Capítulo 1
Anton Prescott
“Sinto muito, Anton, mas o Pip está com febre e não quero deixá-lo sozinho esta noite.” A voz da minha irmã está tensa de preocupação e, ao fundo, consigo ouvir a tosse rouca e sofrida do meu sobrinho.
“Claro. Cuide dele — eu dou conta do evento”, respondo com naturalidade, embora já sinta a irritação crescendo.
Para falar a verdade, eu odeio essa porra de eventos. Os sorrisos forçados, a bajulação vazia, o desfile interminável de egos vestidos em smokings de marca. A Angie costuma lidar com essa merda — ela é a que tem aquele charme natural, a que faz o nome Prescott parecer bom. E vamos ser sinceros: o casamento dela com Albert Beaumont, o herdeiro Beaumont, tem muito mais peso do que qualquer coisa que eu possa oferecer.
Esta noite será apenas mais uma maldita noite de conversas calculadas, julgamentos velados e o peso sempre presente da expectativa.
Mas não importa o quanto eu deteste isso, jamais pediria à minha irmã para deixar seu filho doente só para sofrer em uma dessas reuniões sem alma. A Angie encontrou algo real, algo que eu só posso invejar pra caralho — uma família, amor, uma vida intocada pela frieza e pela merda sufocante do dinheiro antigo.
E, contra todas as expectativas, ela encontrou isso no Albert fucking Beaumont — o herdeiro de sangue azul mais insuportável que consigo imaginar. Se houvesse um deus das dinastias de dinheiro antigo, Albert seria seu filho de ouro, drapeado em ternos sob medida e riqueza geracional, bebericando um uísque escocês de safra enquanto discute tendências de mercado como se fosse um grande esforço intelectual. E, ainda assim, por baixo de todo esse privilégio, a Angie viu algo que valia a pena amar.
Sorte a dela.
E, para ser justo, o cara é obcecado por ela. Um nível de devoção do tipo beija o chão por onde ela pisa, provavelmente mataria por ela. No início, eu não tinha certeza sobre ele — como eu poderia ter? Já vi muitos desses babacas de fundo fiduciário que tratam suas esposas como acessórios, desfilando com elas em galas antes de comerem suas secretárias discretamente. Mas o Albert? Não. O cara olha para a Angie como se ela fosse o maldito sol e a lua dele. Como se, se ela pedisse, ele queimaria sua fortuna familiar só para provar um ponto.
A Angie e eu temos um acordo. Ela confia em mim. Eu confio nela. Se ela diz que está feliz, então é só isso que importa pra caralho.
Não significa que eu tenha que gostar do cara. Mas eu o respeito. E, no nosso mundo, isso é o melhor que se pode conseguir.
E querendo ou não, foi ele quem deu o meu sobrinho à Angie. O meu Pip.
Aquele garoto... Jesus Cristo. Eu nunca esperei amar alguém assim. Passei minha vida inteira cercado por pessoas que sorriem como tubarões, apertam mãos como se estivessem fechando negócios e dão abraços que parecem fusões corporativas. Mas o Pip? Ele é real pra caralho. Sem fingimentos, sem expectativas, apenas um pequeno ser humano que olha para mim como se eu tivesse colocado as malditas estrelas no céu. Aquele garoto me ama incondicionalmente, e eu mataria por ele sem pensar duas vezes. Porra, eu queimaria o mundo inteiro se ele ao menos derramasse uma lágrima.
Então, sim, talvez eu não ame o Albert Beaumont. Mas também não consigo odiar o bastardo. Não quando ele me deu a única pessoa neste mundo maldito que faz essa merda valer a pena.
Pip é a única pessoa que olha para mim e vê a mim, não o nome Prescott, não o dinheiro antigo, não as expectativas frias e calculadas costuradas em cada terno que eu possuo. Ele não está nem aí para nada disso — ele só quer que eu leia o mesmo livro estúpido de dinossauros pela centésima vez ou que o deixe dormir no meu peito como se eu fosse o lugar mais seguro do mundo. E, porra, se isso não é a coisa mais gratificante que já conheci.
Então, pelo Pip e pela Angie — que merece cada grama de felicidade que encontrou. E talvez, só talvez, pelo Albert fucking Beaumont, que — contra todas as expectativas — realmente ama minha irmã como ela merece.
Estou arrastando minha bunda para esse evento horrível.
Vou apertar mãos, balançar a cabeça nos momentos certos, beber uísque caro e fingir que me importo com qualquer merda sobre legado que essas pessoas estão murmurando. Vou fazer isso porque esse é o preço do nome que carrego. E porque, no fim da noite, posso ir embora sabendo que minha irmã e meu sobrinho — as únicas duas pessoas que realmente importam — estão seguros, felizes e intocados por todo esse barulho.
Mas, primeiro, tenho que superar isso — qualquer que seja a desculpa pretensiosa para um evento onde acabei de me enfiar.
No segundo em que saio do carro, sou atingido por flashes cegantes. Os paparazzi enxameiam como abutres, as lentes das câmeras cintilando sob o brilho artificial dos candelabros que derramam luz no tapete vermelho. O ar está denso com o cheiro de riqueza — perfume caro, fumaça de charuto, bourbon envelhecido. Em algum lugar na multidão, alguém chama meu nome, provavelmente algum sanguessuga da coluna social procurando uma frase para estampar abaixo do meu rosto nos tabloides de amanhã.
É uma gala. Alguma coisa de caridade. Provavelmente crianças, fome mundial ou salvar as porras das baleias. Não que alguém aqui realmente se importe. É só mais uma desculpa para desfilar em alta costura, beber champanhe que custa mais do que o aluguel da maioria das pessoas e fingir que estão fazendo algo nobre enquanto seus contadores encontram novas maneiras de sonegar impostos.
A multidão é a mesma de sempre: mulheres com rostos tão esticados que provavelmente não conseguem piscar, seus vestidos de grife praticamente gritando "eu me casei com um rico, olhem para mim". Homens velhos que se recusam a aceitar sua data de validade, sorrindo como chacais, com suas segundas e terceiras esposas agarradas aos braços como acessórios do caralho. Pirralhos de fundo fiduciário em ternos sob medida, já meio bêbados e drogados até a alma, rindo alto demais de piadas que não têm a menor graça. E, claro, os poderosos — os nomes do dinheiro antigo, as forças reais por trás de tudo, aqueles que realmente comandam esta cidade de suas salas de reuniões nas coberturas, enquanto o resto de nós dança conforme a porra da música deles.
A mesma merda de sempre. Outro local superfaturado.
Solto o ar bruscamente, giro os ombros e ajeito a gravata. Hora de acabar com essa porra.
Caminho pela multidão, bourbon na mão, oferecendo um aceno ocasional, o sorriso ensaiado, as gentilezas vazias. As mesmas conversas estúpidas giram ao meu redor: tendências do mercado de ações, quem comprou qual vinhedo em Napa, cujo divórcio desafortunado está dando o que falar. É tudo tão previsível que eu poderia falar as frases junto com eles.
Estou entediado pra caralho quando algo corta o zumbido monótono de merda — uma conversa que realmente desperta meu interesse.
“Então, como foi? A garota Astor?”, pergunta um deles, com a voz pingando a arrogância preguiçosa e prepotente que só um pirralho de terceira geração consegue ter.
“Ah, cara, foi horrível pra caralho”, o outro geme. “Aquela garota é uma total estranha dos cavalos. Não me importa o quão rica ela seja ou o quanto meu pai queria que essa merda desse certo.”
Astors, hein? Agora esse é um nome que não ouço há um bom tempo.
Era uma vez, eles eram a família do dinheiro dos cavalos. Velho mundo, o tipo de riqueza do "meu avô criava cavalos de corrida para a realeza europeia". Então, como tantos outros, uma geração azarada jogou a fortuna fora — investimentos ruins, jatinhos demais, talvez um vício em cocaína ou dois. Seja lá o que porra aconteceu, eles caíram do círculo íntimo da sociedade.
Mas aqui estão eles de novo, lutando para voltar.
“Ah, qual é, não pode ter sido tão ruim”, um dos idiotas insiste, girando sua bebida como se tivesse um único pensamento original no crânio. “Ela não é a que está ganhando todo o dinheiro de novo?”
“Eu não estou nem aí”, o outro reclama. “Aquela garota me olhou e disse: ‘Não é um cavaleiro? Que surpresa’.”
Quase me engasgo com meu bourbon.
Isso é ouro puro.
Quem quer que seja essa garota Astor, eu já gosto dela. Porque eu sei exatamente o tipo de cara com quem ela estava lidando — algum pirralho mimado de legado que nunca teve que trabalhar um dia real na vida, vivendo do sobrenome e das conexões que o papai comprou para ele. O tipo de cara que provavelmente achava que estava fazendo um favor a ela só por aparecer, e em vez disso, teve seu ego frágil destruído em uma única frase.
Bom demais, porra.
Dou um sorriso de canto atrás do copo de bourbon, segurando o riso. “Não é um cavaleiro? Que surpresa.” Jesus. Isso foi brutal.
E totalmente preciso.
Nem preciso me virar para saber exatamente que tipo de cara ela estava enfrentando — algum idiota de mãos macias e fundo fiduciário que provavelmente acha que "trabalho duro" significa sentar em uma mesa de conselho onde o pai comprou uma cadeira para ele. O tipo de cara cuja ideia de "experiência equestre" é apostar no Derby de um camarote VIP enquanto toma Dom Pérignon.
“Você devia ter visto a cara dela, cara”, ele geme, ainda lambendo as feridas. “Como se eu a tivesse ofendido pessoalmente só por existir. Juro por Deus, não sei o que é pior: o fato de ela realmente saber como gerir um negócio ou ela ainda ser obcecada por cavalos.”
“Você se livrou de uma, irmão”, seu amigo responde, balançando a cabeça. “Nenhuma quantia de dinheiro vale a pena ter que lidar com uma garota louca por cavalos.”
Viro os olhos com tanta força que posso ter distendido algo.
Típico. Esses babacas não reconheceriam uma mulher de verdade se ela desse um tapa na cara deles. Eles estão acostumados demais com as que foram criadas para isso — as socialites polidas e obedientes, treinadas desde o nascimento para serem esposas troféus perfeitas. Eles não saberiam o que porra fazer com uma mulher que realmente tem personalidade.
E, pelo que parece, a senhorita Astor? Ela tem muita fibra.
Faço uma nota mental para lembrar do nome. Se ela está realmente ganhando dinheiro de novo, ela está fazendo algo certo. E se ela é o tipo de mulher que consegue calar um idiota desses em uma única frase?
Bem.
Essa é alguém que vale a pena observar.
A gala se arrasta, terminando sem uma única maldita surpresa. Apenas mais uma noite de bebida cara, risadas falsas e as mesmas pessoas se parabenizando por simplesmente existir. Vou para casa, sirvo-me de uma bebida de verdade e sigo com minha vida como sempre.
Então, cerca de um mês depois, ouço o nome novamente.
A Ascensão dos Astor ao Poder!
Cuidado com Katherine Astor: A mente por trás do renascimento do dinheiro antigo!
Passo pelas manchetes no início, assumindo que é apenas mais uma matéria sobre algum garoto rico tentando comprar seu caminho de volta à relevância. Mas então continuo vendo isso. Jornais financeiros, colunas de negócios, até os blogs equestres.
Então, eu pesquiso.
Não sou exatamente um especialista em cavalos — além de conhecer o tipo de gente que joga milhões neles como se fosse troco. Mas quanto mais leio, mais tenho que admitir: essa Katherine Astor não está apenas fazendo um retorno. Ela está orquestrando um golpe.
O avô dela jogou a fortuna da família no lixo, do jeito que a maioria desses decadentes do dinheiro antigo faz — investimentos ruins, propriedades de luxo demais, provavelmente confiou nas pessoas erradas. Mas ela? Ela está virando o jogo de cabeça para baixo.
Revitalizando linhagens. Recomprando terras. Fechando acordos de patrocínio com nomes de elite que não jogam seu dinheiro em qualquer um. E os números? Eles não mentem.
Katherine Astor não está tentando reconstruir.
Ela já está fazendo isso.
E ainda assim — apesar de todas as manchetes, de toda a especulação, de todo o barulho — não há uma única maldita coisa sobre a própria mulher.
Nenhuma foto. Nenhum flagra de paparazzi. Nenhuma aparição encenada de socialite, nenhuma gala de caridade, nenhuma merda de "olhe-para-mim-tomando-champanhe-em-Versalhes". Ela não dá entrevistas, não dá declarações, não entra no jogo. Para todos os efeitos, ela é um fantasma. Um nome fazendo movimentos poderosos nos bastidores, enquanto o resto da alta sociedade se descabela para descobrir quem porra ela é.
O que faz daquele babaca de um mês atrás ou o bastardo mais sortudo do mundo, ou burro demais para perceber a companhia rara em que estava.
Porque se ele de alguma forma conseguiu uma conversa cara a cara com Katherine Astor, e tudo o que tirou disso foi um ego ferido por não ser um "cavaleiro"?
Então ela é exatamente tão esperta quanto eu penso que é.
E eu ficarei muito surpreso se não estiver começando a ficar curioso.
Porque isso não acontece. Pessoas como ela não ficam escondidas. Não no nosso mundo. O dinheiro antigo prospera na visibilidade — em alianças sussurradas sobre taças de champanhe, em casamentos estratégicos arranjados em almoços de caridade. Mesmo aqueles que afirmam odiar os holofotes ainda aparecem quando realmente importa.
Mas Katherine Astor?
Nada.
Nenhuma foto de debutante. Nenhuma matéria na Town & Country dos tempos de adolescente. Nem mesmo um maldito perfil no LinkedIn. É como se ela tivesse simplesmente aparecido um dia, já em movimento, já articulando coisas antes que alguém percebesse que ela era uma ameaça.
E isso? Isso é muito perigoso.
Porque, neste mundo, se as pessoas não conseguem te ver, elas não conseguem te prever. Elas não conseguem te passar a perna. Elas não conseguem te controlar.
O que significa que essa mulher — quem quer que seja essa porra — sabe exatamente o que está fazendo.
E eu preciso saber mais.
Então, faço o que qualquer pessoa racional faria ao se deparar com um mistério.
Eu faço algumas ligações.
E deixe-me dizer: conseguir informações sobre Katherine Astor é como tentar tirar leite de pedra.
Começo pelos canais de costume — fofocas da alta sociedade, analistas financeiros, dinossauros do dinheiro antigo que estão por aí há tempo suficiente para lembrar de quando os Astor realmente importavam. A maioria deles me solta a mesma merda reciclada.
“Ah, sim, os Astor. Uma queda trágica.”
“A neta não está fazendo algo com cavalos?”
“Ouvi dizer que ela está tentando se casar de volta com a elite — esperta, essa garota.”
Inútil.
O pessoal das finanças sabe um pouco mais — como ela está reestruturando o patrimônio da família, como ela está alavancando linhagens e programas de reprodução como um maldito tubarão de Wall Street. Há muito dinheiro de verdade se movendo por trás do nome dela, mas ninguém parece conhecer ela.
Nenhuma aparição. Nenhuma rede social. Nenhum vazamento.
Eu até entro em contato com um jornalista que conheço — alguém que ganha a vida desenterrando esqueletos dos nossos armários de ouro. Ele me liga dois dias depois, soando ao mesmo tempo impressionado e puto da vida.
“Ou essa mulher é um fantasma, ou ela tem a melhor equipe de relações públicas que já vi”, ele me diz. “Não achei nada, Prescott. Sem escândalos, sem ex-amantes querendo uma grana, sem fins de semana movidos a cocaína em Monte Carlo. Quem quer que ela seja, ou é limpa ou é muito boa em garantir que ninguém fale nada.”
Interessante.
Porque aqui está a questão: ninguém no nosso mundo é limpo. Todo mundo tem sujeira, seja ela pública ou enterrada a sete palmos por acordos de confidencialidade.
Então, ou Katherine Astor é algum tipo de anomalia…
Ou ela está cobrindo seus rastros melhor do que qualquer um que eu já tenha visto.
E ambas as possibilidades me fazem querer conhecê-la ainda mais.
Mas pessoas como Katherine Astor não simplesmente conhecem pessoas como eu. Ela não vai aparecer em uma gala, bebendo champanhe enquanto algum herdeiro bilionário tenta impressioná-la com suas contas offshore. Ela está jogando um jogo diferente — um em que as jogadas são calculadas, as apostas são altas e cada passo à frente é mais uma camada de poder cuidadosamente colocada no lugar.
Então, digo a mim mesmo para deixar isso pra lá.
E eu quase faço isso.
Então, bem quando estou prestes a desistir de tudo, outro convite de evento chega à minha mesa.
Um de uma dúzia, provavelmente. A mesma porcaria de sempre — jantares de caridade, angariações de fundos, alguma festa de noivado exagerada para um casal que provavelmente já se odeia. Normalmente, eu jogaria tudo para a Angie e deixaria ela resolver.
Mas então eu vejo.
Com letras douradas em relevo, como se isso realmente significasse algo.
APRESENTAÇÃO DO GARANHÃO VENCEDOR DE ASTOR – 2025
Um evento de cavalos.
E, aparentemente, o evento.
É aqui que os verdadeiros jogadores aparecem. Os cavaleiros de famílias ricas, os investidores, os compradores internacionais com seus jatos particulares e bolsos infinitos. Aqueles que tratam garanhões de um milhão de dólares como opções de ações, que fazem negócios com uísque que custa mais que o salário de muita gente. Não é uma festa de coquetel social brilhante cheia de socialites desesperadas para serem vistas — isso é negócio.
E, de acordo com este convite, é a maldita exibição da Astor.
O movimento dela. O jogo dela.
Recosto-me na cadeira, batendo o convite de cartolina grossa contra a mesa, analisando a ideia na minha mente.
Katherine Astor tem sido um fantasma — intocável, sem rastro, nada além de um nome ligado a um império em crescimento. Mas isso? Isso é diferente.
Ela tem que aparecer. Tem que aparecer.
Não é uma gala de caridade que ela pode pular, ou um evento de imprensa que ela pode delegar. Não, esse é o mundo dela, o reino que ela está arrancando da cova. Se ela quer poder, se ela quer jogar neste nível, ela tem que entrar no maldito ringue e tomar posse dele.
O que significa que, pela primeira vez, ela estará bem na minha frente.
Viro o convite, pensativo. Eu não dou a mínima para cavalos, mas me importo com poder. E, agora, Katherine Astor tem muito. Mais do que as pessoas esperavam. Mais do que deveria ser possível para alguém com um sobrenome que era considerado morto há poucos anos.
Então a verdadeira pergunta é: como?
Como diabos ela conseguiu isso? E, mais importante: o que diabos ela está planejando a seguir?
Solto um suspiro lento, com o sorriso de canto se tornando mais afiado.
Parece que finalmente tenho um caminho.
E eu me sentirei um idiota se não aproveitar.
O dia do evento chega.
Domingo. Manhã. O tipo de manhã que tem cheiro de dinheiro — grama cortada, couro, perfume caro e champanhe tão caro que poderia ser ouro líquido.
É exatamente o que eu esperava.
Mimosas em taças de cristal, chapéus de abas largas saídos diretamente de um sonho de uma noite de verão da elite, e tanto Ralph Lauren que faz o lugar todo parecer uma maldita campanha publicitária. Lenços amarrados no ponto certo, botas de grife que provavelmente não tocaram na terra real em anos.
E as pessoas?
Não são apenas amantes casuais de cavalos ou socialites entediadas brincando de se vestir. Não, esse pessoal é sério. Magnatas da equitação, investidores internacionais, famílias de dinheiro antigo com legados construídos sobre linhagens mais velhas que alguns países. Até realeza — verdadeiros aristocratas europeus que estão no jogo há tanto tempo que nem têm sobrenomes, apenas títulos.
Eles não estão aqui apenas para assistir.
Eles estão aqui para analisar.
Para dissecar cada detalhe, cada movimento, cada transação. Para decidir se Katherine Astor é uma jogadora de verdade ou apenas mais uma herdeira desesperada agarrada a um legado que deveria ter morrido gerações atrás.
E eu?
Estou aqui para vê-la.
Para finalmente colocar um rosto no nome. Para descobrir que tipo de mulher consegue arrastar um império morto para fora da cova e fazer o mundo inteiro prestar atenção.
Tomo um gole da minha bebida, observando o campo, esperando.
Mostre-me o que você tem, Srta. Astor.
O show começa, e é exatamente o que eu esperava — homens em blazers sob medida e mulheres em botas de montaria impecáveis murmurando uns com os outros, olhos afiados, calculistas. Isso não é apenas um maldito show de cavalos. É uma maldita partida de xadrez.
Linhagens. Reprodução. Performance. Investimentos.
O locutor fala sobre linhagem, campeonatos e outras porcarias equestres que eu não entendo completamente. Metade parece alguém lendo uma árvore genealógica real, a outra metade parece um maldito relatório de ações. As pessoas balançam a cabeça, sussurram, bebem. Algumas anotam coisas, outras se inclinam como se um único passo em falso fosse decidir um negócio milionário.
Então, depois do que parece uma eternidade, o tom do locutor muda.
“E agora, veremos a Srta. Katherine Astor apresentar a montaria veloz de Thunder, um dos garanhões mais premiados dos Astor.”
A energia na multidão muda. Uma onda de interesse, sutil, mas presente.
E, de repente, todo filho da puta aqui está prestando atenção.
Inclusive eu.
Eu me endireito, girando o copo entre os dedos, treinando meus olhos no ringue de apresentação. Os portões se abrem e, pela primeira vez, ela aparece.
Katherine porra Astor.
O fantasma. O enigma. A mulher que tirou um império morto da terra e o tornou relevante novamente.
E porra, como ela sabe fazer uma entrada.
Ela monta como se tivesse nascido na sela — como se o cavalo não fosse apenas um investimento premiado, mas uma extensão de si mesma. Há uma graça nisso, algo sem esforço, algo que não deveria ser possível na velocidade em que ela está. Thunder se move como o seu homônimo — rápido, poderoso, elétrico — mas ela? Ela é firme, precisa. Não está apenas se segurando, ela está no controle.
E Jesus cristo, ela é linda.
Cabelo loiro longo, trançado cuidadosamente, mas desfazendo-se nas pontas devido à pura velocidade da corrida. Calças de montaria abraçando pernas longas e esguias, botas polidas que parecem usadas apenas o suficiente para serem funcionais, não decorativas. Uma blusa branca impecável, ainda limpa apesar do vento e da velocidade, como se até a poeira e o suor não ousassem tocá-la.
Ela é tudo que uma herdeira equestre de dinheiro antigo deveria ser. O tipo de mulher que não apenas veste o legado — ela o encarna. Ela é dona dele.
E, enquanto ela cavalga, sinto a multidão inteira observando.
Não apenas admirando. Não apenas analisando.
Respeitando.
Ninguém aqui está questionando se ela pertence a este lugar. Ninguém está sussurrando sobre o declínio dos Astor. Ninguém está pensando no dinheiro perdido, nas falhas das gerações passadas.
Porque agora, tudo o que eles veem é ela.
E, neste mundo, isso é poder.
Tomo um gole lento da minha bebida, dando um sorriso de lado.
Então, essa é Katherine Astor.
E então ela vira.
Ela reduz Thunder para um trote constante, guiando o garanhão enorme como se fosse a coisa mais fácil do mundo, postura ereta, movimentos sem esforço. Ela faz uma volta lenta para o público, e é aí que eu consigo ver ela de verdade.
E porra, eu não estava preparado.
Olhos verdes — não apenas verdes, mas aquele tom raro de esmeralda profunda que captura a luz e atravessa você. Sem maquiagem, sem nenhuma camada de artifício para se esconder, apenas pele macia e cremosa que não foi arruinada por preenchimentos ou bronzeamento excessivo como metade das socialites deste público. Ela é esguia, músculos sutis e graça natural, um corpo moldado por anos de montaria, de controle, de disciplina.
Ela é pequena, claro, mas não há nada de delicado nela. Ela parece uma boneca de porcelana até você encontrar seus olhos — afiados, inabaláveis, tão vivos que te deixam desequilibrado. Há algo por trás deles, algo calculista, algo que não apenas vê as pessoas, mas as lê.
A multidão a observa com admiração. Respeito. Talvez até um pouco de medo.
Eu a observo com algo totalmente diferente.
Porque agora eu tenho que conhecê-la.
Não porque ela é linda — embora, porra, ela seja. Mas porque mulheres como ela? Mulheres que entram em um mundo construído para vê-las fracassar e, em vez disso, o forçam a se ajoelhar?
Isso não é apenas beleza. Isso é poder.
E poder como esse?
Sempre vale a pena perseguir.
Após a apresentação, observo enquanto ela se dirige para a multidão.
Ainda com o traje de montaria — botas levantando poeira, luvas enfiadas sob o braço, blusa ainda impecável — ela é o maldito centro da sala sem nem tentar. As pessoas a cercam como mariposas em volta de uma chama, ansiosas, curiosas, famintas. Elas querem vê-la, ter uma ideia da mulher que acabou de cavalgar ao redor deste evento inteiro.
E uma coisa fica muito clara:
Katherine Astor não perde tempo com besteira.
Ela é educada — tão educada que chega a ser quase uma arma. Um sorriso bem posicionado, um aceno, um obrigada, agradeço por isso perfeitamente controlado, antes de ela encerrar a conversa sem dó nem piedade. Sem gentilezas desnecessárias, sem fofocas inúteis da elite, sem dar trela para os sanguessugas que a cercam, esperando abocanhar um pedaço de qualquer império que ela esteja trazendo de volta dos mortos.
Eles sondam — porque, é claro, eles sondam. Perguntam sobre a família, sobre os planos dela, sobre com quem ela está saindo. As mesmas perguntas de merda e cansativas que sempre jogam para mulheres na posição dela.
Mas ela não morde a isca.
Ela se esquiva, suave como seda, trazendo a conversa de volta aos negócios. A cavalos. A coisas que realmente importam.
E isso é impressionante para caralho.
Porque esse pessoal? Eles não estão acostumados a serem dispensados. Não por alguém de quem eles querem alguma coisa. Mas ela faz isso com uma graça tão natural que torna impossível ficar ofendido.
Ela está no controle. Da conversa. Do ambiente. De cada maldita pessoa tentando decifrá-la.
E isso me inclui.
Então, fico à margem, observando.
Ela lida com a multidão como uma profissional de verdade, e não do jeito que as socialites comuns fazem — com risadas falsas e gentilezas vazias —, mas com propósito. Os magnatas dos cavalos? Eles estão impressionados para caralho. Você pode ver isso pelo jeito que se inclinam para frente, pelo modo como acenam com respeito real, em vez de complacência. Não é apenas uma herdeira vivendo de sobrenome; é uma mulher que sabe o que faz.
Ela marca reuniões, agenda visitas ao seu rancho, convida as pessoas certas no momento certo. Sem desespero, sem afobação — apenas uma expansão de poder controlada e calculada, peça por peça dessa porra.
E eu posso ver agora, claramente.
Essa mulher tem trabalhado — incansavelmente, provavelmente há anos, ralando nos bastidores enquanto o mundo a descartava como mais uma vítima da falência da elite tradicional. Mas é isso o que acontece com gente como ela. Aqueles que perdem tudo e ainda encontram um jeito de dar a volta por cima.
Eles não querem apenas reconstruir.
Eles querem vencer.
E é disso que se trata. Não é apenas o renascimento de um nome antigo e morto. Não é um projeto de vaidade ou uma tentativa fracassada de voltar à alta sociedade.
Este é o seu movimento final, porra.
O momento em que todas as peças se encaixam.
Ela jogou esse jogo com perfeição — lidou com os pesos-pesados primeiro, fechou os negócios de fato, garantiu que as pessoas que importam a vissem como uma força, não como uma novidade. E agora, só depois de tudo feito, ela volta sua atenção para os arredores.
O que, infelizmente, me inclui.
A elite tradicional que não está no circuito de cavalos, mas ainda ocupa espaço em festas como esta. Aqueles cuja presença significa alguma coisa, mesmo que não estejamos assinando cheques para taxas de cobrição ou cavalos de competição. Nós temos peso de outras formas — legado, influência, a moeda social que ainda importa para caralho, quer alguém admita ou não.
E eu posso ver tão claramente — como a postura dela muda por completo.
O jeito que o sorriso dela se fecha um pouco. O modo como a postura relaxa apenas o suficiente para fingir conforto, mas não o bastante para sugerir que ela realmente se importa. Ela está sendo simpática, mas isso? Isso é obrigação.
Ela não precisa de nós.
Ela só tem que lidar conosco.
E porra, se isso não me faz gostar dela ainda mais.
Porque eu conheço esse jogo. Já joguei mil vezes — apertar mãos, aturar conversas de merda, garantir que as pessoas certas te vejam nos lugares certos. É tudo uma atuação, com a qual ambos estamos intimamente familiarizados.
Mas a diferença é que eu não quero ser apenas mais um aperto de mão que ela esquece no momento em que vai embora.
Então, quando ela finalmente caminha para o meu canto no salão, coloco minha bebida na mesa, ajeito a gravata e dou um sorriso de canto.
Vamos ver se consigo a atenção dela desta vez.
“Sr. Prescott,” ela diz suavemente ao parar na minha frente, e puta que pariu, a voz dela.
Não é o que eu esperava. Rouca. Baixa. Doce de um jeito que não tenta ser. Como uísque e mel, como algo que fica na sua mente muito tempo depois de você ter ido embora.
“Fico feliz que tenha conseguido comparecer ao evento,” ela continua, com o olhar firme, indecifrável. “Como está sua irmã?”
E, assim, eu sei exatamente com que tipo de mulher estou lidando.
Porque tem muita coisa escondida nessa única frase.
Ela sabe que eu não costumo aparecer para esse tipo de merda. Que é Angie quem faz as rondas, quem usa o sobrenome Prescott como se isso significasse algo, quem joga o jogo para que eu não precise.
Ela sabe que eu não sou o rosto da família, que não dou a mínima para a política da alta sociedade, que minha presença aqui não é apenas coincidência.
E quando ela diz isso, quando ela me olha com aqueles olhos verdes penetrantes, tem algo ali — algo.
Um lampejo de curiosidade. Cálculo. E talvez, só talvez… um pouco de inveja, porra.
Porque eu não preciso fazer isso.
Porque meu sobrenome, por si só, tem peso suficiente para que eu desapareça desses círculos quando bem entender. Porque eu não preciso ralar e lutar para provar meu lugar do jeito que ela precisou.
E acho que ela odeia isso para caralho.
Só um pouco.
Bom.
Porque eu quero ver o que acontece quando alguém como ela — sagaz, determinada, implacável — quer algo que ela acha que não pode ter.
Me inclino um pouco, o suficiente para baixar a voz, o suficiente para ver se consigo fazer aquele lampejo nos olhos dela brilhar um pouco mais.
“Ela está bem,” digo, observando-a atentamente. “Mas admito que estou um pouco surpreso por você saber tanto sobre mim, Srta. Astor.”
Seus lábios se curvam, levemente, o suficiente para me dizer que ela não está surpresa nem um pouco.
“Eu faço questão de saber quem vale a pena conhecer, Sr. Prescott.”
Jesus do céu.
Isso não deveria ser tão excitante quanto é.
Não há charme forçado em sua voz, nenhum subtexto sedutor, nada de bater os cílios para suavizar o peso de suas palavras. Ela diz como se fosse um fato simples, como se eu já tivesse sido avaliado, pesado e considerado digno o suficiente para aparecer no seu radar.
E ainda assim… há algo mais ali também. Algo por trás daqueles olhos verdes afiados, algo calculado, algo que deseja.
Não a mim, necessariamente. Ainda não.
Mas algo.
Ela está me estudando. Avaliando. Tentando entender por que diabos eu apareci, já que todos nesta sala sabem que não dou a mínima para cavalos.
Então, dou a ela algo para mastigar.
“Bom,” murmuro, inclinando a cabeça levemente. “Então você já sabe que não perco meu tempo com coisas que não me interessam.”
Seus lábios tremem um pouco, mas ela não me deixa ver o sorriso completo. Ainda não.
“E, no entanto, aqui está você.”
Seu tom é suave, leve, mas por baixo disso, posso ouvir o desafio.
Porque ela sabe. Ela sabe muito bem.
Eu não estou aqui pelos cavalos.
Eu não estou aqui pelos negócios, pelo networking, pela disputa de quem tem o maior pau entre bilionários e aristocratas.
Estou aqui por causa dela.
E ela quer saber por quê.
Então, tomo um gole lento da minha bebida, deixando o momento se estender o necessário, observando o jeito que ela me observa.
“O que posso dizer, Srta. Astor? Você tornou as coisas… interessantes.”
Ela solta um suspiro suave, que poderia ter sido uma risada se ela deixasse.
“Eu costumo ter esse efeito.”
Ah, fode comigo, ela é boa.
Ela sabe exatamente o que está fazendo, exatamente o quanto ceder, exatamente quando recuar. É um jogo de poder, embrulhado em seda, escondido atrás de um sorriso perfeito e uma voz que é, ao mesmo tempo, cortante e doce.
E se ela acha que isso vai me fazer perder o equilíbrio —
Bem.
Ela ainda não me conhece.
Então dou um sorriso de canto, inclinando-me o suficiente para baixar a voz.
“Então, por favor, Srta. Astor —” mantenho o olhar fixo, firme, inabalável. “Mantenha o meu interesse.”
Ela não pisca. Não vacila.
Mas seus lábios?
Os lábios dela se curvam em um sorriso verdadeiro desta vez. Não aquele educado e profissional que ela distribuiu a noite toda. Não os calculados e cuidadosos que mantêm as pessoas à distância. Não — este é diferente.
Mais afiado. Divertido. Um pouco perigoso, porra.
E porra, eu gosto disso.
Ela inclina a cabeça levemente, estudando-me, ponderando. Como se estivesse decidindo se eu valho o esforço, se me dar atenção é um bom uso do seu tempo valioso.
Mantenho o olhar, paciente, tranquilo, deixando-a jogar qualquer jogo que ela ache que está jogando. Porque aqui está a questão — ela não está lidando com um idiota qualquer que vai babar nela só porque é bonita e bem-sucedida.
Ela está lidando comigo.
“Diga-me, Sr. Prescott,” ela diz após um momento, com a voz suave como seda. “Você está aqui para comprar um cavalo de corrida ou só veio para ficar bonito e beber meu champanhe?”
Jesus do céu.
Solto uma risada baixa e divertida antes de tomar um gole do meu bourbon. Ela é ousada. Não do jeito imprudente e que busca atenção da maioria das mulheres nesses círculos — não, Katherine Astor usa sua confiança como um bisturi, afiada e precisa.
“Eu estava sob a impressão de que ficar bonito e beber champanhe era metade do trabalho nesses lugares,” digo, com um sorriso sarcástico. “Mas não, Srta. Astor, não estou aqui para comprar um cavalo de corrida.”
Ela cantarola, como se a resposta não a surpreendesse nem um pouco.
“Então, o que você veio buscar?”
Ah. Aí está.
A pergunta real. Aquela que ela estava cercando desde o momento em que se aproximou de mim.
Eu poderia brincar com ela, enrolar, fazê-la trabalhar por isso. Mas tenho a sensação de que ela perceberia esse tipo de besteira imediatamente. E, além disso, não estou interessado em desperdiçar o tempo de nenhum de nós.
Então encontro seu olhar, firme, e digo a verdade.
“Neste momento? Apenas você.”
Há um lampejo em sua expressão. Uma mudança. Pequena, mas perceptível.
E pela primeira vez nesta noite, vejo ela — não a empresária, não a prodígio do mundo dos cavalos, não a equilibrada e intocável herdeira Astor.
Apenas Katherine.
E penso, só por um segundo — ela gosta dessa resposta.
Mas ela não deixa transparecer por muito tempo.
“Bem, então, Sr. Prescott,” ela murmura, inclinando a cabeça, os olhos brilhando com algo que ainda não consigo identificar. “Acho que veremos se você consegue acompanhar.”
Oh, querida.
Você não faz a menor ideia.




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