Mentiras do Meu Passado (Engane-Me Livro 8)

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Resumo

Dizem que Renato DeSantis é frio. Insensível. Ninguém faz ideia do monstro que ele esconde dentro de si. Um monstro que só liberta quando ordena. Então, quando esse monstro crava os olhos na comissária de bordo de fogo, ele logo percebe que ela é a única capaz de controlá-lo. Charlotte Martin jurou nunca mais se envolver com homens depois de uma série de relacionamentos desastrosos. Homens da idade dela já não a atraíam mais. Mas um único olhar de Renato DeSantis pareceu incendiar seu corpo. E daí se ele era quase doze anos mais velho? Ou se provavelmente matava pessoas para viver? Não havia como negar que existia algo entre eles. Ser arrastada para o perigo e arriscar a própria vida nunca fez parte dos planos. Mesmo assim, lá estava ela, se apaixonando pelo homem mais perigoso que já conheceu.

Gênero
Erotica
Autor
ShalaM
Status
Completo
Capítulos
49
Classificação
5.0 6 avaliações
Classificação Etária
18+

Sem dias de folga

Charlie

Uma batida suave na porta me arrancou do sonho em que eu e Daniel Craig nadávamos pelados numa lagoa de uma ilha deserta.

Meus olhos já estavam se fechando de novo quando a batida ficou mais forte.

“Charlie! Tá acordado?”

Gemi e virei o rosto para o travesseiro. O som da voz do meu primo era a última coisa que eu queria ouvir antes de eu e o Danny nos agarrarmos na areia.

Quando ele bateu pela terceira vez, levantei a cabeça, irritado.

“Vai embora, Mike!”, gritei na direção geral da porta do quarto.

Ouvi o trinco girar e, através de pálpebras entreabertas, vi Mike entrar no meu quarto como se não se importasse que eu estivesse de camisola fina e short de flanela, com o cobertor embolado nos pés.

Era o que eu ganhava por dividir apartamento com meu primo, que não entendia as palavras “privacidade” ou “espaço pessoal”. Mas, depois de tudo que a gente passou, coisas assim já não importavam mais.

Meus pais morreram com meses de diferença quando eu tinha dez anos. Primeiro minha mãe, de câncer de mama, depois meu pai, de câncer de cólon. Fui morar com a tia Shelly, mãe do Mike, que era mãe solo. Não demorei a perceber que ela não tinha um pingo de instinto maternal. O namorado dela, David, gostava de entrar no quarto do Mike à noite, quando a tia Shelly saía para trabalhar no restaurante. Mike tinha só oito anos, e, assim que David saía, ele vinha para o meu quarto e chorava até dormir na minha cama.

A gente tentou contar para a tia Shelly o que estava acontecendo, mas ela só disse que estávamos mentindo e tentando estragar o relacionamento dela. Principalmente porque David negava tudo e fazia parecer que a gente estava inventando.

Então, uma noite, pouco depois do meu aniversário de dezessete anos, David pulou o quarto do Mike e resolveu me visitar. Eu já tinha notado ele olhando para o meu corpo, que estava mudando, e nunca vou esquecer a cara do Mike quando ele invadiu o meu quarto e enfiou a faca de churrasco no pescoço do David antes que ele me machucasse. Ele morreu na hora.

A gente ligou para a emergência, porque era o que sempre nos diziam para fazer se estivéssemos em perigo. Depois que a polícia chegou, explicamos o que tinha acontecido. A tia Shelly ficou histérica e disse que a gente não gostava do David e o matamos por ciúme. Mas eles nos levaram para um canto, viram as cicatrizes no corpo do Mike e acreditaram na nossa versão. Fomos para um abrigo e ficamos juntos no sistema de acolhimento até eu fazer dezoito anos. Então, saí de lá e levei o Mike comigo. A gente se mudou de Stoke para Londres e nunca mais olhou para trás. O Mike esteve ao meu lado nos altos e baixos, e vice-versa. Ele era a minha rocha. A única pessoa que eu considerava família e a única que eu deixava interromper meu sono precioso.

“Preciso de um favor, amor.” A voz do Mike estava melosa demais enquanto ele se aproximava da cama e se sentava na beirada, perto do meu quadril.

Sentei na cama com um suspiro pesado, sabendo que ele não ia me deixar em paz até dizer o que queria.

“Tá bom. O que é?”, resmunguei, afastando o cabelo preto e solto dos olhos e prendendo-o num coque bagunçado no alto da cabeça.

Os olhos azuis claros do Mike ficaram sonhadores.

“O Josh me surpreendeu com um fim de semana em Cornwall para comemorar nosso aniversário de um ano”, ele disse, todo derretido.

Ergui uma sobrancelha.

Dava para ver os coraçõezinhos nos olhos dele toda vez que falava do namorado. Não que eu o culpasse. Já tinha passado tempo suficiente com os dois para saber que o Josh era perfeito para o meu primo. Mas não deixava de sentir uma pontada de inveja, porque o meu primo gay não tinha a menor dificuldade em manter um relacionamento, enquanto eu mal conseguia ficar mais de um mês com alguém.

“Mas eu já estou escalado num voo fretado para Milão e não consigo desmarcar”, ele me lançou aquele olhar de cachorrinho pidão, “Você tem que ir no meu lugar, Charlie.”

Revirei os olhos castanhos.

O Mike e eu trabalhávamos como comissários de bordo na LumiAirways, uma companhia aérea britânica em ascensão, e dividíamos um apartamento em Camden para economizar no aluguel. Depois de tudo que a gente passou, seria estranho morar separados ou pelo menos não ficar por perto.

Ao contrário de mim, o Mike desrespeitava a política da empresa e pegava trabalhos em voos fretados nos dias em que não estava escalado. Ele recebia por voo, e o dinheiro que ganhava num fretamento era quase o mesmo que recebia em um mês na Lumi. Além disso, ele tinha uma obsessão por bolsas de grife e gostava de usá-las para me subornar — e quase sempre funcionava. Eu, por outro lado, não queria arriscar ser demitido. O meu emprego era a única coisa que eu tinha na vida.

“Por favor!”, ele agarrou minhas mãos e apertou, “E você pode ficar com a minha bolsa Chanel Boy média, na cor cinza Caviar.” Ele piscou os cílios grossos, sabendo que eu estava de olho nela desde que ele a comprou, semanas atrás.

Meus ouvidos se animaram com a oferta, mas fiz cara feia para as táticas de manipulação dele.

“Você sabe que essa é a minha semana de folga”, falei, com um olhar de reprovação, mas já sabendo que ia ceder, porque amava os dois e queria ver meu primo feliz.

“E você também pode ficar com todo o dinheiro do fretamento”, ele jogou como um agrado extra.

Respirei fundo. Podia usar o dinheiro para comprar uns eletrodomésticos novos que eu estava de olho. Tinha feito uns cursos de culinária no meu tempo livre e estava adorando. O problema era que aparelhos e panelas de qualidade custavam os olhos da cara.

Desenrolei as pernas e deslizei para fora da cama, me espreguiçando.

“Você sabe para quem é o fretamento?”, perguntei, olhando para ele com desconfiança.

Ele já tinha me dito mais de uma vez que desconfiava que os homens nesses voos fretados eram da Máfia. Não só andavam armados e cobertos de tatuagens por baixo dos ternos de milhares de dólares, como ele tinha que assinar um acordo de confidencialidade antes de cada voo. Sem dúvida, eu teria que fazer o mesmo.

Ele mexeu as sobrancelhas.

“Renato DeSantis”, ele falou, arrastando as palavras.

Minhas sobrancelhas se ergueram de novo.

“O cara com quem você supostamente traiu o Josh nos seus sonhos?”, perguntei, com sarcasmo, porque sabia que o Mike tinha uma quedinha por ele. Já tinha feito uns fretamentos com ele antes e sempre voltava para casa todo excitado, trancando-se no quarto com o Josh por horas.

“O homem é lindo de morrer”, o Mike suspirou, “Não é um daqueles bonitinhos, ele é velho demais para isso. Mais do tipo ‘vou-te-pendurar-no-meu-colo-se-você-se-comportar-mal’.” Ele se abanou, “Aqueles olhos dele são tão intensos… Eu não me importaria de chamá-lo de papai. Ele é exatamente o seu tipo.”

Revirei os olhos, porque o Mike sabia que eu gostava de homens mais velhos em segredo. Ele vivia me criticando por tentar namorar caras da minha idade e concluía que era por isso que nenhum dos meus relacionamentos dava certo. Também já tinha me pegado assistindo a pornô BDSM e nunca mais me deixou esquecer.

“Não sei, Mikey”, hesitei. Um avião cheio de homens que provavelmente matavam por dinheiro?

“Pelo menos você vai ter uma noite em Milão”, ele acrescentou, “Vai num restaurante chique. Toma um vinho. Flerta com uns italianos…”

“Tá bom, tá bom”, interrompi, só para ele parar, “Que horas tenho que estar pronto?”

O Mike deu um gritinho e me abraçou forte, pulando de alegria.

“Você tem que estar na pista de pouso em uma hora”, ele me soltou e saiu correndo pela porta.

Meus olhos se arregalaram, alarmados. Uma hora para arrumar as malas e me preparar? Para a Itália?

“Mike!”

Meu celular apitou com uma mensagem recebida.

Peguei-o na mesinha de cabeceira e olhei para a tela. Parei de respirar quando vi que era um e-mail do meu médico.

Voltei a me sentar na cama e abri o e-mail.

O resto ficou tudo embaçado, menos uma palavra.

Positivo.