PARIS NA ESCURIDÃO

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Resumo

Todos acham que conhecem Paris à noite. Mas Julien de Montfort, o homem que segura metade da capital francesa na palma da mão, não queria a cidade. Ele queria ela. O nome dela é Paris. Outrora uma pintora talentosa, agora ela não passava de uma sombra pálida de si mesma, uma garota cuja tela da vida foi pintada com os tons negros do medo, do abuso e da manipulação. Presa nas garras de um homem que a convenceu de que ela não valia nada, Paris aprendeu a ser invisível. A baixar o olhar. A sobreviver. Até que, certa noite, ele entrou no restaurante dela. Julien de Montfort. Intrigado pela garçonete assustada cujos olhos escondiam profundidades e cores que ninguém jamais explorou, Julien faz o único movimento lógico para um homem de sua natureza: ele compra o restaurante onde ela trabalha. Ele compra o abusador dela e o transforma em seu servo. Ele compra o mundo inteiro dela. Apenas para fazê-la olhar para ele. O que começa como um jogo arrogante de poder, controle e obsessão sombria rapidamente se transforma em uma guerra que nem mesmo Julien esperava. Ele percebe que Paris não é apenas um brinquedo quebrado que ele pode consertar com seu dinheiro. Ela é uma obra-prima arruinada. E ele está pronto para incendiar o mundo inteiro apenas para devolver as cores a ela. Ele a ensinará a segurar um pincel novamente. E aqueles que quebraram os dedos dela… ele os ensinará o significado do inferno. Em um mundo onde o amor e a obsessão se entrelaçam, duas escuridões colidem. Pode um homem sem coração curar uma garota sem alma? Existe a Cidade Luz. E existe Paris na Escuridão.

Gênero
Romance
Autor
EonniWorld
Status
Completo
Capítulos
21
Classificação
5.0 8 avaliações
Classificação Etária
18+

Paris

O sol do meio-dia atravessava as altas janelas de vidro do restaurante, lançando raios dourados e intensos sobre as mesas de mogno polido. Eram exatamente doze e quinze. A pior parte do dia. A hora do almoço, quando advogados, banqueiros e empresários em ternos impecáveis inundavam o salão, exigindo serviço rápido e um café perfeito.

O tilintar da porcelana, a música ambiente baixa e o murmúrio de centenas de vozes geralmente se transformavam apenas em um ruído de fundo para mim. Mas hoje… hoje, cada som ecoava na minha cabeça, e cada passo que eu dava no chão de madeira dura enviava uma dor aguda e latejante subindo pela minha coluna.

Parei por um momento perto do bar, apoiando o quadril contra o mármore frio.

Respire. Tentei encher os pulmões de ar, mas um espasmo aterrorizante sob minha costela direita me forçou a parar bruscamente. A dor era aguda, como uma lâmina em brasa perfurando profundamente minha carne a cada expansão da minha caixa torácica. Eu não sabia se as costelas estavam apenas machucadas ou trincadas. Nem me atrevi a pensar nisso.

“Mesa quatro”, disse o barman ao passar, empurrando uma pequena bandeja redonda em minha direção, contendo um expresso preparado com perfeição e um copo de água gelada. “E não faça besteira, é para o cara no canto.”

Assenti, esticando automaticamente os lábios naquele sorriso aprendido e prestativo. Esse sorriso era meu escudo. Enquanto eu sorrisse, ninguém prestava atenção às olheiras profundas que nem uma camada grossa de corretivo conseguia esconder totalmente. Ninguém percebia como eu mantinha meu braço direito colado ao tronco de forma não natural, tentando instintivamente proteger meu lado ferido.

Peguei a bandeja com a mão esquerda e segui lentamente pelo labirinto de mesas.

A mesa quatro ficava no canto mais distante e escuro do restaurante, escondida atrás de uma grande coluna decorativa. Mesmo no meio daquele meio-dia radiante, aquela parte do salão parecia pertencer a outro mundo.

O homem sentado ali estava de costas para a luz. Eu não conseguia ver seu rosto com clareza, mas sua presença preenchia o espaço com uma energia pesada e fria. Ele vestia um terno escuro, feito sob medida, que seguia perfeitamente as linhas de seus ombros largos. Ele não estava olhando para mim. Não estava olhando para ninguém. Seu olhar estava fixo em algum documento que segurava em uma das mãos, enquanto os dedos da outra giravam distraidamente uma caneta de metal elegante.

Ele estava completamente absorto em seu próprio mundo, alheio à minha presença.

Eu estava chegando perto. Dois passos. Mais um.

Meu sorriso continuava congelado no rosto. Apenas coloque o café na mesa e saia, repeti para mim mesma.

Mas, exatamente no momento em que dei um passo à frente para me aproximar da mesa pelo lado direito, meu corpo me traiu.

Um espasmo agudo e paralisante nas minhas costelas me atravessou com tanta força que um clarão de luz branca explodiu atrás dos meus olhos. O fôlego ficou completamente preso na minha garganta. Minha perna falhou, e meu tronco se curvou por reflexo na tentativa de escapar da dor.

A bandeja em minha mão inclinou-se perigosamente.

Em câmera lenta. Observei a pequena xícara branca deslizar pela superfície lisa. O líquido quente e preto transbordou pela borda da porcelana, caindo diretamente em direção à manga do seu caro paletó escuro e aos papéis importantes sobre a mesa.

Eu nem consegui gritar. Sabia que estava tudo acabado.

E então… com uma velocidade que não era humana, a mão dele passou como um raio sobre a mesa.

Antes que uma única gota pudesse tocar seu paletó, dedos longos e fortes se fecharam em volta do meu pulso. O aperto era de aço e escaldante. Ao mesmo tempo, sua outra mão, com calma e precisão cirúrgica, pegou a xícara que caía no ar, evitando o desastre.

Minha respiração parou completamente.

Lentamente, ele desviou o olhar dos papéis e ergueu a cabeça. Seus olhos encontraram os meus.

Eram negros. Não castanhos escuros, não avelã sob a sombra, mas profundos, impenetráveis e pretos como obsidiana. Não havia vestígio daquela raiva arrogante que eu esperava ver neles. Não havia nojo. Ele me olhou com uma calma afiada e penetrante que era muito mais perigosa do que gritos.

Seus dedos longos ainda seguravam meu pulso com firmeza. O calor da pele dele atravessava o tecido fino do meu uniforme, um contraste aterrorizante com meu suor gelado. A outra mão dele colocou a xícara de volta na mesa, de forma perfeita e calma. Nem uma gota sequer havia caído em seus papéis.

“Por favor…”, falei, e minha voz falhou, transformando-se em um sussurro patético e quebrado. Tentei puxar meu braço de volta, mas ele não me deixou ir. “Me perdoe… por favor, eu não sei o que deu em mim… Eu… eu pagarei pelos danos, eu só te imploro…”

Meu coração batia em um ritmo selvagem e doentio. Eu esperava que ele começasse a gritar, que exigisse falar com o gerente, que me humilhasse diante do salão inteiro. Era isso que pessoas ricas faziam.

Mas ele não fez isso.

Seu olhar deslizou pelo meu rosto de forma lenta e analítica, notando como eu mordia convulsivamente o lábio inferior. Ele não me olhou da maneira como os outros convidados olhavam, não examinou minhas curvas, não me tratou como um pedaço de carne. Seus olhos procuravam algo mais. Ele baixou o olhar para o meu tronco, exatamente para o ponto onde eu, inconscientemente e desesperada, segurava meu outro braço pressionado contra as costelas. Ele viu meu sobressalto.

Ele soltou meu pulso lentamente.

“Está tudo bem?”, ele perguntou. Sua voz era profunda, aveludada, mas carregada de um tom pesado e exigente. Ele não perguntou sobre o café. Ele perguntou sobre mim.

Antes que eu pudesse abrir a boca e dizer outra mentira, o ar ao nosso redor mudou. O perfume intenso de colônia cara e hortelã anunciou a chegada do meu inferno pessoal.

“Senhor, minhas mais sinceras desculpas”, veio a voz suave e perfeitamente controlada do meu algoz.

Adrien surgiu ao meu lado como um fantasma. Ele vestia um terno impecavelmente ajustado, com um broche de ouro na lapela indicando seu status: gerente do L’Éclipse. Seu rosto estava adornado com aquele sorriso prestativo e charmoso que encantava os clientes, mas eu vi o músculo do seu maxilar tensionar perigosamente.

“Espero que ela não tenha o manchado”, Adrien continuou, fazendo uma leve reverência ao homem. “Esta mesa é, naturalmente, por conta da casa hoje. Traremos um novo expresso imediatamente.”

O homem de cabelos escuros recostou-se lentamente na cadeira. Sua expressão facial se fechou, tornando-se uma máscara de puro gelo enquanto ele olhava para Adrien.

“Não há necessidade disso”, disse ele friamente, girando a caneta de metal entre os dedos. “Nada aconteceu. O café não foi derramado. Acontece.”

“Não permitimos tais descuidos neste restaurante”, respondeu Adrien, com a voz ficando um pouco mais ácida, embora o sorriso permanecesse. E então ele pronunciou uma frase que soou como uma sentença de morte. “Paris está um pouco… desastrada hoje.”

O homem à mesa fez uma pausa. O movimento de seus dedos ao redor da caneta parou. Lentamente, seu olhar desviou-se de Adrien e pousou diretamente na minha pequena placa de identificação dourada presa ao uniforme.

Paris. Algo mudou naqueles olhos negros. Um tique. Uma sombra de dúvida e uma curiosidade súbita e inexplicável. Ele estudou o nome no meu peito e depois voltou a olhar para o meu rosto, diretamente nos meus olhos apavorados.

“Paris”, repetiu ele o nome baixinho, quase para si mesmo, como se testasse como aquilo soava em sua língua. Então, ele se dirigiu a Adrien novamente, mas não desviou os olhos de mim. “Como eu disse. Sem problemas. Acontece com qualquer um.”

“Claro”, Adrien respondeu entre dentes. E então sua mão, a mesma que assinava cheques e apertava mãos da elite, deslizou como uma serpente e agarrou meu braço.

Seus dedos cravaram-se bem em um hematoma antigo e amarelado, escondido sob a manga longa da minha camisa branca. O ar escapou pelos meus dentes devido à dor repentina, mas não me atrevi a emitir som algum.

“Venha aqui um instante”, disse Adrien entre dentes, mantendo aquele sorriso falso para o cliente. “Vamos resolver isso.”

O homem à mesa estreitou os olhos levemente, acompanhando a mão de Adrien, mas Adrien já havia se virado e começado a me arrastar pelo salão.

Ele me arrastou rápido, rápido demais para minhas costelas quebradas. Cada passo era uma agonia. Passamos pelas portas duplas da cozinha, mas não paramos ali. Ele ignorou o olhar dos chefs. Empurrou-me ainda mais, descendo pelo corredor estreito e escuro que levava ao porão.

As portas da adega eram pesadas, de carvalho maciço, isoladas acusticamente para manter a temperatura.

Ele as abriu, me jogou para dentro e entrou logo atrás.

O som do trinco sendo trancado foi a coisa mais aterrorizante do mundo. Significava que a máscara tinha caído.

Eu nem consegui me virar. O golpe de Adrien veio da escuridão, rápido e impiedoso. Seu punho duro enterrou-se bem no meu estômago, logo abaixo das costelas que já queimavam pelos ferimentos anteriores.

O mundo desapareceu. O ar foi violentamente forçado para fora dos meus pulmões. Meus joelhos cederam instantaneamente e eu caí no chão de pedra fria da adega, contorcendo-me em uma agonia silenciosa e aterrorizante. Tentei inspirar, mas meus pulmões estavam paralisados.

Ele não me deixou recuperar o fôlego.

Ele me agarrou rudemente pela gola do uniforme e me levantou, jogando minhas costas contra uma prateleira de vinhos pesada. Garrafas tilintaram acima da minha cabeça.

Eu esperava que ele apertasse minha garganta, mas Adrien era inteligente demais para isso. Hematomas no pescoço são visíveis. Os clientes fariam perguntas. É por isso que sua mão foi mais abaixo.

Seus dedos, firmes e impiedosos, agarraram meu seio através do tecido fino do uniforme e do sutiã. Não foi um toque de luxúria. Foi um toque de pura punição sádica. Ele apertou minha carne sensível com tanta força que senti suas unhas cravarem na minha pele, ameaçando rasgá-la.

A dor era cegante, humilhante, paralisante.

“Ah…”, um soluço rouco e contido escapou de mim. As lágrimas borraram minha visão instantaneamente, escorrendo pelas minhas bochechas. Tentei instintivamente me afastar, empurrá-lo, mas ele apenas me pressionou com mais força contra a prateleira, torcendo a carne em seu punho.

“Escute bem, sua vadia estúpida e inútil”, ele sibilou, ficando bem perto do meu rosto. Seus olhos estavam enlouquecidos de raiva, e seu hálito cheirava à mesma hortelã com a qual ele acabara de sorrir para o cliente. “Você quase derramou aquela porra de café no Julien de Montfort. Você sabe quem ele é? Você sabe que esse homem pode fechar este restaurante com uma ligação e nos destruir até o chão?!”

Tentei balançar a cabeça, implorando com os olhos para que ele me soltasse, enquanto a dor no meu peito se tornava insuportável.

“Você não sabe de nada”, ele cuspiu as palavras, finalmente me soltando.

Caí para trás, escorregando pela prateleira até tocar o chão frio novamente. Encolhi-me em posição fetal, abraçando meu peito e costelas machucados, lutando por cada fôlego minúsculo e trêmulo na escuridão da adega.

Adrien ficou de pé sobre mim, ajustando os punhos de seu terno perfeito como se tivesse acabado de limpar sujeira das mãos. Sua voz voltou àquele equilíbrio calmo e sinistro.

“Você terminou por hoje. Tire esse uniforme para não manchá-lo com suas lágrimas e vá para casa”, disse ele, olhando para mim com absoluto desprezo.

Ele se virou em direção à porta, colocou a mão na maçaneta e então pausou, virando apenas o rosto em minha direção. Uma sombra caiu sobre seu rosto, transformando-o em um monstro puro.

“Vá para casa, Paris”, ele repetiu em um tom mais suave, porém mortal. “E me espere. Hoje à noite vamos terminar esta conversa.”