Capítulo Um Bem-vindos a Black Hollow
A primeira coisa que Lena Moreau viu quando entraram em Black Hollow foi a placa de madeira gigante que dizia:
BEM-VINDOS A BLACK HOLLOW População: 6.742 “Onde as montanhas encontram o mar.”
Logo abaixo, alguém tinha pintado com spray:
E ONDE OS SONHOS VÃO PARA MORRER
“Sinceramente,” Lena murmurou do banco do passageiro, “finalmente um slogan de cidade com personalidade.”
Sua mãe soltou o suspiro de uma mulher que estava exausta desde aproximadamente 2009.
“Lena.”
“Só estou dizendo. É memorável.”
A chuva batia forte no para-brisa enquanto o caminhão de mudança gemia ao subir a estrada costeira estreita. Pinheiros escuros se amontoavam na encosta da montanha de um lado, enquanto ondas cinzentas e violentas do oceano batiam contra os penhascos do outro.
Tudo parecia cinematográfico, da pior maneira possível.
Como os créditos de abertura de um drama adolescente sobrenatural onde pelo menos três pessoas estavam destinadas a morrer antes do baile de formatura.
Lena encostou a testa dramaticamente na janela.
“Isso,” ela anunciou, “é exatamente como todo filme de terror começa.”
Seu irmão mais novo, Jamie, nem tirou os olhos do seu Nintendo Switch.
“Não, filmes de terror começam com pessoas brancas ouvindo barulhos e indo investigar.”
“Isso é profundamente ofensivo.”
“Mas é verdade.”
A mãe deles apontou um dedo cansado para o banco de trás. “Se qualquer um de vocês começar a brigar antes de desempacotarmos uma caixa sequer, eu vou jogar este carro direto no oceano.”
Silêncio.
Então—
“Justo.”
Lena se encolheu mais no banco e observou Black Hollow surgir através da neblina.
A cidade parecia congelada no tempo.
Antigas fachadas de tijolos margeavam ruas estreitas, iluminadas por luzes amarelas quentes. Uma livraria ficava ao lado de uma lanchonete saída diretamente dos anos 1950. Letreiros de neon zumbiam nas poças de chuva. O lugar todo tinha aquela estética estranha de cidade pequena que deixa as pessoas na internet emocionalmente instáveis.
Parecia exatamente o tipo de cidade onde:
vampiros administram cafeterias,
todo mundo tem traumas geracionais,
e o cara gato e misterioso com certeza sabe como matar alguém.
Lena semicerrou os olhos.
Na verdade…
A atmosfera era agressivamente Twilight coded.
“Ai meu Deus.”
Sua mãe gemeu baixinho. “O que foi agora?”
“E se este lugar tiver vampiros?”
Jamie bufou. “Por favor, vá tocar uma grama.”
“Estou falando sério. Olha para esta cidade. Ninguém aqui paga impostos.”
“Vampiros não existem.”
Lena arquejou de forma teatral. “Isso é exatamente o que alguém escondendo vampiros diria.”
A mãe dela entrou no estacionamento de um grande prédio de apartamentos com vista para o mar.
“Chegamos em casa.”
Lena encarou o prédio.
A construção era antiga, mas bonita, de um jeito gótico e cheio de segredos de gente rica. Paredes de pedra escura eram cobertas por hera, e janelas enormes davam para os penhascos lá embaixo.
Um trovão retumbou acima deles.
Lena apontou lentamente.
“Se eu morrer aqui,” ela disse, “apaguem meu histórico de pesquisa.”
Jamie finalmente olhou para cima.
“Não.”
—
Três horas depois, Lena se arrependia de estar viva.
Fazer mudança era demoníaco.
Não havia outra explicação.
Sua mãe tinha desaparecido em meio à papelada do proprietário enquanto Lena carregava aproximadamente catorze caixas por três lances de escada, porque Jamie tinha desenvolvido subitamente uma “dor nas costas”.
“Você tem quatorze anos,” ela retrucou, arrastando outra caixa pelo corredor. “Sua coluna ainda está em fase de carregamento.”
Jamie estava deitado de cabeça para baixo no sofá, rolando o feed do TikTok.
“Você está sendo muito negativa agora.”
“Estou sendo oprimida.”
“Você diz isso todo dia.”
“Porque todo dia eu sofro.”
Ela largou a caixa perto da cozinha e desabou dramaticamente no chão.
A chuva batia suavemente contra as janelas do apartamento agora e, pela primeira vez desde que chegaram, Lena olhou ao redor.
O apartamento era…
Legal.
Muito legal.
Pisos de madeira. Tetos altos. Abajures com luz quente. Janelas gigantes com vista para o oceano escuro lá embaixo.
O lugar todo parecia estranhamente aconchegante, apesar da tempestade lá fora.
Por um breve segundo, Lena se imaginou ali:
bebendo café enquanto a chuva caía lá fora,
lendo romances de fantasia perto da janela,
apaixonando-se por algum garoto local emocionalmente instável que escondia segredos sombrios—
Um barulho alto interrompeu seus pensamentos.
Jamie apareceu segurando um abajur quebrado.
“…Eu posso explicar.”
“Você é adotado.”
—
Às sete da noite, Lena precisava desesperadamente de ar.
Ela vestiu seu moletom oversized, ignorou a mãe gritando “Não vá muito longe!”, e escapou para as ruas chuvosas de Black Hollow.
A cidade parecia ainda mais bonita à noite.
Luzes de cordão brilhavam acima das calçadas. Música vinha de pequenos restaurantes e bares. A neblina se enrolava nos prédios antigos como fumaça.
Tudo parecia irreal.
Como se a própria cidade estivesse fingindo ser normal.
Lena enfiou as mãos nos bolsos do moletom enquanto caminhava pelas vitrines das lojas.
Um estúdio de tatuagem.
Uma loja de discos.
Uma livraria de antiguidades que parecia amaldiçoada.
Então ela viu.
MOONBEAN CAFÉ
“Ah, nem ferrando.”
O letreiro tinha literalmente uma lua crescente nele.
“Essa cidade está tentando demais.”
Ainda assim, ela entrou.
O calor a atingiu imediatamente, junto com o cheiro de café, canela e livros velhos.
O café parecia cada quadro estético do Pinterest que Lena já tinha salvo às duas da manhã.
Iluminação suave.
Móveis vintage.
Plantas por toda parte.
Uma garota de cabelo prateado trabalhava atrás do balcão enquanto uma música indie tocava baixinho ao fundo.
E sentado sozinho perto da janela dos fundos—
Ah.
Ah, não.
Lá estava ele.
Todos os sinais de alerta de um romance sobrenatural em forma humana.
Alto.
Cabelo escuro caindo sobre olhos penetrantes.
Moletom preto.
Ombros largos.
Expressão carrancuda, encarando a janela coberta pela chuva como se ele pessoalmente odiasse a felicidade.
Lena parou de andar fisicamente.
O garoto olhou para cima.
Olhos castanho-dourados fixaram-se nos dela.
E por um segundo estranho—
O café inteiro ficou em silêncio.
Não literalmente.
Mas internamente.
Como se o cérebro dela tivesse dado um tela azul.
Porque o cara era ofensivamente atraente.
Não atraente de um jeito normal.
Não atraente tipo “barista bonitinho”.
Não.
Isso era:
atraente de maldição antiga,
atraente de arruinar sua vida,
atraente de quem definitivamente se transforma em noites de lua cheia.
O monólogo interior de Lena sussurrou:
Aquele homem já cometeu pelo menos um crime grave.
A garota de cabelos prateados atrás do balcão notou que ela o encarava e deu um sorriso de lado, cúmplice.
“Ah, não”, ela disse baixo. “Mais uma.”
Lena piscou. “O quê?”
“Nada. O que vai querer?”
Lena forçou-se a desviar os olhos do rapaz.
“Uh… chocolate quente.”
“Nome?”
“Lena.”
A garota digitou no caixa.
“Você é nova por aqui.”
“Tá tão na cara?”
“Você ainda tem um olhar esperançoso.”
“Isso é preocupante.”
A garota entregou-lhe o recibo.
“Eu sou Violet.”
“Nome legal.”
“Eu sei.”
Lena sorriu, apesar de si mesma, e se virou —
Diretamente contra uma parede móvel de tecido preto.
O café espirrou.
Um copo atingiu o chão.
E Lena olhou para cima, dando de cara com o misterioso cara gato.
De perto, ele parecia ser ainda pior para a estabilidade mental dela.
Gotas de chuva se prendiam às pontas de seu cabelo escuro. O maxilar era afiado o suficiente para cortar vidro. Havia uma cicatriz quase imperceptível perto da sobrancelha que o deixava com um ar cinematográfico ilegal.
“Ai, meu Deus”, sussurrou Lena.
O rapaz franziu a testa levemente.
“…Você está bem?”
Voz grave.
Fantástico.
Claro que sim.
Lena se recompôs instantaneamente.
“Sim. Totalmente. Acabei de te atacar com café, então, sendo sincera, é uma ótima primeira impressão.”
A expressão dele vacilou, como se estivesse lutando para não sorrir.
Interessante.
Caras misteriosos em filmes nunca riem tão cedo.
“Você é nova aqui”, disse ele.
Não foi uma pergunta.
“Como você sabe?”
“Você parece perdida.”
“Essa é só a minha cara mesmo.”
Uma risadinha escapou dele desta vez.
Uma prova real de que ele possuía sentimentos.
Lena sentiu-se estranhamente vitoriosa por isso.
A garota de cabelos prateados — Violet — apareceu ao lado deles com papéis-toalha.
“Quebrou, pagou”, informou ela a Lena.
“Eu odeio o capitalismo.”
“Você derramou um café de quatro dólares.”
“Exatamente. Corrupção.”
O rapaz se abaixou para ajudar a pegar o copo estilhaçado antes que Lena pudesse impedi-lo.
As mãos deles se tocaram brevemente.
E, de repente —
Uma dor.
Aguda.
Rápida.
Como eletricidade estática explodindo pelo braço dela.
Lena deu um pulo para trás.
“Então, isso aconteceu.”
O rapaz congelou.
Pela primeira vez desde que ela o vira, sua expressão calma se partiu.
Ele parecia… alarmado.
Não alarmado de um jeito normal.
Aterrorizado.
Violet também notou.
Uma tensão estranha preencheu o café instantaneamente.
Lena piscou, olhando de um para o outro.
“…Eu entrei para uma seita por acidente?”
“Não”, o rapaz disse imediatamente.
Imediato demais.
Suspeitosamente imediato.
Violet parecia estar tentando não rir.
O rapaz se levantou devagar, com os olhos ainda fixos em Lena.
“Qual é o seu nome?”, ela perguntou.
Uma pausa.
“Kai.”
Claro que era.
É claro que o garoto misterioso, emocionalmente indisponível e viciado em chuva, tinha um nome como Kai.
Lena quase riu.
“Você só pode estar brincando comigo.”
As sobrancelhas dele se juntaram.
“O quê?”
“Nada. É que você tem toda a cara de alguém chamado Kai.”
“Isso nem significa nada.”
“Significa que você definitivamente fica olhando pela janela com um ar melancólico.”
“Eu não fico.”
“Você está literalmente fazendo isso agora.”
Pela primeira vez, um sorriso de verdade apareceu.
Rápido.
Torto.
Perigosamente atraente.
E o cérebro de Lena a traiu imediatamente.
Ah, eu vou tomar decisões terríveis aqui.
Lá fora, um trovão sacudiu as janelas.
O sorriso de Kai desapareceu na hora.
Ele virou a cabeça bruscamente em direção à rua.
Cada músculo do corpo dele se tensionou.
Lena seguiu o olhar dele.
A princípio, ela não viu nada.
Então —
Uma sombra enorme passou pelo beco do lado de fora da janela do café.
Grande demais para ser um cachorro.
Rápida demais para ser humana.
Desapareceu em segundos.
Um calafrio percorreu a espinha de Lena.
“O que foi isso?”
Kai se levantou abruptamente.
A expressão de Violet escureceu.
O clima do café mudou tão rapidamente que o estômago de Lena deu um nó.
Kai olhou para ela.
“Você deveria ir para casa.”
“O quê?”
“Agora.”
“Tá bom, que grosso—”
“Lena.”
O jeito que ele disse o nome dela a fez parar de falar.
Baixo.
Sério.
Quase urgente.
Por um momento estranho, um medo genuíno passou pelo rosto dele.
Não por ele mesmo.
Por ela.
A chuva aumentou lá fora.
Em algum lugar ao longe, no fundo da floresta além da cidade —
Algo uivou.
O som ecoou por Black Hollow como um aviso.
E todas as pessoas dentro do café ficaram em silêncio absoluto.
Lena olhou ao redor da sala.
Ninguém parecia surpreso.
Ninguém parecia confuso.
Eles pareciam nervosos.
Como se já tivessem ouvido aquele som antes.
Os olhos de Kai se prenderam aos dela novamente.
“Vá para casa”, ele repetiu baixinho.
Então, ele saiu para a tempestade.








