Além da Terra

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Resumo

Sarah é uma jovem mãe comum de Lancashire, na Inglaterra, vivendo uma vida tranquila com seu marido, sua filha pequena e seu cachorro, até que um passeio à noite termina em escuridão. Ela acorda amarrada a uma mesa de metal em uma sala sem janelas, despida, dopada e vigiada por criaturas que, teoricamente, não poderiam existir. A humanidade nunca foi além da Lua. Alienígenas são apenas ficção. No entanto, Sarah logo descobre que foi levada para muito longe da Terra, aprisionada a bordo de uma nave oculta com duas crianças aterrorizadas e sem qualquer forma de voltar para casa. Após semanas de medo, fome e experimentações brutais, um alarme ecoa pela nave. Em meio ao caos, Sarah reage. Ela é encontrada por um estranho alienígena de olhos negros, pele verde-escura e uma intensidade silenciosa e inquietante. O nome dele é Sonn e, embora não seja humano, ele parece compreender o terror dela melhor do que ninguém. Resgatada para uma galáxia vasta, cuja existência nunca foi revelada à Terra, Sarah precisa encarar verdades insuportáveis. Enquanto Sarah luta para sobreviver ao luto, ao deslocamento e aos mistérios da civilização alienígena, Sonn permanece uma presença constante e enigmática — direto, vigilante, por vezes ríspido, mas jamais indiferente. E o que quer que o ligue a ela pode ser algo muito mais estranho do que um simples resgate.

Status
Completo
Capítulos
24
Classificação
4.6 10 avaliações
Classificação Etária
18+

Capítulo 1: Sarah

Sarah acordou com uma luz branca.

Por alguns segundos, era só isso que existia. Luz. Uma luz branca, artificial e forte, atravessando suas pálpebras e deixando o interior de seu crânio avermelhado. Ela piscou contra a claridade, uma, duas vezes, sentindo os cílios pesados como se tivesse dormido profundo demais ou por tempo demais.

O teto acima dela não era um teto que ela conhecesse. Era de metal. Liso, cinza, levemente reflexivo, interrompido apenas por uma longa faixa de luz fluorescente que zumbia lá no alto. O som era fino e constante, quase como o de um inseto naquele silêncio.

Sarah tentou levantar uma mão para proteger os olhos. O pulso não se moveu. Por um segundo tolo, ela pensou que sua manga tivesse prendido em alguma coisa.

Então, ela puxou de novo.

Algo apertou seu pulso. Ela olhou para baixo.

Correias.

Sua mente ficou vazia.

Não calma.

Não sem pensamentos.

Vazia do jeito que um quarto silencia quando um copo se quebra.

Ela estava deitada de costas sobre uma mesa de metal. Seus braços estavam fixos nas laterais, os pulsos presos por algemas escuras. Seus tornozelos também estavam amarrados. Ela sacudiu um pé, depois o outro, e as restrições cravaram imediatamente em sua pele.

"Não", sussurrou ela.

A palavra soou minúscula na sala.

Ela puxou com mais força. Seu corpo reagiu antes que sua mente pudesse processar. Ombros se retorcendo, coluna arqueando, dedos arranhando o ar vazio. A mesa embaixo dela era estreita e fria. Sua pele grudava levemente nela onde a camisola hospitalar tinha subido, ficando em torno de suas coxas.

Camisola de hospital.

Seu moletom tinha sumido. Assim como suas leggings. Seus tênis. Suas meias. Sua roupa de baixo.

Alguém tinha trocado sua roupa.

O pânico subiu tão rápido que ela mal conseguia respirar. Alguém tinha tirado suas roupas. Alguém tinha tocado nela enquanto estava inconsciente. Alguém a colocou ali, a prendeu ali, a deixou ali sob aquela luz branca terrível.

"Não. Não, não, não."

Ela tentou sentar e não conseguiu. Tentou virar de lado e não conseguiu. Tentou libertar um braço e só fez a restrição cortar ainda mais o interior macio de seu pulso.

O quarto foi revelado aos poucos. Paredes de metal. Chão de aço. Caixas empilhadas de um lado. Outras mesas alinhadas ao seu redor.

Mesas cirúrgicas.

Um horror novo surgiu dentro dela.

Ela estava caminhando. Essa era a última coisa de que se lembrava. Ela tinha colocado Isobel na cama logo depois das sete, beijado a curva quente de sua bochecha, ajeitado a mechinha escura de cabelo da testa dela. Isobel nasceu com muito cabelo. Todos comentavam sobre isso naquelas primeiras semanas. Mas agora restavam apenas pequenas penugens. Sarah odiava e amava isso.

Lewis estava na cozinha carregando a lava-louças de qualquer jeito, porque ele sempre carregava de qualquer jeito, e Sarah tinha rido e dito a ele que levaria Twiglet para passear antes que escurecesse de vez.

Uma noite normal.

Uma noite estúpida, preciosa e comum.

O caminho estava seco sob seus tênis. Cascalho e pedras estalando sob seus pés. Campos de cada lado, trigo sussurrando no ar de verão. Twiglet trotava um pouco à frente na guia extensível, orelhas balançando, focinho para baixo, o pequeno corpo de pelo duro cheio de importância. Sarah segurava sua garrafa de água em uma mão e a guia na outra.

Então nada.

Nenhum som.

Nenhum clarão.

Nenhuma dor.

Apenas nada.

E agora, isto.

Ela começou a lutar de verdade então. Sem cuidado. Sem sensatez. Ela se debateu contra as restrições até que a mesa tremesse abaixo dela.

Um som escapou dela, metade grunhido, metade soluço. Lágrimas se acumularam, mas não caíram. O pânico era físico demais para lágrimas ainda. Ele habitava suas costelas, sua garganta, seus pulsos, a necessidade animal e frenética de levantar, sair, fugir.

"Socorro!", ela gritou.

O som arranhou sua garganta.

Nenhuma resposta.

"Alguém me ajude!"

Nada.

O quarto engoliu sua voz. A luz acima dela piscou. Sarah paralisou. Por um momento, só restava o zumbido elétrico e sua própria respiração, ofegante e feia naquele quarto lacrado. Sem janelas. Sem relógio. Sem vozes. Nenhuma ideia de onde ela estava.

O ar cheirava a metal, antisséptico e algo seco e filtrado, como se tivesse sido resfriado e limpo vezes demais. Pequenas partículas de poeira pairavam imóveis na luz fluorescente acima dela. Nada as movia, exceto sua respiração.

Ela engoliu em seco. Sua garganta doía.

Ela estava com sede.

Não uma sede qualquer.

Não o tipo de sede que vinha depois de uma caminhada de verão.

Sua língua parecia grossa. Seus lábios pareciam secos. A constatação percorreu sua mente lentamente, mais fria do que a mesa abaixo dela. Ela devia estar ali há horas.

Então outra sensação emergiu através do pânico. Uma dor. Profunda, quente, insistente. Sarah ficou imóvel. Por um momento, não conseguiu identificar. Havia medo demais, frio demais, coisas erradas demais. Então, a dor se intensificou em seu peito, pesada, inchada e horrivelmente familiar.

Seus seios.

Ela olhou para baixo o quanto as restrições permitiam. A parte da frente da camisola hospitalar estava úmida. Por um segundo confuso, ela não entendeu. Então entendeu.

Leite.

O som que saiu dela foi pior que um soluço. Seus seios estavam cheios. Dolorosamente cheios. A pele parecia esticada e sensível sob a camisola fina, seu corpo forçado além do conforto, além da rotina, exigindo alívio. Um vazamento lento e quente tinha se espalhado pelo tecido.

"Não", sussurrou ela.

Isobel.

O pensamento não chegou de forma gentil. Ele a dilacerou.

Isobel tinha perdido uma mamada.

Talvez mais de uma.

Sarah tinha amamentado antes de colocá-la na cama, mas não o suficiente para durar a noite toda. Ainda não. Isobel era muito pequena, ainda acordava com fome, ainda buscando o peito de Sarah com aqueles sons pequenos e furiosos que partiam o coração de Sarah, mesmo quando ela estava exausta. Se Sarah estava tão cheia, então Isobel teria acordado. Ela teria chorado. Lewis teria tentado acalmá-la. Ele teria tentado uma mamadeira, se tivesse sobrado leite ordenhado, se ele conseguisse achar, se Isobel aceitasse vindo dele, estando assustada, com fome e querendo a mãe.

A respiração de Sarah falhou.

Ela precisava amamentá-la.

O pensamento era desesperado e absoluto. Ela precisava sentar. Precisava ir para casa. Precisava do peso quente de Isobel contra ela, a sucção suave de sua boquinha, a mãozinha que sempre pressionava a pele de Sarah como se a mantivesse ali.

Em vez disso, ela estava presa a uma mesa de metal, vazando através de uma camisola de hospital enquanto estranhos tinham feito Deus sabe o quê com seu corpo.

"Por favor", ela implorou, embora não houvesse ninguém ali para ouvir.

"Por favor, eu preciso ir para casa."

Sua voz quebrou na última palavra. Ela se forçou a respirar.

Inspira.

Expira.

Ainda rápido demais, mas ali.

Inspira.

Expira.

Ela precisava pensar. Precisava saber o que tinham feito com ela.

Dor.

Ela tentou se concentrar de novo.

Estou sentindo dor?

A pergunta a acalmou porque era prática. Dava a ela algo para fazer além de gritar.

Sarah fechou os olhos por um segundo e percorreu seu próprio corpo.

Dedos dos pés.

Ela os mexeu.

Ainda estavam lá.

Pés. Tornozelos. Panturrilhas.

Ela contraiu, relaxou, contraiu de novo.

Nenhuma dor aguda.

Coxas. Quadris. Seu estômago se contraiu.

Nenhuma dor ali também.

Nenhum ferimento óbvio.

Nenhum rasgo.

Nenhuma queimadura.

Nada que seu corpo em pânico pudesse identificar, a menos que o choque estivesse escondendo de si mesma.

Ela continuou. Mãos. Dedos. Braços.

Ainda estavam lá. Ainda eram dela.

Ela abriu os olhos novamente e olhou para baixo o máximo que pôde. A camisola era branca, exceto pela umidade espalhada em seu peito.

Nenhum sangue.

Certo, isso é bom.

Suas pernas nuas pareciam comuns sob a luz fluorescente. Pele pálida. Algumas manchas roxas antigas que ela reconhecia da vida real. Uma linha fina de pelos crescendo ao longo das canelas.

Preciso depilar as pernas.

O pensamento era tão absurdo, tão perversamente normal, que por meio segundo ela quase riu.

Então ela começou a chorar.

Não alto no começo. Apenas um escorrido quente no canto dos olhos, deslizando para a linha do cabelo, já que ela não conseguia levantar a mão para limpar. Ela encarou a si mesma, forçando o olhar por cada centímetro visível.

Pés. Tudo bem.

Pernas. Um pouco peludas, mas tudo bem.

Mãos. Tudo bem.

Braços— Ela parou.

Havia uma marca na dobra do seu cotovelo esquerdo. Pequena. Vermelha. Precisa. Um leve hematoma começava a se formar ao redor dela. Sarah encarou a marca.

Local de injeção.

A pequena dose de controle que ela tinha conseguido reunir se despedaçou.

Alguém tinha injetado algo nela. Ou tirado algo. A drogaram. Sedaram-na. Coletaram sangue. Ela não sabia. Não tinha como saber.

Ela olhou desesperadamente para os lados, esperando um acesso, um monitor, fios ligados ao seu peito, qualquer coisa que explicasse o que tinha sido feito.

Nada.

Sem máquinas. Sem bolsas de soro. Sem eletrodos. Sem monitor cardíaco apitando constantemente ao lado dela. Ela estava simplesmente presa em uma sala de metal sem janelas.

Sozinha.

A porta abriu.

Sarah ficou imóvel tão rápido que doeu.

Ela estava embutida na parede à sua direita, tão lisa que ela nem tinha notado a junção. Ela deslizou com um chiado alto e pressurizado que fez cada músculo do seu corpo se contrair.

Duas figuras entraram.

A princípio, sua mente os recusou.

Ela não tentou nomeá-los. Não tentou entender. Ela simplesmente parou, como se a parte dela que sabia reconhecer o mundo tivesse esbarrado em algo que não conseguia processar.

Eles não eram humanos.

Sarah encarou.

Eles tinham aproximadamente o tamanho de um humano, não eram mais altos que um homem comum, da mesma altura de Lewis, talvez, mas com o corpo mais largo. Densos. Robustos. Suas roupas — se é que eram roupas — eram coladas ao corpo, cinza e pretas e levemente brilhantes, como borracha ou pedra molhada.

Mas foram seus rostos que prenderam o grito dentro dela. Quatro olhos. Pretos, lustrosos, dispostos em pares no topo do rosto. Sem brancos. Sem pupilas que ela pudesse ver. Apenas escuridão refletindo as luzes fluorescentes. Onde deveria haver um nariz, havia duas fendas estreitas, altas e planas. Suas bocas eram largas demais.

Esse era o detalhe que a fazia ter ânsia de vômito.

Larga demais, comprida demais, estendendo-se pela parte inferior do rosto em uma linha que poderia ser inexpressiva ou um sorriso. Ela não conseguia distinguir.

A pele deles era marrom-acinzentada e manchada, grossa em alguns lugares, dobrada em outros, parecendo o pescoço de uma tartaruga velha.

Aliens.

A palavra veio inteira e ridícula.

Não.

Não, isso era loucura.

Não existiam aliens. Não podia haver. A humanidade mal tinha ido além da lua. Se aliens existissem, se um contato tivesse acontecido, estaria em todas as telas, todos os telefones, todos os canais de notícias do mundo.

Máscaras, então.

Próteses.

Alguma fantasia elaborada.

Algum experimento ou piada de mau gosto.

Então um deles falou.

O som era baixo o suficiente para vibrar em algum lugar abaixo de suas costelas. Tons longos e arrastados, não tanto como palavras, mas como pressão ganhando forma. O outro respondeu na mesma língua.

Sarah não conseguia gritar. Não conseguia implorar. Por vários segundos, ela só conseguiu encará-los enquanto seu corpo jazia rígido na mesa, cada parte dela esperando ser ferida.

Aquele mais próximo da porta olhou para ela. Todos os quatro olhos fixos em seu rosto. Então ele se aproximou.

Isso quebrou sua paralisia.

“Não”, ela arquejou. “Não, por favor. Por favor, não. Por favor.”

Ele não reagiu.

Ela se contorceu violentamente contra as amarras, mas não havia para onde ir. A criatura ficou ao lado da mesa e estendeu a mão para a bainha de seu avental. Sarah balançou a cabeça.

“Não. Não faça isso. Não me toque. Por favor, não me toque.”

Ele levantou o avental.

Ar frio passou por suas coxas, seus quadris, seu estômago.

O tecido deslizou para cima e se amontoou sob suas costelas. Ela tentou juntar os joelhos, mas as amarras mantinham suas pernas afastadas apenas o suficiente para que ela não conseguisse se proteger, não conseguisse se encolher, não conseguisse se fazer pequena.

Um som saiu dela então. Fino. Quebrado. Não era bem um grito.

A criatura não a tocou de início. De alguma forma, isso tornou tudo pior. Ele apenas olhou. Para suas pernas. Seu estômago. Entre suas pernas. Seus seios.

A inspeção foi lenta, metódica e vazia de qualquer coisa que Sarah compreendesse.

Não era vergonha.

Não era crueldade.

Não era curiosidade em qualquer sentido humano.

Não era gentileza.

Não havia nada a que ela pudesse apelar. Para eles, ela não era uma mulher.

Ela não era Sarah.

Não era esposa de Lewis.

Não era mãe de Isobel.

Não era uma pessoa que estava passeando com seu cachorro por um campo ao anoitecer.

Ela era um corpo sobre uma mesa.

Então a criatura parou. Todos os seus quatro olhos fixos em seu peito. Sarah seguiu o olhar dele e compreendeu, com um surto doentio de humilhação e medo, o que ele tinha visto.

O leite tinha encharcado o avental. Outra gota tinha se formado onde o tecido havia se deslocado, quente e exposta sob a luz fria.

“Não”, ela sussurrou.

Ele estendeu a mão.

O toque foi breve.

Um dedo longo pressionou contra a gota que vazava em seu mamilo. Sarah soltou um som quebrado e tentou se afastar, mas as correias a mantiveram presa. Uma dor aguda passou por ambos os pulsos.

A criatura não pareceu notar. Ele retirou a mão e a segurou no alto, estudando o brilho branco e fino na ponta do dedo. Então ele esfregou o líquido lentamente entre dois dedos. Sarah encarou a cena horrorizada.

Leite.

Seu leite.

O leite de Isobel.

A criatura bateu os dedos um no outro uma vez. Duas vezes. Testando a textura, talvez. Medindo. Ela não fazia ideia. Então, ele fez um daqueles sons baixos e arrastados para a outra criatura. A segunda se aproximou e também olhou.

“Não”, Sarah implorou, a palavra inútil em sua boca. “Por favor. Eu tenho um bebê. Preciso amamentar meu bebê.”

Nenhum deles reagiu. A primeira criatura falou novamente, ainda esfregando os dedos. O outro respondeu. Suas vozes se moviam para lá e para cá sobre seu corpo exposto, sobre o avental úmido, sobre a coisa que seu corpo tinha produzido porque Isobel precisava dela.

Eles estavam discutindo sobre ela. Ou sobre o leite. Ou sobre o que quer que achassem que ela fosse.

Não Sarah.

Não mãe.

Especime.

A palavra veio a ela com uma clareza tão fria que ela quase parou de respirar.

“Não”, ela implorou de novo. “Por favor. Ela precisa de mim. Meu bebê precisa de mim.”

Eles não olharam para o rosto dela.

Depois de um tempo, eles parecem ter chegado a algum tipo de acordo.

A primeira criatura soltou o avental. Não puxou para baixo. Apenas soltou. O tecido permaneceu amontoado ao redor de suas costelas, deixando-a exposta sob a luz. Então, eles se viraram e foram embora. A porta sibilou ao se fechar atrás deles.

Por vários segundos, Sarah não conseguiu se mover de forma alguma.

Então ela começou a tremer tão forte que a mesa vibrou sob ela.

Ela moveu os dedos desesperadamente, tentando agarrar a borda do avental onde ele estava amontoado perto de seu lado.

Foram necessárias três tentativas até que ela conseguisse prender o tecido entre dois dedos e puxá-lo para baixo alguns centímetros.

Depois, mais um pouco.

Não era o suficiente.

Nem de longe. Mas o suficiente para cobrir parte de si mesma. Suficiente para se sentir um pouco menos exposta.

Ela ficou ali soluçando.

Lewis estaria procurando por ela. Isobel estaria chorando. Twiglet poderia estar morto em algum lugar num campo.

O pensamento veio tão de repente que ela soltou um som como se tivesse levado um golpe.

Não.

Não, Twiglet tinha que estar vivo.

Ele deve ter corrido para casa. Alguém deve tê-lo encontrado. Lewis saberia que algo estava errado. Ele teria chamado a polícia. Teria chamado a mãe dela. A mãe dele. Todo mundo.

Mas o que qualquer um deles poderia fazer?

Onde ela estava?

Para onde a tinham levado?

A dor nos seios pulsou novamente, quente e insistente sob o avental úmido.

Seu corpo não compreendia o terror. Não compreendia salas impossíveis, criaturas de olhos negros ou mesas de metal. Ele só sabia que tempo demais tinha passado e que seu bebê precisava ser alimentado.

Sarah chorou mais forte.

“Desculpe”, ela sussurrou, embora não soubesse se estava falando com Isobel, Lewis ou consigo mesma.

“Sinto muito. Por favor, me ajudem. Por favor, alguém me ajude.”

Antes que ela pudesse desmoronar completamente, a porta abriu de novo. As mesmas duas figuras entraram. Desta vez, uma delas carregava uma agulha.

O corpo de Sarah começou a lutar antes mesmo que sua mente formulasse o pensamento. Ela puxou as amarras com tanta força que a dor disparou por ambos os pulsos.

“Não”, ela gritou. “Não, por favor. Por favor, não.”

Eles se aproximaram.

“Não. Não, eu tenho um bebê. Vocês viram — vocês viram, eu tenho um bebê. Eu preciso alimentá-la. Por favor.”

Aquele com a agulha pegou seu braço. Seu aperto era firme e impessoal. Talvez estivesse de luvas, ou talvez aquela fosse sua pele. Ela não conseguia dizer.

Ele virou seu cotovelo para fora com uma facilidade prática.

“Não, por favor. Por favor. Ela precisa de mim. Eu tenho que ir para casa.

A agulha tocou sua pele.

Sarah gritou.

Ela entrou.

Por um segundo, houve dor, aguda e fria.

Então a luz branca acima dela se estendeu.

O quarto desapareceu.

E a escuridão a dominou por completo.

Quando Sarah acordou novamente, ela se lembrou antes de entender.

Seus olhos se abriram bruscamente.

Luz branca. Teto de metal. Ar frio.

Ela se levantou com um ganido, uma mão já arranhando o peito, a outra agarrando a bainha do avental hospitalar. Por um segundo selvagem, ela esperou que as correias mordessem seus pulsos novamente, esperou que seus braços se debatessem inutilmente contra a mesa.

Mas suas mãos se moveram.

Ela congelou.

Então ela tocou tudo.

Seus braços. Seus pulsos. Seu rosto. Suas orelhas. Sua garganta. Seu estômago. Suas pernas.

Ela passou as mãos pelo corpo com uma urgência frenética e trêmula, verificando se havia dor, sangue, partes faltando, qualquer coisa que pudesse lhe dizer o que tinha sido feito enquanto ela estava fora.

Ainda viva.

Ainda inteira.

Não segura. Não intocada. Mas inteira.

Só então ela percebeu que não estava mais presa.

Sarah olhou para seus pulsos.

As amarras tinham sumido, mas as marcas permaneciam. Faixas vermelhas profundas circulavam ambos os pulsos, cruas e irritadas onde ela tinha lutado contra elas. Seus tornozelos estavam iguais. Machucados. Sensíveis. Prova de que a primeira sala tinha sido real.

A mesa tinha sumido.

Não.

Não sumido.

Ela estava em outro lugar.

Sarah arrastou-se para trás até que suas costas batessem em uma parede. O choque do metal frio através do avental fino a fez ofegar. Ela olhou em volta, respirando rápido demais.

O quarto ainda era de metal. Ainda cinza-prateado e de bordas rígidas, ainda iluminado por aquela mesma luz branca impiedosa. Caixotes estavam empilhados contra um dos lados em torres irregulares. O chão sob ela era de aço liso, frio o suficiente para doer através de seus pés descalços.

Mas não havia mesas cirúrgicas.

Sem cadeiras.

Sem amarras.

Sem porta que ela pudesse ver.

Apenas o quarto.

Os caixotes.

Ela.

E uma janela.

Sarah a encarou.

Por um momento, ela não se moveu. Uma janela significava o lado de fora. Uma janela significava direção, lugar, algo além do metal selado e das luzes zumbidoras.

Então ela correu até ela.

Seus pés descalços bateram contra o chão. Ela alcançou o vidro — se é que era vidro — e pressionou ambas as mãos contra ele.

Lá fora era preto.

Não o preto de um campo escuro. Não o preto de um quarto com as luzes apagadas. Um preto mais profundo. Um preto vasto e sem profundidade, preenchido com pontos de luz tão nítidos que pareciam quase artificiais. Prateados, azul-esbranquiçados, vermelho-tênue, alguns estáveis, outros piscando.

Por um segundo estúpido e esperançoso, ela pensou: céu noturno.

Então ela entendeu o que estava errado.

Não havia horizonte.

Sem árvores.

Sem chão.

Sem nuvens passando sobre as estrelas.

Sem borrão laranja de uma cidade ao longe. Sem luz de casa de fazenda. Sem estrada. Sem campo iluminado pelo luar. Nada que pertencesse à Terra como ela conhecia.

Apenas escuridão e estrelas, espalhadas por todas as direções que ela podia ver.

Sarah afastou-se da janela.

“Não”, ela sussurrou.

A palavra embaçou a superfície à sua frente.

Ela inclinou-se novamente, porque precisava haver uma explicação. Tinha que haver.

Talvez fosse uma tela. Algum tipo de projeção. Um truque. Um avião à noite. Uma aeronave militar. Algo alto o suficiente para que o chão tivesse desaparecido sob as nuvens.

Ela virou a cabeça, tentando enxergar ao longo da lateral do que quer que fosse onde ela estava.

Sem asas.

Sem motor.

Sem luzes piscantes de aeronave.

A lateral da nave — nave, a palavra surgiu antes que ela pudesse impedir — parecia plana e escura, desaparecendo além da borda da janela.

Sarah olhou para baixo.

Não havia chão.

Apenas mais escuridão.

O pavor veio lentamente desta vez. Não um ataque de pânico, nem o terror animal e vívido de acordar presa, mas algo mais frio. Ele se infiltrou em seus ossos, nos lugares ocos atrás de suas costelas, no fundo de seu estômago.

Espaço.

Não.

Impossível.

Espaço.

O pensamento não tinha para onde ir. Ele continuava retornando, bruto, absurdo e monstruoso.

Ela sempre amou o espaço.

Essa era a crueldade disso.

Ela e Lewis tinham assistido a documentário atrás de documentário no sofá. E depois na cama, quando conseguiram uma restituição de imposto e se deram ao luxo de comprar uma TV para o quarto.

Era o lugar feliz deles.

Ainda mais depois que Isobel nasceu. Quatro da manhã, Twiglet roncando, o volume baixo enquanto o bebê mamava até adormecer contra o peito de Sarah. Sarah parava a cada dez minutos para lhe contar algo que acabara de lembrar, ou algo que o narrador tinha pulado, ou algum fato sobre quasares, estrelas de nêutrons ou buracos negros, que Lewis fingia entender porque a tolerava e, secretamente, gostava de vê-la empolgada.

Alguns aniversários atrás, ele tinha comprado um telescópio para ela. Não era de primeira linha, mas era caro o suficiente para ela soltar um gritinho quando o abriu.

Ele tinha montado errado, e o rastreamento automático nunca funcionou direito, então ela tinha que ficar no jardim com o controle remoto, ajustando-o a cada poucos minutos.

Ela não se importava.

Em uma noite congelante de janeiro, ela encontrou Saturno.

Saturno de verdade.

Pequeno, pálido e milagroso através da lente, seus anéis inclinados como algo delicado demais para ser real. Ela correu para cima e puxou Lewis da cama, ele de robe, Sarah rindo enquanto ele reclamava do frio, depois ficando ao lado dele, sorrindo enquanto ele se inclinava para olhar.

Naquela época, o espaço era uma maravilha.

Distância.

Beleza.

Algo seguramente inalcançável.

Agora estava do lado de fora da janela.

Agora não era maravilha nenhuma.

Era ausência.

Era silêncio.

Era a consciência de que, além dessa barreira fina, não havia para onde fugir, para onde respirar, para onde ficar. Sem estrada que levasse para casa. Sem polícia procurando nos campos. Sem vizinho vendo-a através de uma janela acesa e pedindo ajuda.

Poderia muito bem estar a milhões de quilômetros de distância.

Poderia muito bem estar morta.

Isobel.

O nome abriu algo dentro dela.

Sua filhinha.

Sarah pressionou as duas mãos sobre a boca, mas o som saiu mesmo assim.

Ele rasgou a garganta dela, cru, baixo e nada parecido com um choro comum. Era um lamento. Um som animal. O tipo de som que ela teria vergonha de fazer, se qualquer parte de si ainda fosse capaz de sentir vergonha.

Isobel acordaria e choraria por ela.

Isobel procuraria o ombro de Lewis, furiosa, faminta e confusa, buscando um corpo que não estava lá.

Sarah curvou-se para frente, com os braços envoltos em si mesma.

“Não”, ela sussurrou para as mãos. “Não, não, não.”

A dor daquilo a deixou enjoada.

Ela mal conseguiu chegar ao canto.

Ela caiu ao lado de um dos caixotes e vomitou no chão de metal.

Não havia quase nada em seu estômago.

A bile queimou sua garganta.

Seu corpo ainda assim teve ânsias, repetidamente, tentando se esvaziar de um terror que não tinha para onde ir.

Quando acabou, ela permaneceu de quatro, cuspindo, tremendo, com os olhos lacrimejando.

O quarto zumbia ao redor dela.

Ela limpou a boca nas costas do braço e sentou-se encostada na parede.

Foi então que ela se lembrou de seus seios.

A dor tinha sumido.

Sarah ficou imóvel.

Lentamente, ela olhou para baixo.

A camisola ainda estava úmida no peito, mas a pressão terrível tinha diminuído. Seus seios não pareciam mais esticados, quentes e dolorosamente cheios. Eles estavam macios. Sensíveis. Vazios.

Por meio segundo, alguma parte exausta dela quase reconheceu o alívio.

Então, veio o horror.

Vazios.

Ela tinha ficado inconsciente.

Ela não tinha amamentado Isobel. Ela não tinha extraído leite. Ela não tinha feito nada.

Alguém mais tinha feito.

Ou alguma coisa mais.

O estômago de Sarah deu voltas novamente, embora não houvesse mais nada para pôr para fora. Ela segurou a camisola fechada sobre o peito, os dedos cravando-se no tecido fino.

A memória retornou com clareza cruel: o dedo da criatura em seu mamilo, o jeito que ele esfregou seu leite entre dois dedos, o som baixo que fez para o outro.

Ela olhou para o braço.

Havia outra marca vermelha acima do primeiro local da injeção.

Uma nova.

Ela esfregou com o polegar, com força, como se o atrito pudesse apagar o fato dela. Como se pudesse esfregar a agulha, o tempo perdido, o alívio impossível em seus seios. Sua pele apenas avermelhou sob seus dedos.

Sarah deslizou pela parede até estar sentada no chão.

O metal estava frio sob suas coxas. Ela puxou a camisola sobre os joelhos o máximo que pôde e se encolheu, tentando se fazer menor, mais quente, menos visível.

Ela chorou novamente.

Por Isobel.

Por Lewis.

Por Twiglet, que poderia estar ferido em algum lugar na escuridão, ainda preso àquela guia estensível estúpida.

Por si mesma.



Ela cobriu o rosto com as duas mãos e deixou-se desabar.

Um som veio de trás dos caixotes.

A cabeça de Sarah disparou para cima.

Ela prendeu a respiração.

Por um momento, nada se moveu.

Então, um rosto pequeno apareceu no espaço entre dois caixotes de metal.

Um rosto humano.

Uma criança.

Sarah encarou.

Um garotinho estava observando-a.

Ele não podia ter mais de oito anos. Pálido, magro, imundo como as crianças ficam quando ninguém as lava direito por dias. Seu cabelo castanho estava separado em mechas gordurosas sobre a testa. Seus olhos estavam arregalados e com as bordas brancas de tanto medo. Seus lábios estavam pressionados um contra o outro tão firmemente que parecia que ele estava segurando o choro fisicamente.

Sarah levantou-se antes mesmo de seu pensamento alcançar a ação.

O menino se encolheu e recuou.

Ela parou instantaneamente.

Claro que ele estava com medo.

Ela se abaixou lentamente, agachando-se, e levantou as duas mãos, com as palmas para fora.

“Está tudo bem”, ela disse.

Sua voz saiu trêmula.

Ela engoliu em seco e tentou de novo.

“Está tudo bem. Não vou te machucar.”

O menino não se moveu.

Seus dedos rastejaram até a boca. Ele começou a roer a pele ao redor das unhas.

“Meu nome é Sarah”, ela disse suavemente. “Qual é o seu nome?”

Nada.

Os olhos dele moveram-se para trás do caixote.

Sarah seguiu o olhar dele.

Outro rosto apareceu.

Uma garotinha desta vez.

Cabelo loiro, embaraçado e sem brilho. Bochechas redondas pálidas de medo. Não mais que cinco anos, pensou Sarah. Talvez mais nova. Ela se agarrava à borda do caixote com as duas mãos, espiando por trás dele.

O coração de Sarah partiu-se tão repentinamente que ela quase fez um som.

Duas crianças.

Havia duas crianças ali.

Eles estavam usando as mesmas camisolas brancas que ela. A do menino estava grande demais para seus ombros estreitos. A da garotinha estava marcada com manchas cinzas na bainha e na manga. Sarah viu pontos vermelhos ao longo do braço do menino, pequenos locais de injeção como os dela.

Ela manteve as mãos levantadas.

“Olá”, ela disse.

Nenhum deles respondeu.

“Está tudo bem. Não vou chegar mais perto.”

O menino continuava roendo os dedos.

“Vocês falam inglês?”

O garotinho apenas olhou para ela por um momento. Então, lentamente, ele assentiu.

Sarah sentou-se sobre os calcanhares, ficando mais baixa que ele, menor que ele, embora tudo dentro dela quisesse agarrar as duas crianças e puxá-las para perto.

“Vocês estão sozinhos?”, perguntou ela.

O menino hesitou.

Depois, ele assentiu de novo.

Sarah olhou para a garotinha.

“Ela é sua irmã?”

O menino olhou de volta para ela e balançou a cabeça negativamente.

Não eram irmãos, então.

Crianças diferentes.

Lugares diferentes, talvez.

Famílias diferentes que estavam perdendo a cabeça em algum lugar na Terra.

Sarah precisou fechar os olhos por um segundo.

Quando os abriu, as crianças ainda a observavam.

“Vocês estão machucados?”, perguntou ela.

O menino balançou a cabeça negativamente.

O menor suspiro de alívio escapou dela.

“Bom”, ela sussurrou. “Isso é bom.”

Ela queria desabar novamente. Queria colocar o rosto nas mãos e gritar até o quarto desaparecer. Mas podia sentir a mudança acontecendo dentro dela, terrível e necessária.

Antes, ela estava sozinha.

Agora, não estava mais.

Agora havia crianças observando para ver se ela era segura.

Então, ela tinha que se tornar segura.

A garotinha saiu de trás do caixote. Ela veio ficar ao lado do menino, com uma das mãos segurando o tecido folgado da camisola dele.

Por um momento, ela apenas olhou para Sarah.

Então, apontou.

"Por que você está molhada aí?"

A voz dela era muito pequena e doce, com um suave sotaque da Irlanda do Norte. Ela falava com um leve ceceio que tornava a pergunta quase insuportável.

Sarah olhou para baixo.

O leite tinha começado a vazar novamente, e uma umidade fresca se espalhava pela frente de seu avental.

Sua garganta se fechou.

Ela pressionou o tecido contra o corpo, tentando secar o local com toda a dignidade que conseguiu reunir.

"É leite", disse ela.

A garotinha piscou.

"Para o meu bebê", acrescentou Sarah suavemente. "Eu sou mamãe. Meu bebê bebe leite de mim."

"Ah", disse a garotinha.

Ela pareceu refletir sobre isso.

"Onde está seu bebê?"

O rosto de Sarah quase se contraiu.

Ela lutou contra isso com tudo o que tinha. Com cada fibra. Com cada pedacinho de si mesma. Ela não podia desmoronar na frente deles. Não agora.

"Ela está em casa", disse Sarah.

As palavras doíam.

"Com o papai dela."

"Ah", a garotinha disse novamente.

Sarah pensou nos cabelos escuros de Isobel. Nas bochechas macias e redondas. Nas mãozinhas gordinhas abrindo e fechando contra a pele de Sarah. Nas dobrinhas das coxas dela. No cheiro de leite que vinha de sua respiração. Na maneira como ela franzia a testa ao dormir, como se os sonhos fossem um assunto muito sério.

Uma lembrança veio tão nítida que foi quase cruel.

Isobel com três dias de vida, com o rosto vermelho e furiosa no meio da noite. Sarah a levantando do berço acoplado, ainda dolorida, exausta e meio com medo de estar fazendo tudo errado. Mantendo-a perto. Sussurrando contra a cabecinha dela.

A mamãe está aqui. Eu cuido de você. Eu sempre virei quando você precisar de mim.

E agora Isobel choraria.

E Sarah não iria até ela.

As lágrimas caíram antes que ela pudesse contê-las.

O menino e a menina a observavam em silêncio.

Então o menino deu um passo cuidadoso à frente.

Depois outro.

Sarah permaneceu muito quieta.

Ele chegou perto o suficiente para tocá-la e levantou uma mão pequena. De forma desajeitada, quase formal, ele deu tapinhas no ombro dela.

Uma vez.

Duas vezes.

O gesto foi tão pequeno. Tão inútil diante da imensidão do que estava acontecendo.

Isso quase a destruiu.

Uma risada rompeu seus soluços, aguda e quebrada. Ela sorriu para ele porque ele precisava que ela fizesse isso.

"Não se preocupe", disse ela, embora sua voz tremesse. "Estou bem. Só sinto falta do meu bebê."

A garotinha se aproximou também, ficando do outro lado de Sarah.

"O papai dela não pode cuidar dela?", perguntou a menina.

Sarah enxugou as bochechas com a palma da mão.

"Sim", disse ela. "Ele pode."

E ele podia. Lewis era bom. Lewis era gentil. Lewis sabia onde estavam as fraldas, como aquecer uma mamadeira e qual música boba fazia Isobel parar de chorar quando nada mais funcionava.

Mas ele não era Sarah.

E Sarah não estava lá.

Ela respirou fundo, com cuidado.

Depois, outra vez.

As crianças ainda olhavam para ela. Assustadas. Sujas. Com fome, provavelmente. Sozinhas.

E, de alguma forma, impossivelmente, elas a tinham consolado.

Ela tinha vinte e sete anos. Era esposa. Mãe. Uma adulta sob qualquer medida razoável. Mas, naquele momento, ela se sentia como uma criança também. Ela queria que alguém maior e mais calmo entrasse ali, a pegasse no colo e lhe dissesse o que fazer.

Ela queria sua mãe.

Ela queria Lewis.

Ela queria qualquer pessoa.

Não havia ninguém.

Apenas ela.

Sarah enxugou os olhos novamente.

"Posso sentar com vocês?", perguntou ela.

A garotinha olhou para o menino.

O menino olhou para Sarah.

Após um momento, a menina estendeu a mão e pegou a de Sarah.

Os dedos dela eram pequenos e frios.

Sarah deixou ser guiada para trás dos engradados.

Havia um espaço estreito ali, escondido do meio da sala. Não era seguro. Não de verdade. Mas era protegido o suficiente para que as crianças o tivessem transformado em seu refúgio. Um canto de metal, sombras e o calor suave de dois corpinhos.

Sarah sentou-se com as costas na parede.

As crianças vieram até ela quase imediatamente.

Não de uma vez. Não exatamente por confiança. Mas com o instinto exausto de crianças que estavam com medo há muito tempo e que encontraram uma adulta que falava com suavidade.

O menino sentou-se de um lado. A menina sentou-se do outro.

Sarah levantou os braços lentamente, dando a eles tempo para se afastarem.

Eles não fizeram isso.

Então, ela colocou um braço em volta de cada um e os puxou para perto.

Ambas as crianças estavam frias.

Uma ternura profunda e violenta percorreu seu ser.

Isso a assustava, quase.

Se aquelas coisas voltassem e tentassem tocar nessas crianças, se tentassem levá-las, machucá-las, colocar um dedo que fosse em seus corpinhos, Sarah despedaçaria aquelas criaturas com as próprias mãos. Ela arrancaria todos os quatro olhos negros. Ela faria qualquer coisa.

Qualquer coisa.

Ela não tinha armas. Não tinha sapatos. Nenhum plano. Nenhuma força além do seu próprio corpo aterrorizado.

Mas o sentimento permaneceu.

Meus, disse uma parte ancestral dela.

Não porque eles fossem dela.

Porque eles eram de alguém. Eram os bebês de alguém que não podia estar ali para protegê-los. De alguém que estaria chorando por eles.

Eles eram o Isobel de alguém. E alguém precisava protegê-los.

"Quais são os nomes de vocês?", ela perguntou suavemente.

Por um momento, nenhuma das crianças respondeu.

Então o menino disse: "Elliot".

Sua voz era tão baixa que ela mal ouviu.

O sotaque dele não era como o dela. Inglês, sim, como o dela. Mas do sul. Polido. Um pouco refinado, mesmo através do medo. O que quer que os tivesse levado não os tinha tirado de um único lugar.

Sarah olhou para a menina.

"Meu nome é Suzie", disse ela, com o polegar que começara a levar à boca.

Sarah sorriu o mais gentilmente que pôde.

"Olá, Elliot. Olá, Suzie."

Suzie se encostou com mais peso ao seu lado.

"Vocês sabem onde estão suas mamães e papais?"

Ambas as crianças balançaram a cabeça.

É claro que não sabiam.

Elliot encarou o engradado oposto a eles. Seu rosto tinha ficado muito parado.

"Estou com fome", disse ele.

Sarah olhou para baixo, para ele.

As palavras a atingiram com mais força do que ela esperava. A fome era algo tão comum. Tão fácil de resolver. Tão impossível.

Ela olhou ao redor do espaço escondido como se comida pudesse ter aparecido só porque uma criança precisava. Não havia nada. Sem mamadeira. Sem embalagem. Nem uma migalha. Sem água.

"Quando vocês comeram pela última vez?", ela perguntou.

Elliot deu de ombros sem olhar para ela.

"Faz muito tempo."

Sarah fechou os olhos brevemente.

O desamparo subiu nela novamente, quente e sufocante.

Ela o empurrou para baixo.

"Vou tentar encontrar alguma coisa", disse ela.

A promessa pareceu perigosa no momento em que a fez, porque ela não tinha ideia de como cumpri-la. Mas ela não podia não dizer nada.

Os olhos de Elliot se moveram em direção à sala aberta.

"Os monstros vêm", sussurrou ele.

O braço de Sarah se apertou ao redor dele.

Então eles também os tinham visto.

As criaturas não eram um delírio febril. Não eram uma alucinação. Não eram algo que as drogas tinham criado em sua cabeça.

Os monstros eram reais.

"Eu sei", disse Sarah.

Sua voz estava mais firme do que ela se sentia.

"Eu também os vi."

Suzie pressionou-se mais, com o polegar na boca e os olhos arregalados.

Sarah olhou entre os dois.

"Não vou deixar que eles machuquem vocês", disse ela.

Era uma mentira.

Tinha que ser.

Ela não podia parar aquelas criaturas. Ela nem conseguia impedi-las de enfiar uma agulha em seu braço. Mas Elliot precisava da mentira. Suzie precisava dela. E talvez, se ela dissesse com firmeza suficiente, alguma parte de si mesma pudesse começar a acreditar na mulher que tentaria.

"Não vou deixar eles chegarem perto de vocês", disse ela novamente.

Elliot olhou para ela.

Pela primeira vez, algo em seu rosto relaxou.

Não era confiança. Ainda não.

Mas o começo de uma.

Sarah acariciou o cabelo dele, depois o de Suzie, alisando suavemente as mechas embaraçadas.

"Vocês deveriam dormir um pouco."

Elliot ficou tenso.

"E se eles vierem?"

"Então eu vou acordar vocês", disse Sarah. "E estarei bem aqui."

Os olhos de Suzie já estavam pesados.

Elliot lutou contra isso por mais tempo, olhando para a sala como se manter a guarda fosse seu dever. Mas ele tinha oito anos, ou quase isso, e estava exausto além do limite. Depois de alguns minutos, sua cabeça tombou contra o braço de Sarah.

Suzie se encolheu do outro lado dela.

A respiração deles desacelerou.

Sarah os segurou ali no chão de metal duro, as costas contra a parede fria, o avental úmido grudado em seu peito, os pulsos ardendo, a garganta seca.

Além dos engradados, a sala zumbia.

Além da janela, o espaço aguardava.

Ela olhou para as duas crianças aninhadas contra ela e tentou pensar.

Comida.

Água.

Uma saída.

Uma arma.

Uma porta.

Tinha que haver uma porta.

Tinha que haver regras para este lugar, rotinas, padrões. As criaturas vinham e iam. Elas traziam agulhas. Elas colhiam amostras. Elas a mudavam de uma sala para outra. Isso significava que elas tinham razões. Sistemas. Erros que poderiam cometer.

Sarah pressionou a bochecha contra o cabelo de Elliot e fechou os olhos.

Ela poderia desmoronar depois.

Não agora.

Não enquanto houvesse crianças dormindo contra ela.

Não enquanto Isobel estivesse em algum lugar sob toda aquela escuridão, precisando de sua mãe.