagava.
Talvez isso não fosse eu fingindo.
Talvez fosse eu — tentando.
Ou talvez apenas uma nova versão de mim.
Eu ainda não tinha certeza.
Mal tínhamos dado três passos em direção ao bar quando Ivy parou bruscamente. Um salto cravado no chão pegajoso, sua postura mudando completamente.
"Ai meu Deus", ela sussurrou, agarrando meu braço como se uma cena estivesse acontecendo só para ela. Seu olhar estava fixo em algo. Alguém. "Falando em solteiros cobiçados..."
Segui a linha do seu olhar.
Três rapazes estavam perto do bar. Altos, relaxados. O tipo de homem que não precisa competir por atenção porque já a tem. Confiança casual em diferentes formas. Corpos atléticos, sorrisos de canto de boca, ombros que ocupavam mais espaço do que o necessário. Mas a atenção de Ivy não vacilou.
"Ryan", ela suspirou, como se o nome explicasse tudo. "Aquele homem é basicamente um golden retriever com tanquinho. Alguém vai se dar muito bem hoje à noite."
Becky soltou um som entre um grito e uma risada.
Ivy não esperou. Ela já estava indo. Quadris soltos, cabelo jogado sobre um ombro — avançando como se a atração magnética entre eles não lhe deixasse escolha.
Tive o pensamento breve e ridículo de que talvez esse tivesse sido o plano dela o tempo todo, que tudo até aquele ponto fosse apenas um prelúdio.
Ryan se iluminou no segundo em que a viu. Seus braços se abriram, não exatamente em um abraço, mas perto o suficiente. Seu corpo se voltou para o dela com a facilidade de alguém que não duvidava de como a noite terminaria. Sem tensão. Sem perguntas. Apenas diversão.
Mas, em vez de puxá-la para a pista de dança, ele parou. Virou-se para nós, sorrindo como se fôssemos parte de alguma piada interna maior.
"Esses são meus amigos", ele disse. "Este é o Jake. E o Nash."
Então Ivy — sempre a agente do caos — entrelaçou seus dedos nos de Ryan e o puxou para a pista de dança. Ela disse algo e, segundos depois, eles estavam se beijando.
Ela o beijou antes que qualquer um pudesse pensar, respirar ou ter a chance de desviar o olhar.
Sem aviso, apenas movimento.
Pisquei, sóbria demais para achar aquilo fofo — e de repente estávamos apenas ali: Becky, eu, Jake e Nash.
Nos aproximamos por educação — o ritual silencioso de estranhos subitamente ligados pela química de outra pessoa.
Jake estendeu a mão primeiro, com firmeza e um aperto quente. Nash veio em seguida, mais quieto, com um meio sorriso que parecia mais observação do que cumprimento, os olhos passando brevemente entre Becky e eu como se ele já estivesse escolhendo quem iria mantê-lo entretido.
Eu não sabia como demonstrar. Mas eu já tinha decidido.
Jake.
Alto, talvez uns quinze centímetros acima de um metro e oitenta. Cabelo escuro bagunçado, como se ele não tivesse se dado ao trabalho de arrumar e não precisasse. Mangas dobradas, antebraços bronzeados e definidos. Camisa impecável o suficiente para sugerir esforço; tênis certamente não baratos, mas não do tipo que você usa para ser notado. Ele parecia... resolvido. Como se soubesse exatamente quem era e não tivesse interesse nenhum em convencer mais ninguém.
Jake deu um passo à frente como se fosse a sua vez.
"Você parece alguém que acabou de ser largado em um país estrangeiro", ele disse, com a voz baixa. E ele não estava errado. Eu me sentia uma alienígena ali.
Eu suspirei. "Algo parecido com isso."
Ele sorriu — aquele sorriso pequeno e torto que fazia você se perguntar se ele estava provocando ou flertando.
Então ele estendeu a mão. Seus dedos roçaram meu pulso. Quentes, quase imperceptíveis, mas impossíveis de ignorar. Meu pulso acelerou sob seu toque, e me perguntei se ele conseguia sentir. O grave ainda batia nos meus ouvidos, mas de repente tudo o que eu conseguia ouvir era o meu próprio batimento cardíaco, alto e estúpido. Seu polegar traçou um pequeno círculo na minha pele, tão leve que poderia ter sido um acidente.
Mas não foi.
E ambos sabíamos disso.
"Precisa de um guia?", ele perguntou com um sorriso infantil — ainda perto o suficiente para que eu pudesse sentir o calor de suas palavras na minha pele.
Inclinei a cabeça, tentando não demonstrar.
"Você vem com um mapa e uma estratégia de saída de emergência?"
"Melhor", ele disse. "Eu venho com acesso a drinques fortes."
"Vendido", respondi, embora minha voz tenha saído mais baixa do que eu pretendia.
Ele riu.
Caminhamos em direção ao bar — sem nos tocar, mas cada passo ao lado dele parecia uma escolha. Talvez ele fosse o tipo de homem que poderia me fazer querer ser aquela garota. Só por uma noite — pelo menos.
Relaxe, Sarah.
Não é o que sempre diziam para mim?
Só pela emoção de viver.
Então tentei, e com o sorriso dele, de repente, parecia possível.
E a noite estava apenas começando...