Crônicas de Guerra

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Resumo

Em um mundo onde o poder é escrito com sangue e a lealdade é comprada com o silêncio... a verdade é a arma mais perigosa de todas. Alina Virelli sobreviveu à noite que destruiu sua família. Mas a sobrevivência teve um preço, um que ela vem pagando desde então. Fria. Calculista. Intocável. Ela se tornou exatamente o que o mundo temia. Até cruzar o caminho do império de Antonio Gambino. Um homem forjado no caos. Um rei coroado aos dezesseis anos. Um predador que não perde o controle... até ela aparecer. O passado deles está conectado por uma noite. Um massacre. Uma verdade enterrada tão fundo que jamais deveria ser encontrada. Mas quando os segredos começam a vir à tona, e inimigos se transformam em algo muito mais perigoso — O desejo se torna uma arma. A confiança se torna um risco. E o amor... se torna guerra. Porque neste jogo — Você não apenas se apaixona. Você sobrevive a isso. Ou não.

Gênero
Romance
Autor
Denisa
Status
Completo
Capítulos
35
Classificação
5.0 2 avaliações
Classificação Etária
18+

Capítulo 1

CAPÍTULO UM

Alina Virelli


As pessoas acham que o poder soa como tiros.

Não soa.

Ele soa como o silêncio.

Soa como uma caneta assinando contratos que valem mais do que vidas.

Soa como números mudando silenciosamente de uma conta para outra.

E soa como eu dizendo:

"Mova isso."

O homem do outro lado da minha mesa hesita.

"Eu... eu só preciso de uma confirmação antes de..."

"Mova. Isso."

Minha voz não se eleva.

Nunca se eleva.

Ele engole em seco. "São quarenta milhões."

"Eu sei contar."

Um momento de silêncio.

Então ele faz.

Quarenta milhões desaparecem em menos de três segundos.

Simples assim.

Um homem em algum lugar morrerá esta noite.

Porque eu permiti.

Recosto-me na cadeira.

"Da próxima vez", digo calmamente, "se você hesitar desse jeito de novo, não serei eu quem decidirá para onde o dinheiro vai."

O rosto dele perde a cor.

"Sim, Srta. Virelli."

Srta. Virelli.

Eles nunca me chamam de Alina.

Alina é suave.

Alina é o que minha mãe sussurrou antes de morrer sangrando sobre os pisos de mármore.

Srta. Virelli é como eles chamam a mulher que construiu um império sobre as cinzas.

Levanto-me, com meus saltos ecoando contra o mármore preto.

"Agende a reunião."

"Com os russos?"

"Com quem quer que pense que pode me enganar."

Ele assente rapidamente.

Passo por ele, e ele se afasta rápido demais, quase tropeçando.

O medo é eficiente.

O medo funciona melhor do que a lealdade.

As portas do elevador se fecham.

Meu reflexo me encara.

Cabelo loiro-acinzentado caindo sobre um ombro.

Olhos frios.

Batom perfeito.

Sem rachaduras.

"Você sente culpa alguma vez?"

A pergunta vem de trás de mim.

Marco.

Ele não deveria falar, a menos que eu permita.

"Sobre o quê?", pergunto.

Ele se mexe. "As transferências. Os desaparecimentos."

Viro-me lentamente.

"Você sente culpa quando respira?"

Ele franze a testa.

"Isso é diferente."

"Não", digo suavemente. "Não é."

Silêncio.

Dou um passo à frente.

"Se eu não mover o dinheiro, outra pessoa move. Se eu não assinar o papel, outra pessoa assina. A diferença é..."

Inclino a cabeça.

"...eu faço melhor."

O elevador apita.

As portas se abrem.

Conversa encerrada.

As portas se fecham atrás de mim, abafando o barulho do saguão.

Caminho pelo corredor silencioso da minha cobertura. A cidade zumbe lá embaixo, alheia ao império que comando aqui de cima.

Paro diante do espelho que vai do chão ao teto. Meu reflexo me encara: cabelo loiro-acinzentado em cascata sobre os ombros, olhos mais afiados que facas, lábios perfeitamente pintados, mas sem sorriso.

Inclino a cabeça, estudando a mim mesma.

Eu sou Alina Virelli.

E não sou nada do que eles esperam.

Não sou a garota sobre a qual sussurravam nos corredores da escola. Não sou a herdeira que imaginaram que se apaixonaria, se casaria e desapareceria calmamente em uma vida de luxo.

Não sou frágil. Não sou suave. Sou um registro de dívidas e um balanço de vidas. Sou a calma na tempestade de homens que pensam que poder resume-se apenas a armas. Eu sei mais.

Cada transação, cada número, cada assinatura — essas são as minhas armas. Manejo-as com precisão. Destruo impérios com um movimento de caneta. Faço as pessoas implorarem… e então decido quem vive e quem morre.

Não sou humana da forma como eles compreendem. Eu sou a consequência. Eu sou o controle. Sou a Srta. Virelli — o nome que mantém homens crescidos acordados à noite, o fantasma que eles não podem tocar, a mulher que temem desafiar.

Movo-me pelo meu apartamento, cada passo deliberado. Os pisos de mármore preto ecoam sob saltos que percorreram o caminho do sangue e do ouro. O lugar está silencioso, exceto pelo tique-taque suave de um relógio na parede. Este é o meu santuário — e o meu campo de batalha.

Olho pela janela. A cidade se estende sem fim, luzes brilhantes mascarando as sombras por baixo. Essas sombras estão sob meu comando.

Sirvo uma taça de vinho tinto, girando-a delicadamente. O aroma de ferro me lembra que, mesmo no luxo, a vida é frágil.

Sento-me na cadeira de encosto alto perto da minha mesa, deixando o silêncio me envolver. Eu sou Alina Virelli, e sou cada boato sussurrado sobre mim multiplicado por dez.

Sou filha do poder, herdeira da crueldade, guardiã de segredos que poderiam derrubar nações.

E esta noite… esta noite, sou eu mesma.

Calma. Fria. Calculista. Perigosa.

Flashback - 15 anos atrás

A noite tinha cheiro de sangue e laranjas.

Eu me lembro disso. Cada som. Cada grito. Cada tiro.

Eu tinha dez anos. Dez anos de idade.

Minha casa na Sicília — a propriedade dos Virelli — fervilhava com risadas. Minha família reunida no pátio, brindando a negócios, ao poder, às linhagens.

E então tudo se despedaçou.

O primeiro grito veio da ala dos criados.

"Alina! Fique dentro!", minha mãe gritou, com a voz afiada como uma lâmina.

Eu congelei, pressionada contra a parede, observando sombras se moverem.

Homens de preto, máscaras como a própria morte, invadiram o pátio. Armas nas mãos. Rostos que eu não conhecia, mas intenções que eu podia sentir: matar, apagar, destruir.

Meu pai deu um passo à frente.

“Não encoste nela”, ele ordenou. Sua voz estava firme, mas seus olhos denunciavam a tempestade que guardava por trás deles.

Uma bala cortou o ar. Ele caiu.

“Corra!”, minha mãe gritou.

Eu não sabia para onde. Eu não sabia como. Mas eu corri.

Tropecei pelos jardins da propriedade, passando por fontes tingidas de vermelho pelo sangue, por muros que um dia me protegeram e agora não ofereciam piedade alguma.

Eu podia ouvi-los — meus tios, meus primos, os guardas da família — morrendo um por um.

E então eu a vi.

Nonna Lucia. Irmã da minha mãe. Esposa do meu tio. Minha protetora.

“Alina! Siga-me!”, ela sibilou, puxando-me para trás de si por passagens secretas que eu nem sabia que existiam.

“Onde...?”, sussurrei, engasgada com a fumaça e o medo.

“Viva. Isso é tudo o que importa.”

Ela me arrastou pelos túneis sob a vila, entrando na escuridão, em busca de segurança... por enquanto.

Semanas se passaram escondida.

Tio Matteo, irmão do meu pai, me acolheu.

“Você sobreviveu”, disse ele, com o rosto duro como pedra. “A maioria das crianças morre. Você... você não. Você é uma Virelli.”

“O que eu faço agora?”, perguntei, com a voz pequena e trêmula.

“Você aprende”, ele respondeu.

“Você observa. Você escuta. Você aprende tudo sobre poder, sobre medo, sobre controle.

E um dia... você retornará.”

Todos os dias, Nonna Lucia martelava em minha mente:

“Você é invisível, Alina. O mundo tentará te destruir. Eles tentarão te tocar, te assustar, roubar sua vida. Deixe que tentem uma vez... depois, faça com que se arrependam.”

Aprendi a contar balas antes do café da manhã.

Aprendi a ler as intenções dos homens pelos seus sapatos.

Aprendi a fazer um sussurro valer uma vida.

Aprendi a fazer o silêncio soar mais alto que os gritos.

Certa noite, ela me sentou na sala iluminada por velas, com sombras dançando nas paredes de pedra.

“Olhe para mim, criança. Escute com atenção. Esta é a lição que você jamais deve esquecer.”

Eu assenti.

“Vingança”, disse ela. “Não é sobre raiva. Não é sobre emoção. É precisão. Calculada. Controlada. Impiedosa. Você não vai chorar. Você não vai gritar. Você não vai hesitar. Você vai esperar... e quando a hora chegar, eles vão te temer mais do que jamais temeram seu pai.”

Engoli em seco, sentindo um fogo incendiar meu peito.

“E se eu falhar?”, sussurrei.

Ela sorriu, uma curva cruel e afiada.

“Você não vai. Porque o fracasso é um luxo que você não pode se dar. Você é uma Virelli. Você sobreviverá. E você se tornará... inevitável.”

Anos de treinamento se seguiram.

Anos aprendendo segredos, venenos, mentiras, números, nomes, alianças, traições.

Cada lição se gravou em minha mente.

Cada cicatriz tornou-se uma armadura.

Quando fiz quinze anos, eu já não era mais uma criança.

Eu era uma arma.

Silenciosa. Fria. Mortal.

Eu tinha visto minha família ser massacrada. Eu tinha sentido o cheiro de cobre do sangue sob o luar.

Eu tinha aprendido a amar apenas o poder, a confiar apenas nos números, a não temer absolutamente nada.

E agora... eu sou a tempestade que eles deveriam ter temido desde o início.

O flashback desaparece, deixando o zumbido da cidade entrar pelas minhas janelas.

Sento-me sozinha na minha cobertura, com a porta batendo suavemente atrás de mim. As luzes da cidade se estendem infinitamente lá embaixo, milhões de vidas alheias aos impérios construídos e destruídos no silêncio.

Em minhas mãos, seguro uma fotografia.

Meus pais. O maxilar do meu pai firme e confiante, minha mãe sorrindo levemente, com as mãos entrelaçadas como se pudessem segurar o mundo.

Fico olhando para eles, a memória tão afiada quanto uma faca.

“Valeu a pena?”, sussurro para a fotografia. Minha voz ecoa fracamente no apartamento vazio.

O silêncio responde.

Passo o polegar pela curva do sorriso da minha mãe. O calor dela, a risada dela... tudo se foi.

Sinto o fogo antigo em meu peito, aquele que Nonna Lucia acendeu tantos anos atrás. Sobrevivência. Controle. Precisão. Vingança.

Recosto-me na cadeira, pressionando a foto contra o peito.

“Eu sou Alina Virelli”, murmuro suavemente, mais para mim mesma do que para qualquer outro. “E eu sou tudo o que eles não conseguiram destruir.”

Coloco a fotografia sobre a mesa de laca preta, ao lado das pilhas de livros contábeis e telas exibindo números e contas.

“Todo império”, digo em voz alta, caminhando devagar, com meus saltos estalando no mármore, “tem um fantasma. E todo fantasma cobra sua dívida.”

Vou até a janela, observando as ruas lá embaixo. As luzes se misturam em reflexos dourados e carmesim no vidro.

A cidade acha que conhece o medo. Eles acham que ele vem em balas ou gritos.

Eles estão enganados.

O medo vive no silêncio. Na precisão. Em alguém que observa, calcula e espera.

Pego uma taça de vinho tinto e a giro suavemente, a cor capturando a luz fraca. Cobre. Sangue. Memória.

Meu celular vibra. Número desconhecido.

Hesito. Por uma fração de segundo.

Então, atendo.

“Fale”, digo. Calma. Controlada. Perigosa.

Uma pausa.

A voz é baixa, comedida. “Boa noite, Sra. Virelli. Vejo que está bem.”

Aperto o telefone com mais força. “Você tem cinco palavras para fazer isso valer o meu tempo.”

Outra pausa. Então: “Quarenta milhões... não são a única coisa que você controla agora.”

Deixo as palavras pairarem no ar. Um sorriso lento e satisfeito se abre em meu rosto.

“Bom”, murmuro. “Então deixe que aprendam o que acontece quando tentam tirar o que é meu.”

A linha fica muda.

Coloco o telefone de lado, encarando meu reflexo no vidro.

Cabelo loiro-acinzentado. Olhos frios. Batom perfeito. Sem rachaduras.

Eu sou Alina Virelli.

E esta cidade... este império... vai se curvar para mim. Ou vai queimar.