Capítulo 1 ”Mudança”
P O V · ETHAN
Deixamos Chicago no final do verão. Eu tinha acabado de completar vinte e um anos.
Foi brusco demais para ser chamado apenas de um "novo capítulo". Rápido demais para eu me acostumar com a ideia de que estava realmente indo embora.
As caixas apareceram no apartamento certa manhã — várias delas, idênticas, alinhadas perfeitamente ao longo das paredes. Chutei uma enquanto passava, e ela nem saiu do lugar.
Duas semanas depois, a cidade onde cresci não passava de um lugar que deixamos para trás.
Meu pai tomou a decisão em uma quarta-feira. Na sexta, os papéis já estavam assinados.
Ninguém nos perguntou nada.
Ninguém nunca perguntou a mim ou à minha mãe.
Eu já estava acostumado com isso há muito tempo.
A casa em Nova York nos recebeu com silêncio. Não um silêncio aconchegante — era um silêncio deliberado. Quase calibrado até nos mínimos detalhes.
Nós já tínhamos estado aqui antes. Às vezes vínhamos por alguns dias, quando meu pai precisava ficar na cidade a negócios. Sempre de passagem.
Ninguém tinha planejado morar aqui.
E, ainda assim, a casa nos recebeu com o mesmo silêncio. Daquele tipo em que cada som se torna nítido demais: seus próprios passos, o ranger leve do assoalho sob os pés de outra pessoa, o zumbido distante da cidade através do vidro grosso.
Caminhei sem parar, passei a mão pelas costas do sofá — sem poeira.
Então, tudo tinha sido preparado com antecedência.
Claro.
Minha mãe circulava devagar pelos cômodos. Ela tocava os móveis — primeiro com as pontas dos dedos, depois com a palma da mão, demorando mais do que o necessário. Correu a mão pela borda da mesa, pelo vidro da cristaleira.
Parou na janela.
"É lindo aqui", ela disse como se estivesse tentando convencer a si mesma.
Meu pai nem olhou na direção dela.
Ele já estava no telefone — no momento em que entramos. Ele passou por nós sem diminuir o passo.
"Eu vi os números. Não, 'quase' não serve para mim. Ou fazemos direito, ou nem fazemos."
"Sr. Williams, trouxe os documentos para o senhor assinar", disse um homem de terno em voz baixa.
Meu pai apenas fez um gesto breve com a mão em resposta.
E a porta do escritório fechou atrás deles.
Minha mãe deixou a mão cair. Ela sorriu — rápido, quase imperceptivelmente.
Mantive meu olhar na porta fechada um pouco mais do que deveria.
Depois, me virei.
No jantar, foi tudo igual.
Uma mesa grande — grande demais para três. Pratos brancos. O som silencioso, quase estéril, dos talheres.
Puxei a cadeira um pouco mais do que o normal e me sentei sem pressa.
Minha mãe sentou-se à minha frente, cortando a comida em pedaços pequenos e arrumados, embora quase não tenha comido.
Meu pai — na cabeceira da mesa. O celular dele estava ao lado do prato. Ele não olhava para o aparelho, mas o mantinha no campo de visão.
"Universidade", disse ele. "Você começa amanhã."
Assenti.
"Universidade Harlow. Não escolhi por acaso. Os filhos das pessoas certas estudam lá."
Ergui o olhar.
"Imaginei."
Ele pausou por um segundo, me observando como se avaliasse mais um investimento.
"As conexões se formam cedo", ele continuou. "Você não precisa ser amigo de todo mundo. Mas precisa entender quem pode ser útil para você."
Recostei-me na cadeira.
"E se eu não estiver interessado?"
Os olhos da minha mãe se arregalaram.
Uma pausa.
A expressão do meu pai não mudou.
"Você vai estar", disse ele calmamente.
"Talvez ele só precise estudar?"
"Natalie..." Meu pai nem precisou elevar a voz. Um olhar foi o suficiente para silenciar minha mãe completamente.
Dei um sorriso de lado, bem discreto.
"Porque você decidiu assim?"
O silêncio ficou mais denso. Quase palpável.
Minha mãe baixou os olhos para o prato novamente.
Meu pai pousou os talheres devagar. Entrelaçou os dedos.
"Porque você entende como as coisas funcionam", ele respondeu.
Mantive o olhar nele.
"Ou porque você quer que eu siga as suas regras."
Outra pausa.
Uma longa pausa.
Ele não elevou a voz.
"Não há diferença."
Assenti lentamente.
"Há, sim."
Não continuei.
Ele também não.
"Além disso", ele acrescentou um segundo depois, com a voz voltando ao normal, "lá eles conhecem o nome. A Fundação Cole é uma das patrocinadoras da universidade."
Olhei para ele.
"Então esperarão mais de mim."
Não foi uma pergunta.
Ele assentiu.
"Não me desaponte."
Peguei meu garfo.
"Veremos."
Depois do jantar, minha mãe ficou na cozinha.
Parei na porta.
Ela estava sentada à mesa com uma xícara de chá, aquecendo as palmas das mãos na porcelana quente.
"Você está bem?", perguntei.
Ela se virou.
"Claro. Só estou... me acostumando."
"Com o quê?"
Ela olhou pela janela.
O quarto me recebeu com cheiro de tinta fresca e algo estranho, algo que ainda não era meu.
Caixas ao longo da parede. Uma cama sem colcha. Uma escrivaninha vazia.
Joguei minha mochila no chão. Ela bateu em uma caixa e deslizou devagar.
A janela dava para o pátio interno: um poste, uma árvore, um banco.
Vazio.
Cheguei mais perto, olhei para baixo por alguns segundos.
Depois me afastei. Deitei na cama, com as mãos atrás da cabeça.
Universidade. Pessoas novas.
Um lugar onde tudo já tinha sido decidido há muito tempo — os papéis, os grupos, as regras.
Meu plano era terminar a universidade em Chicago, cair fora e fazer o que eu realmente queria.
Mas, como se viu, meu pai tinha planos próprios para mim.
E, claro, todos eles levavam direto para a Cole Holdings.
Passei a língua por dentro da bochecha devagar e sorri.
Veremos.
Eu não planejava me adaptar a ninguém.
Lá fora, a cidade vivia sua própria vida — barulhenta, rápida, indiferente.
Carros passavam correndo lá embaixo, a luz dos postes projetava listras irregulares no teto, e Nova York parecia nem notar que alguém tinha acabado de começar uma nova vida ali.
Fiquei encarando a escuridão, sem fechar os olhos.
E, de alguma forma, eu tinha certeza de apenas uma coisa:
amanhã tudo mudaria.









I like your writing style, dear. It's realistic. 👍
I like this first chapter. And ... maybe tomorrow will bring on something nice ❤️ moving on to chapter 2 😉
Oooooh, I don't like Ethan's father. But he does make for a compelling villain. 👍