Cromo e Aspereza

Todos os Direitos Reservados ©

Resumo

Quando Jax Vance, o letal Vice-Presidente do motoclube Iron Coffins, resgata uma garota "qualquer" de um acidente na estrada, ele acaba dando início, sem querer, a uma guerra estadual. Elara Evans não é apenas uma vítima; ela é uma refugiada corporativa carregando um drive com os segredos mais sombrios do Sindicato — e, como uma revelação chocante prova, ela é a filha biológica do formidável Presidente do clube, Vance. Em um mundo de asfalto chamuscado e penhascos salgados, Elara troca seus saltos de grife por botas de motociclista, transformando-se de um peão em uma "Firecracker" da Mother Charter. Ao lado de Jax, ela sobrevive à obsessão predatória de seu irmão Noah e ao cerco brutal do Sindicato. O primeiro capítulo de sua saga fecha com o "Ghost" caindo no Pacífico e o nascimento do Chrome Heir, AJ — uma criança nascida da tenacidade fora da lei e do brilho corporativo. Mas a paz é um luxo passageiro. Enquanto o clube tenta se tornar "legítimo" por meio da Iniciativa Phoenix, eles saem da mira de assassinos para o livro-razão de uma predadora ainda mais perigosa: A Auditora. Sloane Vane não quer vingança; ela quer os ativos dos Evans de volta para o Sindicato e vê o herdeiro recém-nascido como uma dívida a ser cobrada. Agora, Jax e Elara precisam defender seu legado contra uma máquina corporativa que não pode ser alvejada por balas. Em uma batalha onde códigos bancários são tão mortais quanto tiros, os Iron Coffins precisam provar que sua irmandade é mais do que um emblema — é uma fortaleza. A aspereza está de volta, e o cromo está prestes a sangrar.

Status
Completo
Capítulos
16
Classificação
4.8 4 avaliações
Classificação Etária
18+

Chrome and Grit

O ar-condicionado do Civic 2014 do Noah estava trabalhando tanto quanto a personalidade dele: não soprava nada além de ar quente e fazia um barulhão enquanto fazia isso.

Elara mudou de posição, sentindo o banco de vinil grudar na parte de trás das pernas. Sua perna esquerda, aquela que costumava entrar em greve lá pelo meio-dia, começou a ter cãibras. Ela se curvou e massageou o músculo com uma firmeza prática e agressiva. Não pediu para parar. Não reclamou. Apenas ficou olhando pela janela as ondas de calor que subiam do asfalto de Nevada.

“Dá para parar com isso?”, Noah disparou, com os nós dos dedos brancos de tanto apertar o volante. “Esse movimento constante. É irritante.”

Elara nem olhou para ele. “O carro está vibrando a cento e trinta por hora, Noah. Se a minha perna é o que te distrai, você nem deveria ter carteira de motorista.”

“Eu nem deveria estar aqui”, ele murmurou, alto o suficiente para ela ouvir. “Eu tinha planos para o fim de semana. Planos de verdade. Não ficar dirigindo como um motorista de madame nesse fim de mundo.”

Elara finalmente virou a cabeça, com um sorriso afiado e cortante. “Mamãe e papai não te ‘forçaram’, Noah. Eles ofereceram pagar seu aluguel por três meses. Você não me escolheu; escolheu um estilo de vida que não envolve trabalhar em lava-jato. Então, senta aí, cala a boca e dirige.”

Noah trincou o maxilar com tanta força que uma veia saltou em sua têmpora. Ele abriu a boca para retrucar, mas o carro foi mais rápido.

Um som como uma caixa cheia de martelos batendo num ventilador de teto explodiu debaixo do capô. O Civic estremeceu e perdeu a força na hora. O painel acendeu como uma árvore de Natal — luzes de óleo, motor e símbolos que Elara nem conhecia começaram a brilhar em vermelho e laranja.

“Não, não, não, não”, Noah repetia, afundando o pé no acelerador. O carro respondeu com um clack-clack-clack patético e uma nuvem de fumaça cinza que começou a sair pelas saídas de ar.

“Belo trabalho, Mario Andretti”, disse Elara, com a voz carregada de veneno. “Acho que você acabou com ele.”

Noah guiou o que restava daquele monte de metal para o acostamento, os pneus fazendo barulho no cascalho e nos cacos de vidro. Quando o motor deu um último solavanco e silenciou, o calor do deserto invadiu o carro.

“E agora?”, Noah gritou, jogando as mãos para o alto. “Estamos no meio do nada! Meu celular só tem um pingo de sinal!”

Elara não entrou em pânico. Ela alcançou o banco de trás e pegou suas muletas. Ajeitou-as no espaço apertado com uma elegância conquistada por anos vivendo em um mundo que não foi feito para ela. “Agora”, disse ela, encaixando as braçadeiras, “nós vamos achar um mecânico. Tinha uma placa de uma cidade chamada Oakhaven há um quilômetro atrás.”

“Um quilômetro? Você não consegue andar um quilômetro nesse calor!”

Elara abriu a porta, e o ar do deserto a atingiu como uma lufada de forno. Ela se impulsionou para fora, e seus pés tocaram a terra com um baque seco. Ela ficou em pé, imponente, com os olhos escondidos atrás de óculos escuros estilo aviador, parecendo um soldado pronto para a guerra.

“Vê só se eu não consigo”, disse ela, já se movendo. “E traz a água. Se eu tiver que arrastar seu cadáver pela estrada porque você desidratou, vou deixar você para os urubus.”

A cidade de Oakhaven não era bem uma cidade, mas um amontoado de prédios que perderam a briga contra o tempo. No final da rua principal, havia uma oficina grande. Não era uma concessionária chique ou uma lojinha de bairro. Era uma fortaleza de metal corrugado cercada por um mar de motocicletas pesadas e brilhantes.

Enquanto eles mancavam até o pátio — Noah suando e xingando, Elara rítmica e incansável —, o ronco baixo de uma dúzia de motores ligados os recebeu.

Um grupo de homens estava sentado em cadeiras dobráveis na frente. Tinham pescoços grossos e vestiam coletes de couro preto com “IRON COFFINS” costurado nas costas. Um deles, com uma barba que chegava ao peito e braços do tamanho do tronco da Elara, se levantou. Ele limpou a graxa das mãos em um pano que parecia ter visto centenas de trocas de óleo.

Noah parou de repente, ficando pálido. “Ah, não. Elara, vamos embora. Vamos... vamos continuar andando.”

“Com que carro, Noah? Aquele que está derretendo no asfalto agora?”, Elara não diminuiu o passo. Ela se balançou até o gigante barbudo, com as muletas cravadas na terra suja de óleo.

O homem olhou para baixo, com os olhos semicerrados sob a aba de um boné encardido. Os outros motoqueiros ficaram em silêncio, observando a garota baixinha com as muletas enfrentando o líder deles.

“Se perdeu, pirralha?”, perguntou o grandalhão.

Elara inclinou a cabeça para trás, encarando-o sem medo. “A não ser que você seja florista, estou exatamente onde preciso estar. O carro do meu irmão decidiu se suicidar três quilômetros atrás. Você é o Rusty? Ou só o cara que cuida da porta?”

Um sorriso lento e perigoso surgiu no rosto do homem. Atrás dela, Elara ouviu Noah soltar um ganido patético.

“Eu sou o Rusty”, disse ele. “E você tem muita coragem para alguém cujo meio de transporte é um monte de sucata.”

“Coragem é tudo o que eu tenho”, rebateu Elara. “Isso, e um irmão que é medroso demais para perguntar se vocês têm um guincho. Então, vamos negociar ou eu continuo andando até a próxima cidade?”

Rusty soltou uma risada estrondosa que ecoou pelas paredes de metal. “Gostei dela. Spike! Pega a plataforma. Vamos ver que tipo de encrenca esses garotos da cidade trouxeram para nós.”

Spike não se mexia como alguém apressado; ele se movia como um deslizamento de terra — lento, pesado e inevitável. Ele pulou em uma Ford F-350 enferrujada que parecia um amontoado de amassados segurados por fé e fundo preparador.

“Sobe aí, Princesa”, gritou Spike sobre o rugido do motor, apontando para a cabine.

Noah deu um passo à frente, olhando para o estofado rasgado e as manchas suspeitas no assoalho. “Eu não vou sentar nisso. Provavelmente tem tétano.”

Elara passou por ele, com sua muleta passando raspando nos pés dele. “Então fica aqui e cozinha, Noah. Tenho certeza de que os abutres não vão se importar com o sal extra das suas lágrimas.”

Ela se içou para o banco do passageiro com um movimento prático dos ombros, eficiente e forte. Rusty a observava, com os braços cruzados sobre o peito maciço. Ele não ofereceu ajuda — não por ser rude, mas porque viu o “nem ouse” escrito na expressão dela. Ele respeitou a garra dela.

Vinte minutos depois, o Civic foi engatado e arrastado para a sombra da oficina. Os “Iron Coffins” não tinham uma sala de espera com café e revistas. Eles tinham um sofá sujo de graxa com uma mola saindo no meio e uma máquina de venda que parecia só vender cigarros e rancor.

Noah andava de um lado para o outro, seus tênis caros rangendo no chão engordurado. “Isso é um desastre. Olha esse lugar. Eles provavelmente vão desmontar o carro e nos deixar em alguma vala.”

“Noah, cala a boca”, disse Elara, apoiando as muletas na bancada e sentando-se num banquinho. Ela pegou uma chave inglesa pesada, girando-a nas mãos. O peso era reconfortante. “Eles são mecânicos. Eles consertam coisas. Algo que você não faz ideia de como funciona, já que vive ligando para o papai quando a luz de pneu murcho acende.”

Um dos motoqueiros, um cara mais novo com “SNAKE” tatuado no pescoço, levantou os olhos de uma moto que estava desmontando. “Ela tem razão, garoto. Você tem sorte de estarmos entediados. Normalmente, a gente não mexe com carro importado.”

“É um Honda”, disparou Noah, com a voz fina e tensa. “Não é uma espaçonave. Só me diga quanto custa e quanto tempo leva. Eu tenho uma vida para tocar.”

Rusty saiu debaixo do elevador, limpando uma mancha preta na testa. Ele ignorou Noah completamente, olhando direto para Elara. “A bomba de combustível foi para o espaço. Provavelmente sugou alguma sujeira daquele posto lá em Wells. Vou levar algumas horas para conseguir a peça na cidade vizinha.”

“Ótimo”, disse Noah, pegando a carteira. “Custe o que custar, só—”

“Eu não estava falando com você, Alfinete”, trovejou Rusty, com a voz como brita em um liquidificador. Ele se virou para Elara. “Vai ficar quinhentos pela peça e pela mão de obra. E esse é o desconto de ‘gosto da sua irmã’.”

O rosto de Noah ficou roxo. “Quinhentos? Isso é assalto! Eu consigo fazer isso pela metade do preço na cidade!”

Elara se levantou — ou melhor, se impulsionou até ficar de pé, com os olhos brilhando. Ela não usou as muletas; apoiou-se na bancada de madeira pesada, fulminando Noah com um olhar que poderia azedar leite.

“Noah”, disse ela, com a voz perigosamente baixa. “Você tem duas escolhas. Pode pagar o homem, agradecer por ele não ter nos deixado morrer em um deserto de quarenta graus e sentar a bunda nesse sofá. Ou pode continuar falando, e eu mesma vou dizer ao Rusty que ele pode usar seu carro para treino de tiro enquanto a gente pede carona.”

A oficina ficou em silêncio. Até o som das ferramentas pneumáticas parou. Os motoqueiros estavam todos sorrindo agora, curtindo o show.

“Você não teria coragem”, sibilou Noah.

“Tenta a sorte”, rebateu Elara. “Passei vinte anos lidando com seu ego e com minhas pernas que não funcionam direito. Você acha que uma caminhadinha até a próxima cidade me assusta? Tenho mais fibra no dedinho do que você tem nesse corpo bronzeado artificialmente.”

Rusty soltou uma risada curta e seca. Ele pegou um refrigerante gelado no cooler e jogou para Elara. Ela pegou com uma mão só, sem desviar o olhar do irmão.

“Senta aí, Noah”, ela ordenou.

Derrotado e resmungando sobre “familiares loucos”, Noah desabou no sofá esfarrapado.

Elara abriu o refrigerante e deu um gole longo e gelado. Ela olhou para Rusty e assentiu. “Manda ver, grandão. E não liga para ele. Ele é só o ajudante.”

Rusty se encostou no armário de ferramentas, observando Elara com um brilho divertido nos olhos. “Você tem a língua afiada, garota. Normalmente, o pessoal vê as tatuagens e o couro e começa a gaguejar. Seu irmão aí parece que vai ter um ataque cardíaco.”

“Ele é delicado”, disse Elara, checando o relógio. “Ele acha que o mundo deve a ele uma estrada pavimentada e uma nota dez. Eu já estou mais acostumada com os buracos.”

Noah, enquanto isso, tentava achar sinal no celular, sacudindo-o como uma vareta de radiestesia. “Isso é o inferno na Terra. Elara, estamos perdendo tempo. Se não chegarmos ao parque antes do pôr do sol, nossa reserva—”

“Já era. Eu sei, Noah. Relaxa. As árvores estão lá há dois mil anos; acho que elas aguentam esperar mais quatro horas por nós.”

Snake, o motoqueiro mais novo, chutou um caixote engordurado na direção de Elara. “Senta aí. Já que vai ficar presa aqui, pelo menos pode ver como um motor de verdade funciona. Não aquele liquidificador coberto de plástico que você dirige.”

Elara não hesitou. Ela pegou as muletas, atravessou o chão escorregadio com a precisão de um equilibrista e se sentou no caixote. Ela observou as mãos de Snake enquanto ele trabalhava na moto. “A corrente de comando está frouxa”, comentou, apontando o queixo para as entranhas da moto.

Snake parou, com a chave inglesa no meio do caminho. Ele olhou para a moto, depois para ela. “Como você percebeu isso?”

“O som quando você ligou antes. Tinha uma falha — tipo um batimento cardíaco com sopro. Meu pai restaurava Mustangs antigos antes de machucar as costas. Passei dez anos sendo a ‘seguradora de lanterna’ dele, que é o código para ‘ouvi-lo xingar as juntas do motor’.”

Snake deu uma risada, um som genuíno que não combinava com seu exterior intimidador. “Seguradora de lanterna, é? Melhor jeito de aprender.”

Noah, percebendo que estava sendo completamente ignorado, marchou até eles. Seu rosto estava vermelho e sua máscara de “educado” tinha caído. “Tá bom, chega desse teatrinho de ‘fazer amizade’. Rusty, ou seja lá qual for seu nome — vou te dar cem dólares a mais se você parar de mexer nessa lata-velha e terminar meu carro agora.”

O clima na oficina mudou na hora. O som ritmado das ferramentas parou. Rusty se levantou devagar, limpando a graxa na calça. Ele pairou sobre Noah, uma sombra que parecia engolir o homem menor por inteiro.

“Dinheiro não faz as peças chegarem mais rápido, garoto”, disse Rusty, a voz caindo uma oitava. “E aqui nessa oficina, a gente não ‘fura fila’. Especialmente para quem fala com minha equipe como se fossem serviçais.”

Noah recuou, tropeçando em um pneu velho. “Eu — eu só quis dizer—”

“Ele quis dizer que é um idiota”, interrompeu Elara, sua voz cortando a tensão como uma lâmina. Ela não se levantou, mas sua presença preencheu o espaço. “Rusty, ignora ele. Ele caiu de cabeça quando era criança. Várias vezes. Por minha culpa.”

Os motoqueiros olharam para Elara e depois de volta para Noah, que tremia.

“Noah”, disse Elara, com os olhos semicerrados atrás das lentes. “Vai sentar no carro. Fecha os vidros. Não sai de lá até eu te avisar que é seguro. Se você disser mais uma palavra para esses homens, vou deixar o Spike aqui mostrar para você exatamente o quão ‘delicado’ ele é.”

Spike sorriu, mostrando a falta do dente da frente. Não era um sorriso amigável.

Noah saiu correndo para o carro, praticamente mergulhando no banco do motorista e batendo a porta. Os “Iron Coffins” explodiram em risadas, um som bruto e estrondoso que fez o telhado de zinco tremer.

Rusty olhou para Elara e balançou a cabeça. “Tem certeza de que você é parente desse cara? Talvez o hospital tenha trocado ele por um saco de farinha molhada.”

“Nem me fale”, suspirou Elara, encostando-se na bancada. “Mas ele é minha carona. Por enquanto. Então, sobre a bomba de combustível... você acha que aguenta até a gente chegar na Califórnia?”

“Garota”, disse Rusty, pegando a chave inglesa novamente com um novo respeito, “vou garantir que esse carro funcione melhor do que no dia em que saiu da fábrica. Por você? Ele vai ser blindado.”

À medida que o sol começava a se pôr no horizonte do deserto, pintando o céu com tons de roxo e laranja, a oficina ganhou um brilho diferente. Os motoqueiros trouxeram uma churrasqueira, e o cheiro de carne assada começou a mascarar o odor de óleo e pneus velhos.

“Você come carne, Foguinho?”, perguntou Spike, segurando um hambúrguer do tamanho de um prato.

“Se estiver bem passado e salgado, estou dentro”, disse Elara.

Ela olhou para o Civic. Noah estava largado contra a janela, com o rosto iluminado pela luz azul do celular, parecendo miserável e isolado. Por um segundo, um vislumbre de culpa a atingiu — mas então ela se lembrou dele a chamando de “um fardo” três cidades atrás.

A culpa morreu ali mesmo, sem dó nem piedade.

Ela deu uma mordida no hambúrguer que Spike lhe entregou e olhou para o círculo de motoqueiros. Ela era uma garota de muletas em uma toca de fora da lei, a quilômetros de tudo o que conhecia e, pela primeira vez em toda a viagem, sentiu que estava exatamente onde pertencia.

“Então”, disse Elara, limpando um pingo de gordura do queixo. “Quem vai me contar a história por trás do nome ‘Iron Coffins’? E capricha — tenho três horas para matar.”