Prólogo
A casa estava quieta demais.
Ophelia percebeu isso no momento em que abriu a porta do seu quarto.
A mansão Voss nunca ficava em silêncio. Mesmo tarde da noite, sempre havia pequenos sons em algum lugar da casa enorme. Funcionários passando pelos corredores. Portas fechando suavemente. Passos sobre o piso de mármore.
Esta noite, não havia nada.
Apenas o silêncio se estendendo pelos corredores como algo à espreita.
Seus dedos apertaram as mangas de seu suéter largo enquanto ela entrava no corredor.
O carpete macio abafava seus pés descalços.
Ela caminhou devagar.
Com cuidado.
Do jeito que ela aprendera a andar anos atrás.
Seu olho bom escaneava o corredor automaticamente, enquanto o cego encarava inutilmente a luz fraca.
Ninguém.
Seu coração bateu um pouco mais rápido.
O silêncio a deixava nervosa.
O silêncio nesta casa muitas vezes significava que algo ruim já tinha acontecido.
Ou que estava prestes a acontecer.
Ela chegou à escada e parou.
Vozes flutuavam fracamente lá embaixo.
Vozes masculinas.
Irritadas.
Seu estômago gelou na hora.
Ela reconhecia aquela voz.
Adrian.
O medo percorreu seu peito como água gelada.
Ela deveria voltar para o quarto.
Imediatamente.
Seu corpo sabia disso.
Sua mente sabia disso.
Mas seus pés não se moveram.
Em vez disso, ela ficou paralisada no topo da escada, ouvindo.
"...você acha que pode me ameaçar?", a voz de Adrian disse em algum lugar abaixo.
Outro homem respondeu, a voz tensa de raiva.
"Você prometeu proteção. Se este negócio fracassar..."
Um estrondo violento o interrompeu.
Algo pesado bateu contra a madeira.
Ophelia encolheu-se bruscamente.
Seu coração começou a disparar.
Seus dedos se torceram firmemente em uma mecha de seu cabelo.
Não desça aí.
O pensamento se repetia várias vezes em sua mente.
Mas o medo estava misturado com outra coisa.
O mesmo instinto que ela desenvolveu anos atrás.
Quando a voz de Adrian soava assim, alguém geralmente acabava machucado.
Lenta e cuidadosamente, ela desceu a escada.
Cada degrau fazia seu estômago revirar ainda mais.
As vozes ficaram mais altas quando ela chegou ao final.
A porta do escritório estava levemente aberta.
Uma faixa fina de luz se estendia pelo chão do corredor.
Ophelia parou a alguns passos de distância.
Seu peito subia e descia rapidamente.
Ela conseguia ouvir movimentos lá dentro.
Respiração pesada.
Móveis arrastando.
Então algo atingiu o chão.
Com força.
Um som sufocado se seguiu.
Depois, silêncio.
Silêncio absoluto.
Seu coração batia tão forte que ela podia ouvi-lo em seus ouvidos.
Por vários segundos, ela não se moveu.
Então, a porta do escritório se abriu.
Ophelia deu um pulo para trás, como se tivesse levado um golpe.
Adrian saiu para o corredor.
Ele parou no momento em que a viu.
Por um longo segundo, nenhum dos dois falou.
Todo o seu corpo ficou rígido.
O medo a inundou instantaneamente, de forma instintiva.
Aquele tipo de medo que vinha de anos sabendo exatamente do que ele era capaz.
Os olhos de Adrian percorreram lentamente o rosto dela.
Passaram por seus cachos claros.
Pela cicatriz que cortava seu olho cego.
Seus lábios se curvaram levemente.
"Bem", ele disse suavemente.
“Que infortúnio.”
Ophelia não conseguia respirar.
Suas costas estavam pressionadas contra a parede atrás dela.
Suas mãos se levantaram instintivamente na frente do peito.
“Eu... eu não quis—”
Sua voz mal saía.
Ela nem conseguiu terminar a frase.
Adrian deu um passo em sua direção.
Ela imediatamente encolheu-se ainda mais contra a parede.
Cada músculo do seu corpo se contraiu.
Sua mente gritava para ela fugir.
Mas suas pernas não se moviam.
Elas nunca se moviam quando ele estava tão perto.
“O que você está fazendo fora do seu quarto?”, ele perguntou calmamente.
A suavidade em sua voz tornava tudo pior.
Sempre tornava.
“Eu ouvi vozes”, ela sussurrou.
Seus olhos permaneciam fixos no chão.
Ela aprendera há muito tempo a não cruzar o olhar dele.
Adrian inclinou a cabeça levemente.
“Ouviu, é?”
Ele se aproximou.
Perto demais.
Sua respiração tornou-se curta.
Ela podia sentir o pânico começando a subir pelo peito.
Atrás dele, ela podia ver parte do escritório.
A mesa.
O carpete.
E algo no chão.
Algo escuro.
Seu estômago deu um nó violento.
“Por favor”, ela disse baixinho.
“Eu vou voltar para cima.”
Adrian não se moveu.
Em vez disso, ele olhou brevemente por cima do ombro em direção ao escritório.
Então, voltou a olhar para ela.
“Tarde demais para isso.”
Seu coração disparou.
Antes que ela pudesse reagir, a mão dele agarrou seu pulso repentinamente.
Uma dor aguda percorreu seu braço.
Ela ofegou quando ele a puxou para dentro do escritório.
Ela tropeçou, quase caindo.
Sua mão bateu com força na mesa para se apoiar.
Algo frio pressionou sua palma.
Ela olhou para baixo.
Uma faca.
O fôlego faltou-lhe.
O aperto de Adrian intensificou-se em seu pulso.
Ele forçou os dedos dela em volta do cabo.
Sua mente ficou em branco de tanto pânico.
“Segure”, ele murmurou.
“Não—”
A palavra saiu como um sussurro trêmulo.
Seu corpo começou a tremer.
Mas o aperto dele era de ferro.
“Segure.”
Os dedos dela se fecharam em torno da faca.
Sua pulsação martelava em seus ouvidos.
No chão, ao lado da mesa, um homem jazia imóvel.
O sangue se espalhava lentamente pelo carpete.
Ophelia olhou para aquilo em horror.
“Eu não fiz nada”, ela sussurrou desesperadamente.
“Eu não—”
Adrian soltou seu pulso.
A faca escorregou de seus dedos trêmulos e caiu no chão com um baque.
Ele tirou o telefone do bolso calmamente.
Ophelia olhou para ele, com confusão e terror revirando seu peito.
“O que você está fazendo?”
Adrian sorriu.
Um sorriso lento e satisfeito.
Então ele levou o telefone ao ouvido.
“Houve um assassinato”, ele disse calmamente.
Ele a observava o tempo todo.
Observava a cor fugir do rosto dela.
Observava o pânico se espalhar pelos olhos dela.
“Sim”, ele continuou em voz baixa.
“Minha irmã está aqui.”
Ophelia sentiu o mundo desabar ao seu redor.
E, pela primeira vez, ela compreendeu.
Ela nunca teve uma chance.