Cold Slab
🪦Thorne
A primeira coisa que noto é o frio.
Não é um frio normal. Não é aquele frio de "ops, deixei a janela aberta". É algo mais profundo. Mais pesado. Como se eu tivesse sido trancada dentro de uma caixa de metal no fundo de uma câmara frigorífica e esquecida lá.
Meu cérebro diz: trema.
Meu corpo não obedece.
Meus olhos se abrem num solavanco.
Teto.
Azulejos brancos encardidos. Uma lâmpada fluorescente zumbindo acima de mim como se estivesse morrendo aos poucos. Uma mancha de infiltração marrom se espalha em um dos cantos, com o formato de um coração torto.
Eu foco nisso porque é mais fácil do que pensar em qualquer outra coisa.
Tento respirar.
Meu peito não se move.
Minha garganta faz o movimento, mas o ar não entra. Não sinto o fluxo nos pulmões. Não há ardor.
Apenas nada.
Ok.
Isso é ruim.
Empurro minhas mãos para me sentar, e minha pele gruda no que quer que eu esteja deitada. Liso. Duro. Congelante.
Metal.
Uma mesa de metal.
Perfeito.
O lençol sob mim faz barulho de papel. Fino como papel, branco de hospital, dobrado de qualquer jeito em torno da minha cintura, deixando minhas pernas expostas do meio da coxa para baixo. Meus dedos dos pés parecem estranhamente pequenos e arrumados, com as unhas pintadas em um rosa suave que escolhi para o casamento.
Tem uma etiqueta amarrada no meu dedão do pé.
Claro que tem.
Levanto o pé. A etiqueta balança quando me movimento, lenta e alegre, de um jeito que me dá vontade de vomitar.
ELLIS, THORNE. F. 23.
Tem uma linha embaixo.
DATA DO ÓBITO:
Está preenchida.
O mundo gira.
Por um segundo horrível, tudo o que consigo ouvir é um zumbido fino e agudo nos meus ouvidos.
Não.
Não, isso é ridículo. Dramático. É alguma brincadeira de mau gosto, ou estou alucinando, ou ainda estou presa no que quer que tenha acontecido antes disso.
Coloco as pernas para fora da mesa.
O chão é ainda mais frio que a laje, mas meus pés não reagem. Nenhum susto. Nenhuma dor. Apenas o contato.
Minha mão vai de encontro ao meu peito.
Silêncio.
Sem batida. Sem vibração. Nada empurrando minha palma por dentro.
O vazio é ensurdecedor.
Memórias batem em mim em pedaços desconexos.
Renda branca apertada nas costelas. Perfume forte demais sob meu véu. As mãos da minha mãe tremendo enquanto prendia meus brincos. Kate mexendo no meu cabelo e resmungando sobre grampos, como se o casamento inteiro dependesse deles.
Os dedos de Sean, quentes e firmes, deslizando o anel de noivado na minha mão na noite em que ele me pediu em casamento.
Aliança de ouro. Um único diamante. Um pouco grande demais quando experimentei pela primeira vez. Eu costumava girar o anel quando estava nervosa. Ele prendia no meu osso do dedo e me lembrava: você não está sozinha nisso.
Olho para minha mão agora.
O anel ainda está lá.
Vê-lo dói quase mais do que o vazio dentro do meu peito.
Fecho meus dedos até que a aliança pressione a pele.
Então, mais pedaços surgem.
Faróis fortes demais. Pneus cantando no asfalto molhado. Uma buzina. Um grito que pode ter sido de Sean, meu, ou de ambos.
O gosto metálico e cortante de sangue na minha língua.
Cobre. Sal. Pânico.
Vidro explodindo.
Chuva fria no meu rosto.
Depois, nada.
Arrasto meu olhar pelo quarto.
Aço inoxidável. Iluminação ruim. Uma parede de portas metálicas quadradas, cada uma marcada com um número. Mais mesas como a minha. Algumas vazias. Outras com formas cobertas por lençóis que me recuso a ver como pessoas. Uma pia. Uma bandeja de instrumentos: tesouras, bisturi, coisas que conheço de tantos dramas médicos que preferia não conhecer.
Estou num necrotério.
Meu cérebro não quer essa informação. Ele tenta expulsá-la.
Engulo em seco, mesmo com a garganta seca e o movimento sendo puro hábito.
Algo puxa a lateral do meu pescoço.
Não exatamente dor. Mais como uma queimadura sob a pele. Toco com dois dedos e sinto duas marcas elevadas, sensíveis e organizadas demais para terem sido causadas por vidro quebrado.
Minha mão cai.
"Calma", diz uma voz.
Baixa. Masculina. Calma demais para esta sala.
Dou um solavanco tão forte que a mesa range contra o chão.
Um homem está encostado em uma das portas de metal, braços cruzados, como se estivesse ali há um tempo.
Como se estivesse observando.
Ele é alto, com ombros largos sob uma camisa preta e mangas dobradas até o antebraço. Cabelo escuro cai ao redor do maxilar em ondas preguiçosas, uma mecha prateada cortando a frente como se alguém a tivesse colocado ali de propósito. Um pequeno crucifixo de prata balança em sua orelha esquerda, o que parece uma piada de mau gosto em um quarto cheio de cadáveres.
Mas são os olhos dele que fazem meu estômago despencar.
Âmbar.
Brilhantes.
Errados.
Olhos de predador.
"Quem é você?" Minha voz sai arranhada. "O que é isso? Por que..."
Aponto para o quarto. Para mim mesma. Para a etiqueta no pé. Tudo.
"Que porra está acontecendo?"
Ele se desencosta da porta e se aproxima com passos suaves e sem pressa.
A maneira como ele se move também está errada. Equilibrado demais. Preciso demais. Meus instintos gritam perigo, mas o resto de mim está preso ao fato profundamente inconveniente de que ele é lindo.
Irritantemente lindo.
Especialmente para alguém que está à espreita num necrotério.
"Você está no necrotério municipal", diz ele. "No subsolo. Acesso restrito. E o que está acontecendo é complicado."
"Uau." Aperto o lençol com mais força ao redor do meu corpo. "Muito útil."
Ele para fora do meu alcance.
De perto, consigo ver a sombra da barba por fazer no maxilar dele, a cicatriz leve no canto da boca, os pontos dourados naqueles olhos impossíveis. Ele me analisa como se estivesse conferindo itens em uma lista.
"Thorne Ellis", diz ele. "Pode tirar isso agora. Está desatualizado."
Ele faz um sinal com a cabeça para o meu pé.
Me abaixo, com os dedos desajeitados, e arranco a etiqueta. Ela balança uma vez no barbante antes de eu jogá-la nele.
Ela cai no chão entre nós.
"Pronto." Minhas mãos estão tremendo. "Atualizado."
O canto da boca dele se levanta. "Muito melhor."
"Eu perguntei quem você é." Ouço um tom de histeria rastejando na minha voz, então tento enterrá-lo sob sarcasmo. "E por que aparentemente tenho um atestado de óbito, mas estou aqui de pé."
O olhar dele vai para o anel no meu dedo.
Algo quente e maldoso brilha em seus olhos antes que ele disfarce.
"Eu sou Xavier", diz ele. "E você não está de pé direito."
"Você não tem graça."
"Às vezes." Ele dá de ombros. "Só não hoje."
"Eu quero um médico", digo. "E o Sean. Ligue para o Sean. Ou para uma ambulância. Ou literalmente qualquer pessoa cujo trabalho não seja essa porcaria que for isso."
"Sean Bradford." Xavier diz o nome dele como se estivesse testando se merece existir. "Advogado corporativo. Bom com contratos. Terrível ao dirigir na chuva."
O gosto de cobre inunda minha boca novamente.
Engulo em seco.
"Como você sabe disso?", sussurro.
A expressão dele suaviza.
Quase.
"Porque eu estava lá."
O chão gira novamente.
Meu primeiro instinto é a raiva, porque é mais fácil do que sentir medo.
"Você estava lá", repito. "No meu acidente? No meu casamento? Em quê?"
Ele me analisa por um momento, como se decidisse o quanto eu consigo suportar.
Isso me irrita mais do que deveria.
"Vamos começar pelo básico", diz ele. "Do que você se lembra?"
"Igreja", digo. "Vestido. Flores. Sean."
O nome dele dói.
"Depois, faróis. Um grito. Sangue. E então..."
Faço um gesto desamparado para o ambiente.
"Isso."
Xavier acena com a cabeça, como se eu tivesse respondido corretamente a um teste.
"Seu coração parou", diz ele. "Seus pulmões encheram de sangue. Sua coluna sofreu danos tão graves que nenhum cirurgião conseguiria te consertar. Você foi colocada aqui aguardando a autópsia." O olhar dele percorre a sala. "Papelada muito bem organizada, aliás. Escreveram seu nome corretamente. Isso nem sempre acontece."
Eu o encaro.
Meu cérebro capta apenas uma palavra.
"Parou?", digo.
"Sim."
"Então como estou..."
Faço um gesto para mim mesma.
"De pé?"
Ele se aproxima, eliminando o pouco de espaço entre nós.
Ele tem um cheiro sombrio e quente. Fumaça. Especiarias. Ferro. Sua presença pressiona o ar, pesada o suficiente para que eu a sinta antes mesmo de ele me tocar.
"Porque", diz ele calmamente, "eu não gostei daquele final."
Ele levanta a mão, devagar o suficiente para que eu pudesse recuar se quisesse.
Eu não recuo.
Estou paralisada.
Os nós dos dedos dele roçam a parte interna do meu antebraço.
Uma sensação explode sob minha pele.
Intensa demais. Vívida demais. Como se cada nervo do meu corpo estivesse adormecido por anos e agora estivesse despertando de uma vez só.
Ofego.
Xavier sorri levemente, satisfeito.
"Melhor, não é?"
"O que você fez?" Minha voz mal sai.
"Thorne." Ele diz meu nome como se custasse mais do que deveria. "Olhe para mim."
Eu olho.
Porque, claro, eu olho.
"Em termos simples", ele diz, "você morreu violentamente. Eu me certifiquei de que você não permanecesse assim."
"Simples", digo fracamente. "Certo."
Meus joelhos vacilam.
Agarro a borda da mesa atrás de mim para me firmar. O trilho de metal finca na minha palma. Aperto com mais força.
O trilho se dobra com um chiado suave.
Nós dois olhamos para a minha mão.
"Oh", sussurro.
"Cuidado", diz ele com suavidade. "A cidade é sensível quanto a danos ao patrimônio."
Eu solto.
O trilho volta um pouco para o lugar, mas não totalmente. Ficou um amassado do tamanho e formato dos meus dedos.
Agora eu também ouço coisas.
Pequenos sons que juro que não estavam lá um segundo atrás.
O gotejar lento de uma torneira no canto. O zumbido fraco da eletricidade nas paredes. O movimento suave de algo correndo sob a pele de Xavier.
Não é um batimento cardíaco.
É outra coisa.
Meus sentidos parecem esticados, como se alguém tivesse aumentado o volume do mundo inteiro e esquecido de me avisar.
"Estou tendo um surto psicótico", anuncio.
"Você não está." O tom dele permanece irritantemente calmo. "Você está se ajustando."
"A estar morta?"
"A ser aprimorada."
Eu rio.
O riso sai agudo e estranho.
"Aprimorada. Certo. Como um plano de celular. Garota morta para o quê, exatamente?"
Ele me observa atentamente.
"O que você acha que eu sou?"
Meus olhos se voltam para a boca dele.
Ele ainda não sorriu o suficiente para me mostrar tudo.
Mas eu ainda sei.
A leve tensão no maxilar dele. A fome em seus olhos. Sua imobilidade antinatural.
"Você é um vampiro", digo, porque, aparentemente, essa é a minha vida agora.
O sorriso dele se alarga.
Não de desenho animado. Não falso.
Apenas perturbador o suficiente para gelar meu sangue, supondo que eu ainda tenha sangue que valha a pena gelar.
"Muito bem", murmura ele.
Meu estômago dá uma volta.
"Então isso faz de mim..."
Ele levanta um ombro, como se o rótulo não fosse a parte importante.
"Mudada", diz ele.
Essa resposta é pior do que a palavra que eu esperava.
"Mudada em quê?"
O olhar dele cai sobre as marcas no meu pescoço.
"Para começar?", diz ele. "Minha."
Odeio a maneira como meu corpo reage a essa palavra.
Um pico quente de algo para o qual não tenho tempo nenhum percorre meu corpo, e odeio isso também.
"Você não pode dizer coisas assim." Minha voz treme. "Você não é meu dono."
"Pelo contrário." O olhar dele volta para o meu rosto. "Tomei a liberdade de ficar com você."
"Isso não é posse. Isso é sequestro com um upgrade sobrenatural."
A boca dele se curva. "Essa é uma interpretação."
"Você fez isso sem perguntar." Tenho vontade de arranhá-lo. Também tenho vontade de me inclinar para mais perto, o que me faz querer me arranhar. "Você só decidiu que queria o quê? Um animal de estimação morto-vivo?"
Algo feio passa pela expressão dele.
"Não."
"Então o quê?"
O maxilar dele trava.
Quando ele fala novamente, a voz é suave o suficiente para me assustar.
"Você ia se casar com ele."
Fico imóvel.
"Você ia ficar em um quarto cheio de pessoas e prometer o 'para sempre' a ele."
"Esse era o plano, sim", digo, porque o sarcasmo é a única coisa que me mantém inteira.
"Eu vi o vestido", diz ele. "As flores. O local perfeito com as cadeiras brancas e as velas obedientes."
Minha pele se arrepia.
"Você estava me observando?"
"Eu estava observando a estrada", diz ele.
É suave demais. Cuidadoso demais. Não é exatamente uma resposta.
"Tente de novo."
Os olhos dele ficam aguçados.
Pela primeira vez, algo como irritação rompe aquela calma polida.
"Eu sabia seu nome antes desta noite", diz ele. "Eu sabia o suficiente para entender que você não deveria acabar no asfalto molhado, com a mão da aliança torcida embaixo de você."
A lembrança surge quente e brutal.
Chuva no meu rosto.
Sean gritando.
Sangue na minha boca.
Minha mão dobrada de jeito errado contra a estrada.
Agarro o lençol até que o tecido rasgue sob meus dedos.
Xavier olha para o rasgo.
"Eu poderia ter deixado você ir", diz ele. "Esse teria sido o final mais gentil, segundo a maioria das pessoas."
Olho para ele.
“E segundo você?”
O sorriso dele é leve.
Cruel.
Triste.
“Nunca tive muito talento para a bondade.”
Minha garganta aperta.
“Você não tinha esse direito.”
“Eu sei.”
A honestidade disso me desequilibra.
Ele não pede desculpas. Não se justifica. Não tenta disfarçar como se fosse destino, misericórdia ou amor.
Ele apenas fica ali no necrotério e deixa que o erro paire entre nós.
“É isso que torna tudo complicado”, diz ele.
“Eu quero o Sean.”
As palavras saem antes que eu possa impedi-las.
A expressão de Xavier se fecha.
“Não”, diz ele.
O gelo percorre meu corpo.
“Não?”
“Ele não pode te ajudar.”
“Você não tem o direito de decidir isso.”
“Neste caso, tenho.”
A raiva irrompe através do pânico.
Eu o empurro.
Não pretendo empurrá-lo com força. Nem sei se sou capaz disso.
Mas Xavier recua meio passo, e o ar entre nós estala com a força do contato.
Seus olhos brilham mais intensamente.
Os meus se arregalam.
Ele olha para onde minhas mãos atingiram seu peito e depois volta a olhar para mim.
“Interessante”, diz ele.
“Não diga interessante como se eu fosse um experimento científico.”
“Você não é um experimento científico.”
“Então o que eu sou?”
O olhar dele percorre meu rosto com uma intensidade que faz o ambiente parecer menor.
“Um erro”, diz ele suavemente. “Um milagre. Um desastre do qual eu deveria ter me afastado.”
Minha raiva vacila.
Essa não era a resposta que eu esperava.
Ele se aproxima novamente.
Eu deveria me afastar.
Eu não me afasto.
“Você morreu”, diz ele. “Eu te trouxe de volta. Não como você era. Isso não era possível.”
“O que eu sou?”, sussurro.
“Mais forte”, diz ele. “Mais rápida. Mais difícil de matar.”
Seu olhar se demora na minha boca.
“Mais faminta.”
Assim que ele diz isso, algo dentro de mim desperta.
Uma atração vazia.
Não no estômago. Mais profundo que isso. Garganta. Veias. Ossos.
Ouço aquela pulsação estranha sob a pele dele novamente, e desta vez minha boca saliva.
Não.
Absolutamente não.
Eu tapo a boca com a mão.
Xavier me observa com uma satisfação sombria.
“Aí está.”
Eu balanço a cabeça.
“Não.”
“Sim.”
“Eu não vou beber sangue.”
“Você vai.”
“Eu não vou.”
“Você pode discutir depois.” A voz dele permanece calma, o que torna tudo pior. “Agora, você precisa aprender como não estraçalhar a primeira pessoa viva que chegar perto demais.”
Eu o encaro.
O ambiente parece mudar.
As formas cobertas por lençóis. Os instrumentos. O ralo no chão.
As marcas no meu pescoço.
A aliança no meu dedo.
Meu coração que não bate.
Um som escapa de mim.
Não é um soluço. Não é um riso.
Algo mais feio.
“Eu deveria ter me casado hoje.”
“Eu sei.”
“Eu deveria ir para casa com ele.”
“Eu sei.”
“Eu deveria acordar amanhã casada, de ressaca e irritada com mil fotos de pessoas chorando por causa de um bolo.”
Xavier não diz nada.
Eu o odeio por isso também.
Odeio seu silêncio. Sua calma. Seu rosto lindo e terrível. O jeito que ele me olha como se eu fosse algo que ele perdeu antes mesmo de ter.
Eu quero gritar.
Quero minha mãe.
Quero a Kate.
Quero o Sean.
Quero estar de volta à igreja, preocupada com o tapete do corredor e se meu batom sobreviveu ao primeiro beijo.
Em vez disso, estou descalça no chão de um necrotério, envolta em um lençol de papel rasgado, discutindo com um vampiro que decidiu que minha morte era negociável.
“Não faça isso”, diz ele calmamente.
Eu olho para ele.
“Não fazer o quê?”
“Desistir de mim.”
As palavras são mais suaves do que qualquer outra coisa que ele disse.
Isso as torna ainda piores.
Uma de suas mãos se levanta, como se fosse tocar meu rosto. Então ele parece mudar de ideia e a deixa cair.
“Temos muito o que cobrir”, diz ele. “Regras. Logística. Mudanças na dieta. O que você pode sobreviver agora. O que não pode. Quem tentará te usar. Quem tentará te matar.”
Eu o encaro.
“Orientação”, acrescenta ele.
Dou uma risada seca.
Dói, embora nada dentro de mim funcione direito mais.
“Você é insano.”
“Frequentemente.”
“E espera que eu simplesmente te siga?”
“Não.” Os olhos dele brilham. “Espero que você corra na primeira chance que tiver.”
Isso me cala.
Seu sorriso retorna, lento e perverso.
“Também espero que você aprenda rapidamente que o mundo para o qual você acordou é muito pior do que esta sala.”
Minha mão aperta a aliança.
Ela crava na palma da minha mão.
“Suponho”, diz ele, “que eu deva me apresentar devidamente.”
“Você já me disse seu nome.”
“Nomes não são nada.”
O olhar dele se torna mais penetrante.
“Títulos importam mais.”
Não gosto do som disso.
“O quê, tipo Dr. Frankenstein?”
“Fofa.”
O sorriso dele se alarga.
“Não. Algo mais simples.”
Ele inclina a cabeça um pouco.
“Olá, noiva.”
A palavra me atinge com mais força do que a data da minha morte na etiqueta.
Minha mão vai novamente para a aliança. Por um segundo insano, penso em arrancá-la e jogar na cara dele.
Eu não consigo.
Meus dedos não obedecem.
Um homem colocou uma aliança na minha mão e prometeu-me o para sempre.
Outro me arrastou de uma mesa de necrotério e decidiu que o para sempre era dele para reescrever.
Minha pele se arrepia.
Meu peito está vazio.
Minha cabeça está girando.
Lentamente, fecho a mão ao redor da aliança, apertando até que o metal enterre mais fundo.
“Não me chame assim”, sussurro.
Xavier olha para o meu punho fechado e depois volta para o meu rosto.
O sorriso dele é silencioso.
Terrível.
“Oh, Thorne”, diz ele suavemente. “Nós já passamos muito do ponto em que eu tinha permissão para te chamar de qualquer coisa.”