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O Presságio do Imperador

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Resumo

"Minta para mim uma vez, e eu arrancarei a sua língua. Agora diga. O que é você?" Oscar Carter só tocou no artefato porque seu professor de história pediu que ele olhasse mais de perto. Em um segundo, ele está em uma excursão escolar entediante ao museu, mal conseguindo passar em História Romana. No outro, ele acorda acorrentado na Roma Antiga, vestindo um moletom, falando uma língua que ninguém entende e sendo arrastado para um leilão de escravos enquanto o céu escurece acima de sua cabeça. Os romanos o chamam de presságio. Os sacerdotes querem usá-lo. Os senadores querem expô-lo. A multidão não consegue decidir se o venera ou se o queima vivo. E o jovem, brilhante e perigosamente paranoico Imperador Cassian quer mantê-lo. Quando o conhecimento estranho de Oscar salva a vida do imperador, Cassian o reivindica como seu presságio pessoal. Protegido. Vigiado. Preso dentro do palácio mais mortal do mundo. Então, agora Oscar precisa ser útil o suficiente para sobreviver, esperto o suficiente para superar os inimigos que rodeiam o trono e cuidadoso para não se apaixonar pela única pessoa em quem ele não pode se dar ao luxo de confiar. Ir para Roma foi um acidente. Voltar para casa vai lhe custar tudo.

Status
Completo
Capítulos
60
Classificação
4.8 (6 avaliações)
Classificação Etária
18+

01: Acorrentado no Curral de Escravos

Oscar Carter estava indo mal em História Romana, por isso estava ali, parado diante de dois mil anos dela, mandando mensagem.

Maya: O Thorn não para de olhar pra vc

Oscar: pq sou o favorito dele

Maya: pq vc não anotou nada

Ao redor dele, a nova exposição do museu zumbia com o ar-condicionado e o tédio. ROMA: IMPÉRIO DAS HORAS, dizia a faixa. Vinte e três alunos passavam por moedas, bustos e cerâmicas rachadas enquanto a voz do Dr. Thorn ecoava pela galeria, como se narrasse um enterro que ninguém tinha combinado de ir.

— E esta — Thorn disse, parando — é a razão de eu ter pedido esta visita.

Oscar ergueu os olhos. O professor estava ao lado de uma vitrine no centro da sala, e, pela primeira vez no semestre, o velho parecia realmente acordado. Dentro da vitrine, havia metade de um medalhão de bronze. Só metade. Rachado ao meio, as bordas irregulares, esverdeado pelo tempo. Duas faces haviam sido gravadas no metal, costas com costas, olhando em direções opostas. Uma delas tinha sumido com a metade perdida. A outra encarava Oscar.

— Jano — Thorn disse. — Deus das portas. Dos começos. Dos fins. — Sorriu para a turma, mas seus olhos continuaram fixos em Oscar. — Os romanos acreditavam que ele via os dois lados do corredor do tempo. Sr. Carter. Já que esteve tão quieto hoje, venha mais perto.

Alguns riram. Oscar guardou o celular no bolso e se arrastou para a frente.

— Diga-me o que vê.

— Hum. — Oscar se inclinou para o vidro. — Um cara de bronze velho. Metade de um cara de bronze velho.

— Olhe mais de perto.

Ele olhou. E essa foi a parte que, depois, ele nunca conseguiu explicar direito, não importava quem perguntasse: a vitrine estava aberta. Não totalmente. Nem dava pra notar. Só uma fresta mínima onde o vidro selado deveria se encaixar, e um trinco de manutenção solto na sombra ao lado. Ele não decidiu estender a mão. Ela simplesmente se moveu, como se tivesse recebido permissão de alguém que não era ele.

— Sr. Carter… — Talvez Maya. Talvez ninguém.

A ponta do dedo tocou o bronze. A face girou. Dois mil anos de metal corroído se moveram sob seu dedo como algo com pulso, a única face de Jano virando-se para ele, e em algum lugar um som começou a surgir, abaixo do alarme, abaixo do chão, abaixo das batidas do próprio coração. Baixo e imenso. Uma porta do tamanho do mundo se abrindo nas dobradiças.

— Espere — disse o Dr. Thorn. Ele não parecia nem de longe assustado o suficiente, e de qualquer forma já era tarde demais.

O museu se partiu ao meio. O chão subiu. O teto desceu. O celular bateu no quadril com força suficiente para deixar marca, ou o quadril bateu no celular, ele não soube dizer qual. A luz se torceu. O estômago despencou pelos sapatos, pelo chão e por todos os séculos que já haviam fingido ficar onde você os deixou.

Por um segundo impossível, ele estava caindo por um corredor com duas pontas. Na extremidade mais distante, havia um homem de branco com uma pulseira dourada no pulso, adormecido. Não. Sonhando. E então os olhos do homem se abriram, o encontraram no meio da queda e o seguraram. Sem surpresa. Apenas com certeza, como se olhasse para alguém que esperava havia muito tempo. Por um segundo nauseante, pareceu menos uma queda do que ser puxado.

Então Oscar bateu no chão.

Terra. Isso veio primeiro: terra, compacta, quente e fedorenta. Depois, o peso de ferro preso ao tornozelo. Depois, as moscas, rastejando pelo teto de madeira acima do seu rosto.

Estava deitado em palha que já não era mais palha havia muito tempo. O cheiro era de animais, suor e sujeira, e algo mais antigo por baixo de tudo aquilo, algo que ele não sabia nomear. O moletom colava nele. E o celular, ainda no bolso, cravando no quadril. A mão foi até ele antes mesmo de terminar de pensar, pressionando o tecido para escondê-lo. Oitenta e quatro por cento de bateria. Sem sinal nenhum. A única coisa que restava de casa, e todo instinto dizia não deixe que vejam.

— Ele acorda — disse uma voz. Em latim.

Oscar tinha rodado em Latim por dois semestres seguidos, e ali estava a parte horrível: as palavras não eram totalmente estranhas. Ele acorda. Ele captou o formato, as raízes, como quando você reconhece uma música abafada do outro lado da parede. Mas era só isso. O homem continuou falando, e o resto veio rápido demais, embolado, distorcido por um sotaque que o livro nunca tinha reproduzido, e o significado escorregou e sumiu. O suficiente para saber que a frase era sobre ele. Longe de ser o bastante para entender. Virou a cabeça. Rostos o encaravam na penumbra, uma dúzia de homens acorrentados à parede de um curral, observando-o como se observa uma tempestade que você sabe que não vai conseguir escapar. Além de um portão gradeado, havia tochas. Vozes. Uma cidade despertando.

— Tá bom — Oscar disse. Saiu mais baixo do que queria. — Tá bom. Ou isso é um processo, ou eu morri.

O curral ficou em silêncio como se ele tivesse disparado uma arma. Um homem perto do portão fez um sinal contra o mal. Outro sussurrou algo com a palavra daemon, e Oscar conhecia essa palavra. Todo mundo conhece.

— Não — ele disse rápido. — Não, não, não. Não sou demônio. Sou estudante. Estudante quebrado. Muito não demoníaco.

Saiu em inglês, rápido e estranho, e o curral inteiro recuou com o som. Então o portão se escancarou, e dois homens encheram a entrada. Couro. Ferro. Rostos que o sofrimento já tinha entediado fazia tempo, até pousarem no moletom, na calça jeans, nos tênis brancos brilhando como fantasmas naquela imundície.

O maior se agachou, segurou o queixo de Oscar com uma mão e virou seu rosto para a luz da tocha, como se conferisse os dentes de um cavalo. Disse algo rápido e duro, e Oscar captou uma palavra, talvez duas, e perdeu o resto na velocidade. Depois, o homem esperou, como se Oscar lhe devesse uma resposta.

— Eu não… — O peito apertou até as palavras se quebrarem. — Eu não entendo. Por favor. Eu não entendo.

E aquilo era verdade e mentira ao mesmo tempo, e o espaço entre as duas era a coisa mais assustadora até então: ele entendia o suficiente para saber o quanto não entendia.

O aperto aumentou. Atrás dos guardas, na rua que clareava, ele agora conseguia ver. Colunas. De verdade. Roupas estendidas entre paredes de tijolo, um pedaço de fórum, o telhado de um templo pegando os primeiros raios de sol. E, além de tudo, enorme e impossível, uma cidade que uma hora antes era ruína sob vidro, agora viva, barulhenta o bastante para engoli-lo inteiro.

Roma.

O guarda o puxou para cima. A corrente saiu do tornozelo, e uma corda envolveu seus pulsos. Oscar torceu as mãos amarradas na direção do quadril enquanto o arrastavam, tentando manter o volume do celular escondido, rezando para que não olhassem para baixo. Não olharam. Arrastaram-no para fora do curral e para a rua, em direção a um tablado de madeira no centro de uma praça, onde uma multidão já começava a se reunir.

Um bloco. Um bloco de leilão. Havia gente sendo vendida ali em cima.

— Não — Oscar disse, e fincou os calcanhares. Não adiantou. — Não, espera. Me escuta—

Então a luz mudou. Afinou. Ficou amarelada. As sombras na rua se aguçaram como lâminas, e o rugido da multidão tropeçou e se desfez, mil rostos se virando ao mesmo tempo enquanto o sol, o enorme e comum sol da manhã, começava a se apagar.

Os guardas pararam. Até eles olharam para cima.

Oscar ficou ali, de mãos amarradas, sozinho no milênio errado, e fez a única conta que mais ninguém naquela praça sabia fazer. Lua. Sol. Alinhamento. Um eclipse total, bem na hora, só que ele era o único ali que sabia que ia acontecer.

O último som que restou no mundo foi o da corda rangendo em seus pulsos, enquanto cada pessoa na praça virava as costas para o sol moribundo e olhava para o garoto que tinha caído do nada.

Capítulos
1. 01: Acorrentado no Curral de Escravos
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author

Iniciando la lectura, una trama interesante..

2 meses
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