Capítulo 1 ALMAS FERIDAS
O casarão onde a íris morava é o tipo de lugar no qual o silêncio falava mais alto que as palavras.
Íris cresceu entre vestidos caros, jantares sem sorrisos e olhares que mais julgavam do que acolhiam. Era filha única de Estela, uma mulher elegante, amarga e de olhar frio , que transformava cada conversa em uma lição sobre status, aparência e agressividade.
Estela costumava dizer que o mundo era dividido entre os que têm e os que obedecem. E Íris, como herdeira da fortuna deixada pelo pai. Estela nunca dizia a palavra “pobres” sem um torcer de lábios. Como se fosse algo sujo. Um vírus. Algo que se pega pelo toque, pelo convívio.
— Íris, eu já disse mil vezes... não ande com gente debaixo. Você tem nome, tem posição. Não estrague isso — repetia Estela, todas as vezes que a filha voltava com a saia suja de terra ou os sapatos riscados de correr por lugares que ela considerava inapropriados.
Mas Íris não a ouvia. Ou fingia que não ouvia. Por fora, fingia uma obediência fria; por dentro, crescia um fogo indomável, uma vontade constante de escapar do destino que a mãe havia planejado para ela como um castelo de vidro — bonito, mas frágil, trancado.
Ela queria viver o oposto. Íris sonhava com liberdade, com gente de verdade, e corações que batiam por algo além de aparências.
Ela já havia aprendido a fugir. Inventava aulas extras, projetos voluntários, cursos que não existiam, só para sair de casa. Era nesses pequenos atos de rebeldia que respirava. Cada passo fora das grades da mansão era uma declaração silenciosa: eu não sou como você, mãe.
Mas no fundo, o que mais doía em Íris não era a prisão em que vivia — era o medo de um dia se tornar igual à mulher que a criou.
A vida da Íris nunca foi fácil.
Ela sempre se sentia sozinha, até nos momentos em que estava triste, ansiosa ou chorando escondida no quarto. Íris nunca contava seus sentimentos para a mãe, Estela, porque Estela só sabia criticar.
Quando Íris tentava falar algo, a mãe sempre respondia:
— “Para de drama.”
— “Você é fraca?”
— “Isso não é nada.”
Por isso, Íris aprendeu a guardar tudo para si.
A única pessoa em quem ela confiava era Nina, sua melhor amiga. Nina era alta, magra, tinha pele branca, olhos azuis e cabelos loiros ondulados. Quando sorria, tinha um sorriso lindo e belas covinhas. Nina era doce, calma, paciente… era tudo o que Íris precisava.
Íris também era bonita, mesmo que não acreditasse nisso. Tinha cabelos longos e pretos, era magra e um pouco mais baixa que Nina. Mas dentro dela existia uma dor enorme.
Ela sempre achava que não era boa o bastante, que não era suficiente para ninguém.
Todas as vezes em que Íris se sentia mal, era Nina quem a escutava.
—Eu tô aqui com você.”
E Íris ficava melhor, mesmo que fosse só um pouco.
A amizade das duas era a única luz nos dias ruins da Íris.
Estela vivia sempre ocupada.
Ela passava o dia inteiro em reuniões, saía com amigos ricos, bebia bebidas caras e se divertia como se não tivesse nenhuma responsabilidade.
Mas nunca olhava para Íris.
Íris podia estar muito machucada, podia estar chorando, triste, perdida… e Estela não notava.
Ou talvez notasse… mas preferia fingir que não via.
Ela era esse tipo de mãe.
Quando estava de mau humor, trancava Íris no quarto.
— “Fica aí e não me incomoda.” — dizia, sem olhar para a filha.
Íris ficava horas ali dentro, sozinha, olhando para as paredes.
Era como se ela vivesse presa dentro de um mundo vazio, sem carinho, sem atenção, sem nada.
Quando a noite chegava, quando a casa ficava silenciosa e fria, Íris sentia aquele mesmo vazio tomando conta do peito.
Ela pensava:
“Por que minha mãe não se importa comigo?”
E essa pergunta doía mais do que qualquer coisa.
Íris sentia muita falta do pai, o senhor Raul.
Ele era o único naquela casa que realmente se importava com ela.
O único que a abraçava, que perguntava se ela estava bem, que fazia ela se sentir amada.
Mas um dia… ele simplesmente foi embora.
Sumiu.
Desapareceu sem deixar explicação.
Ninguém sabia o que tinha acontecido de verdade.
Estela dizia sempre a mesma coisa:
— “A gente se divorciou.”
Mas Íris não acreditava totalmente.
Ela não lembrava de muita coisa, porque era só uma criança quando ele saiu de casa.
Só sabia que, no dia em que perdeu o pai, perdeu também a única pessoa que fazia ela se sentir segura.
Quando ele foi embora, Íris desabou.
Ela ficou triste por meses.
Ela chorava todos os dias.
Mal conseguia comer.
A ansiedade começou ali, pequena, mas muito dolorosa.
Era como se uma parte dela tivesse ido embora com o pai.
Íris cresceu carregando essa dor sozinha.
Uma dor que apertava o peito, deixava ela insegura, deixava ela com medo de tudo.
No fundo, Íris só queria uma coisa:
Queria seu pai de volta.
Mas ele nunca voltou.
O senhor Raul sempre foi um ótimo pai.
Ele era o tipo de pessoa que deixava qualquer lugar mais leve só de chegar.
Ele amava cavalos, passava horas cuidando deles.
Tinha um jeito calmo e paciente
Raul era gentil.
Sempre ajudava quem precisava.
Ele era assim: tinha um coração enorme, sempre disposto a fazer o bem.
E também era muito bonito.
Tinha um sorriso lindo
daqueles que faziam Íris esquecer os problemas por alguns segundos.
Era o único que realmente olhava para ela, que percebia quando ela estava triste ou com medo.
Quando Raul abraçava a filha, ela sentia paz.
Sentia que tinha alguém que nunca iria machucá-la.
Por isso, até hoje, Íris guarda o pai no coração como sua lembrança mais bonita.
A única parte da infância que realmente valeu a pena.
E mesmo sem saber onde ele está agora, ela ainda sente:
“Que algum dia ele vai voltar.”
A Íris era só uma adolescente que precisava de ajuda e apoio.
O que Íris precisava era de alguém que entendesse ela de verdade.
Ela sofria com ansiedade, e às vezes isso fazia ela desabar.
Tinha dias em que Íris ficava muito triste, quase sem forças.
Ela já chegou a se machucar e a se diminuir,achando que não era boa o suficiente. Por mais bonita, e inteligente que fosse, Íris só queria tirar o peso que ela carregava dentro do seu peito.
A Nina sempre esteve do lado da Íris.
Mas mesmo assim, Nina não podia estar lá todos os dias.
A mãe de Íris, Estela, sempre dizia:
— Cada um na sua casa.
Então, quando Nina ia visitar Íris, ela ficava pouco tempo.
E isso doía muito na Íris.
Ela queria desabafar, queria contar tudo o que estava sentindo.
Mas o que Íris guardava dentro dela era muita coisa, mais do que ela conseguia falar em tão pouco tempo.
Sempre que Íris tentava desabafar com Estela, a mãe dizia:
— Ah, garota, para de fazer drama. Isso é frescura. Vai procurar algo pra fazer.
Ela sofria muito por isso.
Era um domingo à noite.
Íris, Estela e Nina estavam sentadas na mesa de jantar.
Íris já tinha passado um dia muito ruim.
De repente, ela começou a sentir falta de ar e o coração acelerado.
Nina foi a única que percebeu.
Mas Íris não podia levantar da mesa, porque Estela sempre dizia que ela tinha que ter “bons modos”.
Nina perguntou:
— Íris, você está bem?
Íris só balançou a cabeça dizendo que sim…
Mas era claro que ela não estava bem.
Estela olhou para ela com irritação e falou:
— Íris, você já vai começar com as suas gracinhas na hora do jantar?
Com a voz fraca, Íris disse:
— Mãe… desculpa. É que eu não estou bem…
Estela respondeu na hora:
— Garota, pelo amor de Deus! Tudo pra você agora é não estar bem ! Aprenda a agir como uma pessoa de bons modos!
Nina ficou olhando pra Estela e pensando:
Por que ela é tão cruel?
Nina tocou no braço de Íris e disse com calma:
— Eu estou aqui, tá?
Ela se sentiu um pouco mais segura, só porque Nina estava ao lado dela.
A Estela era aquele tipo de mulher misteriosa e gananciosa.
Ela era bonita, sempre bem arrumada, sempre usando roupas caras.
Ela falava mal de quem não tinha dinheiro, como se essas pessoas fossem menos importantes.
E sempre dizia para Íris:
— Fique longe desse tipo de gente.
Íris não entendia muito bem o motivo.
Ela só achava estranho.
Parecia que a mãe tinha ódio de quem vivia uma vida simples.
Íris sempre achou que a mãe era rígida demais…
Mas ela não sabia que por trás daquele jeito frio, Estela carregava coisas que, um dia, iam machucar muito.
Íris amava a mãe, apesar de tudo.
Mas ela não recebia o carinho e nem a atenção que merecia.
Por isso, Íris sempre se culpava.
Achava que o problema era ela.
Pensava que era uma péssima filha.
A cabeça da Íris era uma bagunça.
Ela sentia tudo de forma muito intensa.
Sempre foi uma garota inteligente e cheia de vontade de viver.
E ela amava a liberdade.
Só que Estela não deixava Íris fazer quase nada.
Ela não podia sair, não podia receber visitantes, mal podia conversar com alguém.
Essa falta de liberdade deixava Íris cada vez mais triste.
Ela estava aprendendo sobre a vida, sobre sentimentos, sobre quem ela era.
Mas tinha dias em que a vida não fazia sentido pra ela.
ela sempre se perguntava se algum dia seria feliz de verdade.
Era 7 da manhã.
Estela acordou, desceu as escadas e viu Íris sentada na mesa.
Estela: — Já está acordada?
Íris: — Sim, mãe…
Estela sentou e começou a tomar seu café da manhã.
Íris ficou quieta, olhando para a mesa.
Estela: — Não vai tomar café?
Íris: — Estou sem fome, mãe…
Estela: — Não tem isso aqui. Você sabe que precisa comer. Vamos, estou esperando. Coma.
Íris abaixou a cabeça, pegou um pedaço de bolo e foi comendo devagar.
O silêncio ficou pesado.
Até que Íris, com a voz fraca, perguntou:
Íris: — Mãe… o que eu fiz pra você?
Estela colocou a xícara na mesa com força.
Estela: — Vai ficar fazendo perguntas idiotas agora? Bem no meio do café da manhã, Íris?
Íris respirou fundo, tentando não chorar.
Íris: — Eu só quero saber por que você me odeia…
O papai não era assim comigo.
Estela levantou da mesa furiosa.
Estela (gritando): — Fique sabendo que eu NÃO sou o seu pai!
Você precisa aprender a aceitar as coisas como são.
Não tem essa de ficar com “mimimi”, Íris!
Os olhos de Íris encheram de lágrimas.
Ela levantou, tremendo.
Íris: — Pois eu queria que você fosse diferente, mãe…
Ela saiu andando rápido para o quarto.
Estela gritou:
Estela: — Íris! Volta aqui AGORA!
Íris (chorando): — Me deixa em paz! Eu tô cansada!
A porta do quarto bateu.
Estela foi atrás da Íris e empurrou a porta do quarto com força.
Íris estava sentada na cama, chorando muito.
Estela: — Qual é o seu problema, garota?
Acha que ia mesmo me desrespeitar?
Íris mal conseguia falar de tanto chorar.
Íris: — Desculpa, mãe… de verdade… desculpa…
Eu não queria descontar nada em você…
É que eu tô muito triste, de verdade…
Eu não estou fingindo… tá doendo muito, muito mesmo…
Eu só queria que você me entendesse…
Você fica tão distante de mim…
Que eu acabo achando que você não gosta de mim…
Íris continuou chorando, soluçando, com a mão no rosto.
Estela: — Íris, você atrapalhou o meu café da manhã pra ficar fazendo drama.
Você não aprendeu nada do que eu te ensinei, garota.
Sempre aí chorando o tempo todo.
Você não vai ganhar nada com isso.
E se continuar assim, vai se tornar uma pobre coitada quando ficar adulta.
E quando isso acontecer, eu quero você bem longe de mim.
Estela saiu batendo a porta com força.
E Íris ficou ali, sozinha no quarto, chorando ainda mais…
Sentindo o coração apertado.
No dia seguinte, Íris não saiu do quarto durante o dia
Ela só saiu à noite.
Íris foi até sala
Quando Estela viu a Íris, disse:
Estela: — Ajeita essa cara.
Íris não respondeu nada.
Só foi se sentar no sofá, quieta, mexendo nas mãos.
De repente, a campainha tocou.
Estela foi abrir a porta.
Para surpresa de Íris, era Nina.
Nina: — Oi, Estela.
Estela: — Oi, Nina. Veio ver a Íris?
Nina: — Sim.
Estela: — Entre.
Nina: — Com licença.
Nina entrou e foi direto até Íris.
Sem dizer nada, abraçou ela com força.
Nina: — Oi… que saudade… você tá bem?
Íris esperou Estela sair da sala para responder.
Quando a Estela saiu, Íris falou em voz baixa:
Íris: — Não, Nina… eu não tô bem.
Aqui é um inferno.
Eu não sou feliz.
Por mim, eu fugiria…
Nina deu um tapinha leve no braço dela.
Nina: — Fugir? Tá louca?
Você e suas ideias… — disse ela com um sorriso pequeno.
Depois Nina tirou algo da bolsa.
Nina: — Eu trouxe bombons pra você. Espero que melhore um pouco.
Íris abriu um sorriso tímido.
Íris: — Obrigada…
Íris: — Quero que você saiba que eu te amo. Te amo muito.
Eu não sei o que seria de mim sem você.
Você é tudo que eu tenho…
Eu me sinto tão sozinha e vazia quando você não está aqui…
Você é luz nos meus dias de escuridão…
Os olhos de Nina encheram de lágrimas:
Nina: — Para, Íris… você tá me fazendo chorar…
Nina abraçou a amiga forte, já chorando.
Nina: — Eu prometo que sempre vou estar aqui.
E eu também te amo muito.
Nina olhou bem nos olhos de Íris, segurando as mãos dela, e falou baixinho:
Nina: — Íris… vou te fazer uma promessa.
Eu prometo que um dia vou tirar você daqui.
Eu sei que somos só duas adolescentes…
Mas eu faria de tudo pra te ver feliz.
De tudo mesmo.
Mas pra isso… você precisa querer também.
Íris respirou fundo:
Íris: — Claro que eu quero, Nina.
Somos amigas… e amigos ajudam um ao outro.
Eu confio em você, Nina… confio de verdade.
Nina apertou a mão dela com força.
Nina: — Eu nunca vou te abandonar.
Por nada nesse mundo, Íris.
Eu sempre vou estar com você.
Íris só não sabia que um garoto — com cheiro de campo e alma ferida — era o fio que puxaria tudo o que estava escondido debaixo dos tapetes caros da casa onde ela nasceu.
Victor era o filho mais velho de dona Helena Álvares, uma mulher firme, de olhar cansado, mas alma inquebrável. Foi com ela que aprendeu que dignidade não se mede por cifrões — e sim pela coragem de levantar todos os dias, mesmo quando o mundo parece querer te derrubar.
Carlos e Henrique, seus irmãos mais novos, eram ainda pequenos quando o pai saiu de casa. Um homem impulsivo, infiel e ausente, que causou mais feridas do que ensinamentos. Victor viu a mãe chorar escondida muitas vezes. E decidiu que não deixaria faltar nada em casa — nem comida, nem força.
Desde os dez anos ajudava na lavoura, limpava o curral, alimentava os animais. Aprendeu a montar a cavalo antes mesmo de aprender a dividir frações. E era assim, de mãos calejadas e olhos atentos, que moldava seu jeito de ver o mundo.
Victor Era gentil, educado e humilde.
O sobrenome Álvares não carregava poder, nem fortuna, mas era símbolo de resistência. Eles não tinham muito, mas tinham um ao outro. E isso bastava.
Certa noite, depois de um dia de trabalho, Helena se sentou ao lado de Victor e disse:
— Um dia, meu filho, você vai sair daqui... vai conquistar o mundo. Mas nunca esqueça quem você é, nem de onde veio — disse, com a voz baixa e firme:
Victor: — Mãe, obrigada por me ensinar a ser essa pessoa que eu sou. Sou muito grato a Deus todos os dias por ter uma mãe igual a senhora.
Dona Helena: — Você sempre foi meu orgulho, Victor. Mesmo nas dificuldades, eu sabia que você era capaz de se tornar alguém incrível. Só queria que você soubesse o quanto me sinto abençoada por ser sua mãe.
Victor: — A senhora me mostrou que, mesmo nas dificuldades, a gente tem que seguir em frente com fé e coragem.
Dona Helena: — É isso mesmo filho, A vida nem sempre é fácil, mas você tem tudo o que precisa dentro de você pra suportar todas as dificuldades, Não importa o que aconteça, você sempre vai encontrar um caminho.
Victor: — Eu vou tentar fazer o melhor possível, mãe. Por você, por mim, pelos os meus irmãos e por todos que acreditam em mim.
Dona Helena: — Eu sei que vai, filho. Eu confio em você.
Victor estava dando banho nos cavalos, Henrique o irmão do meio foi até ele é perguntou:
Henrique: — Victor… você gosta daqui?
Victor: — Gosto, sim. Por quê?
Henrique: — Você não sente vontade de sair daqui? Sabe… ter uma vida na cidade? Um trabalho?
Victor: — Já pensei várias vezes em sair daqui e começar uma vida nova na cidade, irmão. Mas eu acho que eu não conseguiria arrumar emprego… eu não terminei os estudos.
Henrique: — E o que você pensa em fazer da vida, então?
Victor respirou fundo. E disse:
Victor: — Pra ser sincero… eu penso em ser médico.
Henrique deu um sorriso.
Henrique: — Então o que você tá esperando? Você pode deixar um pouco a fazenda e ir estudar na cidade. Terminar os estudos, correr atrás disso.
Victor soltou uma risada curta
Victor: — Falando assim parece fácil, né, Henrique? Mas… talvez eu fique por aqui mesmo. Pela fazenda. Acho que… não quero terminar os estudos.
Henrique: — Victor… você quer sim. Eu sei que quer. Você só tem medo de tentar. A gente já passou por tanta coisa… mas não significa que a gente tem que passar o resto da vida preso ao que sobrou.
(Victor continuou olhando pro irmão)
Henrique: — Um dia, irmão, você ainda vai sair daqui. E quando isso acontecer… você vai ver o tamanho do mundo que tá esperando por você.
(Victor ficou quieto e pensativo.)
Horas depois, Henrique entrou na cozinha. Dona Helena estava lavando louça, cansada, mas sempre atenta aos filhos. Ele se aproximou devagar.
Henrique: — Mãe… a senhora não acha que o Victor deveria voltar a estudar?
Dona Helena: — Acho sim, filho. Eu queria muito isso pra ele. Mas depende do Victor. Ele trabalha demais aqui na fazenda… não sobra tempo pra nada.
Henrique: — Mas mãe... por que a senhora
não tenta conseguir uma bolsa pra ele em uma escola boa?
(Dona Helena olhou para o filho.)
Dona Helena:
— Ele merece muito, Henrique.
Mas não é fácil conseguir bolsa. Eu já pensei nisso muitas vezes. Também quero que ele continue os estudos… mas tudo ficou difícil depois que seu pai destruiu a nossa família. Você lembra disso, não lembra?
Henrique: — Lembro sim, mãe. Lembro de tudo. Mas… onde será que o papai tá agora? Acho que ele nem liga mais pra gente.
(Dona Helena fechou o rosto, evitando olhar para o filho.)
Dona Helena: — Filho… eu sei que ele é seu pai, mas vamos evitar falar dele. O Victor não gosta. Ele tem trauma até hoje… desde o dia em que seu pai me traiu com aquela mulher rica. Eu fiquei muito mal, você sabe disso. Mas ela tem dinheiro… combina com o que seu pai sempre quis. Só não quero mais tocar nesse assunto, tudo bem?
Henrique: — Desculpa, mãe. Não devia ter falado dele.
Henrique: — Mas pensa com carinho sobre a bolsa pro Victor estudar na cidade… por favor.
(Dona Helena finalmente sorriu, um sorriso pequeno, mas sincero.)
Dona Helena: — Eu vou pensar nisso com muito carinho, filho. Vou mesmo.
Victor gostava de ler. Todas as noites, antes de dormir, ele pegava um livro e lia em silêncio.Victor também tocava piano muito bem.
Depois da conversa de Henrique com Dona Helena, ela foi até o quarto de Victor. Bateu de leve na porta.
Dona Helena: — Filho, posso entrar?
Victor: — Claro, mãe.
(Dona Helena entrou, fechou a porta com cuidado e se sentou na cama.)
Dona Helena: — Vim conversar com você, filho. Desculpa atrapalhar seu sono.
Victor: — Imagina, mãe. Eu só estava lendo um livro, ainda não tinha dormido. O que a senhora quer falar comigo?
Dona Helena: — Bom… o seu irmão Henrique veio conversar comigo sobre você voltar a estudar.
Victor abaixou a cabeça.
Victor: — Eu já falei isso pra ele hoje. A gente conversou. Eu não tô pensando em estudar agora. Prefiro ficar aqui e ajudar a senhora, como sempre fiz.
Dona Helena segurou a mão do filho com carinho.
Dona Helena: — Filho, terminar os estudos é importante. Eu sei que você me ajuda muito, mas eu também quero que você se ajude. Isso vai te ajudar no futuro. Pense nisso com calma.
Victor ficou em silêncio por alguns segundos.
Victor: — Eu vou pensar sim, mãe. Mesmo sendo difícil… eu ando meio desanimado. Mas se terminar os estudos vai deixar a senhora orgulhosa, então eu vou voltar a estudar.
Dona Helena: — Eu já sou muito orgulhosa de você. E espero que um dia você se case com uma mulher que te ame de verdade e que te mereça. Você tem um coração bom, meu filho, e isso é muito bonito.
Victor sorriu de leve.
Victor: — Obrigado, mãe. Mas eu não penso em casar. Não estou procurando ninguém. Nem sempre a gente encontra alguém que nos ame de verdade.
Dona Helena: — Filho, a pessoa certa chega na hora certa. Não se preocupe com isso.
Victor: — Eu sei, mãe… mas é sério. Eu realmente não penso em casar.
Dona Helena sorriu.
Dona Helena: — E se um dia você se apaixonar? O que vai fazer? Vai tentar evitar?
Victor: — Eu nem sei o que é estar apaixonado, mãe. Então acho que não me importaria de ficar sem um relacionamento.
Dona Helena: — Ah, Victor… quando você se apaixonar, vai saber. E vai ver que não dá pra evitar. O amor sempre é mais forte que a gente.
(Ela se levantou devagar.)
Dona Helena: — Vou deixar você dormir. Tenha uma boa noite, filho.
Victor: — Obrigado, mãe. Boa noite também. Eu amo muito a senhora.
Dona Helena: — Eu também te amo, meu filho. E pense com carinho sobre os estudos.
No dia seguinte, Victor acordou cedo e foi até a cozinha. Lá estavam sua mãe e seus dois irmãos, Carlos e Henrique, sentados à mesa.
Victor: — Bom dia, mãe. Bom dia, Carlos. Bom dia, Henrique.
Dona Helena: — Bom dia, filho.
Henrique: — Bom dia.
Carlos: — Bom dia.
Victor: — Mãe, eu pensei bem sobre os estudos… eu vou voltar a estudar.
Dona Helena sorriu.
Dona Helena: — Que bom, meu filho. Eu fico muito feliz com isso.
Henrique sorriu também.
Henrique: — Eu tava esperando por isso. Sabia que conversar com você ia dar certo.
Victor olhou para o irmão.
Victor: — Obrigado, Henrique. Você é um bom garoto.
(Carlos ficou quietinho, só ouvindo tudo. Ele era o caçula, tinha apenas 8 anos. Sempre foi calmo e paciente. Ele amava cavalos e gostava muito de ouvir Victor tocar piano. Carlos era muito apegado ao Victor.)
(Henrique, com 11 anos, era o irmão do meio. Ele sempre ajudava Dona Helena na cozinha e era um menino obediente, que se preocupava com a família.)
Apesar de Henrique ser um garoto simpático, ele era fechado. Guardava muitas coisas só pra ele. Tinha inseguranças e medos que não tinha coragem de contar nem pra própria mãe.
Ele sorria, ajudava em casa,
fazia tudo certo
mas por dentro,
carregava dúvidas e preocupações.
Certo dia, Henrique estava quieto, sentado num canto. Victor percebeu e foi até ele.
Victor: — Você tá bem?
Henrique: — Tô sim.
Victor preocupado.
Victor: — Tem certeza? Você tá meio fechado… tem alguma coisa te incomodando?
Henrique: — Não, Victor. Tá tudo bem. Eu só tô pensando.
Victor: — Pensando em quê?
Henrique respirou fundo antes de responder.
Henrique: — Pensando que eu não deveria ser assim… uma pessoa que não consegue dizer o que sente. Que tem dificuldade de falar coisas importantes.
Victor olhou pra ele com atenção.
Victor: — Do que você tem dificuldade? O que te impede de falar?
Henrique baixou a cabeça.
Henrique: — Acho que o problema sou eu. Eu não queria ser assim. Na escola eu tenho poucos amigos… e sinto que deveria falar mais, tentar me soltar mais.
Victor: — O problema não é você. Você precisa parar de se cobrar tanto. Todo mundo erra. Se algo te faz mal, se afasta disso. E se falar vai te aliviar, fale. Guardar tudo machuca.
— E sobre seus amigos… você não precisa ser diferente pra agradar ninguém. Se eles gostam de você de verdade, vão te aceitar como você é.
Henrique: — Aí que tá, Victor… nem todas as pessoas aceitam.
Victor sentiu o coração apertar.
Victor: — Por que você diz isso? Tem algo que você quer me contar?
Henrique ficou em silêncio por alguns segundos.
Henrique: — Tem muitas coisas… mas eu me sinto errado por elas.
Victor colocou a mão no ombro dele.
Victor: — Pode falar. Eu não vou te julgar.
Henrique falou com a voz tremendo.
Henrique: — É difícil dizer isso… mas eu espero não ser uma decepção pra nossa família.
Victor: — Só me conta.
Henrique respirou fundo e começou a falar.
Henrique: — Depois de alguns meses na escola, eu conheci um garoto da minha idade. A gente andava sempre junto. Com o tempo, eu percebi que sentia algo a mais por ele… mas eu pensava: “ele é um garoto”.
— Um dia, a gente foi ao banheiro da escola. Ele disse que queria me mostrar algo. Quando chegamos lá, ele me beijou.
— Eu não achei estranho… mas me senti errado. Talvez porque espalharam na escola que eu gostava dele. Eu não sei.
— Quando ele me beijou, meu coração acelerou. Eu tive vontade de chorar… mas era felicidade. No fundo, eu me senti completo. Mesmo assim, me sinto errado por ter sido beijado por um garoto.
Victor ouviu tudo em silêncio.
Victor: — Você gostava mesmo dele?
Henrique: — Gostava… acho que me apaixonei. Eu não entendia direito o que tava acontecendo, mas meus sentimentos eram muito fortes.
Victor: — Então você acha que gosta de garotos?
Henrique: — Sim… eu nunca senti nada por garotas.
— Você não vai me julgar, né?
Victor respondeu sem pensar duas vezes.
Victor: — Nunca, Henrique. Você fez muito bem em me contar.
— Se aceite do jeito que você é. Gostar de garotos não é errado. Pelo contrário… isso faz parte de quem você é. Não se diminua por isso.
Henrique abraçou Victor forte, com os olhos cheios de lágrimas.
Henrique realmente gostava de garotos. Victor foi a primeira pessoa em quem ele confiou para contar isso. Guardar esse segredo doía muito nele.
Ele sofria por não gostar de garotas e achava que isso era um problema. Esse pensamento pesava todos os dias no seu coração. A mãe ainda não sabia, e Henrique tinha muito medo de decepcioná-la.
No fundo, ele só queria ser aceito, mas ainda não tinha coragem de ser quem ele realmente era.
Desde que o pai traiu Dona Helena, tudo começou ficou difícil pra ela. A traição deixou uma ferida enorme nela. O homem que ela amava, depois de muitos anos de casamento, a machucou profundamente.
Victor ficou com um trauma enorme do pai. Além disso, quase perdeu o irmão mais novo, Carlos, e isso marcou sua vida para sempre. Tudo ficou mais difícil, mas mesmo assim Victor sempre tentou ser forte.
Meses antes, Carlos teve uma pneumonia muito forte. Ele ficou entre a vida e a morte. Victor se sentia culpado por tudo, mesmo sem ter culpa. Ele só queria proteger o irmão e fazer o melhor. Aqueles dias foram muito dolorosos para Victor, para Dona Helena e para Henrique.
No hospital, Victor sempre perguntava:
Victor: — Mãe, por que isso tá acontecendo? Por que a gente passa por tanta coisa difícil?
Dona Helena respondia com fé:
Dona Helena: — Isso faz parte da vida, Victor. Vamos ser fortes e orar pra que seu irmão fique bem.
Depois de alguns dias no hospital, Carlos finalmente melhorou. A família voltou pra casa, e a vida seguiu em frente. Victor tentou ficar bem, mesmo machucado por dentro.
Henrique sentia tudo intensamente, mas não demostrava nada para a família. Ele guardava tudo pra ele.
Quando Carlos estava no hospital, Henrique escreveu várias cartas. Eram cartas para entregar ao irmão quando ele voltasse pra casa. Ele tinha muito medo de Carlos não voltar. Esse medo machucava seu coração todos os dias.
Quando Carlos finalmente voltou pra casa, Henrique sentiu um alívio enorme.
Depois da conversa com Victor, Henrique criou coragem. Ele decidiu que iria contar pra mãe que gostava de garotos. Mesmo com medo, ele sentia que precisava ser sincero e não esconder mais quem ele era.
Alguns dias se passaram.
Dona Helena estava em seu quarto, muito cansada, quase dormindo. Foi quando Henrique bateu de leve na porta.
Henrique: — Mãe… cê tá acordada?
Dona Helena: — Oi, filho. Tô sim.
Henrique ficou parado, inseguro.
Henrique: — Se a senhora quiser, eu posso voltar outra hora…
Dona Helena: — Não, meu filho. Pode falar. Eu tô te ouvindo.
Henrique respirou fundo, com o coração acelerado.
Henrique: — Mãe… eu vim conversar sobre uma coisa muito importante. Eu achei que precisava te contar.
Com a voz tremendo.
Henrique: — A senhora seria contra… se eu gostasse de garotos?
Dona Helena se sentou melhor na cama.
Dona Helena: — Não, filho. De jeito nenhum. Mas por que você tá me perguntando isso?
Henrique começou a chorar.
Henrique: — Porque eu gosto de garotos, mãe. Me desculpa por isso. Eu não queria ser a decepção da família… desculpa de verdade.
Dona Helena abraçou o filho com força.
Dona Helena: — Filho, olha pra mim. Eu sou sua mãe. Eu te aceito do jeito que você é.
— E tá tudo bem você gostar de garotos. Isso não te faz uma pessoa ruim. Não te faz menos do que ninguém.
Henrique continuava chorando.
Henrique: — A senhora não tá decepcionada comigo, mãe?
Dona Helena: — Não, meu filho. Muito pelo contrário. Eu fico feliz por você ter confiado em mim e vindo me contar.
— Você não precisa ficar triste. Eu tô aqui. Você sempre pode contar comigo, sempre.
Depois de muito tempo, Victor realmente decidiu que ia voltar a estudar. Ele sabia que era importante pra ele. Sabia que precisava correr atrás do seu sonho de ser médico.
Ele não estava totalmente bem. Ainda se sentia cansado e cheio de pensamentos, mas mesmo assim continuou.
Mesmo decidido a estudar de novo, ele ainda tinha dúvidas. Existia uma parte dele que tinha medo de recomeçar , Mas ainda assim, ele escolheu seguir em frente.
Depois de alguns dias, uma boa notícia chegou. Victor tinha conseguido uma bolsa para voltar a estudar na cidade.
Dona Helena: — Filho, eu tô muito feliz que você conseguiu a bolsa e vai voltar a estudar.
Victor: — Eu também tô feliz, mãe. Se meu pai não tivesse estragado tudo, eu já teria terminado os estudos.
— Sabe, mãe… no fundo eu agradeço a Deus por ele estar longe da gente. Eu ainda lembro daquela noite em que ele chegou bêbado e quebrou várias coisas dentro de casa. Só de pensar nisso, eu fico triste.
Dona Helena ficou com os olhos cheios de lágrimas.
Dona Helena: — Filho, eu sei que não é fácil esquecer o passado. Mas tenta, por favor. Não deixa essas lembranças te machucarem mais.
— A gente precisa seguir em frente. A gente não precisa do seu pai pra ser forte. Nossa família é forte.
Victor se aproximou e apoiou a cabeça no ombro dela.
Victor: — Mãe… me promete que você também vai tentar esquecer o papai.
Dona Helena: — Confesso que não é fácil… mas eu prometo que vou tentar.
Victor olhou pra ela e perguntou:
Victor: — Você ainda ama ele, mãe? Seja sincera.
Dona Helena deixou as lágrimas caírem.
Dona Helena: — Amo, sim, meu filho. Eu amo muito o seu pai. Ele foi o primeiro homem por quem eu me apaixonei de verdade.
Victor segurou a mão dela.
Victor: — Eu imagino, mãe. Eu sinto muito por tudo que a senhora passou. Eu só quero que a senhora seja feliz. Muito feliz.
Dona Helena sorriu, mesmo chorando.
Dona Helena: — E eu também quero que você seja feliz, meu filho. Muito feliz.
Victor realmente estava tentando seguir em frente, mesmo depois de tudo que passou. Ele fazia o possível para ser forte e não desistir.
O que ele não sabia era que voltar a estudar iria mudar a vida dele de um jeito que ele nunca imaginou. Muitas coisas novas estavam por vir, coisas boas e difíceis.
Victor não era do tipo que fugia de problemas. Sempre enfrentou tudo de frente. Mas o que estava esperando por ele seria diferente. Seriam situações que ele não saberia lidar de imediato e que também não conseguiria esquecer facilmente.
Victor estava no quarto arrumando a mala para ir pra cidade estudar. Como a cidade era longe da fazenda, ele precisava ficar em algum lugar para poder estudar com calma.
Dona Helena tinha uma amiga na cidade. Essa amiga tinha uma casa que estava para alugar e se ofereceu para ajudar. Por enquanto, ela deixou Victor ficar na casa, até ele se organizar melhor.
Victor não tinha condições de ficar em hotel, então aquela ajuda foi muito importante. Mesmo simples, a casa seria um novo começo para ele.
Antes de sair, ele se despediu da família.
Victor: — Eu amo vocês. Vou sentir muitas saudades.
Dona Helena: — Se cuida, tá, filho. A gente vai sentir muito a sua falta.
Victor abraçou a mãe.
Victor:— Obrigado, mãe
Henrique:— Boa sorte, irmão
Victor abraçou o Henrique e disse:
Victor:— Obrigado, irmão
Carlos não disse nada. Ele apenas correu e abraçou Victor bem forte.
Victor pegou o irmão no colo e disse:
Victor: — Te amo, irmãozinho
Após a despedida, com o coração apertado, Victor finalmente partiu para a viagem, sem saber tudo o que o esperava pela frente
Victor viajou pra cidade
numa sexta-feira, alguns dias antes
das aulas começarem.