Capítulo 1: O Homem das Sombras
O sonho sempre começava do mesmo jeito.
Riley Merritt estava deitada em sua cama estreita, com o cobertor fino puxado até o queixo para se proteger do frio da montanha, que entrava pelas frestas das paredes da cabana. No sonho, ela tinha consciência de que estava dormindo, consciência do luar entrando pela janela pequena e do som do ronco do pai, vindo do cômodo principal.
Então, as sombras no canto do quarto começaram a se mover.
Ela tentou sentar, tentou gritar, mas seu corpo não obedecia. Paralisia do sono, uma parte distante da sua mente sussurrou. Era só um pesadelo. Mas parecia tão real. A sombra se desprendeu da parede, assumindo a forma bruta de um homem: alto, de ombros largos, movendo-se com a elegância de um predador.
O homem das sombras atravessou o quarto em silêncio, e o coração de Riley martelava contra as costelas. Ela podia sentir seu lobo inquieto bem lá no fundo, ainda adormecido, ainda a meses ou talvez anos de despertar, mas consciente de uma forma que nunca estivera antes.
Quando a sombra chegou ao lado da cama, ela parou. Riley ainda não conseguia se mover, nem falar, mas conseguia sentir. O ar ao redor dela ficou pesado com um perfume que ela não conseguia identificar: pinheiro, tempestades de inverno e algo selvagem, protetor e totalmente estranho àquela alcatéia.
O homem das sombras estendeu a mão, e ela sentiu dedos frios roçarem a curva onde seu pescoço encontrava o ombro. O toque fez eletricidade correr por suas veias, uma mistura de terror e algo mais, algo que fez seu lobo adormecido ganir de confusão.
Então veio a dor.
Ardente, como dentes se cravando em sua carne, marcando-a, reivindicando-a. Riley queria gritar, mas não conseguia. Queria lutar, mas estava congelada. A dor floresceu em seu ombro e pescoço, espalhando-se como fogo, e sob ela surgiu outra coisa: um vínculo se formando, fios invisíveis conectando-a àquele estranho feito de sombras e luar.
Sinto muito, uma voz sussurrou em sua mente, profunda, áspera e cheia de um arrependimento genuíno. Sinto muito mesmo. Mas essa é a única maneira de proteger você.
Então a sombra recuou, dissolvendo-se de volta na escuridão, e Riley sentiu-se afundar mais no sono, em sonhos que pareciam menos reais do que o que acabara de acontecer, em uma escuridão que engoliu tudo.
Riley acordou com gritos.
Ela deu um salto na cama, com o coração acelerado, desorientada e confusa. Por um momento, pensou que o homem das sombras fosse real, que ele ainda estivesse no quarto, mas não: o quarto estava vazio, exceto por seus móveis velhos e a luz pálida do amanhecer entrando pela janela.
Os gritos vinham de fora.
Riley jogou o cobertor de lado e arfou imediatamente. Seu ombro queimava. Ela pressionou a mão contra o local e sentiu a pele elevada, sensível e quente ao toque. Com os dedos trêmulos, puxou a gola da camisola e virou-se para ver seu reflexo no espelho pequeno e rachado na parede.
Uma marca de parceiro.
Fresca, vermelha e com aparência irritada, mas inconfundível. O desenho das marcas de dentes formava uma meia-lua na junção do pescoço com o ombro, o sinal universal de que ela pertencia a alguém, de que fora reivindicada, de que estava ligada.
"Não", Riley sussurrou. "Não, não, não."
Ela tinha apenas catorze anos. Nem sequer tinha seu lobo ainda. E ela estivera em sua cama a noite toda, ela tinha certeza disso. O homem das sombras fora um sonho. Tinha que ter sido um sonho.
Mas marcas de parceiro não aparecem por causa de sonhos.
Os gritos lá fora aumentaram, seguidos por mais vozes. Riley ouviu os passos pesados do pai, ouviu-o xingar, ouviu a porta da frente ser aberta com um estrondo. Ela se forçou a se mover, a vestir seu jeans usado e uma camisa de gola alta, a trançar seu cabelo escuro com as mãos trêmulas.
Quando ela saiu do quarto, seu pai não estava lá. A cabana estava vazia. Riley abraçou a si mesma e saiu para o caos.
O território da alcatéia estava em polvorosa. Mulheres e meninas tropeçavam para fora das cabanas, algumas chorando, outras em estado de choque. Mães gritavam. Pais discutiam. E a liderança da alcatéia — o Alfa Garrett, seu Beta e os executores — avançavam pelo complexo com a fúria estampada em seus rostos.
Riley avistou Mara Chen, de dezesseis anos e uma das poucas pessoas que já tinham sido gentis com ela, parada perto da cabana de sua família com a mão pressionada contra o pescoço. Seus olhos se encontraram através do pátio, e Riley viu seu próprio choque e medo refletidos de volta.
"Riley!" Seu pai apareceu ao lado dela, o rosto pálido. Lobos Ômega não eram comuns em nenhuma alcatéia, e seu pai sempre fora gentil, submisso, mais confortável seguindo do que liderando. Mas agora ele parecia aterrorizado. "Deixe-me ver."
Riley puxou a gola. O rosto de seu pai empalideceu ainda mais.
"Quem?" ele exigiu. "Quem foi? Você o viu?"
"Eu... eu estava dormindo, papai. Tive um sonho, mas..."
"Um sonho?" A voz do pai falhou. "Riley, marcas de parceiro não vêm de sonhos!"
"Eu sei disso!" Os olhos de Riley arderam com lágrimas. "Mas eu estava dormindo! Juro que estava! Não havia ninguém..."
"TODAS AS FÊMEAS SEM PARCEIRO PARA A PRAÇA. AGORA!"
A voz do Alfa Garrett ecoou pelo complexo, amplificada por seu comando de Alfa. Riley sentiu como se fosse um empurrão físico, obrigando-a a avançar. Seu pai segurou seu braço, mas ela já estava se movendo, incapaz de resistir ao comando.
A praça era o local central de reunião da alcatéia: uma área limpa de terra batida cercada pelas cabanas principais. Riley juntou-se à multidão crescente de mulheres e meninas, todas aterrorizadas, muitas com marcas de parceiro frescas visíveis em seus pescoços e ombros.
Riley fez uma contagem rápida. Vinte e três. Vinte e três fêmeas marcadas, variando de meninas de doze anos a mulheres na casa dos trinta. Toda a população feminina sem parceiro da alcatéia.
O Alfa Garrett estava na plataforma elevada, geralmente reservada para reuniões da alcatéia e execuções. Ele era um homem enorme, seu lobo um Alfa dominante que fazia o ar ao redor dele parecer pesado e opressor. Seu rosto estava vermelho de raiva.
"Quem foi?" ele rosnou, seus olhos percorrendo a todas. "Qual de vocês trouxe machos para esta alcatéia? Qual de vocês convidou isso?"
Silêncio. Um silêncio aterrorizado e trêmulo.
"RESPONDAM!"
Riley estremeceu. Ao seu lado, uma menina chamada Sophie começou a chorar. Ela tinha apenas doze anos, era pequena e de aparência frágil, e parecia que ia desmaiar.
"Alfa", uma das mulheres — Jessica, de vinte e oito anos e geralmente desafiadora — falou com a voz trêmula. "Nós não sabemos. Estávamos todas dormindo. Não convidamos ninguém. Não..."
"MENTIRAS!" O Beta Marcus deu um passo à frente, o rosto contorcido de fúria. "Marcas de parceiro não aparecem do nada! Alguém teve que aplicá-las. Alguém teve que mordê-las."
"Estamos falando a verdade", disse Mara Chen, com a voz mais firme que a de Jessica, mas ainda com medo. "Estávamos todas dormindo. Todas nós tivemos sonhos..."
"Sonhos?" O Alfa Garrett riu, o som frio e cruel. "Vocês esperam que acreditemos que homens fantasmas marcaram todas vocês enquanto dormiam?"
"Não sei o que aconteceu", disse Mara, "mas sei que não convidei ninguém. Sei que estive na minha cama a noite toda. Meus pais estavam logo ali fora, na porta do meu quarto. Pergunte a eles."
Vários pais na multidão gritaram em confirmação, mas o Alfa Garrett os silenciou com um olhar.
"Os cheiros", Riley sussurrou para Mara. "Será que eles conseguem sentir quem nos marcou?"
Mara balançou a cabeça levemente. "Não reconheço o meu. Não é ninguém da alcatéia."
O Alfa Garrett estava conferindo com o Beta Marcus e os executores. Riley se esforçou para ouvir, captando fragmentos: "—lobos de fora—" "—invasão—" "—não conseguimos rastrear os cheiros—" "—já foram embora—"
Finalmente, o Alfa Garrett virou-se para elas novamente, e o olhar em seu rosto fez o sangue de Riley gelar.
"Vocês estão todas contaminadas", disse ele friamente. "Marcadas por machos desconhecidos, possivelmente de alcatéias rivais, possivelmente como um ato de guerra. Até determinarmos o que aconteceu e por quê, todas vocês são consideradas riscos de segurança."
"Riscos de segurança?" A voz de Jessica subiu. "Nós somos as vítimas aqui! Fomos atacadas enquanto dormíamos!"
"Vocês são propriedades marcadas que pertencem a machos de fora desta alcatéia", disse o Alfa Garrett. "Isso as torna comprometidas. Vocês serão confinadas nos campos de trabalho. Não terão contato com o resto da alcatéia. Serão monitoradas o tempo todo. E se encontrarmos evidências de que alguma de vocês conspirou nisso..." Seu sorriso era cruel. "...haverá consequências."
A multidão explodiu. Pais gritaram protestos. As mulheres marcadas choraram de desespero. Riley sentiu como se o chão estivesse inclinando sob seus pés.
"Papai!" ela chamou, procurando seu pai na multidão.
Mas os executores já estavam avançando, separando as mulheres marcadas de suas famílias, conduzindo-as para a borda leste do complexo, onde ficavam os campos de trabalho: alojamentos rudes usados para punições e para o trabalho mais brutal da alcatéia.
Riley viu seu pai, com lágrimas escorrendo pelo rosto, sendo segurado por dois machos da alcatéia. Ele era um Ômega; não tinha poder ali, nem autoridade para protegê-la.
"Está tudo bem, papai!" Riley gritou, tentando soar corajosa, embora estivesse aterrorizada. "Está tudo bem!"
Mas não estava tudo bem.
Enquanto os executores as levavam para os campos de trabalho, Riley olhou para o território da alcatéia uma última vez. Ela viu os outros membros da alcatéia assistindo com uma mistura de pena e alívio por não serem elas. Viu a satisfação fria do Alfa. Viu seu pai cair de joelhos.
E pensou em Cruz, seu irmão mais velho que partira para a faculdade Alfa dois anos atrás. Cruz, que prometera voltar e consertar as coisas. Cruz, que enviava cartas secretas dizendo para ela ser forte, para sobreviver, que ele tinha um plano.
Esse é o seu plano, Cruz? Riley pensou, com a mão pressionada contra a marca ardente em seu ombro. Foi você quem fez isso?
A voz do homem das sombras ecoou em sua memória: Sinto muito mesmo. Mas essa é a única maneira de proteger você.
Proteção. Aquilo deveria ser proteção.
Riley olhou ao redor para as vinte e duas outras mulheres e meninas que estavam sendo levadas para a prisão, para a punição por algo que não fizeram, para um destino que nenhuma delas escolheu.
Se isso era proteção, ela pensou, como seria a destruição?
Os portões do campo de trabalho se fecharam atrás delas com um som como um trovão, e a nova vida de Riley começou.