O Leilão
A casa de leilões tinha cheiro de dinheiro velho e desespero recente.
Antonio recostou-se na cadeira — terceira fileira, corredor central, o lugar que sempre reservavam para ele, pedisse ou não — e deixou o olhar vagar pelo recinto com o interesse indiferente de um homem que observa tinta secar na parede de outra pessoa. A iluminação era quente. Intencionalmente quente. Tons de âmbar e mel, projetada para suavizar as arestas do que era, em sua essência, uma transação que a maioria das pessoas preferia não nomear em boa companhia.
Ao redor dele, os outros alfas se remexiam nas poltronas como cães sentindo o cheiro de uma tempestade. Alguns se inclinavam para a frente, cotovelos nos joelhos, uma fome mal disfarçada de interesse casual. Outros mantinham a postura rígida — coluna militar, maxilares cerrados — como se a disciplina fosse a única desculpa para o fato de estarem ali, naquela sala, com as carteiras abertas e os instintos mal contidos.
Antonio não era nenhum dos dois. Ele sentou-se com um tornozelo cruzado sobre o joelho oposto, o paletó desabotoado, a expressão entre o tédio e o leve incômodo. Como se alguém o tivesse arrastado para uma ópera que ele já tinha visto.
O que, em certo sentido, era verdade. Ele comparecia a todos os leilões. A todos eles. Não porque quisesse — Cristo, ele preferia mastigar vidro —, mas porque Antonio era o líder da alcateia Valderas, e esperava-se que o líder da alcateia Valderas fosse visto. Nas lutas. Nos bailes. Nos leilões onde ômegas eram desfilados num palco como gado com melhor estrutura óssea.
Então ele ia. Ele sentava. Deixava que o vissem sentado. E então voltava para casa, servia-se de algo forte o suficiente para remover tinta e fingia que a noite inteira não tinha acontecido.
Era um sistema. Funcionava.
O leiloeiro era um beta chamado Hargrove — voz suave, cabelos grisalhos, o tipo de homem que conseguiria lhe vender seus próprios sapatos e fazer você se sentir grato pelo privilégio. Ele conduzia a sala como um maestro, uma mão erguida, a outra gesticulando para o palco com a elegância prática de quem há muito tempo parara de ver pessoas ali.
“Lote quatorze”, anunciou Hargrove, sua voz carregando o calor peculiar de alguém que recebia por comissão. “Ômega macho. Vinte e três anos de idade. Sem vínculo. Pré-cio verificado.”
Um murmúrio percorreu a multidão. Antonio não olhou para cima. Ele estava estudando o programa — cartolina grossa, letras em relevo, como se a tipografia pudesse tornar aquilo civilizado — e deixando o polegar traçar a borda da página em movimentos lentos e rítmicos. Um hábito. Algo para fazer com as mãos que não fosse fechá-las em punhos.
O lance começou. Subiu. Estabilizou-se. Uma placa erguida na quarta fileira. Outra perto do fundo. A voz do leiloeiro subia e descia como uma maré, e Antonio deixou que ela o lavasse sem registrar um único número.
Lote quinze. Lote dezesseis. Outro ômega foi levado para fora do palco, a coleira esticada, olhos baixos. O comprador — um alfa de pescoço grosso com um anel de sinete do tamanho de um país pequeno — sorriu.
Antonio desviou o olhar.
“Lote dezessete.” A voz de Hargrove não mudou. A mesma cadência. O mesmo calor ensaiado. “Ômega macho. Vinte e nove anos. Sem vínculo. Pré-cio verificado.”
Antonio não olhou para cima. Faltavam três lotes para ele poder ir embora sem parecer intencional, e ele já estava compondo a mensagem que enviaria ao seu segundo — algo seco e desdenhoso, algo que fizesse Loz rir e parar de perguntar se os leilões ainda o incomodavam.
Eles não o incomodavam. Eles o enojavam. Havia uma diferença.
E então o cheiro o atingiu.
Veio como uma lâmina — limpo, preciso e completamente errado. Errado da maneira que uma nota tocada no tom errado ainda pode soar mais bonita que a melodia que ela interrompeu. Cortou a névoa âmbar da casa de leilões como o inverno através do vidro.
Seus pulmões encheram-se antes que ele pudesse impedi-los. O tipo de respiração que ignorava qualquer instinto civilizado e ia direto à base da espinha, onde a linguagem ainda não havia sido inventada e o corpo ainda falava em fome, calor e a certeza baixa e vibrante do reconhecimento.
Ele olhou para cima.
O ômega no palco não era o que ele esperava.
Ele era magro — de ossos salientes e anguloso, de uma forma que sugeria refeições perdidas em vez de uma estrutura robusta. Cabelo escuro caía sobre sua testa em mechas desiguais e cortadas rente, e sua pele era de um dourado profundo sob a luz mel do leilão, mas eram seus olhos que prendiam Antonio à cadeira. Eram escuros. Quase pretos. E não continham absolutamente nenhum medo.
Nenhum.
Os ômegas anteriores mantinham o olhar baixo. Tremiam, choravam, ou ficavam com o olhar vítreo e distante, o que significava que algo dentro deles havia se desconectado do presente para conseguir sobreviver.
Este permanecia com o queixo erguido, os ombros para trás, os pés descalços plantados no palco como se fosse o dono. Como se a coleira em seu pescoço fosse um incômodo, não uma sentença.
Ele parecia, pensou Antonio com um aperto agudo e indesejado abaixo do esterno, como um homem que tinha sido arrastado para o inferno e já estava planejando como incendiá-lo.
O lance inicial foi de quarenta mil.
Chegou a sessenta em segundos. A sala também tinha sentido o cheiro — Antonio podia notar pelo modo como as colunas se endireitaram, as pupilas dilataram e as mãos apertaram os cabos das placas. Seja o que fosse aquele ômega, sua biologia gritava algo que a sala não conseguia ignorar.
Setenta. Oitenta. Uma placa na segunda fileira. Outra na varanda.
No palco, o ômega não se moveu. Seu maxilar estava cerrado, o olhar fixo em algum ponto distante que não incluía nenhum deles. O único sinal de que estava ciente do que acontecia era um leve e quase imperceptível movimento em sua garganta. Um engolir em seco.
Antonio observou aquilo. Não conseguia parar de observar.
Os lances diminuíram. Cento e dez mil de um alfa de olhos claros à esquerda — Dominic Ashworth, dinheiro velho, hábitos mais antigos ainda, o tipo de homem que descartava ômegas como outros descartavam cigarros. Cento e vinte de alguém no fundo que Antonio não reconheceu. Cento e trinta de Ashworth novamente, sua placa erguida com a certeza preguiçosa de quem nunca tinha perdido um lance na vida.
Cento e trinta e cinco do fundo.
Cento e quarenta de Ashworth.
Silêncio.
Hargrove ergueu o martelo.
Antonio ergueu a mão.
“Quinhentos mil.”
Sua própria voz soava como se pertencesse a alguém que tinha planejado aquilo, e não a alguém que acabara de detonar sua própria reputação com quatro sílabas e um número que não fazia o menor sentido lógico.
A sala ficou imóvel.
Duzentas cabeças se viraram. O martelo de Hargrove pairou no ar, sua boca ligeiramente aberta, a compostura profissional rachando o suficiente para revelar o homem por trás do desempenho. Até a cabeça do ômega virou — um movimento rápido e brusco, aqueles olhos escuros encontrando Antonio com uma precisão que parecia menos com olhar e mais com ser localizado.
Antonio podia sentir os olhares. Podia sentir os cálculos rodando por trás de cada par de olhos naquela sala. Valderas nunca dá lances. Ele não compra um ômega há oito anos, desde que assumiu a liderança da alcateia Valderas. Ele senta na terceira fileira, observa, vai embora e nunca, nem uma vez sequer—
Ele manteve a mão erguida.
Que decifrassem. Que falassem. Que os olhos claros de Ashworth se estreitassem em algo venenoso do outro lado do corredor — que se dane.
Hargrove se recuperou primeiro. “Quinhentos mil para o cavalheiro na terceira fileira.” Uma pausa. Profissional. Dando à sala sua chance. “Ouço quinhentos e cinquenta?”
Nada.
“Quinhentos mil, primeira vez.”
O silêncio era absoluto.
“Segunda vez.”
O maxilar de Ashworth se tensionou. Sua placa permaneceu abaixada.
“Vendido.” O martelo caiu. “Para Antonio Diaz.” Seu nome de leilão.
Levaram-no para os bastidores.
Os corredores atrás do salão de leilões eram estreitos e funcionais — despojados da iluminação mel e da pretensão de veludo, apenas concreto e o zumbido de luzes fluorescentes. Os sapatos de Antonio ecoavam pelo chão.
Uma atendente — uma beta jovem com uma prancheta e um sorriso que não chegava aos olhos — o levou até uma porta no final do corredor. Ela abriu sem cerimônia. Lá dentro, o ômega estava no centro de um quarto pequeno e vazio, os pulsos soltos, mas a coleira ainda presa em seu pescoço, a guia enrolada em uma mesa de metal ao lado dele.
Ele olhou para cima quando Antonio entrou. A mesma expressão.
Ele olhava para Antonio como um homem olha para uma porta trancada — medindo-a, testando o peso, decidindo se deve abrir a fechadura ou arrombá-la.
A atendente pegou a guia. Estendeu-a para Antonio com o mesmo gesto prático que provavelmente já fizera cem vezes. “Sr. Diaz. Assim que o *scenting* for concluído, você e sua compra estarão livres para partir. Seu quarto particular fica logo ali no final do corredor — eu lhe mostrarei o caminho.”
O coração de Antonio parou.
Não literalmente — ele era um homem adulto, um alfa, o líder da alcateia mais poderosa da cidade —, mas algo dentro de seu peito travou e falhou de uma forma que não tinha nada a ver com o meio milhão que ele acabara de gastar, e tudo a ver com a palavra scenting e o que ela significava naquele contexto. Naquele prédio. Com aquela coleira, aquela guia e aquele ômega que o observava com aqueles olhos escuros e ilegíveis.
Ele sabia o que significava. É claro que sabia. O *scenting* formal era um protocolo — um aperto de mão biológico.
Ele pegou a guia.
Seus dedos envolveram o couro com mais cuidado do que qualquer outra coisa em toda a sua vida. Era uma coisa tão pequena — uma tira de couro tratado presa a um anel de metal, preso a uma coleira, presa a um homem que, cinco minutos atrás, ele nem sabia que existia — e o peso daquilo era avassalador. Ele podia sentir a tensão na outra extremidade. Não puxando. Não resistindo. Apenas o peso vivo e constante de uma pessoa que estava ligada à coisa que ele segurava.
Os olhos do ômega seguiram o movimento. Observaram o aperto de Antonio. Viram seus dedos se ajustarem — soltando, deliberadamente soltando, deixando uma folga na guia, da mesma forma que se lidaria com algo vivo e frágil.
A surpresa brilhou naqueles olhos escuros.
“Por aqui, Sr. Diaz.”
A atendente se virou. Antonio a seguiu, e o ômega caminhou ao seu lado — não atrás, porque Antonio manteve a guia solta o suficiente para permitir, manteve seus passos curtos o suficiente para acompanhar, manteve cada maldita fibra de seu ser focada na tarefa única de não puxar. Nem uma vez. Nem por um segundo.
A guia pendia entre eles como uma pergunta para a qual nenhum dos dois ainda tinha palavras.
Atrás de si, ele podia sentir o olhar do ômega em sua nuca. Firme. Ardente. Preciso.
E, pela primeira vez em oito anos, Antonio não fazia a menor ideia do que estava fazendo.

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Did AI write this?