OBJETOS MALDITOS

Todos os Direitos Reservados ©

Resumo

Treze histórias. Treze objetos, forças e momentos sem volta. Treze pessoas que acreditaram estar no controle. Gavetas e Outras Maldições é uma coletânea de histórias de weird horror interligadas por um único fio: o momento em que uma pessoa escolhe o poder em vez da consciência — e o custo dessa escolha. Uma gaveta que duplica qualquer coisa colocada dentro dela. Uma impressora que reescreve a realidade. Vizinhos que sempre estiveram lá, e sempre estarão. Um teste sem resposta correta. Cada história cita a próxima. O destino de cada personagem ecoa através dos outros. Nada aqui está isolado. Tudo está conectado — e tudo tem um preço. Para leitores de um horror sombrio e silencioso que permanece na mente muito depois da última página.

Gênero
Horror
Autor
Polly_S
Status
Completo
Capítulos
13
Classificação
5.0 1 avaliação
Classificação Etária
18+

THE DRAWER

“Buscamos apenas mudar o que odiamos.”

— Do Sermão sobre o Ódio


Nunca pensei que viveria algo tão extraordinário na minha vida.

E, no entanto, aconteceu.

Ainda dou risada quando as pessoas ao meu redor se perguntam como cheguei onde estou hoje.

Elas nunca vão entender de verdade.

Tudo começou num sábado, muitos anos atrás. Eu tinha vinte anos. Jamais esquecerei aquele dia.

Na época, eu precisava de dinheiro para as férias de verão e fazia bicos por aí: cortava grama, dava aulas particulares, limpava porões.

Esse último era o meu favorito. Eu adorava me perder na contemplação de objetos e móveis antigos e esquecidos, imaginando suas histórias. Era o trabalho mais cansativo e o que pagava menos, mas isso não importava — eu fazia mesmo assim, e com gosto.

Eu alugava uma pequena van, ia até garagens ou porões para esvaziá-los, carregava tudo e levava para o lixão. O item curioso ou outro, porém, eu guardava para mim.

No começo, esperava encontrar algo valioso para revender — uma pintura, uma peça de antiquário — mas logo percebi que não passava de um sonho.

Até o dia mais importante da minha vida.

* * *

Fui chamado por um senhor muito gentil que morava em uma bela casa independente nos arredores da cidade. Ele tinha uma garagem enorme, abarrotada de objetos e móveis dos quais queria se livrar. Ele insistiu em me pagar o dobro do que eu pedi, dizendo que parecia muito pouco. Levei seis viagens com a van para esvaziar o local e levar tudo para o lixão.

Ou melhor, quase tudo.

Um pequeno móvel chamou minha atenção. Era uma mesa de cabeceira de madeira branca com uma única gaveta. Ela me chamou a atenção porque parecia, ao mesmo tempo, muito velha e perfeitamente nova. Estava em condições impecáveis: a madeira era brilhante, um branco limpo e suave ao toque, mas exalava uma aura de antiguidade.

Decidi ficar com ela — eu precisava de um apoio para meus livros ao lado da cama.

Mal precisei limpá-la. Apenas passei um pano e a coloquei ao lado da cama. A madeira tinha um cheiro peculiar, quase doce, como amêndoas. O estilo da mesa não destoava do resto do quarto; ela se encaixou no ambiente sem qualquer estranheza.

Quando abri a gaveta pela primeira vez, os trilhos deslizaram sem o menor atrito, sem um único rangido.

Um movimento perfeito, quase antinatural para um móvel que parecia tão velho.

Coloquei os livros que estava lendo em cima dela e, por vários dias, não dei mais atenção.

Algumas semanas depois, peguei um resfriado e coloquei dois pacotes de lenços na gaveta, caso precisasse durante a noite.

Na manhã seguinte, acordei e abri a gaveta para pegar um lenço. Algo estava estranho, mas não conseguia entender o quê, até me sentar para tomar café da manhã. Gelei, com a xícara suspensa no ar. Coloquei-a sobre a mesa e corri de volta para o quarto para verificar se não tinha me enganado.

Abri a gaveta.

Havia quatro pacotes de lenços.

Era estranho. Eu tinha certeza de que tinha colocado apenas dois. Ou será que tinham sido quatro? Não, eu tinha certeza: eram dois pacotes.

Fiquei encarando aqueles quatro pacotes por um longo tempo, tentando entender como aquilo era possível. Eu morava sozinho, e parecia improvável que alguém tivesse entrado apenas para deixar dois pacotes extras de lenços na minha gaveta.

Fechei a gaveta porque estava atrasado — eu tinha aulas particulares para dar naquela manhã.

Quando cheguei em casa, não conseguia tirar o mistério dos lenços da cabeça. Pensei em várias teorias, mas nenhuma fazia sentido. Parecia que aqueles pacotes tinham surgido do nada.

Enquanto almoçava, uma ideia maluca passou pela minha cabeça. Larguei o garfo e me levantei para investigar. Enquanto caminhava até o quarto, comecei a rir do que estava prestes a fazer. Não fazia sentido algum, mas uma estranha euforia crescia dentro de mim.

Fui ao banheiro, peguei o tubo de pasta de dente, voltei ao quarto, abri a gaveta, coloquei o tubo dentro e fechei.

Senti-me um idiota.

Abri a gaveta e fiquei imóvel, encarando o conteúdo.

Havia quatro pacotes de lenços e dois tubos de pasta de dente.

Pensei que tinha enlouquecido.

Tirei tudo. Peguei uma caneta esferográfica da mesa, coloquei na gaveta, fechei e abri de novo.

Havia duas canetas.

Sentei-me na cama, com as mãos tremendo.

“O que diabos está acontecendo?”

Uma parte de mim estava empolgada, outra parte estava assustada, e uma terceira não parava de gritar que aquilo simplesmente não era possível.

Passei o resto do dia fazendo testes. Cancelei todos os meus compromissos e fiquei acordado até tarde da noite experimentando a gaveta. Depois, fui dormir no sofá na outra sala porque aquilo me dava medo.

Cada objeto que eu colocava na gaveta era duplicado — de forma idêntica e perfeita. Mas era duplicado apenas uma vez: eu precisava remover os objetos e colocá-los de volta para que funcionasse de novo.

Naquela noite, tive sonhos estranhos. Quando acordei, fiquei ali por um longo tempo me perguntando como aquilo era possível. Seria magia? Será que a magia existia de verdade? Seria uma maldição? Era perigoso? Aqueles objetos durariam para sempre ou iriam desaparecer?

Eu tinha um enxame de perguntas zumbindo na minha cabeça.

Depois do almoço, decidi ir ver o senhor gentil cujo porão eu tinha limpado. Eu precisava saber.

Peguei o carro e dirigi até a casa, mas ele não estava mais lá. Havia apenas uma placa de “Vende-se” e ninguém dentro.

Senti um pânico subir.

Liguei para o número na placa. O corretor de imóveis me disse que não podiam me dar nenhuma informação sobre o proprietário, a pedido expresso dele. Insisti.

Disse que era urgente, que precisava falar com ele sobre um assunto pessoal. Sem sucesso.

Voltei à casa no dia seguinte. Toquei a campainha dos vizinhos. Ninguém sabia de nada, apenas que ele tinha ido embora de repente, algumas semanas antes. Tentei pesquisar online, nas redes sociais, na lista telefônica. Nada. Era como se ele nunca tivesse existido.

Voltei mais duas vezes nas semanas seguintes, esperando encontrar alguém — qualquer pessoa — que pudesse me dar alguma informação. Em todas as vezes, encontrei apenas aquela placa e o silêncio.

Frustrado, dirigi de volta para casa. A situação era surreal, como algo saído de um filme.

Semanas depois, enquanto folheava as fotos que tirei durante a limpeza da garagem, notei algo. Ao fundo de uma das fotos, na parede da garagem, havia uma pequena placa de latão. Dei um zoom na imagem pelo celular.

Estava escrito: “Para aqueles que têm a coragem de escolher.”

O velho sabia. Ele sempre soube.

* * *

Pensei seriamente em levar a mesa de cabeceira para o lixão. Fui ao quarto para pegá-la, mas parei quando cheguei perto. Tirei uma moeda de dois euros do bolso e a coloquei na gaveta. Quando a abri novamente, havia duas moedas.

Aquilo estava ficando interessante.

Deixei de lado a ideia de me livrar dela. Uma parte de mim insistia que não era normal, que eu estaria melhor sem aquilo, mas abaixei o volume daquela vozinha e a empurrei para um canto.

A essa altura, eu já estava pensando em tudo o que poderia fazer com aquela gaveta estranha e mágica.

Muitas ideias surgiram, mas decidi ser cauteloso. Primeiro, peguei todo o dinheiro da minha carteira e o dupliquei. Funcionou tanto com moedas quanto com notas.

Passei horas duplicando notas, como se estivesse em transe, até que a cama estivesse coberta de notas de cinquenta euros. Era incrível.

Uma dúvida repentina me tomou, então peguei uma nota e fui à loja mais próxima para ver se a aceitariam. Tudo ocorreu tranquilamente.

Foi uma sensação maravilhosa. Senti um grande peso — um que eu nem percebia que carregava — sair dos meus ombros. Senti-me leve como o ar.

Naquela noite, enquanto encarava a pilha de notas sobre a cama, uma vozinha na minha cabeça sussurrou que aquilo não era certo. Que eu estava roubando de… alguém? Do universo? Mas roubando o quê, exatamente? Eu não estava tirando nada de ninguém. Eu estava simplesmente… criando.

E além disso, pensei, eu só usaria aquilo para me estabilizar. Apenas para pagar a universidade. Apenas para parar de ter que fazer trabalhos degradantes. Apenas para ter uma vida decente. Depois disso, eu pararia. Prometi a mim mesmo naquela noite. Prometi mesmo.

De repente, dinheiro não era mais um problema.

Nos primeiros dois anos, estabeleci as bases da minha fortuna. Fui cuidadoso e cauteloso. Dupliquei principalmente dinheiro vivo, que gastava em pequenas compras espalhadas por várias cidades, sempre em lugares diferentes. Logo descobri que as notas duplicadas traziam o mesmo número de série da original, então tive que ser prudente.

A virada de chave veio quando comecei a duplicar ouro. Comprei uma pequena moeda de ouro de uma distribuidora de metais preciosos, dupliquei-a e a vendi em outra cidade. Depois, um pequeno lingote.

Depois, peças progressivamente maiores. O ouro não tem números de série. O ouro é perfeito.

Meu primeiro apartamento era pequeno, mas era meu. Comprei-o com ouro duplicado. Ao assinar o contrato, o tabelião sorriu para mim: “Parabéns, tão jovem e já proprietário de um imóvel.”

Ele não sabia. Ele não podia saber. No caminho para casa, no carro, tentei me sentir culpado. Mas por que eu deveria? Eu trabalhava duro, pagava meus impostos, era um cidadão exemplar. A gaveta era simplesmente… uma vantagem. Como nascer em uma família rica. Como ganhar na loteria. Eu não tinha escolhido encontrá-la. Foi o destino. E quem era eu para recusar um presente do destino?

Foi por volta dessa época que conheci Laura. O apartamento precisava de mobília, e ela trabalhava em um estúdio de design de interiores. Lembro-me do primeiro dia em que ela veio ver o espaço. Estava vestindo um suéter amarelo-mostarda e usava o cabelo preso em um coque despojado.

Ela caminhou pelos cômodos vazios tocando as paredes, estudando a luz que vinha das janelas. “Adorável”, disse ela. “Você tem muito bom gosto.” Ela não sabia que eu o havia escolhido apenas porque estava disponível no mercado naquele momento.

Começamos a nos ver. Era fácil estar com ela. Ela falava muito; eu ouvia. Ela me contava sobre seus projetos, seus clientes impossíveis, seus sonhos de abrir o próprio estúdio. Eu balançava a cabeça, sorria, mas parte de mim estava sempre em outro lugar. Eu voltava para casa e abria a gaveta. Só uma vez. Só mais uma barra de ouro.

Nos três anos seguintes, expandi o império. Abri várias empresas, comprei propriedades, fiz investimentos. As autoridades fizeram algumas perguntas, mas meus ganhos já eram todos rastreáveis, e uma ou duas propinas bem colocadas faziam as investigações mais detalhadas desaparecerem.

No terceiro ano, quase fui pego. A Guardia di Finanza bateu à porta do meu escritório. Uma inspeção de rotina, disseram. Eles tinham notado algumas “anomalias” nos meus investimentos iniciais. Dinheiro demais vindo do nada. Enquanto folheavam os documentos à minha frente, eu podia sentir o suor escorrendo pelas minhas costas.

Eu tinha preparado tudo cuidadosamente, mas e se eles cavassem mais fundo? E se pedissem para ver o primeiro lote de dinheiro, as notas com os números de série duplicados? Por duas semanas, vivi em terror. Checava meu telefone obsessivamente. Toda vez que a campainha tocava, eu congelava.

Então, finalmente, fecharam o caso. “Tudo em ordem”, disseram. Mas aquele medo nunca me deixou.

A partir de então, passei a examinar cada carro estacionado por muito tempo em frente à casa. Cada olhar insistente na rua. A paranoia tornou-se minha companheira constante.

Laura percebeu. “Você está diferente”, disse ela certa noite. Estávamos jantando na minha cobertura. Ela tinha cozinhado; eu tinha bebido vinho demais. “Desde que você começou a ganhar todo esse dinheiro, você está... distante. Você não está realmente aqui.” Ela olhava pela janela panorâmica, as luzes da cidade refletidas em seus olhos. “Às vezes olho para você e me pergunto se realmente te conheço.”

Eu não sabia o que dizer. Por que ela deveria me conhecer? Eu já não conhecia a mim mesmo.

Ela foi embora naquela noite. Pegou suas coisas — algumas roupas, sua escova de dentes, os livros da mesa de cabeceira — e partiu. O apartamento que ela decorou com tanto cuidado tornou-se subitamente vazio. As paredes cinza-pomba que ela escolheu pareciam cinzentas de um jeito diferente.

O sofá de designer em que ela insistira era apenas um objeto frio.

Fiquei parado na sala, cercado por móveis caros que não significavam nada, e pela primeira vez em anos senti algo que não conseguia nomear. Não era tristeza. Não era arrependimento. Era simplesmente... vazio.

Fui para o quarto. A gaveta ainda estava lá, fiel, no canto onde eu sempre a mantinha. Abri-a. Fechei-a. Abri-a de novo. Um gesto mecânico que eu repetira milhares de vezes. Mas naquela noite, pela primeira vez, perguntei-me: para que serve tudo isso? Eu tinha dinheiro, poder, sucesso. E sentia-me completa e totalmente vazio.

O pensamento me aterrorizou mais do que a Guardia di Finanza jamais o fizera. Afastei-o. Voltei ao trabalho no dia seguinte. Comprei outra empresa. Dupliquei mais ouro.

Tentei não exagerar e manter um perfil credível. Mas no auge do meu sucesso, olhando lá de cima da janela da minha cobertura para a cidade espalhada abaixo, sentia-me como um deus. Um pequeno deus, mas um deus mesmo assim. Há muito tempo eu tinha parado de me perguntar se era certo. A própria pergunta parecia patética. Certo para quem?

A moralidade é um luxo dos pobres, pensei. Uma forma de se convencerem de que sua miséria tem sentido. Eu tinha simplesmente feito o que qualquer um na minha posição teria feito. Eu venci. E vencer, no final, apaga todas as perguntas.

Em cinco anos, acumulei uma fortuna enorme e uma quantidade enorme de poder. Eu podia fazer o que quisesse.

Esse sonho longo e lindo rachou em uma terça-feira à noite, um ano atrás. Eu estava duplicando um par de sapatos porque estava chovendo lá fora e eu não queria estragá-los, quando, ao tirá-los da gaveta, raspei no lado superior e ouvi um som estranho. Diferente do som habitual da madeira. Mais oco.

Coloquei os sapatos de lado e passei os dedos pela superfície interna superior da gaveta. Pressionei gentilmente e senti algo ceder. Com um clique quase inaudível, um pequeno painel abriu-se, revelando um compartimento oculto de não mais que dez centímetros de largura, escondido na espessura da madeira.

Dentro, protegido pelo próprio mecanismo, havia um pedaço de papel dobrado e amarelado. Minhas mãos tremiam enquanto eu o tirava.

Era um pedaço de papel quadriculado, gasto pelo tempo. Desdobrei-o e vi que havia escrita nele.

Li várias vezes, tentando encontrar um sentido lógico.

Instruções:

— Coloque qualquer coisa dentro para obter uma cópia idêntica.

— Toda vez que a gaveta é aberta e fechada, uma pessoa no mundo é morta.

Era isso o que dizia o bilhete.

Por três dias, o bilhete ficou sobre a mesa da cozinha. Eu não conseguia me forçar a tocá-lo. Não conseguia olhar para ele por muito tempo. Toda vez que passava por ele, eu o relia. “Toda vez que a gaveta é aberta e fechada, uma pessoa no mundo é morta.”

Pensei em cada vez que eu a abrira. Centenas. Milhares, talvez.

Comecei a contar, depois parei porque os números faziam minha cabeça girar.

Era uma brincadeira.

Tinha que ser.

Quem poderia criar um objeto como aquele? E por quê?

Mas se a gaveta duplicava as coisas — e duplicava, isso era real —, por que o bilhete seria falso?

No quarto dia, comecei a pesquisar online. Mortes súbitas. Acidentes inexplicáveis. Procurei correlações com as datas em que usei a gaveta. Não encontrei nada concreto, mas também não encontrei paz. Cada artigo sobre uma morte acidental parecia um veredito contra mim.

Então, por acaso, enquanto rolava as notícias em busca de algo que eu nem sabia definir, encontrei um artigo sobre um magnata americano do aço da década de sessenta. Uma matéria retrospectiva sobre sua ascensão meteórica. Havia uma foto de época granulada de seu primeiro escritório.

E lá, no canto da sala, ao lado de uma poltrona de couro, estava um pequeno móvel. Branco, com uma única gaveta. Idêntico ao meu. Cada detalhe, cada linha. A mesma madeira brilhante, a mesma forma. Era impossível que fossem dois móveis diferentes.

O homem morrera vinte anos antes. Um ataque cardíaco súbito, aos sessenta e dois anos. O artigo falava de sua fortuna, seu gênio para os negócios, como ele construíra um império a partir do nada. Fiquei encarando a fotografia por horas. O móvel estava lá, no canto, uma testemunha silenciosa de outra vida, outro império, outras escolhas.

Quantos vieram antes de mim? Quantos mais viriam depois?

Na quinta noite, não dormi. Olhei para o teto e pensei: “E se for verdade? E se eu matei milhares de pessoas?” Mas então outra voz respondeu: “E se for verdade e você nunca tivesse descoberto? Você teria sido feliz. Felizmente ignorante.”

No sexto dia, tomei uma decisão. Ou melhor, a decisão me tomou. Eu não podia viver com aquela dúvida. Não podia manter a mesa de cabeceira sabendo o que sabia. Mas também não podia voltar atrás e desaprender.

Fui à cozinha, peguei o bilhete e queimei-o na pia.

Então peguei a mesa de cabeceira, levei-a para o carro e dirigi até um campo nos limites da cidade.

Era uma noite sem lua. O ar cheirava a terra úmida e feno recém-cortado. À distância, as luzes da cidade brilhavam como estrelas caídas.

Coloquei o móvel sobre a grama. Minhas mãos tremiam enquanto despejava a gasolina. O cheiro forte ardeu minhas narinas. Ateei fogo. As chamas pegaram imediatamente, famintas, e o calor atingiu meu rosto. Levou horas para queimar. A fumaça que subia era violeta, não natural.

Subia pela noite como uma alma sendo libertada. Ou condenada.

Perguntei-me se cada curva de fumaça representava uma vida. Se todas as pessoas que eu matara sem saber estavam se misturando naquela fumaça.

Então o vento a espalhou, e nada restou.

Fiquei observando até queimar por inteiro, até a última lasca de madeira. O amanhecer começava a clarear o horizonte quando as últimas brasas morreram.

Quando cheguei em casa, ao raiar do dia, esperava me sentir livre. Em vez disso, senti apenas um peso ainda maior se instalando em meus ombros.

Nunca tentei contar o número de vezes que usei a mesa de cabeceira. Não quero, e seria quase impossível. Mas, acima de tudo, não quero.

Não acho que me sinta culpado de verdade. Como alguém se sente culpado por algo que nunca viu? Não vi rostos. Não vi nomes. Apenas números em um pedaço de papel que poderia muito facilmente ser uma mentira.

Mas, às vezes, quando ando pela rua, paro e observo as pessoas ao meu redor. Aquela criança correndo para o pai. Aquele casal discutindo em frente a um bar. Aquele velho lendo o jornal em um banco. E penso: quantos deles não estão mais aqui por minha causa? Quantos pais, mães, filhos?

Então eu sigo em frente.

A verdade é que, se amanhã eu encontrasse outra gaveta mágica, com outro bilhete, não saberia o que fazer.

Gostaria de pensar que eu a queimaria na hora.

Gostaria de acreditar nisso com tudo o que tenho.

Mas lá no fundo, naquela parte de mim que não admito nem para mim mesmo, sei que eu a abriria primeiro.

Só uma vez.

Só para ver se funciona mesmo.

Só uma vez.