Liberdades em Colisão

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Resumo

Há trinta anos, Jacob Martins abandonou o centenário Rancho Martins, rejeitando gerações de obrigações para cursar medicina na capital. Seu pai, Ford Martins, considerou isso uma traição. Em retaliação — ou talvez por mágoa —, Ford acabou adotando Terry Gomez, filha órfã de imigrantes que trabalharam no rancho durante um período de seca brutal. Ele a criou como sua própria filha e, legalmente, deixou tudo para ela. Agora, Ford está morto. Jacob retorna esperando uma reconciliação com seu passado. Em vez disso, ele descobre: o rancho não é mais seu, a cidade o vê como um estranho, a mulher que vive na casa de sua infância é legalmente intocável e, o pior de tudo… ela pertence àquele lugar de um jeito que ele não pertence mais.

Gênero
Drama/Romance
Autor
Soy
Status
Completo
Capítulos
20
Classificação
n/a
Classificação Etária
18+

Capítulo 1

O trem parou com um guincho, soltando vapor no ar estagnado do Território do Texas. Jacob Martins desceu do vagão de ferro e sentiu o calor atingi-lo como um soco. Era seco, agressivo e cheirava a terra cozida e graxa velha. Ele ajeitou os óculos, que começaram a escorregar pela ponte do nariz assim que o suor brotou sob sua gola.

Ele tinha quarenta e oito anos e vestia um terno de três peças de lã cinza-carvão. Na capital, esse traje impunha respeito nos corredores do hospital e nas salas de aula. Ali, sob o sol implacável de 1895, parecia uma mortalha. Ele olhou para suas botas — de couro de bezerro impecavelmente polido — e observou uma fina camada de poeira vermelha cobri-las em questão de segundos.

A plataforma da estação estava quase vazia. Alguns homens de camisas de lona manchadas de suor encostavam-se no tapume, observando-o com os olhos semicerrados. Não ofereceram ajuda com seu baú. Não fizeram um aceno de cumprimento. Apenas ficaram ali, assistindo ao "homem da cidade" sofrer com o calor.

Jacob ignorou-os. Contratou um homem com uma carroça para levá-lo pelos dezesseis quilômetros até o Rancho Martins. Enquanto a carroça sacolejava pela estrada esburacada, Jacob contemplava a paisagem que tentara apagar da memória. Era uma vasta extensão dourada e amarronzada de arbustos, árvores de algaroba e calcário pontiagudo. Era bela, de um jeito que parecia hostil à vida humana.

“Funeral grande hoje”, disse o cocheiro, com a voz rouca. Ele não olhou para trás.

“Imagino que sim”, respondeu Jacob. Sua voz soava precisa demais, educada demais, até para seus próprios ouvidos.

“O velho Ford era um pilar. Duro como prego de caixão, mas um pilar.” O cocheiro cuspiu um jato de tabaco pela lateral da carroça. “O povo não esperava te ver aqui, Doutor. Diziam por aí que você tinha esquecido o caminho de casa.”

Jacob não respondeu. Ele não conseguia. A culpa da qual ele fugia há trinta anos finalmente o alcançara, e tinha um peso enorme. Ele partira aos dezoito anos com a herança da mãe no bolso e um ódio ardente pela terra. Queria livros, lençóis brancos limpos e o burburinho intelectual da cidade. Conseguiu tudo isso, mas ao custo de deixar de ser filho.

Quando a carroça fez a última curva, a sede do rancho surgiu. Erguia-se em uma elevação, uma estrutura vasta de pedra e madeira maciça. Parecia mais velha do que ele lembrava, mais gasta pelo tempo, mas permanecia firme.

O pátio estava cheio de cavalos e carruagens. O velório estava claramente chegando ao fim. As pessoas começavam a sair da casa, muitas carregando formas de torta vazias ou travessas cobertas. Jacob sentiu um nó apertar seu estômago. Ele estava atrasado para o enterro. Chegara a tempo apenas para as sobras.

Ele desceu da carroça, deu uma gorjeta ao cocheiro e carregou sua pequena mala médica no ombro. Deixou o baú pesado na poeira.

Ao caminhar em direção à varanda, a multidão se abriu. Viu rostos que reconheceu vagamente — homens que eram garotos quando ele partiu, agora grisalhos e curvados pelo trabalho. Eles encaravam seu terno e suas mãos limpas e macias. Ninguém falou. O silêncio era mais alto que um grito. Era o silêncio de uma comunidade que se fechara contra um estranho.

Jacob subiu na varanda. A madeira rangeu sob seus pés, um som familiar que lhe causou um arrepio de reconhecimento. Ele empurrou a pesada porta de carvalho e entrou no salão principal.

O ar lá dentro era mais fresco, porém denso com o cheiro de cera de vela, lírios e fumaça de lenha. No fundo do cômodo, perto da enorme lareira de pedra que seu avô construíra, estava uma mulher.

Ela não era o que ele esperava. Ele imaginara uma governanta ou talvez uma prima distante.

Aquela mulher devia ter quase trinta anos. Vestia um vestido preto, mas não era a seda ou a renda que uma mulher da cidade usaria em luto. Era um algodão resistente e prático, embora lhe caísse com uma autoridade inegável. Seus cabelos escuros estavam puxados com força para trás, revelando um rosto marcante, porém gravado por uma máscara de exaustão e disciplina de ferro. Sua pele era bronzeada pelo sol — um dourado profundo, de quem trabalha, que lhe dizia que ela passava mais tempo na sela do que no salão.

Ela estava perto da lareira, segurando um copo de uísque em uma mão e uma pilha de papéis na outra. Conversava com o capataz do rancho, um velho chamado Silas que Jacob lembrava como uma figura de força aterrorizante. Agora, Silas balançava a cabeça para aquela mulher, ouvindo-a com um nível de deferência que ele só demonstrava ao pai de Jacob.

Jacob limpou a garganta. O som ecoou no cômodo de teto alto.

A mulher virou-se. Seus olhos eram escuros, afiados e totalmente indiferentes. Ela não pareceu surpresa ao vê-lo. Parecia como se ele fosse uma entrega atrasada que ela esperava recusar.

“Você deve ser o Jacob”, disse ela. Sua voz era firme, desprovida de qualquer calor geralmente reservado a um filho enlutado.

“Sou eu”, respondeu Jacob, dando mais um passo para dentro. Ele sentia os olhos dos convidados restantes em suas costas. “E você é?”

“Terry Gomez”, disse ela. Não ofereceu a mão. Deu um gole lento no uísque, sem nunca desviar o olhar do dele. “Embora seu pai tenha me chamado de Terry Martins nos últimos dez anos.”

Jacob sentiu uma onda de calor que nada tinha a ver com o sol do Texas. “Eu não sabia que meu pai tinha se casado novamente.”

Um sorriso pequeno e amargo tocou seus lábios. “Ele não se casou. Ele me adotou. Legalmente e por completo. Enquanto você estava ocupado sendo um Grande Homem na capital, fui eu quem segurou a cabeça dele enquanto ele cuspia sangue. Fui eu quem manteve o livro de contas equilibrado durante a seca de 91. Fui eu quem o enterrou esta manhã enquanto você estava em algum lugar num trem.”

O cômodo ficou mortalmente silencioso. Silas, o capataz, olhou para o chão. Os vizinhos restantes arrastaram os pés.

Jacob sentiu a picada de suas palavras. Foi um golpe direto, desferido com a precisão de um cirurgião. Ele olhou para a lareira, onde um retrato de seu pai pendia. Ford Martins parecia exatamente como Jacob se lembrava — severo, crítico e imóvel.

“Vim assim que recebi o telegrama”, disse Jacob, tentando manter a dignidade. “Estou aqui para resolver os negócios do meu pai e ocupar o meu lugar.”

Terry caminhou em sua direção. Ela era mais baixa que ele, mas parecia ocupar mais espaço. Ela cheirava a cedro e chuva. Quando parou a poucos passos, deu um toque na pilha de papéis em sua mão.

“Esse é o ponto, Jacob”, disse ela baixinho, num tom que só ele pudesse ouvir. “Você não tem mais lugar aqui. Não mais. Ford garantiu isso. Ele não queria um ‘visitante’ administrando este império. Ele queria um peão.”

“Eu sou seu único filho”, sibilou Jacob.

“Você é um homem num terno muito caro que está suando através da camisa”, rebateu Terry. Ela o examinou de cima a baixo com uma pena que ardia pior do que a raiva. “O velório acabou. Tem um pouco de presunto frio na cozinha, se estiver com fome. Silas vai te levar para a cabana do aprendiz. Você pode dormir lá hoje. Amanhã, conversaremos sobre quanto tempo vai levar para você fazer suas malas e voltar para onde pertence.”

Ela virou as costas para ele então, retomando a conversa com o capataz como se Jacob não fosse nada além de um cachorro vadio que entrara por uma porta aberta.

Jacob permaneceu no centro da casa de sua infância, o calor do dia finalmente se instalando em seus ossos. Ele olhou para suas mãos macias e limpas e, em seguida, para a mulher que, naquele momento, apoiava-se na lareira de seu pai, comandando os homens de seu pai e bebendo o uísque de seu pai.

Ele percebeu, então, que não tinha perdido apenas um pai. Tinha perdido um reino. E a mulher que o tomara parecia disposta a morrer antes de devolvê-lo.

Ele não foi à cozinha buscar o presunto. Caminhou até a varanda e sentou-se no degrau mais alto, observando o sol começar a mergulhar abaixo do horizonte. O céu tornou-se num tom violento de roxo e laranja. Era a coisa mais linda que vira em trinta anos e, pela primeira vez na vida, sentiu a vontade aterrorizante de lutar por um pedaço de terra.

Ele não iria embora. Ainda não. Passara trinta anos aprendendo a reparar corpos quebrados. Certamente, poderia descobrir como reparar um legado quebrado, mesmo que isso significasse entrar em guerra com a mulher lá dentro.

Quando as primeiras estrelas surgiram, Jacob tirou seu pesado paletó de lã e o deixou na poeira ao seu lado. Desabotoou a gola e respirou fundo o ar seco da noite. Tinha gosto de casa, mesmo que a casa não quisesse que ele voltasse.