Capítulo 1 – Sangue na Porta
POV de Mia
A estrada já tinha desaparecido atrás de mim há muito tempo.
Não me lembro de quando o asfalto virou cascalho. Ou de quando o cascalho virou terra. Ou de quando meus sapatos — um perdido, o outro quase saindo — pararam de proteger meus pés.
Cada passo queima.
Cada respiração parece vidro quebrado arranhando meus pulmões.
Mas eu não posso parar.
Parar significa que ele vai me encontrar.
E se ele me encontrar...
Um soluço sobe pela minha garganta, agudo e violento, mas eu o forço para baixo. Mordo a língua com força suficiente para doer.
Barulho é perigoso.
Barulho faz com que me peguem.
Continue andando.
A noite me cerca, densa e sufocante. Não há postes de luz. Nem casas. Apenas sombras, árvores e o zumbido distante de algo mecânico — talvez motores.
Ou talvez eu esteja finalmente enlouquecendo.
Minhas pernas cedem.
Caio no chão com força, batendo as mãos na terra e no cascalho. Eu me apoio por puro instinto, mas é um movimento errado, tardio e desajeitado.
A dor surge instantaneamente quando a pele se abre, aguda e direta nas minhas palmas; uma ardência quente que deveria ter me feito recuar.
Mas quase não sinto.
Tudo parece... distante.
Como se eu não estivesse mais totalmente dentro do meu próprio corpo.
Meus dedos se contraem contra o chão enquanto tento me levantar, mas algo na minha mão direita não responde direito — está fraco demais, errado demais. Uma dor profunda floresce sob a pele, irradiando pelo meu pulso em uma pulsação maçante que piora, me dizendo que algo mais do que apenas um arranhão aconteceu quando caí.
Engulo em seco, tentando me concentrar e me mover mesmo assim.
Levante-se.
Mas, quando coloco peso sobre aquela mão novamente, a dor é tão aguda que minha visão pisca em branco por meio segundo.
Não... não, isso não está certo.
Eu a levanto levemente, tremendo, mal conseguindo fechar os dedos.
Tem algo errado.
Torcido. Talvez pior.
A percepção não vem em palavras, apenas como uma sensação — instabilidade, fraqueza, uma dor que não condiz com o ferimento que consigo ver.
Minha respiração falha.
Mas me forço a seguir em frente mesmo assim.
Porque parar ainda não é uma opção.
Levante-se.
Forço meus braços a funcionarem. Forço meu corpo a ficar ereto.
Um passo.
Depois outro.
Minha visão embaça, com o preto se espalhando pelas bordas. Pisco com força, tentando limpar — mas só vejo ele.
O jeito que sua boca se contorce quando ele está com raiva.
O jeito que seus olhos ficam vazios logo antes de ele me bater.
O som...
Não.
Não pense nisso.
Tropeço para frente e tudo o que consigo sentir é o gosto de sangue. Minhas costelas gritam, uma dor aguda e profunda. Algo está errado lá, muito mais do que apenas hematomas — mas não tenho tempo para parar e descobrir o que é.
Não tenho tempo para nada, exceto fugir.
Então ouço de novo.
Motores.
Mais alto desta vez.
Real.
Levanto a cabeça devagar, como se ela estivesse pesada demais para o meu pescoço segurar.
E através das árvores...
Eu vejo uma luz.
Não é suave.
Não parece um lugar seguro. Não é algo em direção ao qual você escolheria ir.
Áspera. Brilhante. Piscante.
Um prédio.
Meu coração bate com tanta força que fico tonta.
O terror atinge primeiro.
Porque pessoas significam perguntas.
Ser encontrada por ele.
Mas então...
Algo mais me atingiu.
Esperança.
Apenas um pouco, mas é o suficiente.
Eu sigo em frente mesmo assim, cada passo mais instável que o anterior. O chão oscila sob meus pés — ou talvez eu é que esteja oscilando. Galhos arranham meus braços, meu rosto, puxando meu cabelo.
Eu não sinto.
Não exatamente.
Tudo o que consigo ver é a porta.
Grande. De metal.
Aberta apenas o suficiente para deixar a luz e o barulho escaparem para a escuridão.
Risadas.
Música.
Vozes de homens — baixas, ásperas, sobrepostas.
Saio das árvores e vou para o espaço aberto.
O mundo gira.
Existem vultos lá dentro. Movendo-se. Muitos deles. Não consigo entender o que são.
Meu coração martela tanto na minha cabeça.
Diga algo.
Peça ajuda.
Minha boca abre, mas nada sai.
Tento de novo, forçando o ar para os meus pulmões, ignorando a dor lancinante.
“Socorro...”
Minha voz falha.
Alguém se vira.
Um homem. Ombros largos. Perto da porta.
Dou mais um passo.
Depois outro.
Meu joelho cede.
Bato no chão com força e o branco explode na minha visão.
Não. Não, não, não... levante-se.
Arranho a terra, me arrastando para frente. A luz parece mais distante agora, embora eu saiba que não está.
“Me ajude”, sussurro, as palavras se quebrando em um soluço.
Passos.
Pesados. Rápidos.
A porta se abre com um estrondo.
“Ei... pessoal!”
Uma voz. Grave. Áspera. Alerta.
Botas batem no chão na minha frente.
Tento me empurrar para cima e levantar a cabeça, mas não funciona. Tudo está escapando. Desvanecendo.
Então...
Mãos.
Fortes.
Quentes.
Elas me seguram antes que eu desabe completamente.
“Jesus...”
A voz está bem acima de mim agora.
“Ei. Fique comigo.”
Tento vê-lo.
Eu realmente tento.
Mas tudo está embaçado, uma mancha só. Tudo o que consigo distinguir é um tecido escuro — couro preto esticado sobre um peito largo.
E ali—
Algo me chama a atenção.
Um patch.
Ele aparece e desaparece do meu foco, mas consigo ver pedaços dele.
Gasto nas bordas.
Costura grossa, diferente das outras partes.
Palavras curvas na parte superior.
Sergeant at Arms.
Eu não entendo isso direito.
Na verdade, não entendo.
Mas algo bem lá no fundo de mim entende.
Autoridade.
Controle.
Proteção.
Aquele que intervém quando as coisas dão errado.
Aquele que não deixa as coisas saírem do controle.
Aquele que mantém as pessoas seguras.
Seguras.
A palavra me atinge novamente.
Mais forte desta vez.
Meus dedos se movem sem pensar, agarrando-se fracamente à camisa dele, bem em cima daquele patch.
Como se significasse algo.
Como se tivesse que significar algo.
"Por favor", sussurro.
"Eu estou com você", ele diz, sua voz rouca e firme. "Você está bem."
Ninguém nunca me disse isso com sinceridade.
Meu corpo estremece uma vez, forte, violento, como se tudo dentro de mim estivesse finalmente cedendo.
"O que aconteceu com ela?", alguém exige atrás dele.
"Não importa agora", ele dispara. "Stacy!"
Mais passos.
Mais rápidos.
"Estou indo", responde uma voz feminina.
Eu tento me segurar.
Na voz dele.
No calor das mãos dele.
Na forma sólida e constante com que ele me segura, como se eu não fosse me despedaçar em seus braços.
Mas está escapando.
Tudo isso.
A escuridão está puxando mais forte agora.
"Fique comigo", ele diz novamente, mais perto desta vez.
Como se ele pudesse me manter aqui só por dizer isso.
Eu quero.
Meu Deus, eu quero.
Mas estou tão cansada.
Minha força diminui.
Não completamente.
Meus dedos ainda se agarram fracamente à camisa dele, roçando naquele patch como se fosse a única coisa real que restou no mundo.
Minha cabeça cai contra o peito dele.
E, pela primeira vez em uma eternidade—
Eu paro de lutar.
E me deixo levar.
Eu volto em pedaços.
Não tudo de uma vez, nunca tudo de uma vez. Apenas fragmentos. Som antes da visão, dor antes da memória.
Vozes surgem primeiro.
"...profundo demais para só esta noite, ela precisa de pontos."
"Ela vai levar. Faça o que puder agora."
"Segure-a firme."
Meu corpo fica tenso antes mesmo de eu entender o porquê. Instinto. Medo. Meu coração começa a disparar, batendo tão forte que minhas costelas protestam.
"Não—" A palavra escapa da minha garganta antes que eu possa impedir.
Tudo fica nítido de repente.
A luz queima meus olhos quando eles se abrem subitamente. Eu ofego, tentando me afastar, mas mãos já estão sobre mim, firmes e constantes, não me deixando mover.
O pânico explode.
"Não, não, não faça isso, por favor—" Minha voz se quebra em um som feio e desesperado. "Eu vou ficar quieta, eu juro, eu vou parar—"
"Ei."
A voz é feminina. Calma, mas firme.
"Olhe para mim."
Seguras.
A palavra flutua em algum lugar fora do meu alcance. Sem sentido. Distante.
Mas eu olho assim mesmo.
O rosto dela entra em foco lentamente: cabelos loiros presos para trás, olhos astutos, porém gentis, fixos nos meus. Há sangue nas mãos dela.
O meu sangue.
Eu estremeço.
"Eu sei", ela murmura, percebendo. "Eu sei que dói. Eu preciso limpar isso, tudo bem?"
"Não—" Tentei afastar meu braço, mas isso enviou um choque de dor direto por mim. Eu engasguei com um grito.
"Calma", ela diz. "Calma. Eu estou com você."
As mãos apertam meus ombros, fortes, inflexíveis. Não prendendo. Segurando.
Dando suporte.
Eu congelo.
"Bree, mantenha-a firme", a mulher acrescenta sem desviar o olhar de mim.
Outra presença se aproxima do meu outro lado.
"Segurando", diz a outra mulher rapidamente.
A voz dela é diferente, mais leve que a da outra mulher, mas focada agora. Sem brincadeiras. Sem piadas. Apenas atenção. Atenção real.
Um segundo par de mãos entra cuidadosamente, apoiando meu braço por baixo para que ele não se mova errado novamente.
"Eu não vou te machucar", ela diz, mais suave agora, como se tentasse atravessar o pânico com a voz em vez de lutar contra ele. "Só não se mexa bruscamente, ok? Estamos apenas tentando te ajudar."
Minha respiração ainda está toda errada, rápida demais, superficial demais, como se meu corpo tivesse esquecido como fazer isso direito.
Eu balanço a cabeça levemente. "Eu não posso— Eu não posso—"
"Eu sei", ela diz imediatamente. "Eu sei. Apenas fique conosco por um segundo."
A mulher se inclina novamente, mais perto desta vez, sua expressão constante.
"Olhe para mim", ela repete.
Eu olho.
Porque não sei o que mais fazer.
Atrás delas, ouço movimento: passos, mais pesados agora, controlados, mas rápidos.
O homem que me segurou.
Ele está lá.
Eu o sinto antes mesmo de vê-lo.
Aquela mesma pressão firme que reconheci antes pressiona minhas costas novamente, diferente das mãos das mulheres: mais forte, ancorando de uma forma que meu corpo reage instintivamente.
A voz dele abaixa.
"Fale comigo", ele diz.
Não é uma ordem.
É um elo.
Eu tento responder, mas sai quebrado. "Eu—eu não posso—minha mão—"
"Eu sei", ele diz imediatamente, mais perto agora. "Eu estou segurando."
E então a mão dele está lá, cuidadosa, quente, envolvendo meu pulso onde ele está tremendo incontrolavelmente.
Não forçando.
Não restringindo.
Apenas mantendo-a parada para que não doa tanto.
"Estou segurando sua mão", ele diz novamente, mais baixo. "Você não está passando por isso sozinha."
Algo dentro do meu peito se parte com isso.
A primeira mulher se ajeita um pouco, ainda segurando meu braço com firmeza. “Ok, vou limpar isso agora. Vai arder um pouco, mas vou devagar.”
Eu balanço a cabeça fracamente. “Não — não, não faça — por favor!” Eu imploro entre suspiros.
“Ei,” ele diz imediatamente, sua voz cortando o medo antes que ele pudesse crescer. “Você está a salvo. Está me ouvindo? Eu não vou te machucar.”
A salvo.
Essa palavra de novo.
Não faz todo o sentido ainda.
Mas traz alguma estabilidade.
O suficiente.
A mulher começa a trabalhar com cuidado, e eu sinto antes de ver — a ardência, aguda e imediata — mas, desta vez, não mergulho sozinha na dor.
“Não vou deixar nada acontecer com você,” ele diz baixinho, perto o suficiente para que eu sinta mais do que ouça.
Meu peito aperta.
Eu não acredito nele.
Eu quero acreditar.
Esse é o problema.
A mulher — Stacy, acho que alguém a chamou assim — começa a trabalhar de novo. Um pano úmido é pressionado contra a minha lateral.
A dor explode tão forte que rouba o ar dos meus pulmões.
Eu ofego, arqueando as costas, as mãos buscando algo — qualquer coisa — para segurar. O mundo gira bruscamente de novo, como se tentasse se soltar debaixo de mim, e meu corpo reage antes que meus pensamentos consigam acompanhar.
Eu o encontro.
Meus dedos se prendem à frente da camisa dele antes que eu consiga me impedir, agarrando-me como se ele fosse a única coisa sólida que restou em um lugar que insiste em virar um caos.
Ele não se afasta.
Nem hesita.
Em vez disso, sua mão sobe — lenta, controlada — e envolve suavemente meu pulso onde estou segurando-o, não me forçando a soltar, não rompendo meu apoio.
Apenas… guiando.
Dando firmeza.
Como se ele estivesse lembrando ao meu corpo que não preciso mais lutar para me manter em pé.
“Respire,” ele diz, com a voz baixa e constante. “Você está bem. Apenas respire.”
Seu outro braço se move para trás de mim, protegendo minhas costas, mantendo-me ancorada quando tudo dentro de mim quer desabar. A pressão do seu aperto não é restritiva — é um suporte, como se ele estivesse dando ao meu corpo algo onde se apoiar em vez de ceder.
Eu balanço a cabeça, lágrimas escorrendo quentes e rápidas pelas minhas têmporas. “Eu não consigo—”
“Sim, você consegue.” O aperto dele muda, uma das mãos subindo para embalar a parte de trás da minha cabeça, mantendo-me parada, mas de forma gentil. “Inspira. Devagar.”
Eu tento.
Meu Deus, eu tento.
O ar entra com dificuldade, irregular e trêmulo, mas já é alguma coisa.
“Isso, muito bem,” ele murmura.
O pano pressiona novamente — mais dor. Eu solto um gemido, apertando minha mão instintivamente.
“Sinto muito,” Stacy diz, não soando com aquele pesar inútil que as pessoas costumam ter. Ela soa focada. Determinada. “Isso precisa ser limpo, ou vai infeccionar.”
“Infeccionar…” A palavra parece distante. Sem importância.
Nada disso importa se ele me encontrar.
O pensamento atinge-me com tanta força que o ar sai dos meus pulmões novamente.
“Ele vai me encontrar.” As palavras escapam antes que eu possa detê-las. “Eu não deveria ter vindo aqui. Eu não deveria… ele vai—”
“Não, ele não vai.” A voz do homem interrompe a minha, cortante e absoluta.
Eu fico imóvel.
“Ninguém vai encontrar você,” ele continua, agora mais baixo, mas não menos seguro. “Não aqui.”
Minha cabeça vira um pouco, o suficiente para tentar vê-lo.
A princípio, está tudo embaçado. Muita luz, muito movimento. Mas então ele entra em foco.
Olhos escuros. Duros. Focados inteiramente em mim. O maxilar tenso, como se ele estivesse contendo algo.
Raiva.
Não direcionada a mim.
Por mim.
Eu não entendo.
“Quem fez isso?” alguém pergunta de algum lugar na sala.
Meu estômago afunda.
“Não—” Eu balanço a cabeça fracamente. “Não… por favor, não digam nada—”
“Calma,” o homem diz novamente, seu polegar roçando levemente na minha linha do cabelo. O menor dos movimentos, mas isso me acalma instantaneamente. “Você não precisa contar nada a ninguém agora.”
Agora.
Isso significa depois.
O pânico aparece de novo.
Stacy pressiona algo contra a minha lateral — ataduras, eu acho. Minha mente começa a vagar, as bordas de tudo amolecendo.
“Você tem hematomas mais antigos também,” ela diz, agora mais baixo. Não exatamente para mim. “Em diferentes estágios de cicatrização.”
O silêncio responde a ela.
Pesado. Denso.
Eu fecho os olhos com força.
Odeio que ela possa ver isso.
Odeio que qualquer um possa.
“Você está bem,” ele diz novamente, desta vez mais suave.
Eu balanço a cabeça contra ele, mal me movendo. “Não, eu não estou.”
A verdade pesa no meu peito.
Eu não estou bem.
Eu não estou há muito tempo.
A mão dele para por um segundo no meu cabelo. Então—
“Isso vai mudar.”
Algo na voz dele faz com que eu abra os olhos novamente.
Não é esperança.
É algo mais forte.
Uma promessa.
Isso me apavora mais do que qualquer outra coisa.
Porque promessas podem ser quebradas.
E eu não acho que conseguiria sobreviver a isso de novo.
“Por favor…” Minha voz mal passa de um sussurro agora, a exaustão me arrastando para o fundo. “Não deixe que ele me encontre.”
O aperto dele aumenta apenas um pouco, como se ele estivesse me ancorando ali.
“Ele não vai,” ele diz.
Sem hesitação.
Sem dúvida.
A sala começa a desaparecer novamente, as vozes se misturando, a dor diminuindo o suficiente para que meu corpo comece a desligar.
Eu não luto contra isso desta vez.
Não com tanta força.
Porque, pela primeira vez em muito tempo—
Eu não estou sozinha.
E pouco antes de tudo ficar escuro, percebo algo que deveria me assustar mais do que realmente assusta.
Estou confiando em um estranho.
E eles nem sabem meu nome.
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