CAPÍTULO 1
O lobo atingiu o vidro com tanta força que todo o pronto-socorro gritou.
Mara Vale tinha acabado de pegar um par de luvas novas quando as janelas da frente explodiram para dentro em uma tempestade cintilante.
Por um segundo congelado, tudo o que ela conseguiu ver foi luar e dentes.
Então a criatura aterrissou no saguão com um impacto brutal e úmido, deslizando pelo piso em uma chuva de sangue e vidro estilhaçado. Era grande demais para ser qualquer lobo que Mara já tivesse visto; suas costelas estavam arqueadas como se algo o estivesse empurrando de dentro para fora. Seus olhos brilhavam em um vermelho febril e antinatural.
Não âmbar.
Não dourado.
Ardente.
Alguém deu um grito. Um homem de terno tropeçou para trás em uma máquina de venda automática. Enfermeiras se espalharam. As portas automáticas continuavam tentando abrir e fechar ao redor da forma que rosnava, como se o próprio hospital não conseguisse decidir se deveria deixar a morte entrar.
“Código vermelho!”, alguém gritou. “Segurança...”
O lobo avançou.
O corpo de Mara se moveu antes que sua mente pudesse processar. Ela agarrou o suporte de soro mais próximo e empurrou uma cadeira com rodinhas no caminho do primeiro paciente em pânico que tropeçava no saguão. “Saiam da frente!”
O lobo abocanhou o ar onde a garganta do homem estivera um segundo antes.
Suas mandíbulas se fecharam em nada.
Então sua cabeça chicoteou em direção a Mara.
Cada pelo de seus braços se arrepiou.
Ele a encarou como se a conhecesse.
Como se estivesse procurando por ela.
Mara deu um passo para trás. Seu ombro bateu na parede atrás do balcão de triagem, e seus dedos se fecharam na borda do balcão com força suficiente para doer. Seu pulso batia forte contra a garganta. A adrenalina fragmentou o ambiente: o estroboscópio das luzes de emergência vermelhas, o cheiro metálico de sangue e o alarme estridente começando a soar acima de suas cabeças.
O lobo fez um som que não era um rosnado.
Era um uivo quebrado e estrangulado.
E então ele veio atrás dela.
“Abaixem-se!”, alguém gritou.
Mara se abaixou por instinto. Garras rasgaram o balcão onde seu rosto estivera, estilhaçando o laminado. A criatura girou com uma velocidade impossível, as mandíbulas abrindo-se o suficiente para arrancar seu braço.
Ela levantou a mão.
A dor explodiu como brasa quando os dentes se cravaram na base de sua palma.
A mordida não parecia animal.
Parecia deliberada.
Como um ferro de marcar cravado na carne.
Mara arquejou, o som sendo arrancado dela. Ela bateu o calcanhar da outra mão no olho do lobo. Ele a soltou com um rosnado furioso, e ela cambaleou para trás, com sangue escorrendo pelo pulso.
O mundo inclinou-se.
Por um instante surreal, as luzes fluorescentes acima dela pareceram diminuir.
Então o lobo recuou.
Não pelo golpe.
Pelo sangue dela.
Ele se afastou com um ganido agudo e sufocante, orelhas baixas, narinas dilatando como se o ar ao redor dela tivesse se tornado tóxico. O vermelho em seus olhos vacilou.
Mara o encarava através da névoa de dor. Seu próprio sangue corria em listras brilhantes por sua mão e se acumulava no piso.
O olhar do lobo estava fixo naquilo.
Algo em sua expressão mudou.
Medo.
Medo real, animal.
“Que porra é essa?”, Mara sussurrou.
O lobo deu outro passo para trás, os pelos eriçados, o corpo tremendo. O brilho febril horrível em seus olhos diminuiu, depois surgiu novamente, selvagem e desfocado. Ele bateu o ombro nas portas de vidro como se tivesse esquecido por que tinha vindo. Outro grito cortou o saguão quando uma segunda forma atingiu a parede externa, garras arranhando a estrutura a partir da abertura estilhaçada.
Havia mais deles.
O coração de Mara parou.
Alarmes de segurança soaram. Alguém colidiu com o balcão de registro. Uma enfermeira chorava. Um homem na sala de espera arrastava uma criança pequena para debaixo das cadeiras, ambos com o rosto pálido de terror.
E o primeiro lobo, aquele que a tinha mordido, de repente fugiu.
Não em direção às portas.
Para longe dela.
Ele atravessou os restos da janela estilhaçada e desapareceu na noite.
Mara ficou lá, tremendo, sua mão pingando sangue no chão.
Ao seu redor, o caos continuava, mas algo havia mudado. Era uma coisa sutil, tão estranha que quase passou despercebida por seu pânico.
Cada outra pessoa na sala parecia se afastar dela sem saber o porquê.
A enfermeira mais próxima deu uma olhada na mão sangrenta de Mara e recuou, empalidecendo.
O segurança, que corria em direção ao saguão com um cassetete erguido, diminuiu o ritmo ao vê-la. Seus olhos saltaram para o sangue, depois para o rosto dela, e um vinco se formou entre suas sobrancelhas.
Mara olhou para seu ferimento.
As marcas de mordida já estavam se fechando.
Não cicatrizando normalmente. Não como um corte comum que parava de sangrar. A carne rasgada estava se unindo nas bordas de um jeito que fez seu estômago revirar. A pele ao redor das perfurações brilhava fracamente, um cintilar prateado sob o sangue.
Sua respiração falhou.
Não. Não, não, não.
A dor brilhou novamente, mais profunda desta vez, percorrendo seus ossos como uma febre passando sob sua pele. Por um segundo, ela teve certeza de que ouviu algo — baixo, distante e impossível — uma voz em uma língua que ela não conhecia, chamando por ela de muito longe.
Então um segundo lobo atravessou a entrada quebrada.
O medo de Mara tornou-se gelo.
Este era maior que o primeiro. Uma cicatriz dividia um olho. Sua mandíbula gotejava espuma e sangue. Ele não hesitou. Atravessou o saguão com uma velocidade aterrorizante, derrubando um banco, virando a cabeça em direção às pessoas escondidas atrás do balcão de recepção.
Em direção às crianças.
Mara agiu.
Ela pegou o aparelho de pressão da estação mais próxima e o arremessou contra o flanco do animal. Ele atingiu com um barulho metálico e lhe comprou menos de meio segundo, mas meio segundo foi o suficiente. Ela agarrou uma bandeja de metal do carrinho de emergência e a bateu com força no focinho do lobo enquanto ele girava de volta para ela.
O impacto fez seus braços vibrarem até os ombros.
A cabeça da criatura virou de lado. Ele girou, rosnando, e seus olhos brilhantes a encontraram novamente.
Tarde demais, ela percebeu.
Ele não estava mirando nas crianças.
Estava mirando nela.
Ela recuou para o posto de enfermagem, cada nervo gritando. “Chamem o controle de animais”, ela gritou, porque seu cérebro ainda não tinha encontrado uma mentira melhor. “Chamem... apenas chamem alguém!”
O lobo avançou.
Mara percebeu o movimento pelo canto do olho e se jogou para o lado. Garras rasgaram a manga de seu jaleco e fizeram uma linha quente em seu antebraço. Ela gritou e caiu no chão com força suficiente para perder o fôlego.
O mundo se resumiu ao som de sua respiração.
Úmida.
Irregular.
Errada.
Sua sombra caiu sobre ela.
Mara rolou, agarrou a ponta quebrada de um suporte de metal de prancheta e o empurrou para cima com toda a força que lhe restava.
Atingiu o lobo sob a mandíbula.
A criatura recuou, mas não antes que seus dentes raspassem seu ombro. A dor explodiu nela, brilhante e nauseante. Sangue encharcou suas roupas imediatamente. Ela chutou, arrastando-se para trás sobre vidro quebrado e piso, e o lobo a perseguiu com uma violência estranha e desorientada — como se estivesse lutando tanto contra si mesmo quanto contra ela.
Então as portas no final do corredor se escancararam.
Mais três figuras entraram no saguão do hospital correndo.
Não era a segurança.
Não era a polícia.
Homens.
Altos, de rosto duro, vestidos com casacos escuros que se moviam como sombras ao redor deles. Eles não hesitaram. Um deles atravessou a sala tão rápido que Mara mal o viu se mover antes de atingir o segundo lobo de lado e jogá-lo contra a parede com um estalo de osso que fez todos no saguão estremecerem.
O terceiro homem pegou uma cadeira de metal caída e a esmagou contra o crânio da primeira criatura.
O lobo desabou.
O saguão ficou estranhamente quieto por um momento sem fôlego.
Então o homem que tinha derrubado o segundo lobo se virou, e Mara sentiu o ambiente mudar ao redor dele.
Ele não era o maior dos três, mas era o centro deles de qualquer maneira.
Um homem perigoso não precisa ser barulhento.
Ele só precisa chegar.
Ele estava parado entre os escombros, com sangue na manga e domínio absoluto em sua postura, como se o caos tivesse apenas feito uma pausa por respeito. Cabelos escuros caíam levemente sobre sua testa. Seu rosto era feito de ângulos rígidos e controle, talhado com o tipo de beleza que fazia você entender por que histórias eram inventadas sobre homens como ele. Ele tinha a imobilidade de um predador. E a força de um também.
E seus olhos...
Mara esqueceu como respirar.
Prateados.
Não cinzas. Não azuis.
Prateados, afiados e frios como uma lâmina.
Eles pousaram sobre ela, e por um segundo terrível e impossível, ela sentiu-se completamente desvendada.
“Esvaziem a sala”, disse ele.
Sua voz era baixa.
Cortou os gritos como uma lâmina na seda.
O segurança que estava paralisado pela visão dos lobos realmente se moveu. O mesmo fizeram duas enfermeiras. O mesmo fez o homem com a criança. As pessoas começaram a correr, empurrando pelo corredor lateral, tropeçando em vidro quebrado e cadeiras derrubadas.
O lobo aos pés de Mara se contorceu.
O olhar do homem de olhos prateados desviou para ele, depois voltou para o ombro sangrando de Mara. Algo ilegível cruzou seu rosto.
Não era surpresa.
Reconhecimento.
Mara se levantou com os braços trêmulos. “Quem diabos é você?”
Ele ignorou a pergunta. “Você está ferida.”
“Sério? Eu não tinha notado.”
Um dos outros homens fez um som que poderia ter sido uma risada se a sala não estivesse encharcada de terror.
O estranho de olhos prateados não sorriu.
Ele se aproximou, e o ar mudou. Era ridículo, impossível, mas o corpo de Mara reagiu antes que sua mente pudesse rejeitar. Sua pele formigou. Um calor se acumulou baixo em seu estômago, intenso e indesejado. Ela odiou isso. Odiou que seus nervos parecessem traí-la no momento em que ele olhou para ela.
Ele parou a poucos metros de distância.
Perto o suficiente para ela sentir o cheiro de chuva nele. Fumaça. Algo selvagem por baixo, escondido sob uma contenção cara.
Seu olhar caiu para a mão dela. Para as marcas de mordida.
Para o sangue.
Sua expressão mudou de cautelosa para letal num piscar de olhos.
“Não toque nela”, disse um dos homens atrás dele, com a voz tensa.
Mara franziu a testa. “Como é que é?”
O homem de olhos prateados não desviou o olhar dela. “Qual é o seu nome?”
Ela quase riu. Quase. “Essa é a sua ideia de uma apresentação?”
“Seu nome”, repetiu ele, e havia algo na força silenciosa daquilo que fez os pelos da nuca dela se arrepiarem.
“Mara.”
A menor mudança passou por ele. Como uma fechadura que se abre.
A sala pareceu ficar ainda mais silenciosa.
O maxilar dele travou uma vez, com força suficiente para marcar sob a pele. “Mara o quê?”
Aquilo deveria ter soado invasivo. Deveria tê-la deixado irritada.
Em vez disso, uma pulsação estranha e quente latejou através da mordida em sua mão, e ela odiou que seu corpo reagisse ao som da voz dele como se o reconhecesse.
“Vale”, disse ela bruscamente. “Mara Vale. Agora me diga por que lobos estão atacando meu hospital, ou—”
Ela parou.
O lobo que ela atingira com o suporte da prancheta começara a convulsionar.
Seu corpo arqueou-se violentamente, garras arranhando o piso. Espuma negra acumulou-se em sua boca. Sob o pelo, algo se movia — de forma errada e trêmula — como se os ossos da criatura estivessem sendo forçados em direções para as quais não deveriam ir.
Mara observou horrorizada.
O rosto do homem de olhos prateados tornou-se pedra.
“Não”, disse ele.
A palavra era tão fria que fez o chão parecer mais gelado sob seus joelhos.
O lobo se arrastou, com os olhos brilhando mais intensamente do que antes, e fixou-se em Mara com um som que era quase humano.
Uma súplica.
Então, ele avançou.
O homem de olhos prateados atravessou a sala num borrão.
Em um momento, ele estava ao lado dela.
No seguinte, ele estava entre ela e a besta, com uma mão agarrada à garganta dela com brutal precisão. A força do impacto o empurrou meio passo para trás, mas o lobo colidiu contra uma resistência invisível, como se o ar ao redor dele tivesse se tornado sólido. Ele apertou a garra. A coluna da criatura curvou-se. Ela soltou um uivo estrangulado e ficou imóvel.
Um silêncio pesado espalhou-se pelo local.
Mara olhou fixamente para ele.
Ele não tinha se transformado. Ele não precisou.
Ele irradiava violência de qualquer maneira.
O lobo desabou, um amontoado morto a seus pés.
Alguém no corredor soluçou.
O homem de olhos prateados soltou lentamente o aperto e virou-se para Mara. Sangue estava manchado em seus nós dos dedos. Sua respiração mal havia mudado.
“Você precisa sair”, disse ele.
Mara soltou uma risada incrédula que saiu fina e trêmula. “Você invade meu hospital, luta contra lobos mutantes no meu saguão e depois me manda embora?”
O olhar dele baixou para o sangue que manchava a camisa dela.
E então, muito deliberadamente, para sua mão.
O ferimento dela latejou novamente, quente e estranho. A pele ao redor da mordida começara a brilhar fracamente em prata sob o sangue.
A expressão do homem mudou.
Não muito.
Mas o suficiente.
O suficiente para que Mara sentisse o ambiente oscilar sob ela.
“O que você acabou de fazer comigo?”, ela sussurrou.
Ele ficou totalmente imóvel.
Por um batimento cardíaco impossível, ninguém se moveu.
Então, as luzes de emergência piscaram uma vez.
E o lobo a seus pés contraiu-se.
Mara prendeu a respiração.
Seu pelo ondulou como se algo sob ele estivesse acordando. Um som baixo saiu de sua garganta, mais profundo do que antes, corrompido e faminto. A cabeça do homem de olhos prateados virou bruscamente para baixo.
Seus homens praguejaram baixinho.
Os olhos da criatura abriram-se novamente.
Mas agora não estavam vermelhos.
Eram pretos como carvão queimado.
Mara sentiu o sangue fugir de seu rosto.
O lobo levantou-se, com as articulações estalando, e voltou seu olhar arruinado para ela com um propósito grotesco.
Não para o homem que quase o despedaçou.
Para ela.
O estranho de olhos prateados moveu-se à frente dela novamente sem pensar, seu ombro protegendo o corpo dela da besta. Foi um reflexo tão imediato, tão absoluto, que a atingiu mais forte do que o perigo.
Ele a estava protegendo.
Contra algo que acabara de tentar matá-la.
Algo nisso deveria tê-la feito sentir-se mais segura.
Em vez disso, fez seu pulso saltar como se ela tivesse caído de um penhasco e percebido, tarde demais, que ele era a única coisa entre ela e o chão.
“Fique atrás de mim”, disse ele.
“Eu não recebo ordens de estranhos.”
A cabeça dele virou levemente. O suficiente para ela ver o contorno de seu perfil, a linha rígida de sua boca. “Você vai, esta noite.”
O lobo rosnou.
Então ele abaixou a cabeça como se estivesse ouvindo um comando que ninguém mais podia ouvir.
O estômago de Mara afundou.
O homem de olhos prateados notou também. Todo o seu corpo mudou, tornando-se ainda mais controlado, mais perigoso. Algo nele preparava-se para matar.
E então, da boca escura do corredor, uma nova voz flutuou para o saguão.
“Interessante.”
Polida. Calma. Divertida.
Mara olhou para cima.
Um homem num sobretudo cinza-chumbo sob medida estava sob a luz de emergência oscilante, como se tivesse entrado em uma gala em vez de um massacre. Prata em suas têmporas. Mãos elegantes. Um rosto esculpido para salas caras e mentiras confiáveis.
Seus olhos pousaram sobre Mara com um interesse aberto e avaliador.
A postura inteira do estranho de olhos prateados tornou-se rígida.
Atrás do recém-chegado, meio escondidos nas sombras do corredor, Mara viu mais movimento. Mais homens. Funcionários do hospital em pânico, segurança congelada no lugar e uma recepcionista com lágrimas escorrendo pelo rosto.
O homem elegante sorriu levemente. “Bem”, murmurou ele. “Então os rumores eram verdadeiros.”
A mão de Mara ardeu. O ambiente ao seu redor pareceu aguçar-se, cada som de repente alto demais: o grito distante de um alarme, a respiração ofegante do lobo, a batida rápida de seu próprio coração.
O estranho de olhos prateados não tirou os olhos do homem no corredor.
“Sevrin”, disse ele, e o nome soou como uma ameaça.
O homem elegante inclinou a cabeça. “Kael.”
Kael.
O nome atingiu Mara com uma força estranha e imediata, como se pertencesse a alguém perigoso o suficiente para ser uma lenda.
O olhar de Sevrin deslizou de volta para ela. “E esta”, disse ele levemente, “deve ser a garota.”
Mara endireitou-se, apesar da dor gritando em seu ombro. “Eu sou uma pessoa, na verdade.”
Algo frio cintilou no sorriso de Sevrin. “Quão revigorante.”
Kael moveu-se meio passo, bloqueando a linha de visão de Sevrin.
Foi um movimento tão pequeno. Quase casual.
Mas a sala respondeu a ele como a maré à lua.
A expressão de Sevrin mudou, minuciosamente. “Você não deveria estar aqui, Alpha.”
“Nem você.”
Mara olhou de um para o outro, o pulso batendo forte. Alpha? Aquilo deveria não significar nada. Significava demais agora, porque ela vira o que aqueles lobos tinham feito. Porque Kael estava parado como um homem que lutara contra monstros e esperava vencer. Porque Sevrin parecia polido demais para ser qualquer coisa que não fosse perigosa de uma forma diferente.
O lobo atrás de Kael começou a tremer novamente.
Seu olhar fixou-se em Mara.
Depois, no sangue dela.
O som que saiu dele desta vez foi um ganido, baixo e desesperado.
A pele de Mara ficou fria.
O que quer que fosse aquilo, a conhecia.
E ela de repente entendeu, com um aperto doentio de certeza, que o ataque não fora aleatório.
Eles tinham vindo por ela.
Os olhos de Sevrin brilharam. “Contenham o espécime”, disse ele suavemente.
A palavra atingiu como um tapa.
Os homens no corredor se moveram.
A cabeça de Kael virou o suficiente para Mara captar o lampejo em seus olhos prateados.
Não era surpresa.
Aviso.
“Corra”, disse ele.
Antes que Mara pudesse processar o comando, o lobo lançou-se.
Não para Kael.
Para ela.
Kael moveu-se mais rápido do que o pensamento, batendo seu antebraço na garganta da criatura e empurrando-a lateralmente contra a mesa da recepção estilhaçada. Madeira lascou. Vidro explodiu. Mara cambaleou para trás com o impacto, sua mão ferida escorregando no azulejo.
Sangue manchou o chão.
O lobo girou, gritando agora, e suas mandíbulas estalaram em direção ao pulso de Mara com um frenesi que parecia fome e terror entrelaçados.
Kael rugiu.
Foi a primeira vez que seu controle quebrou.
O som rasgou o saguão como um trovão. O ar em si pareceu tremer ao redor dele. O lobo recuou, ganindo, e Kael pegou-o sob a mandíbula e enfiou a outra mão através de suas costelas com uma força selvagem e final.
A criatura desabou.
O silêncio desabou sobre tudo.
Mara permaneceu tremendo em meio aos destroços, olhando para o sangue em sua mão.
O brilho sob a mordida havia se espalhado.
Não pela pele.
Por baixo dela.
Como se algo prateado estivesse despertando em suas veias.
Kael virou-se para ela lentamente, seu peito subindo e descendo uma vez, com força. A fúria em seu rosto estava sob controle perfeito agora, mas por pouco.
Seu olhar baixou para o pulso dela.
Depois para o rosto dela.
E quando ele falou, sua voz estava mais baixa do que antes.
“Seu sangue reagiu.”
A boca de Mara secou.
“O que isso significa?”
Pela primeira vez desde que ele entrara no saguão, sua expressão rachou.
Não muito.
Apenas o suficiente para ela ver o choque enterrado sob o aço.
Atrás dele, Sevrin sorriu como um homem que acabara de confirmar uma teoria particular e preciosa.
Os olhos prateados de Kael travaram nos dela.
E, com as luzes do hospital piscando acima deles, a lua de sangue brilhando vermelha contra o vidro estilhaçado, ele disse as três palavras que fizeram o mundo de Mara desabar.
“Encontrei você, Luna.”