Chapter 1
POV: Nora
No momento em que paro na frente do bar, já me arrependo de cada escolha de vida que me trouxe até aqui.
O ar frio da noite morde a minha nuca. Meu coração não diminui o ritmo, minhas mãos não param de tremer e meu reflexo na porta de vidro parece alguém que definitivamente não deveria estar indo a um encontro às cegas.
Meu cabelo parece vermelho demais sob a luz do poste, meus olhos verdes demais, brilhantes demais, expostos demais.
Como se estivessem gritando para o mundo: Eu não pertenço a este lugar.
Meu coração bate tão rápido que sinto na garganta.
Abro o grupo de conversa.
Elena:
É melhor você entrar nos próximos 30 segundos.
Cole:
Se você fugir, eu juro que abro um boletim de ocorrência de pessoa desaparecida só para te deixar sem graça.
Digito com o polegar trêmulo.
Me:
Não acho que consigo fazer isso.
Elena responde na hora.
Elena:
Você CONSEGUE. Isso não é um pedido de casamento. É só UMA BEBIDA e talvez uma boa noite de sexo.
SEM nomes. SEM detalhes. SEM compromissos. Exatamente o que você disse que queria.
Cole acrescenta:
Cole:
E, pelo amor de Deus, pare de trabalhar e comece a viver. Daniel não ia querer que você ficasse travada desse jeito. Entre logo.
Meu estômago revira ao ouvir o nome de Daniel.
Mesmo depois de um ano, ainda parece que alguém tocou em uma ferida no meu peito.
Inspiro, expiro.
Ajeito minha jaqueta.
Minhas mãos estão geladas.
Me:
Está bem. Mas lembrem-se da regra: sem nomes, sem passado. Só uma noite. Nada além disso.
Cole:
E lembre-se do código: camisa preta. Se ele estiver de preto, é o cara certo. Agora vá.
Certo.
Camisa preta.
Bem fácil.
Elena reage com dez emojis de coração e um de fogo.
Cole reage com um "joinha" e um pêssego porque ele é um idiota.
Fecho a conversa antes que eu possa vomitar de nervoso, empurro a porta e entro.
Luz quente. Jazz suave. Conversas que se misturam.
Mas tudo isso desaparece instantaneamente.
Porque eu o vejo.
E absolutamente nada mais existe.
Um homem está sentado sozinho na mesa do fundo, com um braço esticado sobre o banco como se fosse dono do lugar todo.
Ele veste uma camisa preta — justa, com as mangas dobradas até o antebraço, o tecido grudado em um peitoral que não deveria ser legal.
Seus ombros são largos e poderosos, sua postura é ereta, relaxada de um jeito que só homens com autoridade natural conseguem.
Cabelo castanho claro, curto e arrumado, com fios grisalhos nas têmporas que, de alguma forma, o deixam ainda mais irresistível.
Olhos — meu Deus — azuis e penetrantes, mesmo do outro lado do salão.
Um rosto esculpido em algo caro e perigoso.
Paro de respirar.
Aquele não pode ser o meu encontro.
Aquele não é um cara do tipo "vamos ver no que dá".
Aquele é um cara do tipo "este homem pode acabar com a minha sanidade em dez minutos".
Ele levanta o olhar no exato momento em que dou um passo à frente, como se tivesse sentido minha chegada.
Como se tivesse me farejado.
E quando nossos olhos se cruzam, algo atinge a parte baixa da minha barriga.
Com força.
O olhar dele cai sobre mim como uma pressão — pesada, avaliadora, devoradora.
E todos os nervos do meu corpo se acendem.
Tem que ser ele.
Camisa preta. Sozinho. Lindo demais, magnético demais, ele demais.
Claro que meus amigos iam me arranjar alguém feito de tentação.
Forço minhas pernas a se moverem.
Enquanto atravesso o salão, ele me observa do jeito que um predador observa um movimento — calmo, confiante, seguro de sua força.
Quando chego à mesa, ele se levanta.
E de perto...
Ele é ainda mais alto. Mais largo.
Sua presença me atinge como uma parede de calor e controle.
"Oi", consigo dizer. Mal consigo.
A voz dele é grave o suficiente para vibrar dentro de mim. "Oi."
De perto, os olhos dele são impossíveis.
Azul-glaciar.
Focados totalmente em mim, como se ele estivesse me despindo sem nem me tocar.
Engulo em seco. "Você... definitivamente não é como eu imaginei."
Um canto da boca dele se levanta. O menor sinal de diversão.
E domínio.
"E como você imaginou?"
"Alguém menos..."
Aponto para ele, desamparada.
"Atraente. Intenso. Grande."
Ele arqueia as sobrancelhas levemente. "Grande?"
Ai, meu Deus.
Meu rosto esquenta. "Eu quis dizer... altura. Ombros. Presença."
Ele murmura, baixo, como se já soubesse o quão agitada ele está me deixando.
Sento antes que meus joelhos me traiam.
Ele se senta à minha frente — embora pareça mais que ele *escolhe* sentar em vez de ficar em pé.
Seu olhar nunca deixa o meu.
Preciso seguir as regras. Forço as palavras para fora, rapidamente:
"Ok, então. Devo ser honesta. Estou aqui porque meus amigos me forçaram. Não estou pronta para nada sério. Ou emocional. Ou de longo prazo. Não estou... disponível para isso."
O maxilar dele trava — apenas uma vez — como se ele entendesse muito mais do que eu disse.
"Para o que você está disponível?", ele pergunta.
O tom dele faz algo com a minha espinha.
Engulo seco.
"Distração. Só uma noite. Sem nomes. Sem passado. Sem expectativas."
Os olhos dele escurecem.
Há um brilho neles — fome, interesse, algo afiado.
"Sem nomes", ele repete.
"Sem passado."
Ele se inclina um pouco — não o suficiente para me tocar, apenas o bastante para que o calor dele irradie em mim.
"E se a noite for inesquecível... para mim, isso basta."
Minha respiração falha.
Ele é comandante sem tentar.
Magnético sem esforço.
E, de alguma forma, sinto vontade de seguir para onde quer que ele me leve.
Um garçom se aproxima, e o homem olha para ele com um único olhar penetrante que diz "espere" sem usar uma palavra.
O garçom obedece na hora.
Jesus.
Quem *é* esse homem?
"Meu carro está lá fora", ele diz suavemente.
"Quero levar você para jantar. Em um lugar melhor do que este."
Eu não deveria aceitar.
Não com a rapidez com que estou caindo na órbita dele.
Não com o quão perigoso ele parece ser.
Mas eu concordo mesmo assim.
Porque esta noite não é sobre regras.
É sobre se soltar.
E porque a voz dele, os olhos dele, a presença dele...
Eles fazem com que obedecer pareça fácil.
Ele me guia até o restaurante com a mão na curva das minhas costas e — que Deus me ajude — é apenas um toque leve, mas meu corpo inteiro reage como se eu tivesse sido ligada na tomada. A palma da mão dele é quente, firme, possessiva, e juro que ele sabe exatamente o que está fazendo. Sinto a pressão aumentar um pouco, o suficiente para prender minha respiração.
A recepcionista nos leva a uma mesa no canto, discreta, privada, perfeita demais. Ele puxa a minha cadeira, e o movimento é tão fluido, tão natural, que quase esqueço como me sentar por um segundo.
Eu concordo, embora o jeito que ele diz isso faça minha pele arrepiar. Como se ele já soubesse que estou mentindo. Como se ele soubesse que esta noite não será o suficiente.
No segundo em que me sento à frente dele, algo dentro de mim silencia. Não é calma — é alerta. Foco. Do jeito que acontece quando estou traçando o perfil de alguém perigoso ou poderoso. Exceto que esta noite eu não estou trabalhando. Esta noite deveria ser simples. Um encontro às cegas para o qual meus amigos me empurraram.
E, ainda assim, aqui está ele.
E eu não consigo decifrá-lo.
Só isso já me deixa mais inquieta do que sua beleza impossível.
Ele está... bloqueado. Essa é a única palavra que tenho. Como se cada tentativa minha de captar algo sobre ele — tom de voz, postura, microexpressão — batesse em uma parede. Uma parede deliberada. Ou ele é extremamente reservado, ou extremamente treinado. E eu não sei qual dessas opções me assusta mais.
Ou me excita mais.
Cole disse que esse cara era um amigo do primo dele. Que ele era “sólido”, “estável”, “normal”.
Nada no homem sentado à minha frente é normal. Ele irradia autoridade de forma tão natural que até o garçom se endireita quando ele passa.
Dou um gole na água para me distrair, mas ele nota tudo.
“Você não gostou da mesa?”, ele pergunta, com a voz baixa.
“Está ótima.”
Realmente está. Esse não é o problema.
Não consigo desviar o olhar. A luz de velas reflete em seu maxilar, nos poucos fios grisalhos nas têmporas, nas cicatrizes fracas que cruzam as linhas rígidas de seus nós dos dedos. Estou encarando. Eu sei que estou.
Seus olhos encontram os meus.
“Algo em sua mente?”
A voz dele é aquele tipo de grave que parece ser sussurrado diretamente contra o meu pescoço.
Engulo em seco. “Notei suas... cicatrizes.”
Meu olhar cai para a mão dele apoiada na mesa.
A boca dele se curva levemente. Não é um sorriso — é algo mais sombrio.
“Quer saber como as consegui?”
Com certeza sim. Com certeza não. Ambos ao mesmo tempo.
“Eu...” — balanço a cabeça rapidamente. — “Não. Eu não quis dizer... Não quero saber de nada. Não esta noite.”
As palavras saem em um ímpeto, embaraçosas e honestas.
Ele se recosta na cadeira, me estudando de um jeito que faz um calor subir pelo meu estômago.
“Só esta noite, então?”
Ele me observa, e por um segundo quase sinto que sou eu quem está sendo analisada. Meu pulso acelera.
“O que você gosta de comer?”, ele pergunta quando o garçom se aproxima.
“Eu... hum... italiano? Mediterrâneo? Não sou exigente.”
Ele emite um murmúrio. Um som que vibra bem debaixo da minha pele.
Ele faz o pedido por nós dois, mediterrâneo, massa com tomates, manjericão e azeite, explicando com confiança o que combina com cada vinho, seu tom relaxado, mas no controle. O garçom concorda como se tivesse sido comandado por um general.
Quando ele se vira para mim, seus olhos se prendem aos meus, e juro que o ar ficou mais pesado.
“Você tem cara de quem aprecia um bom vinho”, ele diz.
“Eu gosto de fingir que sei o que estou fazendo.”
Ele se recosta, os lábios se curvando levemente. “Honestidade. Eu gosto disso.”
Minhas bochechas esquentam. Fico irritada comigo mesma por reagir tão facilmente. Sou boa em ler as pessoas, em me manter distante. Mas com ele? Meus instintos parecem bagunçados.
“Diga-me”, ele diz, “o que você esperava esta noite?”
“Um encontro.”
Sai baixo, mais como um suspiro do que como voz.
“E agora você tem um.”
Que Deus me ajude, sinto essa frase em cada parte do meu corpo.
A comida chega. Tento me concentrar na refeição, no vinho, em qualquer coisa normal. Mas estou consciente demais dele. O jeito que ele come devagar, de forma contida. O jeito que seus dedos repousam na haste da taça. O jeito que ele parece estar sempre a um segundo de me tocar.
“Você está quieta”, ele murmura em um dado momento.
“Estou pensando.”
“Sobre o quê?”
Em você.
Mas não consigo dizer isso.
“Sobre como você... não se encaixa no perfil que eu esperava.”
“Perfil”, ele repete, divertido. “Você está traçando o meu perfil?”
Engulo em seco. “Eu traço o perfil de todo mundo.”
“E qual é o veredito?”
“Que eu não consigo te decifrar.”
A confissão escapa antes que eu possa impedi-la.
Seu olhar desce para a minha boca. Quando ele olha de volta para cima, algo mais sombrio cintila em seus olhos.
“Você não precisa.”
As palavras me atingem de forma baixa, firme e quente.
O jantar termina rápido demais. Eu não quero que acabe, mas também não consigo continuar sentada tão perto dele sem fazer algo imprudente.
Ele se levanta primeiro, oferecendo a mão levemente nas minhas costas enquanto me levanto. O calor percorre meu corpo instantaneamente, inesperado e avassalador. O toque dele é suave, guia-me, é confiante. Testador.
Lá fora, o ar noturno refresca minha pele, mas nem de longe o suficiente.
Ele fica de frente para mim, com as mãos nos bolsos, a expressão impossível de ler.
“Estou hospedado ali perto”, ele diz calmamente. “Em um hotel. Se você quiser continuar a noite.”
Minha respiração falha.
Este é o momento.
A linha.
A escolha.
“Eu...” — minha voz vacila. Limpo a garganta. — “Eu geralmente não faço coisas assim.”
A mão dele se estende, roçando meus dedos, de forma lenta e deliberada.
“Só uma noite?”
Uma pergunta, uma promessa, um desafio.
Meu pulso dispara. “Só esta noite.”
Os olhos dele escurecem como se ele tivesse acabado de tomar posse das palavras.
“Venha comigo.”
E eu vou.
Não porque eu seja imprudente.
Não porque eu não saiba o que é melhor para mim.
Mas porque tudo em mim é atraído por ele como pela gravidade, e resistir parece impossível.
Ele me conduz em direção ao seu hotel, seu ombro roçando o meu a cada passo, e o calor entre nós parece que poderia incendiar o ar.
Esta noite é apenas esta noite.
E esse é o único motivo pelo qual me permito segui-lo para dentro.