Dario
Eu olhava para o mar daquela porra e me perguntava por que eu não dava logo uma ordem para o capitão ligar os motores, virar aquele monstro de aço e passar por cima de cada iate que estivesse no nosso caminho.
Eu estava no convés superior da minha besta de iate de sessenta metros, encostado na grade de vidro. A noite estava caindo, e o ar estava pesado, grudento com o sal e o cheiro do meu charuto caro demais. Abaixo de mim, no convés principal, era uma zona total. A tripulação corria de um lado para o outro feito baratas tontas, arrumando taças de cristal, polindo balcões de mármore preto e preparando o terreno para a escória que ia infestar aquilo ali naquela noite.
Tenho quarenta e quatro anos. Construí um império passando por cima de cadáveres; quebrei ossos e destruí vidas para chegar onde estou hoje. E hoje à noite? Hoje eu tenho que bancar o anfitrião de merda para políticos corruptos, traficantes metidos a besta e empresários babacas que acham que são os donos do mundo só porque ganharam um convite para o meu barco.
Eu não estava com paciência para nada daquilo. Cada músculo do meu corpo estava tenso, com uma inquietação selvagem e inexplicável. Tive vontade de pegar uma arma e atirar na rótula das pessoas só para espantar o tédio.
“Vou ficar cego com esse seu olhar sombrio, irmão. Relaxa um pouco, você vai espantar meus convidados.”
Nem precisei virar a cabeça para saber quem era.
Matteo. Meu melhor amigo, meu braço direito no submundo e um homem que era a definição de mau gosto. Quando finalmente me virei, tive uma bela visão. Ele vestia uma camisa de seda onde o dourado, o rosa neon e a estampa de oncinha brigavam entre si. Estava aberta até a metade do peito peludo, revelando uma corrente de ouro grossa que provavelmente pesava mais que o cérebro dele. Ele parecia um cafetão dos anos oitenta, mas por baixo daquela fachada de palhaço escondia um psicopata que cortaria sua garganta e depois reclamaria que você espirrou sangue nos sapatos dele.
“Você faz isso de propósito?”, eu disse entre dentes, avaliando-o com nojo e soprando uma nuvem espessa de fumaça de charuto bem na cara dele. “Eu te pago milhões e você ainda parece que assaltou um circo.”
Matteo soltou uma risada alta e rouca, ajustando o relógio de diamante que brilhava no crepúsculo.
“Isso é alta moda, seu neandertal. Você é quem sempre veste preto, parecendo que vai a um velório e não à festa do ano”, disse ele, aproximando-se de mim e apoiando-se no parapeito. “Está tudo pronto lá embaixo. Os convidados chegam a qualquer momento. Aquele porco gordo do Rossi está vindo. Ouvi dizer que ele perdeu meio milhão no jogo ontem; hoje à noite ele provavelmente vai estar chorando bêbado num canto.”
“Deixa que chore”, respondi friamente. “Se ele manchar meu convés com lágrimas ou vômito, eu jogo ele por cima da grade para os tubarões.”
“A mercadoria também está chegando”, continuou Matteo, ignorando meu mau humor e exibindo um sorriso sebento. “Prostitutas, Dario. A agência mandou o melhor catálogo da porra. Dizem que importaram um lote novo. Todas limpas, caras e prontas para fazer o que essas mentes doentes quiserem hoje à noite.”
Dei outra tragada, sentindo minha irritação crescer. “Estou cagando para elas.”
Matteo olhou de lado para mim, erguendo uma sobrancelha. “Uau. Santo Dario. Desde quando você ficou tão certinho? Como se nunca tivesse pago por uma acompanhante na vida.”
Meu maxilar travou. Esmaguei a cinza do charuto com os dedos e joguei ao vento, virando-me para ele com um olhar que congelaria o sangue em suas veias.
“Eu já paguei, Matteo. E vou pagar sempre que me der na porra da telha”, falei num tom perigosamente baixo e ríspido, chegando bem perto da cara dele. “Mas hoje, essas mulheres foram trazidas e pagas com o meu dinheiro para foder e agradar aqueles imbecis lá embaixo, certo? Para fazer o negócio girar. Eu não como resto dos outros na minha própria mesa.”
“Certo, certo, relaxa”, ele levantou as mãos em rendição, mas aquele sorriso irritante não saiu de seus lábios. “Só estou dizendo que você provavelmente vai encontrar uma para te ajudar a relaxar também. Você está tão puto hoje que vai matar alguém antes mesmo de servirem os aperitivos.”
“Tudo está me irritando para caralho hoje. O ar me irrita. Você me irrita”, sibilei, voltando-me para o mar.
Matteo começou a responder, pronto para soltar mais uma de suas piadas idiotas, mas sua voz morreu de repente. Seu olhar fixou-se na água abaixo de nós. O som profundo e potente de um motor cortando as ondas ecoou, e uma lancha preta estava encostando na plataforma inferior do meu iate.
“Então beba algo forte e se prepare”, disse Matteo, com a voz subitamente séria. O sorriso desapareceu completamente de seu rosto. “Porque a mercadoria acaba de chegar, irmão.”
O som do motor rasgou a noite, mas quando a lancha preta e blindada bateu na plataforma, percebi que não era a mercadoria. Eram os convidados. A primeira leva da pior escória que Paris e o submundo podiam cuspir, embalada em ternos Armani e relógios de meio milhão de euros.
“Vamos descer.”
“Vou bancar o anfitrião de merda até alguém me encher o saco.”
Matteo apenas deu um sorriso sarcástico e me seguiu escada de vidro iluminada abaixo.
Quando pisei no convés principal, a música já batia direto no meu peito. Um grave pesado e sujo sacudia o piso de teca. Garçons circulavam com taças de cristal, e champanhe e o uísque mais caro do mundo corriam soltos. Observei a escória subir no meu iate. Senadores corruptos, chefões do tráfico posando de cavalheiros e alguns daqueles empresários engomadinhos de terno cinza, parados nos cantos, enojados com o que viam, mas gananciosos demais pelo meu dinheiro para ir embora. Eles eram os piores. Fingiam moral, mas venderiam a própria mãe por uma porcentagem das minhas ações.
Peguei um copo de bourbon puro de uma bandeja e fiquei perto do bar, observando o circo com um nojo gélido.
Não tinham se passado nem cinco minutos e o ar ao meu redor já fedia a perfume feminino caro e intenções baratas.
Valeria, a esposa de um dos meus “sócios”, surgiu no meio da multidão. Ela usava um vestido de seda vermelho que mal cobria seus silicones caros, e a fenda na coxa chegava quase na cintura. Ela se aproximou de mim sem qualquer pudor, rebolando, e se pressionou contra mim. Os seios dela roçaram descaradamente no meu antebraço.
“Dario”, ela ronronou, olhando para mim através dos cílios postiços, enquanto a mão de unhas vermelhas e longas deslizava pelo meu peito, parando perigosamente perto do meu cinto. “Você parece tão tenso hoje. Esse seu barco é enorme. Tenho certeza de que sua cabine privada tem uma cama fantástica. Poderíamos descer. Garanto que vou sugar toda essa tensão dos seus músculos. Eu engulo até a última gota.”
Ela era tão vulgar que meu estômago embrulhou. Olhei para ela com uma expressão fria e vazia, sem me mover um milímetro para trás.
“Oferta tentadora, Valeria”, eu disse, meus lábios se curvando em um sorriso arrogante e preguiçoso. Tomei um gole de bourbon, sem tirar meus olhos negros dela. “Mas achei que seu marido estivesse por aqui. Ali está ele, bebendo meu champanhe perto da piscina.”
Ela jogou a cabeça para trás e riu, esfregando-se em mim. “Quem liga para aquele porra? Ele nem consegue levantar o pau há anos mesmo. Eu quero um homem de verdade hoje à noite.”
“Eu ligo”, eu a cortei. Minha voz ficou afiada como uma lâmina, e aquele sorriso evaporou, deixando apenas uma ameaça brutal. “Não porque eu o respeite, mas porque me dá nojo enfiar minha pica onde ele terminou. Meu equipamento é caro demais para a sua boca hoje. Dá o fora e arruma outro brinquedo na segurança para esticar esses silicones.”
O rosto dela congelou na hora. Ela me encarou em choque total, o rosto vermelho pela humilhação sem precedentes. Ela recuou como se eu tivesse lhe dado um tapa, girou nos saltos altos e desapareceu na multidão.
Apenas balancei a cabeça e bebi o resto do bourbon. Essas noites estavam me deixando cada vez mais maluco. Montes de carne sem um pingo de cérebro ou dignidade.
Coloquei o copo vazio no bar, pronto para expulsar a próxima pessoa que viesse falar comigo. E então senti um tapa forte no ombro.
Matteo estava ao meu lado. Ele não estava com seu sorriso idiota de palhaço. Na verdade, ele respirava um pouco mais rápido, abrindo caminho no meio da multidão, e seus olhos queimavam com um brilho bruto e faminto enquanto ele olhava em direção à entrada principal do iate.
“Prepare-se, irmão”, Matteo resmungou, com a voz incomumente sombria e tensa. “As putas acabaram de subir no convés. E eu juro pela minha vida: carne assim nunca cruzou o seu limiar antes.”