Capítulo 1
Ariella
O aeroporto quatro dias antes do Natal é onde a paciência vem morrer. Os atendentes dos portões repetem desculpas como papagaios, crianças berram feito sirenes, e viajantes exaustos arrastam os pés pelos terminais, que cheiram levemente a canela e desespero. Já estou sentada aqui tempo suficiente para terminar meia taça de vinho superfaturado, e ainda assim ninguém sabe dizer quando meu voo vai decolar. O ano do inferno, ao que parece, decidiu terminar com um chute final só de sacanagem.
O bar ao meu redor vibra de irritação. Paletós pendem como bandeiras murchas nas costas das cadeiras, vozes se misturam ao tilintar dos copos, e de vez em quando um anúncio crepita acima de tudo, mais um atraso, mais um gemido coletivo. Se não fossem a música natalina repetitiva e a guirlanda barata caindo do teto, ninguém chamaria isso de festivo.
Dou mais um gole no vinho e mergulho no rascunho que minha amiga me mandou. As histórias dela são ousadas, sem desculpas, cheias de obsessões que mergulham direto no escuro. Ela escreve o que eu secretamente desejo viver. Nos conhecemos há três anos, num evento de autógrafos em Miami, as duas fingindo não notar como nossas canetas estavam suadas de nervoso. Desde então, ela virou minha caixa de ressonância, minha confidente de madrugada e, ultimamente, minha anfitriã temporária. O quarto de hóspedes dela tem sido meu refúgio nesses últimos meses, enquanto ela curte o Havaí com o namorado — um fato que tento não invejar cada vez que ela manda uma selfie banhada de sol.
Praia, calor, pele nua e o gosto de algo doce na boca. Isso sim deveria ser meu plano de dezembro. Em vez disso, estou encalhada nesse purgatório natalino, cercada de estranhos e estresse.
Pego o caderninho que sobreviveu a todas as mudanças, a todos os relacionamentos ruins, a todos os planos que deram errado. Numa página em branco, rabisco de novo: Meta — ser mais Louise do que Thelma. As palavras latejam, opacas e acusadoras. Fico olhando até a tinta preta borrar e solto um suspiro.
Por mais que eu tente enfeitar, continuo sendo a Thelma, cuidadosa demais, com medo de pular sem saber onde vou cair. Talvez coragem seja superestimada, ou talvez eu só nunca tenha tido motivo para testar a minha.
Um rápido olhar pelo terminal reflete como me sinto: todo mundo inquieto, meio desligado, fingindo não estar decepcionado. Guardo o caderno, prometo a mim mesma que vou parar de pensar nele — aquele erro em forma de homem que eu deveria ter deixado meses atrás. O término mal doeu, foi mais como uma irritação por ter ficado no piloto automático por tanto tempo. Agora até a autocrítica parece batida.
“Com licença, esse lugar está ocupado?”
A voz — um barítono irlandês rouco — me tira dos pensamentos. Ergo os olhos e dou de cara com os olhos mais verdes que já vi. Musgo depois da chuva, floresta salpicada de luz — de tirar o fôlego. Pisco uma, duas vezes, enquanto o calor sobe pelo meu pescoço. O cabelo dele é uma bagunça de ondas castanhas, curto nas laterais, mais comprido em cima, uma mecha rebelde caindo na testa. Uma cicatriz fina corta acima da sobrancelha direita, e sinto uma vontade louca de passar o dedo por ela.
O homem não tinha o direito de ser tão lindo assim.
Ele veste uma blusa térmica preta e jeans escuro, mas é a maneira como a camiseta branca gruda no peito que faz meu pulso falhar. Volto à realidade quando ele pigarreia.
“Não tem nenhum lugar vago”, diz antes que eu responda.
“Isso é mentira.” Aponto para uma mesa vazia no canto. “Tem uma ali.”
Nós dois vemos duas pessoas se aproximarem e ocuparem o lugar.
“Agora não tem mais”, ele diz, o canto da boca se erguendo. “Você é minha última esperança. Voos demais atrasados, bêbados demais desesperados. Vamos lá, me dá uma chance. Não vou te incomodar muito.” Uma mão repousa na cadeira à minha frente.
“Muito?”, repito, arqueando uma sobrancelha.
Aqueles olhos verdes pecaminosos brilham com malícia e sinceridade na mesma medida — uma combinação perigosa. Ele dá de ombros e se senta sem esperar permissão. Não o impeço. Sinceramente, eu poderia ouvir aquele sotaque a noite toda. Talvez até escrevesse um personagem irlandês só para ouvir alguém narrar.
“É”, ele diz. “Mas mulheres bonitas não deveriam ficar sozinhas em bares de aeroporto.”
“O que te faz pensar que estou sozinha?”
O sorriso dele se aprofunda. Antes que eu possa responder, a garçonete sobrecarregada se aproxima, ofegante, depois de atravessar a multidão.
“O que vão querer? Algo para comer? Ou só bebida?”
“Uísque puro”, ele diz, suave.
“Duplo ou simples?”
“Duplo.” Ele olha para minha taça. “Faça dois duplos — um para a moça. E continue trazendo. Pode ser uma noite longa.” Depois, para mim: “Com fome, querida?”
Meu coração dá um pulo. Engulo em seco. “N-não. Só as bebidas.”
“O mesmo”, ele diz à garçonete. “Obrigado.”
Ela praticamente derrete com o sorriso dele. Nem posso culpá-la. Lança um olhar de pena e inveja para mim antes de se afastar.
“O que te faz pensar que eu queria uísque — ou sua companhia, aliás?”
Ele arregaça as mangas, revelando antebraços musculosos e tatuados, e entrelaça os dedos sobre a mesa, casual, mas deliberado. “Você não disse não. Mas, pra ser sincero, foi o rubor que me convenceu. Quer saber um segredo?”
“Não.”
Ele sorri, covinhas aparecendo como pontuação. “Mentirosa.”
“Só em parte”, rebato.
Ele ri, e o som é tão rico que faz algumas pessoas olharem. Nossas bebidas chegam nesse momento, a garçonete mal disfarçando o suspiro quando ele agradece com uma piscadela.
“Sláinte”, ele diz, erguendo o copo. “Significa ‘saúde’ em gaélico.”
“Sláinte.” Dou um gole, encontrando o olhar dele por cima da borda. “Você fala gaélico?”
“Só algumas coisas. Minha mãe costumava dizer. E então — pronta pro seu segredo?”
“Depende. Você ainda não me disse seu nome.”
Ele inclina a cabeça, divertido. “Você não sabe?”
“Não, deveria?”
Ele me estuda, divertido, quase incrédulo. “Achei que aquele rubor fosse reconhecimento.”
Estreito os olhos, avaliando-o. Atleta? Ator? Músico? A garçonete claramente o conhecia.
“Você é famoso?”
“Depende pra quem você pergunta. Como você não sabe, vou dizer que não. Tristan Dorrian.” Ele estende a mão.
“Ariella Harper.”
O aperto de mão provoca uma faísca, literalmente — uma descarga estática que parece um calor sob a pele. Os dedos dele apertam meu pulso, e juro que ele também sentiu.
“Deve ser o ar”, ele murmura.
“Deve ser.” Cruzo as pernas, me recompondo. “Então, Tristan — qual é o segredo?”
“Ou eu sentava aqui ou com o cara bravo ali.”
Olho para trás e vejo um homem resmungando furioso com a passagem.
“Ele não está sozinho”, aponto. “Todo mundo aqui está com vontade de matar alguém. Meu voo está atrasado, provavelmente o seu também.”
“É. Indo pra Nova York. O voo foi cancelado. Talvez consiga um pra Newark, se a sorte ajudar.”
Meu peito se aperta. “É o mesmo trajeto que o meu.”
O sorriso dele se alarga. “Então talvez a sorte esteja me dando uma mãozinha. Se eu tiver sorte, você até senta do meu lado.”
“Você é um galanteador.”
“Só com mulheres que eu quero impressionar desesperadamente. Está funcionando?”
“Nem um pouco.”
“Então vou ter que caprichar mais.”
Ele se inclina para mais perto, e sinto cheiro de couro e especiarias. “Dizem que vamos decolar em uma hora. A atendente me contou.”
“Ou talvez ela só quisesse que você sorrisse pra ela.”
Ele ri baixinho. “Vamos ver. Prefiro não passar a noite aqui — a menos que você fique também.”
Cubro a boca para abafar o riso. “Isso foi péssimo.”
“Sua beleza está me deixando nervoso”, ele diz, passando a mão pelo cabelo. “Você me deixa nervoso, acredite se quiser.”
A frase deveria soar ensaiada, mas o olhar dele faz parecer dolorosamente verdadeira.
Ele inclina o copo. “Que tal um jogo? Verdade por verdade. Pula uma resposta, bebe.”
“Se você perguntar qual é minha posição favorita, eu jogo o uísque na sua cara.”
Ele levanta as mãos, sorrindo. “Anotado.”
“Eu deveria comer alguma coisa antes de me afogar em uísque”, admito. “O plano era jantar no avião, mas isso agora é piada.”
“Então deixa eu ajudar.” Ele faz sinal para a garçonete.
“Sim, Sr. Dorrian?”, ela diz, toda derretida.
Eu congelo. Sr. Dorrian. Com certeza é alguém.
“O que vão querer?”, ele pergunta, os olhos nunca deixando os meus.
“Sanduíche de queijo grelhado e batata frita.”
“Boa escolha. Vou querer tiras de frango e batata-doce frita.”
Quando ela se afasta, eu o encaro. “Tá bom, quem é você?”
“De jeito nenhum, querida. Você não saber — isso é refrescante. Pela primeira vez, consigo conversar com alguém que não vê o nome antes.”
“Quem disse que eu gosto de você?”
Ele ri. “Chute educado. Você não voltou pro seu livro, e eu ainda estou aqui.”
Touché.
“Então me diz”, ele se inclina. “O que você faz da vida?”
“Você não vai me dizer o seu.”
“Mas você é bem mais interessante.” O sorriso dele se alarga. “Vamos lá, Ari. Vamos jogar. Aposto que consigo arrancar todos os seus segredos.”