A Chave em Sua Boca
A avó de Serena Vale tinha um último desejo.
Não era paz.
Não eram flores.
Não era um hino doce.
Não.
Vivian Vale queria ser enterrada com uma chave de prata na boca.
"Isso não é normal", disse Serena.
Seu irmão mais novo, Noah, estava ao lado do caixão e assentiu. "Para esta família? É quase entediante."
Serena lançou-lhe um olhar fulminante.
Noah deu de ombros. "O quê? No ano passado, a tia Mercy pediu para ser enterrada de bruços com uma faca de manteiga. A vovó é elegante se comparada a isso."
O agente funerário parecia querer desistir da vida.
Serena não podia culpá-lo.
Toda a cidade de Blackwater comparecera ao funeral, mas ninguém chorava alto. Eles permaneciam na igreja fria, com as costas rígidas, casacos pretos e rostos calados.
Calados demais.
Era assim que Blackwater lidava com a morte.
Chá primeiro.
Medo depois.
Perguntas nunca.
Serena olhou para o rosto pálido de sua avó. Vivian Vale sempre fora uma mulher sagaz. Mesmo morta, parecia que poderia se sentar a qualquer momento e insultar os sapatos de alguém.
A chave de prata repousava entre seus lábios.
Era pequena.
Antiga.
Preta nas bordas.
O estômago de Serena revirou.
Ela já tinha visto aquela chave uma vez.
Quando tinha sete anos, a encontrou debaixo do travesseiro da avó. Vivian a arrebatou tão rápido que quase levou os dedos de Serena junto.
"Nunca toque no que espera por você", Vivian dissera.
Serena chorou por uma hora.
Depois, Vivian lhe deu um bolo e agiu como se isso resolvesse tudo.
Era um bolo muito bom.
Ainda assim, trauma com cobertura continuava sendo trauma.
O padre Bellamy limpou a garganta perto do caixão. Suas mãos tremiam segurando o livro de orações.
"Devolvemos Vivian Vale à terra", disse ele, com a voz fina. "Que a dívida durma com ela."
Todas as pessoas na igreja ficaram imóveis.
Serena virou a cabeça lentamente.
"O que ele disse?", sussurrou ela.
O maxilar de Noah se contraiu. "Nada."
"Aquilo não foi nada."
"Foi um 'nada' de igreja."
"Não existe 'nada' de igreja."
Noah agarrou o pulso dela. "Serena."
Aquela única palavra a fez parar.
Seu irmão tinha vinte e um anos, dois anos a menos que ela, e geralmente era tão sério quanto um boneco de meia. Mas, naquele momento, seu rosto estava cinzento.
Antes que Serena pudesse perguntar o porquê, as portas da igreja se escancararam com um estrondo.
O ar frio entrou correndo.
As velas se apagaram.
Todas elas.
Uma mulher gritou.
Alguém derrubou uma bengala.
E na entrada estava um homem de casaco preto.
Alto.
Imóvel.
Bonito de um jeito que parecia rude.
Serena odiou que seu primeiro pensamento tivesse sido 'bonito'.
O segundo foi pior.
Meu.
Ela se enrijeceu.
Não. Absolutamente não. Seu cérebro não podia flertar durante um funeral. Isso era proibido em pelo menos três estados morais.
O estranho entrou.
Suas botas não faziam barulho.
Seu cabelo era escuro, quase preto. Seu rosto estava calmo. Calmo demais. Seus olhos eram prateados.
Não cinzentos.
Prateados.
Como a chave.
O padre Bellamy deu uma olhada nele e quase deixou cair a Bíblia.
"Não", sussurrou o padre. "Não hoje."
O olhar do estranho percorreu a sala.
As pessoas baixaram os olhos.
Ninguém perguntou quem ele era.
Ninguém mandou que ele fosse embora.
Então o olhar dele encontrou o de Serena.
E parou.
O peito dela apertou.
O ar parecia mais frio ao seu redor, mas sua pele queimava.
Noah se moveu para a frente dela.
O estranho olhou para ele.
"Noah Vale", disse ele suavemente.
Noah estremeceu.
Serena agarrou a manga do irmão. "Você o conhece?"
Noah não respondeu.
Os olhos do estranho voltaram para Serena.
"Serena Vale", disse ele.
O nome dela soou diferente na boca dele. Mais antigo. Como se ele esperasse para dizê-lo há anos.
Serena ergueu o queixo.
"Sou eu. E você está interrompendo um funeral, o que é muito rude, mesmo para os padrões já terríveis da nossa família."
Algumas pessoas ofegaram.
Noah sussurrou: "Por favor, pare de falar".
"Estou nervosa. Você sabe que eu falo quando estou nervosa."
"Você fala quando respira."
"Também é verdade."
A boca do estranho se curvou levemente.
Não era um sorriso.
Algo pior.
Interesse.
"Eu sou Lucien Mourning", disse ele.
A igreja inteira pareceu encolher.
Uma mulher lá no fundo começou a rezar em voz baixa.
Serena olhou em volta. "Por que todo mundo está agindo como se ele tivesse trazido uma peste no bolso?"
A voz de Noah estava baixa. "Porque ele trouxe."
Lucien deu um passo em direção ao caixão.
O padre Bellamy bloqueou seu caminho.
Ou tentou.
O pobre homem parecia um guardanapo molhado diante de uma tempestade.
"Você não pode recolher nada hoje", disse o padre Bellamy. "Vivian ainda não está debaixo da terra."
Lucien olhou para ele com calma paciência.
"Eu não vim por causa de Vivian."
O sangue de Serena gelou.
Lucien estendeu a mão para o caixão.
Noah avançou.
"Não toque nela!"
Lucien não se moveu rapidamente.
Ele não precisava.
No momento em que Noah o alcançou, todos os sinos da igreja começaram a tocar.
Todos de uma vez.
O som atravessou o ambiente como um soco.
Noah caiu de joelhos, tapando os ouvidos.
Serena gritou e se jogou ao lado dele.
“Noah!”
Sangue escorria pelo nariz dele.
Lucien olhou para ele. “Os vivos não podem ferir a mão que mantém a dívida.”
Serena levantou a cabeça bruscamente.
“A quê?”
Lucien tocou o queixo de Vivian com dois dedos.
A boca da mulher morta se abriu.
A chave de prata caiu na palma da mão dele.
O estômago de Serena embrulhou.
“Ah, que nojo”, disse ela. “Isso estava na boca dela.”
Lucien olhou para ela.
“Ela a manteve em segurança.”
“Ela a manteve na saliva.”
Desta vez, Lucien quase sorriu.
Quase.
Então ele fechou o punho em torno da chave.
Os sinos da igreja pararam.
Noah arfou.
Serena o ajudou a sentar, com as mãos trêmulas.
“Que dívida?” ela exigiu. “Do que você está falando?”
Ninguém respondeu.
Nem o Padre Bellamy.
Nem os habitantes da cidade.
Nem mesmo Noah.
Serena levantou-se.
A raiva subiu rápido em seu peito. Quente. Cortante. Melhor do que o medo.
“Não”, disse ela. “Chega dessa cidade assustadora cochichando ao meu redor como se eu fosse uma torta esfriando numa janela mal-assombrada. Alguém vai me dizer o que está acontecendo.”
Lucien a observava atentamente.
“O trato do Vale expirou”, disse ele. “Vivian o manteve por sessenta anos.”
Serena deu uma risada seca.
Saiu um som horrível.
“Ótimo. Ela o manteve. Que continue mantendo. Ela era teimosa. Eu acredito nela.”
“Ela está morta.”
“Um problema irrelevante.”
“Serena”, advertiu Noah.
Ela o ignorou.
Lucien deu um passo à frente.
Serena não recuou.
Os olhos dele desceram para a garganta dela.
Só então ela sentiu.
Uma queimadura.
Logo abaixo da clavícula.
Ela puxou a gola do seu vestido preto para o lado e olhou para baixo.
Uma marca prateada fina havia aparecido em sua pele.
Uma pequena chave.
Ela prendeu a respiração.
Noah praguejou.
O Padre Bellamy cobriu a boca.
A voz de Lucien suavizou.
“A herança escolheu.”
Serena encarou a marca.
“Não”, sussurrou ela.
O formato da chave de prata pulsou uma vez.
Como um minúsculo batimento cardíaco.
Lucien estendeu a chave verdadeira.
“Você tem até a primeira geada para abrir a porta negra.”
Serena olhou para ele.
“Que porta negra?”
Um silêncio estranho tomou a igreja.
Lucien inclinou a cabeça.
“Você não sabe.”
Não foi uma pergunta.
O olhar dele mudou para Noah.
“Interessante.”
Noah levantou-se devagar, ainda pálido. “Deixe-a fora disso.”
“Não posso.”
“Ela não assinou nada.”
“Não.” A voz de Lucien era gentil. “Essa é a tragédia do sangue.”
Serena deu um passo em direção a ele.
“Não me importa o que minha avó prometeu. Não me importa o que minha família fez. Não vou abrir porta estranha nenhuma para um homem chamado Luto. Isso nem é nome. É um aviso de perigo.”
Mara Quinn, a melhor amiga de Serena, sussurrou do banco da frente: “Ela tem razão.”
Serena apontou para ela. “Obrigada.”
Os olhos de Lucien permaneceram em Serena.
“Você é corajosa.”
“Estou irritada. As pessoas confundem as duas coisas.”
“Você também está atrasada.”
Serena franziu a testa. “Atrasada para quê?”
Lucien abriu a mão.
A chave não era mais prateada.
Ela tinha ficado preta.
Um vento frio passou pela igreja.
O caixão rangeu.
Então, Vivian Vale sentou-se.
Metade da igreja gritou.
Mara berrou: “Não! De jeito nenhum!”
Serena tropeçou para trás com tanta força que bateu em Noah.
Os olhos mortos de Vivian se abriram.
Estavam turvos.
A boca dela se moveu.
No início, nenhum som saiu.
Então, ela falou em um sussurro seco.
“Serena.”
Lágrimas encheram os olhos de Serena antes que ela pudesse contê-las.
“Vovó?”
A cabeça de Vivian virou com um estalo seco.
Seu olhar morto encontrou o de Serena.
“Não confie no contrato.”
O coração de Serena disparou.
“Que contrato?”
O maxilar de Vivian tremeu.
Tinta preta como sangue vazou do canto da boca dela.
Lucien ficou imóvel.
Padre Bellamy sussurrou: “Vivian, o que você fez?”
Vivian sorriu.
Era um sorriso horrível.
Orgulhoso.
Arrependido.
Um pouco presunçoso.
Muito a cara da vovó.
“Eu mudei as palavras.”
A expressão calma de Lucien vacilou.
Só um pouquinho.
Mas Serena viu.
Pela primeira vez, o Colecionador parecia surpreso.
Vivian levantou um dedo trêmulo e apontou para Serena.
“Fuja, menina.”
Então ela apontou para Lucien.
“Mas leve-o com você.”
Serena piscou.
“O quê?”
Os olhos de Lucien se estreitaram.
As portas da igreja se fecharam sozinhas com um estrondo.
A marca prateada na pele de Serena ardeu em brasa.
A boca morta de Vivian se abriu uma última vez.
“A primeira cláusula já começou.”
Então, todos os espelhos da igreja se estilhaçaram.




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