One - Raze
O céu estava um breu, mesmo não sendo tão tarde, o sol de inverno se despedindo cedo. Dei um gole na cerveja, revirando os olhos para os dois.
"Você é lento pra caralho!" Grizzly riu, conseguindo colocar Mack em uma gravata, mas sem fazer muita coisa além disso.
"Bando de viado," Banks riu, enquanto Mack empurrava Grizzly para longe.
"Eu quero você!" Ele gritou, apontando para mim, e eu zombei, terminando minha cerveja.
"Eu ia acabar com a sua raça," resmunguei, pegando outra cerveja no cooler.
"Qual é, Pres, tá com medo?" Mack levantou as mãos. Espancar um irmão bêbado não era lá grandes coisas, mas se era o que ele queria...
"Kayo!" chamei. Ele estava sentado no chão, a poucos centímetros de nós, fazendo desenhos na terra com um graveto. Ele olhou para cima, com seus olhos cinzentos idênticos aos meus e aos do Ace, embora seu cabelo escuro ainda não estivesse comprido. "Vem sentar com o tio Banks," eu dei um tapa no fardo de feno e ele pulou, com um sorriso enorme no rosto.
"Kayo, olha só eu dar uma surra no seu pai," Mack cacarejou, e Grizzly o empurrou contra os fardos de feno que formavam o ringue, caindo na risada.
"Não escuta ele, Kayo," joguei minha garrafa vazia para o lado, enquanto Banks sentava no fardo de feno ao lado dele. "Você nunca me venceu, nem uma vez," bati no peito. Mack balançava, levemente.
"Hoje é o dia!" Ele gritou, e eu acertei um direto no queixo dele, fazendo-o cair no chão com um baque.
"Raze!" Banks gritou, rindo muito, e eu agarrei a gola do colete de Mack, com seu olho direito já começando a fechar.
"Seu merda!" Ele tentou chutar, acertando meu joelho com o pé. Cambaleei um pouco, mas não caí, e em vez disso, mandei outro soco na lateral do rosto do Mack.
"Desiste, irmão," ri, colocando meu joelho sobre o peito dele.
"Você é um trapaceiro do caralho!" Ele riu, tentando se soltar da minha pegada em vão.
"Certo," levantei, limpando minhas calças e dando um passo atrás. "Vamos nessa," dei de ombros. Mack se levantou devagar e eu olhei para Kayo, com seus olhos arregalados de espanto. Assim que virei a cabeça, Mack veio para cima de mim, me prendendo contra o fardo de feno e socando minha barriga.
"Seu filho da puta," gemi, agarrando a garganta de Mack com uma mão e varrendo suas pernas por trás dos joelhos, levando-o ao chão. Sentei no peito dele e disparei alguns socos enquanto ele tentava proteger o rosto com os braços.
"Já deu, já deu!" Grizzly gritou, me ajudando a levantar. Limpei meu colete antes de puxar Mack para cima.
"Ia acabar com a minha raça, é?" ri, e ele me empurrou pelo peito, com um sorriso enorme no rosto.
"Trapaceiro do caralho, Kayo," ele disse para o menino, e Kayo ficou mais ereto, prestando atenção. "O Raze não sabe lutar limpo-"
"Vai se foder!" Cortei ele, voltando para perto de Kayo e Banks.
"O Raze te venceu, Tio Mack!" Kayo riu, e todos caíram na gargalhada.
"Como sempre. Vamos embora, antes que a mamãe me mate," coloquei ele no chão, com sua mãozinha na minha.
"O dinheiro das armas chega amanhã," Mack me avisou enquanto caminhávamos até a entrada da fazenda do Grizzly. As motos de Banks e Mack estavam alinhadas.
"Só joga no cofre," dei um tapa no peito dele, sabendo que o Fatty cuidaria dos cortes.
"Te vejo amanhã, irmão?" Grizzly perguntou, enquanto Kayo tentava me puxar pela mão.
"É, estarei no clube," confirmei. Grizzly se abaixou para falar com Kayo.
"Clube amanhã?" Ele perguntou, e Kayo concordou, com um sorrisinho nos lábios.
"Eu quero andar de moto amanhã," ele sorriu, olhando para cima para mim.
"Tenho certeza que a gente consegue dar um jeito," ri, e nós dois caminhamos pela calçada deserta, com o som das motos atrás de nós.
"Papai?" Kayo perguntou, e eu olhei para baixo, com a mão dele ainda na minha.
"O que foi?"
"Foi bom vencer o Tio Mack?" Ele se perguntou. Viramos à esquerda e a casa apareceu. Quando Kayo nasceu, ficou claro que nosso apartamento minúsculo em cima do açougue não era suficiente. Finalmente dei à Freya o que ela merecia: estabilidade. Mas, do nosso jeito habitual, foi tudo no estilo dos Knights. Nossa antiga casa estilo celeiro ficava a duas propriedades da fazenda do Grizzly, com terra suficiente para eu fazer minhas bagunças e uma garagem conectada às paredes de tijolos claros, onde ficavam minha moto e a do Kayo. Aos quatro anos, ele tinha exatamente a mesma idade que eu tinha quando ganhei minha primeira moto de trilha; ele só tinha dado umas voltinhas poucas vezes, mas chegaria lá.
"Rapaz, deixa eu te falar sobre o Tio Mack," ri, agachando-me até ele quando chegamos à porta vermelha da frente. "Ele fala demais, e tudo bem," dei de ombros, com os olhos de Kayo fixos em mim. "Mas para falar tanto, tem que provar. E o Tio Mack não prova nada," pausei, abrindo o zíper da sua jaquetinha de couro; as mangas estavam longas demais, mas ele logo cresceria. No lado direito do peito havia apenas um bordado, a letra K. "Então sim, eu gostei," admiti, e ele deu uma risadinha. "Vamos ver se a mamãe cozinhou algo gostoso?" Sugeri. Ele concordou rapidamente, segurando minha mão de novo quando me levantei. Assim que abri a porta, senti o cheiro do jantar e soube que meus sonhos tinham se realizado.
"Querida?!" gritei, pendurando meu colete perto da porta e ajudando Kayo a tirar a jaqueta.
"Na cozinha!" Ela gritou de volta. Caminhamos até o ambiente enorme, com bancadas verde-escuras e madeira de carvalho, e uma mesa enorme no centro.
"O que você está fazendo?" Perguntei, envolvendo sua cintura com meus braços enquanto ela estava no fogão.
"Peixe-gato e milho-"
"Querida!" Gritei, dando um tapa na bunda dela ao me afastar. "Kayo, vá se lavar," ordenei. Ele saiu correndo da cozinha e Freya se virou para mim.
"Você está bem?" Ela perguntou, com a mão na lateral do meu pescoço. Envolvi a cintura dela novamente, nossos rostos a centímetros de distância.
"Kayo quer ir ao clube amanhã," disse rapidamente, e ela desviou os olhos dos meus lábios. "Dá para parar de ser safada? Eu estou-"
"Eu sequer tenho um filho?" Ela zombou, e eu não consegui evitar a risada, levando minhas mãos para a bunda dela. "Ou você teve ele sozinho?"
"Este pode ser uma menina," dei de ombros, ouvindo Kayo pisar forte nas escadas.
"Uma menina do papai? Acho que isso é pior," Freya riu, e eu a puxei para mais perto, com as mãos dela no meu peito.
"Você está se sentindo bem?" Perguntei, e ela concordou, com um sorriso lindo no rosto.
"Cansada, mas estou bem, amor," ela beijou minha bochecha.
"Eu termino o jantar, vá descansar," sussurrei no ouvido dela, mas não a deixei sair.
"Raiden," Freya riu.
"Mamãe, posso comer dois pães de milho?!" Kayo gritou, fazendo Freya levar um susto.
"O que você quiser, querido."