Capítulo 1 - O Peso do Sangue
O vento no Ravel Pass não é ar. É vidro quebrado que corta o seu rosto. Ainda não está nevando, mas o cheiro está lá: metal e chuva congelada. O cheiro de algo prestes a quebrar.
Kael e eu caminhamos em silêncio. A lama gruda em nossas botas, tornando cada passo um trabalho miserável. Nós crescemos em um orfanato caindo aos pedaços, comendo pão que tinha gosto de serragem e dormindo com ratos correndo sobre nossos cobertores. Em um lugar como aquele, você aprende rápido que palavras são um desperdício de fôlego. Você aprende a confiar apenas naqueles que ficam quando as luzes se apagam.
Kael sempre fica. Ele é uma sombra que nunca vai embora.
Estamos indo para a pedreira velha. Dizem que um dragão caiu por lá, mas não estamos aqui por causa de contos de fadas. Estamos aqui porque a Guarda bloqueou os caminhos principais. Quando soldados fecham uma estrada, significa que há um problema que cheira a morte — e nós moramos perto demais para ignorar isso.
A entrada da pedreira é uma rachadura na pedra cinzenta. O ar lá dentro é quente. Está errado. Tem cheiro de ferro e fumaça presos há muito tempo. Kael para na beira do caminho.
— Eu não gosto disso — ele diz. Sua mão paira perto da faca em seu cinto.
— Não precisa ser algo bom. Nós só precisamos ver o que é — eu respondo.
Nós descemos. O chão desliza sob nossos pés. O cheiro fica mais forte: carne queimada e ozônio, como depois que um raio atinge uma árvore.
O dragão está lá.
Ele está preso entre as pedras, um amontoado de escamas cinza-chumbo refletindo a luz pálida do céu. Sua asa esquerda está quebrada, com um osso branco saindo pela pele rasgada. Ele respira de forma irregular. Toda vez que solta o ar, o chão sob meus pés treme levemente.
Eu paro. Sinto uma pressão estranha atrás das minhas omoplatas. Não é medo — é uma contração muscular repentina, como uma cãibra. Sinto-me tensa, como uma corda prestes a arrebentar.
Kael me olha de relance. — Seren?
— Estou bem.
Dou um passo à frente. O dragão abre o olho. É um círculo amarelo, turvo, com uma pupila vertical que trava em mim. Ele não rosna. Está cansado demais para isso. Ele olha para mim do jeito que você olha para um inseto irritante — ou para um perigo que você não tem mais forças para afastar.
Então acontece.
Ele inspira profundamente. Eu inspiro no mesmo instante. Não é coincidência. É como se meus pulmões estivessem obedecendo ao comando dele. Sinto-me pesada, meu peito inundado por um cansaço que não ganhei por andar.
— Precisamos ir — Kael diz baixinho. Ele segura meu braço, mas não puxa. Ele espera.
— Sim — eu digo, mas não me movo imediatamente.
O dragão fecha o olho novamente. Sua respiração desacelera, e sinto meu próprio batimento cardíaco diminuir com ele. É uma sensação física, concreta. Um laço de carne e sangue que não deveria existir.
Desvio o olhar à força. Nós recuamos, subindo em direção ao caminho principal. A pressão atrás dos meus ombros desaparece, mas uma dor surda permanece — como um hematoma que você não consegue ver, mas sente a cada movimento.
Enquanto caminhamos, sinto algo no meu braço. Um toque. Leve, rápido. Como se alguém tivesse me roçado com a ponta do dedo. Olho para a minha manga, mas Kael está a um metro de distância e não há ninguém entre nós.
Sinto o contato — mas não há ninguém ali para me tocar.









