Capítulo 1
~Inverno~
Tentei desesperadamente juntar minhas coisas do chão enquanto recebia outro chute na lateral do corpo. As lágrimas embaçavam minha visão enquanto pegava meus livros e os enfiava rapidamente na mochila.
"Olha só a aberração e sua mochila patética", Alyssa riu com suas amigas enquanto me empurrava para o chão de novo. "Sua mamãe e seu papai não podiam te comprar uma decente?", ela riu mais uma vez.
Levantei-me depressa, tentando enxergar apesar da visão embaçada. O que havia de errado comigo? Por que eu estava chorando? Peguei minha mochila e saí correndo para a próxima aula, torcendo para que ela não acabasse comigo chorando ou machucada, como sempre.
Entrei na sala de aula de cabeça baixa e escolhi o assento do fundo, perto da janela, esperando evitar tudo e todos. Ouvir música sempre me acalmava; fazia-me sentir algo além da dor no peito e do pensamento de que eu nunca seria amada. Nem por um amigo, nem por um familiar e, certamente, nem por um amante. Tudo isso parecia muito distante, irreal, quase impossível.
Enquanto eu ouvia minha playlist e olhava para fora, observava os alunos da Evercrest Ember Academy saindo para o recreio. A EEA era uma das escolas mais prestigiadas e tinha um campus enorme. Todos ali pareciam felizes e perfeitos. Eu não conseguia evitar o desejo de terminar logo o ensino médio para finalmente ter a chance de um recomeço.
Enquanto observava a todos, alguém se destacou: o garoto que eu sempre olhava de longe. Nunca tinha visto ninguém tão lindo. Com seus cabelos escuros, olhos escuros e traços marcantes, ele parecia um deus. E, com certeza, tinha o corpo de um.
Ele parecia ter quase 1,90m, o que provavelmente esmagaria meu 1,57m. Músculos ondulavam sob sua camisa a cada movimento. Sua pele estava cheia de tinta onde ficava exposta. Mas eu tinha certeza de que, debaixo daquela camisa e calça, devia haver muito mais tatuagens do que eu imaginava.
Não era a primeira vez que eu o observava, nem seria a última. Havia algo nele que fazia o baixo ventre apertar. Não sabia se isso era normal ou se deveria procurar um médico. Mas era uma sensação boa, como se meu corpo quisesse, não, precisasse de mais.
A aula tinha começado há minutos, mas eu não estava prestando atenção. Nem percebi que a turma inteira ainda falava de mim e jogava bolinhas de papel na minha direção. Eu estava perdida naquela criatura maravilhosa lá fora.
"Ei, aberração! Estamos falando com você, sua vadiazinha. Você é surda também?", Sarah gritou enquanto batia na minha cabeça, fazendo meus fones caírem sobre a mesa.
"Não me ouviu, vadia? Eu perguntei para quem você está olhando?", ela insistiu enquanto eu piscava, segurando as lágrimas.
"E-eu estava só... olhando", murmurei, encarando o chão.
Ela me empurrou da cadeira e me jogou no chão, enquanto eu gemia de dor.
"Eu sei disso. Eu pareço idiota para você? Hã? Eu disse quem? Para quem você estava olhando? Responda!", ela gritou, empurrando-me com mais força.
"P-para... para ele", eu disse em prantos, apontando com o dedo trêmulo para o garoto.
Ela riu alto com as amigas, a ponto de eu me perguntar o que era tão engraçado.
Assim que se acalmaram, ela me olhou com uma expressão de deboche.
"Você está olhando para o Evander? O próprio Evander Marchesi?", ela riu ainda mais forte.
Esse era o nome dele. Evander. Evander Marchesi.
"Você é muito mais patética do que eu pensava. Você sabe pelo menos quem ele é? Acha que ele olharia para alguém como você? Te amaria? Te comeria?"
Ela fez uma pausa com um sorriso malicioso. "Ah, espera, desculpa, ele não fode virgens patéticas."
Elas foram embora, deixando-me sozinha na sala, no chão, chorando. Eu não aguentava mais aquilo. Precisava sair dali. Agora.
Arrumei minha mochila e peguei uma autorização do diretor para sair mais cedo. Eu não conseguia ficar nem mais um segundo.
Saí e respirei o ar fresco, tentando me acalmar.