Capítulo 1
Maya Brooks ajeitou a pilha de panfletos novos sobre sua mesa, o cheiro da tinta ainda forte. Designs elegantes, linhas arrojadas. Era o trabalho dela.
Aos vinte e oito anos, embora sua aparência calma sugerisse estabilidade, seu passado era carregado de cicatrizes.
Dois anos atrás, ela foi envolvida em um escândalo que abalou uma das maiores empresas de marketing da cidade. Isso destruiu sua reputação e abalou sua confiança. Mas a Orion Distribution lhe ofereceu uma tábua de salvação — um lugar onde ela pudesse se reconstruir discretamente. Desde que entrou para a equipe, ela vivia em paz, bem longe dos sussurros e das traições do seu antigo mundo.
Ela era deslumbrante — uma mulher que fazia cabeças virarem no momento em que entrava em uma sala. Meio peruana, meio italiana, ela carregava uma mistura rara de elegância e sensualidade natural. Sua pele dourada parecia brilhar sob qualquer luz, seu cabelo escuro caía em ondas pelas costas e seus olhos cor de avelã eram profundos e magnéticos. Com um corpo de tirar o fôlego, era impossível ignorá-la, uma presença que permanecia na mente muito depois de ela ir embora.
No entanto, Maya considerava sua beleza uma maldição.
Isso lhe trouxe mais problemas do que alegrias, prendendo-a em relacionamentos superficiais com homens que nunca se importaram com seus sentimentos. Ela temia se apaixonar por outro homem que apenas a usasse, e sua falta de autoconfiança transparecia na forma como tentava passar despercebida, ansiosa para desaparecer assim que pudesse.
Era exatamente por isso que a Orion Distribution parecia perfeita — um lugar onde ninguém esperava glamour.
Especializada na distribuição de peças automotivas, a empresa estava muito longe do mundo glamoroso do seu passado. Ela tinha conseguido o emprego por meio de seu padrasto, um mecânico dedicado que garantiu sua contratação, e isso lhe proporcionou o anonimato e a estabilidade que tanto desejava. Embora tivesse se formado no topo de sua turma em estratégia de marketing e vendas, suas conquistas pareciam distantes agora, escondidas atrás do anonimato tranquilo que escolheu.
Os passos pesados de Jack a anunciaram antes de sua voz. Ele se encostou no batente da porta dela, com o cabelo grisalho penteado para trás e olhos cansados de quem acumulou muitas noites em claro no ramo de autopeças. Ele não era um chefe ruim — mais paternal do que a maioria.
“Você nos salvou de novo”, disse ele, gesticulando para os designs. “Essa campanha? Vai nos manter no azul.”
Ela corou um pouco, tentando minimizar. “É só marketing, Jack.”
“Não”, disse ele suavemente, balançando a cabeça. “É mais do que isso.” Sua voz baixou, cansada, quase como uma confissão.
“Nunca tive filhos. E agora estou pensando em me aposentar, mas... porra, Maya, seu trabalho me faz ter esperanças no futuro desta empresa. Não sei se estou pronto para largar tudo.”
Ela olhou para ele então, olhou de verdade. Viu vulnerabilidade em um homem que sempre tentava parecer indestrutível. Uma pontada atingiu seu peito. Será que ele já estava vendendo a empresa? O pensamento a deixou inquieta, mas ela manteve o rosto sereno. “O que quer que você decida, você vai dar um jeito. Você sempre dá.”
Jack suspirou, passando a mão pelo maxilar. “O que quer que aconteça, Maya, o valor desta empresa aumentou exponencialmente desde que você chegou, há dois anos. Sou muito grato.”
Ela corou, tímida, mas também curiosa, e perguntou baixinho: “Você... encontrou um comprador?”
“Talvez”, ele admitiu, deixando o assunto no ar. As palavras pairaram, pesadas. Ambos ficaram em silêncio — Maya refletindo sobre o que aconteceria se Jack deixasse a empresa. A ideia de outra pessoa assumindo o comando lhe causou um calafrio; seria horrível para ela, destruindo a paz frágil que finalmente tinha construído.
Antes que o silêncio se tornasse pesado demais, Samuel apareceu. Alto, bem-apessoado, com um sorriso de garoto. Papéis na mão.
“Jack, preciso da sua assinatura nestas faturas.” Os olhos dele demoraram um pouco mais do que o necessário em Maya. Não o suficiente para ser vulgar, apenas o bastante para que ela percebesse.
Maya notou e deu um sorriso discreto. Seguro. Previsível. Ele já a tinha convidado para beber antes.
Talvez... talvez ela devesse dizer sim um dia.
Ainda assim, ela sabia que Samuel era diferente dos outros — respeitoso, paciente, nunca pressionando quando ela não estava disposta. Ela conseguia sentir seu interesse genuíno, mas também sua disposição de esperar, de deixá-la ditar o ritmo. Isso conquistou a confiança dela, mesmo que ela não estivesse pronta para oferecer mais.
Relacionamentos ainda pareciam algo muito distante, e ela sabia que não tinha superado o escândalo de que todos na Orion tinham ouvido falar. Jack a protegeu do pior das fofocas, mas ela tinha certeza de que, a portas fechadas, as pessoas ainda cochichavam. Ela não sabia o que Samuel achava disso, mas ali, pelo menos, ela se sentia segura, protegida dos julgamentos brutais do seu antigo mundo.
O expediente terminou com o zumbido das luzes fluorescentes ainda em seus ouvidos.
Quando ela entrou no apartamento, o clima mudou. Música tocava baixo no quarto de Kelly, perfume impregnava o corredor e um par de saltos dourados já estava jogado perto do sofá.
O lugar delas era vivido, bagunçado, mas vibrante. O gato de Kelly, Sir Pounce, estava estirado no sofá como um rei, balançando a cauda preguiçosamente.
Sienna passou apressada usando um vestido preto envelope, o telefone preso entre o ombro e a orelha, murmurando sobre os apliques de uma cliente. Seu salão ficava logo abaixo, seu império em construção. “Depois nos falamos”, disse ela, pegando sua bolsa.
Kelly, toda curvas e delineador brilhante, estava sentada no balcão com uma taça de vinho, os olhos cintilantes. “Mais tarde vamos a uma festa incrível.” Ela deu um sorriso predatório e animado. “Vou ganhar mais em uma noite do que você ganha o ano inteiro. Podre de rica, Maya. Podre.”
Maya largou a bolsa, achando graça, mas curiosa. “O que acontece nessas festas?”
Kelly piscou. “Sexo, dinheiro e homens que acham que são donos do mundo. Eu posso escolher. Na maioria das vezes, são jovens, lindos e estúpidos de ricos. Por que não aproveitar?”
Maya riu, mas, por dentro, invejava a abertura de Kelly. Sua naturalidade com sexo. Sua falta de medo.
A última vez tinha sido há dois anos. Ela se lembrava da dor aguda no peito mais do que do ato em si — a forma como sua antiga empresa a devorou, o assédio que deixou cicatrizes, o namorado que não acreditou nela. Que mandou ela ficar calada. Então tudo desmoronou.
Ela encarou sua xícara de chá, o som da voz de Kelly sumindo ao fundo. Se não fosse por Kelly tê-la tirado daquele lugar, ela ainda estaria sufocando em silêncio.
Quando o escândalo estourou, a vida de Maya desmoronou quase da noite para o dia. Portas que antes estavam abertas se fecharam na sua cara, colegas cochichavam pelas costas, e seu namorado — o homem que ela achou que ficaria ao seu lado — a expulsou sem hesitar. Ninguém queria carregar o peso da sua vergonha.
Kelly foi a única que permaneceu. Ela conhecia Maya desde o ensino médio, cresceram no mesmo bairro, andando pelas mesmas calçadas esburacadas, dividindo os mesmos ônibus. Quando o mundo de Maya desabou, Kelly já tinha entrado no mundo do acompanhamento de luxo após alguns anos na faculdade. Ela tinha visto o suficiente do lado obscuro do poder para reconhecer a verdade na história de Maya. Ela não precisava de provas; ela já sabia que o homem que Maya acusava era capaz exatamente do tipo de abuso que ninguém mais queria acreditar.
Kelly apresentou Maya a Sienna, a mulher que se tornou sua melhor amiga. Sienna administrava seu próprio salão com uma ambição feroz, unhas afiadas e uma língua ainda mais afiada. Ela tinha sonhos de subir na vida, de encontrar seu caminho em círculos de elite. Kelly e Sienna se encaixavam naturalmente, parceiras em segredos e planos, fogo alimentando fogo.
Quando Maya não tinha para onde ir, foi Kelly quem abriu sua porta, e Sienna quem abriu espaço para ela em suas vidas. O apartamento era apertado, caótico, às vezes vazio por noites seguidas, mas para Maya tornou-se um santuário. O que ela encontrou ali não foi apenas um teto sobre sua cabeça, mas um tipo raro de lealdade — aquela que nunca recebeu de sangue ou de amantes.
Agora? Ela estava livre. Mas solitária.
Sua mente vagou para o sorriso suave de Samuel, o jeito que a mão dele roçava a dela quando ele passava os papéis. Talvez voltar a sair com alguém não fosse tão ruim. Talvez o que ela precisasse fosse segurança.
Mas, no fundo, ela sabia que a segurança nunca a fez sentir um frio na barriga.
Sienna voltou de repente, passando rapidamente por Maya e Kelly. Foi direto para o banheiro, o som da porta batendo foi seguido por um som de ânsia de vômito. Ela estava doente, claramente indisposta, vomitando. A energia vibrante do apartamento diminuiu à medida que a preocupação substituiu a conversa descontraída.
As garotas entraram no banheiro, o ar pesado com o cheiro de vômito. Sienna estava caída no vaso sanitário, a pele corada, o cabelo úmido colado nas têmporas. Ela tossiu, fraca e trêmula. O pânico tomou conta do ambiente.
“Não, não, não esta noite”, Kelly sussurrou, a voz rouca. “Você não pode perder isso. Se você faltar... Você vai perder seu lugar. Eles nunca mais vão te convidar.”
A voz de Sienna falhou — o medo não era por ela mesma, mas por seu lugar naquele mundo. Pelo seu salão. Pelas conexões que ela precisava e as que tinha construído.
“Estou ferrada”, Sienna murmurou entre respirações curtas, agarrada ao vaso.
Maya agachou ao lado dela, tentando ajudá-la a levantar, estabilizando seu corpo trêmulo. “Sienna, você está doente”, ela sussurrou. “Por que isso mudaria seu status nessas festas?”
O rosto de Kelly estava pálido, a preocupação distorcendo sua expressão. “Você não entende, Maya. Para entrar nisso, é um longo processo — conexões, testes, papelada. Essas pessoas não brincam com quem entra em seu espaço. Se elas sequer suspeitarem de traição, podem matá-la.”
O coração de Maya disparou. “Quem é ‘eles’?” ela perguntou, com a voz baixa, o pavor surgindo.
Sienna tentou se recompor, suor escorrendo pelas têmporas. “Essas pessoas são de outro nível. Você não as vê nas listas da Forbes, mas elas são donas de tudo.”
“Então por quê?” Maya insistiu. “Por que você se envolveu nisso?”
Sienna deu um sorriso torto e inquieto, que não chegava aos olhos. “Dinheiro, Maya. Conexões e poder. E agora vou perder tudo — meu salão, talvez até minha vida.”
“Não diga isso”, Maya incentivou, segurando a mão dela. “Tenho certeza de que haverá uma solução. Alguém não pode te substituir?”
Os olhos de Kelly queimaram, calculistas. Então seu olhar deslizou para Maya. “Você vai.”
“O quê?” A voz de Maya subiu de tom. “Absolutamente não. Você está louca?”
“Maya, escuta, essa pode ser a chance. Dessa vez, o tema é um baile de máscaras. Então você estará sempre mascarada”, disse Kelly, com um tom afiado e persuasivo. “Eles nunca vão saber. Você não precisa tocar em ninguém. Só servir bebidas. É só isso.”
Maya balançou a cabeça, o coração acelerado. “Isso é uma loucura. Eu não pertenço a esse lugar.”
Sienna, pálida e suando, agarrou o pulso dela. “Por favor, Maya. Por favor. É meu negócio. Se me colocarem na lista negra...” Seus olhos brilharam, desesperados. “Você é a única que pode me ajudar.”
A garganta de Maya apertou. O medo a dominava por dentro — mas a culpa era mais forte. Ela não podia deixar Sienna perder tudo.
Kelly se aproximou, sua voz urgente, tentando convencer Maya. “É o melhor jeito e o único jeito.”
Maya engoliu em seco. “Por que eu sinto que estou me metendo em algo perigoso?”
Sienna levantou a cabeça, os olhos vermelhos, mas a voz firme. “Porque é perigoso. Mas você é inteligente, Maya. Você vai se sair perfeitamente.”
O olhar de Maya oscilou entre as duas, uma corrente estranha zumbindo em seu peito. Algo estava errado, mas também... emocionante. Sua vida tinha sido tão sem graça, tão monótona. Talvez um pouco de perigo pudesse agitá-la. “Eu vou”, disse ela finalmente, com a voz trêmula.
Kelly sorriu triunfante. “Quem sabe, talvez isso faça você voltar a explorar sua sexualidade.”
A preocupação de Maya voltou com força total. “Ninguém vai me obrigar a nada, certo?”
Kelly e Sienna trocaram um olhar demorado antes de Kelly falar. “Escute com atenção, Maya. Esta é uma festa muito privada. Haverá cerca de trinta e cinco homens e mulheres — os mais ricos da Terra. Alguns são políticos, alguns empresários, alguns... fora da lei. Alguns são perigosos. Muito perigosos.”
Maya prendeu a respiração; seu estômago revirou. Ela estava longe daquele mundo e, ainda assim, ele de repente parecia próximo.
Sienna, ainda fraca, mas insistente, acrescentou: “É em uma propriedade privada. Um carro virá nos buscar, um transporte particular. Eles vão nos pegar em um local específico, mas as janelas são escuras. Você não verá o caminho. Quando chegarmos lá, siga a Kelly. Não saia do lado dela.”
“Tudo o que você precisa fazer é usar um colarinho branco. Branco significa que você é garçonete por uma noite. Você pode recusar qualquer um que lhe pedir favores sexuais. Se você aceitar, eles pagam muito bem — mas não podem te obrigar.”
O tom de Sienna caiu, um aviso pesado. “A única exceção é o Círculo. Cinco homens no centro. Eles são sempre servidos, sempre atendidos. As garotas ao redor deles são pré-selecionadas. Fique longe deles. Se eles quiserem algo de você... você é obrigada a obedecer.”
A respiração de Maya travou com a gravidade da situação, o medo se contorcendo dentro dela.
Kelly apertou sua mão. “Não se preocupe. Estarei por perto, protegendo você. Nunca os vi baixar a guarda. As coisas simplesmente fluem até eles sem que precisem pedir.”
O peito de Maya apertou. Ela estava com medo agora, cada aviso ecoando em sua cabeça — mas ela estava disposta a fazer isso se significasse salvar sua amiga. Ela se lembrou dos seus anos de faculdade trabalhando como garçonete, equilibrando bandejas e passando por multidões. Ela conseguia ser garçonete de novo. Além disso, a máscara a ajudaria. Ela tinha aprendido a ser invisível em lugares lotados.
“Ok”, ela disse finalmente, com a voz baixa, mas firme. “Você me deve essa, Sienna.”
As garotas se animaram, o alívio inundando seus rostos. Sienna conseguiu um sorriso grato antes de se curvar novamente sobre o vaso, ainda vomitando.
“Nojento”, Kelly murmurou, franzindo o nariz.
O uniforme estava sobre a cama de Sienna como um desafio. Roupa íntima de renda preta com uma fina fita vermelha na frente, meias com ligas que se prendiam às coxas, um vestido preto sem alças que revelava mais do que escondia.
Maya tocou o colarinho branco deixado na cama.
Branco significava garçonete. Seguro — pelo menos mais seguro.
Maya vestiu a peça, tremendo.
Kelly pintou seus lábios de carmesim, passou um traço preto afiado em suas pálpebras, então prendeu a máscara de renda sobre seus olhos. Seu reflexo no espelho a assustou. Sedutora. Perigosa. Não era Maya Brooks, a garota do marketing. Era alguém completamente diferente.
“Você está perfeita”, Kelly sussurrou.