Coração de Ferro

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Resumo

Elena achava que já tinha sobrevivido ao pior tipo de amor. Ela estava enganada. Após escapar de um passado tóxico e ser renegada pela família em quem um dia confiou, ela reconstrói sua vida do zero — silenciosamente, cuidadosamente, sozinha. Até conhecer Kane. Misterioso. Calculista. Perigoso de maneiras que ele não explica. Kane vive sob uma única regra: não deixar ninguém se aproximar. Mas Elena não apenas entra na vida dele — ela a desestabiliza. O que começa como tensão transforma-se em algo mais profundo. Algo que nenhum dos dois planejou. Algo que nenhum dos dois consegue controlar. Mas o amor no mundo de Kane não é simples. O passado dele é violento. O passado dela é assombroso. E as pessoas que um dia os destruíram ainda não terminaram o serviço. Agora, Elena precisa decidir: Ela consegue permanecer na escuridão dele sem se perder? E Kane consegue amá-la… sem destruí-la? Porque, no fim das contas — Esta não é apenas uma história de amor. É uma escolha. E nem todos sobrevivem a ela.

Status
Completo
Capítulos
85
Classificação
5.0 7 avaliações
Classificação Etária
18+

Capítulo 1

Elena

O som da caminhonete de Brian entrando na rua fez meu estômago embrulhar.

Antes mesmo que os faróis varressem a janela da sala, eu já estava me movendo.

Sem pressa. Nunca com pressa. Brian notava qualquer pressa.

Dobrei a última camisa com cuidado e a empurrei para dentro da pequena bolsa de lona que estava no chão, ao lado da cama. Os dentes do zíper se encaixaram suavemente enquanto eu o fechava, um som quase mais baixo que a minha respiração.

Isso era tudo.

Tudo o que eu podia levar.

Minhas joias — o pouco que restou depois de vender peças ao longo dos anos — estavam guardadas dentro de uma pequena bolsa de veludo. O colar fino de ouro da minha mãe. Um par de brincos de pérola que ela me deu no meu aniversário de vinte e um anos. Hesitei antes de colocá-los na bolsa mais cedo, pois as memórias ligadas a eles eram pesadas e agridoce.

Meus certificados foram enrolados em uma pasta de plástico e deslizados cuidadosamente entre minhas roupas.

A prova de que um dia — um dia — eu fui alguém.

Antes de Brian.

Antes de minha família me virar as costas.

Antes de a garota que se formou com honras se transformar em alguém que se encolhia toda vez que uma porta batia.

O motor da caminhonete desligou lá fora.

Meu pulso batia forte contra as costelas.

Então me movi rapidamente, deslizando para debaixo dos cobertores e virando de lado. Diminuí minha respiração, fechei os olhos e forcei meu corpo a ficar imóvel.

A porta da frente se abriu com um estrondo.

Brian entrou tropeçando.

Mesmo do quarto, eu conseguia sentir o cheiro de álcool.

Uma garrafa bateu na bancada da cozinha. Algo caiu no chão. Ele murmurou uma série de palavrões entre os dentes.

Mantive meus olhos fechados.

Imóvel.

Silenciosa.

Invisível.

Os passos dele eram irregulares enquanto ele caminhava pelo apartamento.

O piso rangeu.

Uma cadeira arrastou.

Uma porta de armário bateu.

Meus dedos apertaram o cobertor.

Por favor, apenas vá dormir.

Por favor, apenas me deixe em paz esta noite.

A porta do quarto se escancarou.

Meu corpo inteiro ficou rígido sob os lençóis.

Brian ficou parado ali por um momento, balançando levemente. Eu podia sentir a presença dele mesmo com os olhos fechados — o cheiro forte de uísque, o calor de sua raiva.

Ouvi-o exalar bruscamente pelo nariz.

Então, suas botas pesadas atravessaram o quarto.

O colchão afundou quando ele se jogou na cama.

O impacto fez a cabeceira bater contra a parede.

Fiquei perfeitamente imóvel.

Segundos se passaram.

Depois, minutos.

Brian se mexeu uma vez, resmungando algo ininteligível.

E então o som veio.

Um ronco profundo e irregular.

Meus olhos abriram lentamente.

Encarei a escuridão.

Não tenha pressa.

Não tenha pressa.

Contei cada respiração que ele dava. Esperei o ritmo ficar mais profundo. Esperei até que a tensão no meu peito diminuísse o suficiente para me mover.

Com cuidado, lentamente, deslizei para fora debaixo dos cobertores.

Brian não se mexeu.

Meus pés descalços tocaram o chão. A madeira parecia fria sob minha pele.

Estiquei a mão para pegar a bolsa de lona.

Meu coração batia tão forte que eu tinha certeza de que ele acordaria.

Passo a passo, movi-me em direção à porta do quarto.

Brian roncou novamente, mais alto desta vez.

O som quase me fez chorar de alívio.

Deslizei para o corredor.

Depois, para a sala.

O apartamento parecia diferente no escuro. Menor. De alguma forma, mais cruel.

A moldura quebrada na parede.

A marca no armário da cozinha da noite em que Brian jogou uma cadeira.

A mancha no carpete de uma garrafa que derramou.

Forcei-me a não olhar em volta por muito tempo.

Olhar significava lembrar.

Lembrar significava hesitar.

E hesitar poderia me levar à morte.

Minha mão envolveu a maçaneta.

Lentamente.

Lentamente.

Eu a girei.

A trava estalou suavemente.

Fiquei paralisada.

O ronco de Brian continuou vindo do corredor.

Abri a porta e saí sorrateiramente.

O ar frio da noite atingiu meu rosto como liberdade.

Por um segundo, fiquei apenas parada ali.

Eu tinha imaginado esse momento tantas vezes.

Correndo.

Indo embora.

Mas agora que estava acontecendo, minhas pernas pareciam pertencer a outra pessoa.

Ande.

Forcei meus pés a avançar.

Desci os degraus.

Atravessei o estacionamento esburacado.

Cada sombra parecia ser Brian vindo atrás de mim.

Cada carro que passava fazia meu coração disparar.

Não parei de correr até que o prédio do apartamento estivesse a três quarteirões de distância.

E mesmo assim, não diminuí o passo.

A luz do ponto de ônibus piscava fracamente acima da rua vazia.

Um ônibus estava encostando quando cheguei à calçada.

Subi, sem fôlego.

O motorista me olhou pelo espelho retrovisor.

"Para onde?"

Agarrei a alça da minha bolsa.

Minha mente estava em branco.

Para qualquer lugar.

Para qualquer lugar, menos lá.

"Para algum lugar bem longe", eu disse baixinho.

O motorista estudou meu rosto por um momento.

Talvez ele tenha visto o medo.

Talvez ele tenha visto o hematoma na minha bochecha que tentei esconder com maquiagem.

Ou talvez ele simplesmente não fizesse perguntas.

Ele assentiu uma vez.

"Rodoviária", disse ele.

Afundei em um assento perto do fundo.

O ônibus se afastou da calçada.

As luzes da cidade passaram borradas pela janela.

A cada quilômetro, o nó em meu peito diminuía um pouco.

Brian tinha ficado para trás.

Pela primeira vez em três anos…

Eu estava partindo.

A rodoviária estava quase vazia quando chegamos.

O motorista parou ao lado da calçada e abriu a porta.

"É aqui que eu termino o trajeto", disse ele.

Agradeci baixinho e pisei no asfalto.

A estação cheirava a café velho e concreto frio.

Luzes fluorescentes zumbiam acima.

Sentei-me em uma das cadeiras de plástico duro e peguei meu celular.

A tela iluminou-se na escuridão.

Meus dedos tremiam enquanto eu abria um site de anúncios de aluguel.

Apartamentos.

Quartos.

Qualquer coisa.

As opções que apareciam eram pequenas.

Baratas.

E, em sua maioria, em bairros que eu nunca tinha ouvido falar.

Um anúncio chamou minha atenção.

Um estúdio minúsculo.

Aluguel barato.

Disponível imediatamente.

O endereço ficava em uma parte da cidade que as pessoas geralmente evitavam.

Bairro perigoso, a descrição admitia sem rodeios.

Mas o preço era algo que eu podia pagar.

E agora mesmo…

O perigo parecia melhor do que voltar.

Salvei o endereço.

Então me encostei na cadeira, puxando minha bolsa para mais perto.

Lá fora, o céu estava começando a clarear.

A manhã ainda estava a horas de distância.

Mas eu esperaria.

Porque assim que o sol nascesse…

Eu iria ver aquele apartamento.

E recomeçar.