Linhas que não podemos cruzar
Tudo estava se encaixando durante a minha gravidez. Minha barriga tinha florescido em uma pequena melancia perfeita, redonda e inegável. Eu estava cercada de amor e apoio — da minha família, da de Michael. Hoje era um dia especial: Dana e eu iríamos às lojas de bebês, à caça de roupas para menina. Porque nunca se tem coisas demais para um bebê. Meu anjinho merecia o melhor.
Eu estava enrolada em um suéter aconchegante e elástico com leggings pretas, meu look de costume para conforto e estilo. Botas de couro preto e uma jaqueta combinando com detalhes em pelo — presentes de Natal de Michael — completavam o visual. Ele me mimava demais, e eu deixava. Hoje, eu estava armada com o dinheiro que ele enviou animadamente pelo CashApp, insistindo que eu comprasse coisas para mim e para o bebê. Por que discutir?
Mas assim que desci as escadas, a cena na cozinha me paralisou. Eric. Sem camisa, com a água correndo sobre as mãos, o leve som de lavar louça. Seu corpo — uma escultura impecável de músculos e controle — capturava a luz perfeitamente. Mordi o lábio, saboreando a visão, antes de seguir silenciosamente em direção à porta. No momento, eu tinha o melhor dos dois mundos. Eric, meu colega de casa bonito e intenso que ajudava com as coisas, e Michael, meu namorado, o homem cujo filho eu carregava.
Eric sempre ia embora pouco antes das visitas de Michael. Não, Eric e eu não estávamos transando. Ele ficava com o sofá de qualquer jeito e eu, com o quarto. Ele tinha concordado em se mudar em breve — só ainda não tinha encontrado o lugar certo. Dois adultos lidando com um término nos seus próprios termos complicados. O divórcio vinha a seguir. Simples, não é?
Ninguém sabia que Eric estava aqui — nem mesmo Zoey. E Michael? Esse segredo estava trancado a sete chaves, enterrado profundamente. Ele nunca. JAMAIS. PODERIA SABER!
Lá fora, o ar de inverno me atingiu com um frescor cortante. Dana acenou pela janela com aquele ronco familiar em sua voz. “Entra logo, Cora, antes que você congele.”
Cruzei o jardim da frente apressada e entrei. Passenger princess, pronta para o dia.
Era meados de março. Galhos nus se estendiam contra um céu opaco, o silêncio do inverno pairando pesado, mas elétrico. Lancei um olhar para a montanha atrás da minha casa; sua beleza rústica me trazia equilíbrio. Summerdale era crua e real; eu tinha me acostumado, substituindo o medo que sentia antes da gravidez. Ali era meu lar.
A voz de Dana me trouxe de volta dos meus pensamentos. “Então... como está minha sobrinha gatinha?”
Ri, jogando a cabeça para trás, de olho na estrada. “Ela é agitada para cacete. Chuta como uma louca, especialmente quando tomo banhos quentes.”
“Você está escaldando ela, Cora. Tortura pura.”
“De jeito nenhum”, ri. “Ela provavelmente se pergunta que porra de barulho é esse quando o chuveiro bate na minha barriga.”
“Fala sério.”
Dana era meu porto seguro — minha constante. Éramos inseparáveis agora que o balé tinha ficado para trás. Dias cheios de ioga, filmes tarde da noite, compras infinitas e jantares.
Chegamos em Sterling, o trânsito pesado de carros, vitrines de luxo exibindo seus letreiros brilhantes. Dentro da Koala Baby — não uma loja comum, mas um sonho de designer — encontrei uma arara de vestidos com tutu, um quase idêntico a um que eu usava nos ensaios de balé. Tão fofo. Dana pegou uma jaqueta jeans rosa.
“Isso combinaria perfeitamente com aquilo.”
“Vou levar os dois”, disse eu, sentindo aquela necessidade corrosiva de dar o melhor ao meu bebê crescendo.
Enchemos o carrinho com braçadas de roupas adoráveis.
“Eu nem sei onde vou colocar tudo isso”, murmurei, arrastando o carrinho em direção ao caixa.
“Simples”, disse Dana com um sorriso malicioso. “A cobertura do Mikey tem closets do tamanho do meu banheiro. Sério, são enormes.”
“Eu não vou morar com o Michael.” Ri. Por que ela acharia isso?
“Não foi o que ele me disse. Disse que já montou um quarto para o bebê.”
“Provavelmente para quando a gente visitar”, falei, sentindo uma frustração surgir.
Dana piscou, chocada com minha atitude defensiva.
“Ok, Cora.” Ela suavizou, colocando a mão no meu ombro. “Você deveria falar com ele.”
Mas eu sabia que havia mais por baixo da superfície. Eu precisava ligar para o Michael e deixar claro: ninguém ia ditar minha vida.
Coloquei as roupas no balcão sem a ajuda dela. Não queria. Minha raiva queimava. Eles tendo conversas secretas sobre mim e o bebê? O que eu deveria pensar? Que minha vida simples na floresta não era o bastante? Eu queria que meu bebê crescesse cercado pela natureza, longe do barulho da sociedade. Uma existência quieta e descomplicada.
O total na tela fez meus olhos arregalarem: US$ 2.320,32.
Era eu mesma fazendo isso? Gastando milhares em coisas que um bebê não precisaria? Claro, ela ficaria bem apenas com bodies simples. Mas Michael tinha condições e, honestamente, eu estava farta de questionar cada pequena coisa. Meu bebê merecia o melhor. Passei meu cartão do CashApp, sentindo uma pequena onda de satisfação.
Lá fora, enquanto colocávamos as sacolas no porta-malas, Dana hesitou, as mãos no volante.
“Cora”, ela disse com cuidado, “está tudo bem?”
“Eu só odeio que o Michael tome decisões sem mim.”
“Eu entendo. Você precisa falar com ele. Mas talvez... não seja uma ideia tão ruim.”
“Vocês não têm o direito de decidir!”
Talvez fossem os hormônios. A data do parto se aproximando, a pressão apertando. Mas eu estava furiosa.
Dana parecia magoada, e quase senti culpa. Ir para Boston era um passo enorme — longe demais. Deixar a família, começar do zero. O pensamento me aterrorizava. Mas Dana se importava. Michael se importava. Eles não eram os inimigos.
“Desculpa. Só... hormônios. Preocupação. Vamos comer alguma coisa.”
Ela suspirou. “Deve ser por isso que você está sendo tão chata.”
“Pois é”, respondi, segurando o peito de forma dramática.
“Brincadeira. Para onde, grávida?”
“Desejando algo suculento. Algo que pingue. Carne.”
“Um pau?”
“Dana!”
“Bem, foi você quem disse.”
Acabamos no Desert and Cactus Steakhouse. Pedi uma costela, o mac and cheese da casa e uma salada Caesar. Dana foi de frango Alfredo. Trocamos garfadas, o riso aliviando a tensão. Paguei a conta, um pedido de desculpas por ter explodido.
Às seis, Dana me deixou em casa. Ela quis ajudar com as sacolas, mas disse que não precisava. Eric estava lá dentro. Meu segredo. Ela provavelmente se perguntava por que um Hellcat estava sempre estacionado na minha entrada quando ela vinha me buscar.
Carreguei as sacolas pesadas e as sobras para dentro, sentindo um alívio enorme quando os pneus dela se afastaram. Mas então Eric apareceu, perto e perigoso, um sorriso surgindo em seus lábios que me fez arrepiar.
“Quer que eu leve isso lá para cima, minha esposa grávida?” Sua voz era suave, provocante. Brincando.
Eu o repreendi com um olhar, mas sabia que doía nele o fato de que este bebê não era seu. Ele carregava sua dor com uma elegância silenciosa.
“Por favor”, disse, largando as sacolas. Minha pélvis doía e eu precisava sentar.
Ele as levantou sem esforço, indo para o quarto do bebê, depois colocou minha comida na geladeira.
Quando ele voltou, sentou-se ao meu lado no sofá. Sua mão se estendeu, o polegar limpando algo no canto da minha boca, fazendo minha respiração falhar. Sua marca registrada. Tão familiar.
“Ainda come como uma porquinha, hein?” Sua voz era como veludo, baixa e controlada. Seus olhos passaram pelos meus seios — eles tinham crescido. Depois, pela minha barriga. Um flash de dor cruzou seu rosto.
“Encontrei um lugar”, ele disse baixinho. “Vou me mudar em breve.”
Eu suspirei. “Ok.”
—
Mais tarde naquela noite, deitei espalhada na minha cama, enrolada em um body rosa transparente, uma lingerie que se agarrava a cada nova curva — a gravidez só me deixou mais ousada. Tirei algumas fotos escandalosas para o Michael, mamilos duros, meu calor visível para provocá-lo, lábios entreabertos, olhos pesados de desejo. Descobri que a gravidez fazia meu corpo ansiar por toque de formas que eu nunca esperei. Eu queria que ele se lembrasse do que estava perdendo, queria que ele ficasse inquieto e pensando em mim quando fechasse os olhos à noite.
Michael: Droga, bebê. Vai me fazer pegar um avião agora mesmo. 😩
Eu: 🍆🍑💦😬
Michael: Espere só. Quando eu chegar aí, digamos que não vamos nem chegar ao quarto.
Depois disso, coloquei meu travesseiro favorito entre as coxas, preparando-me para dormir. Mas, quando eu estava quase cochilando, o bebê pressionou, urgente e insistente. Tive que fazer xixi. Resmunguei, rolando para a beira da cama, mal conseguindo sentar. Soltei um longo suspiro de irritação antes de escorregar para fora, meus pés encontrando o chão frio.
Tinha virado um ritual — segurar minha barriga enquanto caminhava pela casa escura, culpando o bebê por cada interrupção no meio da noite. O corredor estava envolto em sombras, tudo quieto e parado. Cheguei ao banheiro, fiz minhas necessidades, lavei as mãos e me virei para a porta, ainda meio dormindo.
Foi então que quase colidi com o Eric.
Ele me segurou pelos ombros, com firmeza, me estabilizando. O contato enviou um raio de calor direto através de mim, minha pele se arrepiando sob suas mãos.
“Desculpa”, sussurrei, incapaz de olhar para ele, de repente consciente de cada centímetro do meu corpo e do quão pouco eu estava vestindo.
Ele não se afastou, não realmente. Apenas ficou ali, pairando na porta, usando apenas uma cueca box preta, a luz do luar traçando linhas rígidas em seu peito e abdômen. Minha respiração falhou. Senti o calor pulsar baixo na minha barriga, concentrando-se entre as minhas coxas.
Seus olhos desceram pelo meu corpo, sem qualquer arrependimento, demorando-se na extensão dos meus seios sob o tecido transparente — macios, inchados, impossíveis de esconder. Eu conhecia aquele olhar. Eu me lembrava dele profundamente — a maneira como ele conseguia me fazer sentir nua apenas com um vislumbre.
“Você precisava do banheiro?” consegui dizer, com a voz mais suave do que eu pretendia. Eu era do Michael agora. Grávida. Proibida. Deus, eu queria que ele parasse de me olhar daquele jeito.
“É”, ele disse, a voz rouca, embriagada de sono, mas seu olhar preso ao meu. Por um segundo, éramos apenas nós dois. Apenas a velha dor, a tensão que nunca realmente morreu entre nós. Então ele se aproximou, sua altura ofuscando a luz do luar que preenchia o corredor. Éramos ambos sombras, naquele momento. Minha respiração falhou quando seus lábios desceram, tão perto.
Eu podia sentir o desejo queimando em seu olhar como um fio elétrico tenso demais, ameaçando romper a qualquer segundo. Seus olhos buscaram os meus, crus e desesperados, o tipo de olhar que continha tudo o que não foi dito entre nós — arrependimento, desejo, desculpas não ditas e o fantasma do que perdemos. Por um instante, o mundo encolheu para apenas aquele espaço carregado entre seu rosto e o meu, o mais leve toque de ar quente na minha pele.
Mas, antes que seus lábios pudessem reivindicar os meus, o pânico surgiu em meu peito. Eu o empurrei — com força — minhas mãos tremendo, a respiração irregular. Meu coração batia como se quisesse fugir daquele momento. Ele tropeçou apenas um passo, o suficiente para quebrar o feitiço, e olhou para mim, com olhos arregalados — doloridos, quase suplicantes — mas em silêncio. Então, teimoso e resignado, ele me deixou passar.
Senti seu olhar me acompanhar enquanto eu recuava, o calor irradiando dele como um fogo que eu não podia alcançar. Seus olhos demoraram-se na curva da minha bunda, uma fome e um histórico não ditos entrelaçados naquele olhar silencioso. Tremendo, vulnerável e exposta, com cada nervo em alerta, apressei-me para a segurança do meu quarto.
A porta fechou suavemente atrás de mim e eu desabei contra ela, as costas pesadas e os joelhos fracos. Joguei a cabeça para trás, pálpebras cerradas, lutando para estabilizar o choque que girava dentro de mim. Ele ia me beijar. Ele tentou. Ele ainda não tinha entendido — pela forma frágil da minha barriga inchada, pela distância silenciosa que eu tinha cavado entre nós — que tinha acabado? Que eu não era mais dele? Que a vida que eu carregava pertencia ao Michael, e que Michael era o homem a quem eu tinha prometido?
Os sons baixos do banheiro — a porta fechando atrás dele, o barulho da descarga, o som da água correndo sobre suas mãos — preenchiam a quietude. Imaginei-o lá, músculos tensos, lutando com o peso de tudo o que foi. Mas então, nenhum passo. Apenas uma pausa. Ele ainda estava lá, ainda pairando, preso entre ir embora para baixo e algo mais que eu não sabia nomear.
Então vieram passos lentos e deliberados, pesados e hesitantes, aproximando-se da minha porta, depois parando. Pairando. Minha respiração falhou, um lampejo de medo afiando dentro de mim. Mordi o lábio, o coração batendo forte contra as costelas que pareciam apertadas demais. Por favor, não cruze essa linha. Por favor, não toque na maçaneta.
Mas ele não tocou. O recuo súbito foi quase pior — uma retirada silenciosa para as sombras lá embaixo, para o vazio que preenchia o espaço onde um dia construímos uma vida.
Deixada trêmula e vazia, desabei na cama. A dor entre as minhas coxas era retorcida, um eco cruel do que costumávamos ser — um quarto vivo com risadas, nossa cama onde segredos eram compartilhados e promessas sussurradas. Agora? Eric estava relegado ao sofá, um capítulo desbotado que ambos fingíamos ter terminado.
Era tão porra de triste, a maneira como as coisas desmoronaram. Nosso final. E não importava o quanto eu desejasse o contrário — era tarde demais.